26 julho 2016

Humor armado de Henfil (2)



Seus personagens, habitantes da caatinga seca e árida, passaram a apresentar a contradição do sul
maravilha e o mundo bravo do sertão, principalmente mostrando nos personagens Zeferino e Graúna, sendo que esta última ganhou cada vez mais espaço dentro do contexto das tiras inicialmente dedicadas a Zeferino. Além destes há ainda o bode e a onça que são resultado de histórias que ouviu do cantador que também cria bodes, Elomar, conforme contou Henfil: “Ele me falava da sua afeição por alguns deles, principalmente o Francisco de Orelana e enquanto ele falava, fui me lembrando do meu pai, todo o meu passado foi voltando. Quando tive de criar a história eu não sabia bem o que fazer, sabia apenas que os meus símbolos deveriam ser bem brasileiros. Surgiu assim, tudo de repente, e depois eu pesquisei, li Os Sertões, literatura de cordel...”.

Na galeria de personagens criados pela genialidade de Henfil, os Fradins têm um lugar especial. Eles nasceram por imposição de Roberto Drummond, editor da Alterosa, e foram inspirados em dois freis dominicanos mineiros. O Cumprido é o religioso carola e careta, covarde, mas também lírico, romântico e sonhador. Já Baixim é o Henfil pós-freis dominicanos, com uma nova visão de Igreja, que conhece a hipocrisia do mundo e a combate através da ironia e da agressão. Os Fradins têm ainda o mérito de introduzir em páginas impressas expressões como putsgrilla, tutaméia, cacilda, além do gesto simbólico e sua onomatopeia, o top top, que caíram no gosto dos leitores.

A repercussão da série Zeferino obrigou Henfil a colecionar cachos de cartuns proibidos ou suavizados sob rigorosa pressão. Mas ele não esmoreceu. Zeferino crispava-se de ódio contra os corruptos que desviavam incentivos fiscais do Nordeste. Os faniquitos da Graúna afugentavam o machismo brasileiro. Bode Orelana devorava quilos de papel em protesto contra a censura prévia de livros. Henfil ainda bolou uma série contra a usura dos ricos e a influência do império Disney na cultura brasileira. A onça Glorinha, guerrilheira do Comando de Libertação do Quadrinho Nacional, captura o “agente imperialista” Tio Patinhas. Levado a julgamento no Tribunal da Caatinga, Patinhas é todo o mundo! Numa fuga suspeitíssima, preserva a fortuna.

Numa entrevista a revista Veja (1971) Henfil revelou: “O Baixinho sou eu. Hoje. O Cumprido também sou eu, numa versão antiga. Vamos dizer que eu andei e o Cumprido ficou para trás. É isso. O Cumprido é como eu era: um cara carola, infantil, ingênuo, aquele mineiro com aquela formação religiosa antiga, mórbida. A religião do terror, na qual tudo é pecado (o raio que está caindo é castigo de Deus). Do pecado mortal, venial e original. O Cumprido ficou nessa fase. Agora eu me identifico com o Baixinho, que é totalmente como eu sou hoje: toda uma negação desse meu passado. E de uma maneira muito agressiva, porque esse meu passado me incomoda bastante (…) O Baixinho procura, através da agressão, do ridículo, me checar e ao meio em que vivo. Já vi: não era anarquizar, agredir essa gente, como o Baixinho agride”.


Acompanhado os dois Fradins, o Preto que Ri, um frei negro, que ri de sua própria desgraça, e o Tamanduá que Chupa Cérebros. O Cabôco estreou no Pasquim em 1972 e de todos os personagens de Henfil foi o que causou mais polêmica e inimizades ao autor. Dono de um cemitério atípico, Cabôco só enterrava pessoas que estavam vivas. Para personalidades públicas que, no entendimento de Henfil, haviam colaborado de alguma forma com a ditadura, caia no cemitério dos mortos-vivas. E o Cabôco tinha como cúmplice o Tamanduá, que sugava cérebros de suas vítimas para conhecer os pensamentos mais escondidos.

FRADIM

Quando decidiu lançar o Fradim em revistas, Henfil criou um elenco de personagens mais leves para acompanhar a publicação. Surgiu Zeferino, um nordestino da caatinga, esfomeado e sedento, acompanhado de uma minúscula graúna, seu único personagem feminino, que após morrer e ressuscitar em três dias, pôs um ovo e gerou a Grauninha, um personagem delicado que morreu de inanição pouco depois. E ainda um bode devorador de livros, Francisco Orelana, vestindo seu constante chapéu coco, e que foi inspirado num bode real, da criação do cantador Elomar Figueira de Mello. Como antagonistas, o onça Glorinha, e Lati, um coronel do interior.

Com o negro Orelhão, criado nas páginas de O Dia, Henfil desenha a crítica social, com um humor direto, falando claramente aos pobres da cidade, sobre seus problemas mais imediatos. Também para esse público surgiram no Jornal dos Spots seus personagens de futebol: Urubu (torcida do Flamengo, composta em sua maioria de negros), Bacalhau (torcida do Vasco, portugueses), Pó de Arroz (torcida do Fluminense, de pessoas ricas), Cri-Cri (torcida do Botafogo, por conta de sua chatice), Gato Pingado (torcida do América, muito pequena). E para os mais intelectualizados Ubaldo, o Paranoico, um personagem criado com a anistia de 1070, e que sempre se recusou a admitir que os tempos estariam mudando. Segundo Márcio Malta, a chave de Henfil para o sucesso popular foi abordar o futebol não só por seu cunho esportivo, mas também pelo mundo real – partindo da esfera econômica – em que chamou atenção para as contradições sociais entre as torcidas.

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