12 julho 2016

A natureza humana pela ótica de Calvin (2)



Inteligente, criativo e carismático, Calvin recebeu seu nome em homenagem a Calvino (filósofo e
teólogo francês do século XVI que foi uma das figuras chaves na reforma protestante) e seu amigo tigre, Haroldo (Hobbes), foi batizado em referência a Thomas Hobbes, filósofo britânico do século XVII). Watterson teria escolhido estes nomes por acreditar que os dois foram os grandes responsáveis pelos conceitos religiosos e morais americanos, que muitas vezes são colocados em xeque nas tiras.

Os dois são melhores amigos e adoram pregar peças nos outros. Com uma imaginação sem limites e um vocabulário sofisticado para um garoto, Calvin ironiza - mais que isso, é sarcástico em relação aos - costumes, crenças, morais, instituições e relacionamentos tipicamente americanos. Se Calvin é sarcástico e muitas vezes cruel, Haroldo, por outro lado, é irônico e altamente filosófico, o que d’um contraponto à história - mas não impede que os dois briguem em suas reuniões de clubinho para decidir quem tem mais poder, o “supremo ditador para toda a vida” Calvin ou o “primeiro tigre” Haroldo.

Calvin adora dar dor-de-cabeça a seus pais, que têm bastante trabalho para educá-lo. O pai eventualmente “se vinga” dando explicações nada claras sobre fenômenos naturais ou brincando com assuntos “sérios” como o presente de Natal que não virá, ou ainda levando o garoto para viagens de camping e atividades “que constroem o caráter”, o que dá ainda mais dor-de-cabeça à pobre mãe. Calvin adora ainda pregar peças e deixar enojada a coleguinha de escola e vizinha Suzie Derkins.

E, por falar em escola, o garoto deixa louco a professora, senhorita Wormwood (batizada em homenagem a uma demônio aprendiz de um conto de C.S. Lewis), graças à sua farta imaginação e criatividade imensurável que ele raramente aplica aos estudos - e também por causa de perguntas capiciosas em relação ao sistema de ensino americano.

Ainda na escola, Calvin sofre com o gorilão Moe, o típico valentão do colégio. Depois de uma tira em que Calvin é gozado pelo professor de Educação Física por ser demasiado fraco para entrar na equipe de basebol e não saber seguir as regras da equipe, Calvin decide criar o seu próprio desporto, onde a única regra é nunca repetir a mesma regra duas vezes. Assim nasceu o Calvinbol, um desporto fictício (não segundo Watterson, que ainda por cima já recebeu inúmeras cartas a perguntar como se joga) que fez inúmeras aparições na série.


O desenhista Bill Watterson sempre usou a tira como um espelho de si mesmo. Por exemplo, uma vez a mãe de Calvin vai fazer compras no supermercado e passa por aquelas situações bem comuns: mal atendimento, filas intermináveis etc. No final, a moça do caixa diz: “Tenha um bom dia!” e ela responde: “Tarde demais!”. Com certeza esta situação já deve ter acontecido com o próprio Watterson. A piada se escreveu sozinha.

Calvin e seu fiel tigre Haroldo (que só ganha vida quando os dois estão a sós), em uma série dominical de página inteira, discute a respeito do lixo deixado por algum imbecil em pleno bosque. "Aposto que as civilizações futuras vão saber mais do que gostaríamos sobre nós", ele comenta desapontado com uma sociedade que polui, estoca armas nucleares e emporcalham tudo. Haroldo comenta que tem orgulho de não ser humano, e no final Calvin concorda. Watterson, o mago, critica sem dó as mazelas da sociedade, mas com uma finesse, uma leveza e um bom humor inigualáveis.

A completa falta de sintonia entre Calvin e os pais é que faz as tirinhas e histórias maiores serem tão divertidas. Mesmo quando Calvin se dá mal em uma de suas armações, a lição que tiramos daí nada tem de didática ou maçante. Watterson, sempre ele, consegue sempre nos maravilhar e fazer rir.

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