05 dezembro 2019

Sesquicentenário dos quadrinhos brasileiros (08)


ANOS 60



Nos anos 60 o mundo ocidental efervescia. Enquanto os hippies e o movimento psicodélico abriam fronteiras através da meditação do misticismo e da exploração dos estudos alterados da mente, outro movimento procurava a expansão da consciência social. Era tempo do questionar a autoridade através do movimento estudantil, do movimento pelos direitos humanos, do feminismo e da arte.



Os festivais de música foram a grande arena da cultura brasileira. Os concursos principais, transmitidos pelas emissoras Record, Excelsior, Tupi e Globo, deram notoriedade a uma das gerações mais vigorosas da música popular brasileira. Artista mais proeminente da Jovem Guarda (uma ingênua, mas divertida, versão brasileira do rock), Roberto Carlos partia em busca de um público mais maduro com Roberto Carlos, de 1969, disco recheado de canções românticas.




Ziraldo lança o gibi Pererê, a primeira a refletir toda a euforia de uma época, com personagens tipicamente brasileiros. Henfil cria Os Fradinhos. Mauricio de Sousa cria os personagens Mônica, Cascão e Chico Bento. O maior mito do cinema novo, Glauber Rocha torna-se símbolo de sucesso do cinema brasileiro no exterior com os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. A bossa nova viajou muito bem para os EUA, onde todo mundo dançava o twist. O destaque era para o talento elegantíssimo de Tom Jobim e o canto de João Gilberto. No comando da Jovem Guarda, Roberto e Erasmo Carlos arrebatam as paradas com versões de rock estrangeiros, doces baladas e novos padrões de comportamento jovem. Armados de guitarras e discursos inflamados, Caetano Veloso e Gilberto Gil semeiam a polêmica nos festivais de MPB, colhem prestígio e inventam a Tropicália.



Nos anos 1960 e 1970, os leitores brasileiros se habituaram à produção de revistas de histórias em quadrinhos baseadas em séries televisivas e programas de variedades da televisão. No mesmo ano em que estreava na televisão brasileira, o popular seriado O Vigilante Rodoviário, que trazia as aventuras de um policial da polícia rodoviária federal e seu cachorro Lobo, recebeu versão quadrinizada pelas mãos do desenhista Flávio Colin, para a Editora Outubro, de São Paulo. A trama policial se passava em cidades brasileiras, apresentando episódios singelos que emulavam a série televisiva.




Personagem-título da famosa série de TV brasileira Vigilante Rodoviário, criada em 1959, mas que só estreou em 1961. Era inspirado, em parte, no cowboy mascarado brasileiro, o Vingador. O objetivo da série era de concorrer com Rin Tin Tin, Papai Sabe Tudo e outros. O Vigilante Rodoviário (interpretado por Carlos Miranda) era um policial das estradas, sempre pilotando sua motocicleta Harley Davidson ou o carro Simca Chambord. Na garupa, era acompanhado por um pastor alemão chamado Lobo. A presença do cão policial teve que ser explicada num episódio, uma vez que a presença de cachorros não era permitida na polícia da época. Entre os atores convidados para a série estavam Ary Toledo, Stênio Garcia (que, curiosamente, cerca de 20 anos depois também viveria um herói das estradas televisivas: o caminhoneiro Bino de Carga Pesada), Juca Chaves, Etty Fraser, Elísio de Albuquerque, Luiz Guilherme, Geraldo Del Rey, Milton Ribeiro, Fúlvio Stefanini, Mário Alimari, Lola Brah, Lucy Meirelles, Amândio Silva Filho, Sérgio Hingst e Tony Campello.




O personagem fora idealizado e dirigido por Ary Fernandes, inspirado na Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo, criada em 1948 por Ademar de Barros, governador de São Paulo, para dar emprego aos Pracinhas por lutarem na Segunda Guerra Mundial. A série chegou aos gibis em 1963 e contava as aventuras do Inspetor Carlos (Carlos Miranda) e seu cão Lobo (King), que lutava contra o crime sobre uma moto Harley Davidson 1952 ou em um possante carro Simca Chambord ano 1959. Foram produzidos em película cinematográfica (mais cenas) 38 episódios, que seria depois reprisados pelas emissoras Excelsior, Cultura, Globo e Record. Flavio Colin adaptou os  primeiros roteiros da TV. Depois, foi substituido por Osvaldo Talo a partir do número nove. Quando vigilante rodoviário saiu, a Outubro já publicava o gibi do Capitão 7, super herói vivido pelo ator e ex lutador de boxe Aires Campos, na TV Record, que liderava a audiência das19h em SP durante seis anos a partir de 1955. O seriado foi um grande sucesso, mas os políticos da época o tornaram inviável financeiramente: antes mesmo de completar a primeira temporada, aumentaram os custos das fitas, graças às instruções 204 e 208, promulgadas por Jânio Quadros. Ou seja, taxaram os produtos importados em 100%, aumentando absurdamente o valor dos materiais utilizados na realização do "show". Para pegar carona no sucesso de TV, a Editora Outubro, dirigida por Jayme Cortez e Miguel Penteado, produziu um gibi do Vigilante Rodoviário. Os roteiros de Gedeone Malagola eram bem fieis às tramas da TV. No início, os desenhos ficaram a cargo de Flavio Colin e posteriormente passaram para Osvaldo Talo, que assumiria também os roteiros. O título teve 12 edições e um almanaque, publicado entre 1962 e 1964.




O primeiro super-herói brasileiro nasceu na TV Record de São Paulo: Capitão 7. Estreou em 24 de outubro de 1954 e durou até o ano de 1966 – 12 anos no ar -, atingindo 503 episódios, alguns alcançando a marca de 92% de audiência no horário. Idealizado pelo diretor Rubens Biáfora, o personagem foi inspirado em heróis dos quadrinhos americanos como Superman e Flash Gordon. Estrelado pelo galã Ayres Campos que se revelou melhor empresário que artista. Patenteou a personagem e o licenciou para vários produtos e arranjou um patrocinador para o programa, o leite Vigor. Um produto altamente consumido pelas crianças, logo o gibi Capitão 7 também seria licenciado. No papel da namorada do protagonista, a atriz Idalina de Oliveira. O gibi inspirado na série chegou às bancas em novembro de 1959, lançado pela editora paulistana Continental. O primeiro número foi produzido pelo luso-brasileiro Jayme Cortez, mas artistas como Julio Shimamoto, Getúlio Delphim e Juarez Odilon se revezavam na equipe de criação da revista. O herói passou a voar sozinho, sem a utilização de espaçonave, e erguer pesos indescritíveis com seus poderosos braços. Em sua identidade civil, ele era o cientista químico Carlos. Ainda criança, ele ganhou seus poderes de um alienígena, que o levou para ser educado e treinado em outro planeta. A revista chegou a estampar o rótulo do patrocinador, bem como o de camisetas e fantasias para crianças. Na época, Aires Campos se preocupava em manter uma fábrica de uniformes do herói, com fantasias até hoje de todos os outros super heróis no Brasil. O personagem usava um uniforme, malha colante azul com o número sete em amarelo no peito. O capacete, uma mascara nos olhos e um bigode apareceram apenas nos primeiros episódios da série. Mais tarde, o herói passou a aparecer de cara limpa. De olho no sucesso da revista, a fábrica de brinquedos Estrela encomendou à Continental a produção do gibi de outro herói, o Capitão Estrela, de Juarez e Cortez. O gibi do Capitão 7 durou até meados de 1964. Foram 60 edições e o super herói só voltou às páginas impressas em março de 2010, como forma de resgate e homenagem a um dos personagens mais icônicos do Brasil, sendo apresentada a uma nova geração de leitores na revista Almanaque Meteoro n.01. O gibi só acabou porque o próprio Ayres Campos proibiu a publicação. O ator alegou que não recebia royalties pelo uso da imagem do herói. O personagem também foi escrito por Gedeone Malagola e Helena Fonseca. Desenhada também por Osvaldo Talo e Sergio Lima. Nos quadrinhos o Capitão Sete teve um único uniforme que ele guardava comprimido numa caixa de fósforos, era o tímido químico Carlos, namorado de Silvana, a filha de um tenente da Interpol. O super herói se parecia com o Super Homem, quando voava, ainda mais por usar também um uniforme azul. Curiosidade: o número do Capitão é uma referência à TV Record, sintonizada no canal 7 paulistano. Assim era fácil lembrar que ele era o "herói do 7" ou "herói da Record".


04 dezembro 2019

Sesquicentenário dos quadrinhos brasileiros (07)


Outro artista do cinema brasileiro a também ir parar nos quadrinhos foi Mazzaropi, neles apresentado na caracterização de caipira que o consagrou e tornou conhecido em todos os rincões do país, como o chapéu de palha, as botas e as calças com remendos. Amácio Mazzaropi (1912-1981) foi um ator e cineasta brasileiro, comediante que interpretava o caipira do interior paulista. Ele ficou conhecido por seu programa chamado Rancho da Alegria, que começou na Rádio Tupi em 1946 e depois foi adaptado para a televisão em 1950. Dois anos depois, Mazzaropi estreava seu primeiro filme chamado Sai da Frente. Popular e dono de bilheterias que fariam inveja nos dias de hoje, ele fez sucesso ao interpretar a figura do caipira, do homem simples, mas esperto, vindo do campo. 


Depois de tantos sucessos em mídias diferentes, em 1956 a Editora La Selva lançou o gibi do Mazzaropi. As histórias que o ator vivia nos quadrinhos eram aventuras cômicas. A primeira parte da revista durou até 1958 e mais tarde ela retornou e foi publicada de 1965 até 1967. Mazzaropi em Quadrinhos chegou às bancas em 1956, desenhada por Jayme Cortez. A equipe da revista utilizava fotos do comediante como base para o desenho. A revista Mazzaropi durou 14 números e foi até 1958. Depois, teve uma segunda fase que estreou em 1965 e durou mais 20 números, totalizando 34 edições deste que é um dos maiores nomes do cinema nacional.






Anjo é detetive dos programas da Rádio Nacional que, mais tarde, foi transformado em quadrinhos (pela RGE) e filme. O personagem foi criado em 1948 para o rádio pelo ator Álvaro Aguiar (1926-1988), que também o interpretou. Roteiro do produtor de radio e tevê, Péricles Leal. O programa, Aventuras do Anjo, permaneceu no ar durante 17 anos, indo ao ar de segunda a sexta-feira, entre 18h25 e 18h30. Bebendo nas águas do Santo, mas com personalidade própria, o Anjo (seu verdadeiro nome não era revelado) era um playboy americano louro que tinha como passatempo combater o crime, sempre auxiliado por fiéis colaboradores. No início, seus ajudantes eram Metralha (tinha esse apelido porque sempre andava com uma simpática metralhadora), Campeão e Gorila. Depois, Gorila e Campeão foram substituídos por Jarbas e Faísca.  Teve a sua estréia em gibi em 1959 e a sua ultima publicação foi em 1965, num total de 73 exemplares. Em 1959 houve uma adaptação para os gibis da RGE, com desenhos de Flavio Colin (1930-2002), depois substituído por Getulio Delphin. A maior diferença em relação ao show do rádio era que, nos quadrinhos, as peripécias do Anjo se passavam no Brasil. Teve 43 números. O Anjo foi parar no cinema em 1990, no filme O Escorpião Escarlate, de Ivan Cardoso. O curioso é que, na fita, o nome civil do Detetive Milionário é justamente Álvaro Aguiar (vivido por Herson Capri).




Jerônimo, o Heroi do Sertão:  Ele foi durante muitos anos um dos maiores sucessos da Rádio Nacional. Depois ganhou imagem e repetiu o sucesso na TV Tupi. Laços de Sangue foi a primeira aventura de Jerônimo apresentada na televisão e tendo no elenco Francisco di Franco (na papel de Jerônimo), Canarinho (Moleque Saci), Eva Christian (Aninha), entre outros. Paladino da justiça e andarilho dos sertões brasileiros, Jerônimo estava sempre à disposição, onde quer que o bem precisasse triunfar. Tendo ao lado o inseparável ajudante Moleque Saci, foi um herói de quadrinhos criado em 1953 e que em 1957 e fez a alegria dos leitores de quadrinhos durante 62 edições mensais e cinco almanaques especiais, escritos pelo próprio autor da novela, Moysés Weltman, desenhados por Edmundo Rodrigues (1935-2012) e publicados pela RGE. Mas o sucesso não se restringia às HQs: o País inteiro parava em frente ao rádio para ouvir a novela radiofônica - que inspirou a revista -, e até mesmo um disco com uma canção em sua homenagem foi gravado. Como se não bastasse, em 1972 a extinta TV Tupi apresentou uma versão televisiva de suas aventuras. Esse ilustre esquecido chamava-se Jerônimo, o herói do Sertão. Jerônimo está longe de ser um caso isolado de personagens que, apesar de gozarem de estrondoso sucesso no mercado editorial brasileiro durante muito tempo, amargam hoje um desmerecido ostracismo. E isso não se restringe a criações nacionais, pois muitos ícones mundiais também estão quase apagados da memória dos fãs e, pior, são completamente desconhecidos por leitores que já atravessam várias gerações.




Entre os anos de 1956 e 1959, as tirinhas do Dr. Macarra de Carlos Estevão (1921-1972) faziam a alegria dos leitores do jornal, nas páginas de política do Diário de Pernambuco. As histórias do Dr. Macarra tinham sempre o mesmo formato: no primeiro quadro, a figura conversa com alguém e sempre se gaba de alguma coisa. No outro quadro, a realidade nua e crua. Na verdade, o Dr. Macarra nunca mentia. O interlocutor é que pensasse o que quisesse. O personagem era um malandro metido a granfino, refinado, vivia contando vantagens. No primeiro quadrinho, Macarra mente descaradamente. No segundo, Estevão mostrava a realidade dos fatos. Personagem tipicamente carioca, reuniu características bem próprios do malandro. Carlos Estêvão desenhava sempre em dois planos: um em que aparecia a personalidade aparente do Dr. Macarra; e. como uma sombra, a projeção de sua verdadeira personalidade. Dr. Macarra, de Carlos Estêvão ganhou uma revista em quadrinhos própria em abril de 1962, pela Editora O Cruzeiro. O gibi tinha 32 páginas em preto e branco, mais quatro capas coloridas. Circulou até novembro do mesmo ano. Foram oito edições mensais que levaram Carlos Estêvão às férias. E ele nunca mais quis saber de fazer uma revista inteirinha sozinho. Dr. Macarra era um mentiroso descarado. Se apresentava sempre de branco, paletó e gravata. As situações eram narradas em dois momentos. O primeiro, com ele se gabando das aventuras e o segundo mostrando as conseqüências do que realmente havia ocorrido. A revista apresentava outras séries vindas de O Cruzeiro, como As Aparências Enganam, Ser Mulher, Herois da noite e outros. E alem disso, cartuns avulsos, histórias em quadrinhos inéditas e dois novos personagens: Cabo Frio, o Galante e Sherlock Halmes. Personagem falastrão iludia seus interlocutores com seus exageros e invencionices. Na primeira vinheta da história, ele aparecia contando lorotas e, na seguinte, o leitor testemunhava o que realmente tinha acontecido. O personagem contava proezas mirabolantes a seus crédulos ouvintes, ganhando méritos por algo que nunca fez e por uma cultura e uma coragem que fingia possuir. As relações humanas no cotidiano, principalmente entre homens e mulheres, eram situações comuns tratado pelo autor.


03 dezembro 2019

Sesquicentenário dos quadrinhos brasileiros (06)


ANOS 50



A moral do brasileiro andava baixa no início dos anos 50. O futebol verde amarelo amargava as derrotas das copas de 50 e 54, Martha Rocha perdia o título mundial de beleza por apenas duas polegadas, o suicídio do presidente Getúlio Vargas e as tentativas de golpe de estado previam que o país estava fadado ao fracasso. Em 1956, Juscelino Kubitscheck se elege Presidente e injeta diretamente na veia do povo uma dose cavalar de otimismo e esperança.



O Brasil entra de cabeça na era industrial. O progresso chega ao interior com a construção de Brasília, a indústria brasileira deslancha e tudo leva a crer que o País seria uma das potências mundiais no final do século.



O nacionalismo se refletiu no Teatro de Arena de Oduvaldo Viana “Vianinha”  Filho, no Cinema Novo de Glauber Rocha, na Bossa Nova de João Gilberto, na Poesia Concreta de Ferreira Goulart, no Neo-Concretismo de Helio Oiticiça. O Brasil finalmente ganha a Copa do Mundo de 1958. Tem início a fase de ouro do nosso futebol, com o surgimento de Pelé e Garrincha. No ano seguinte é consagrado campeão de basquete. Maria Esther Bueno vence o Mundial de Tênis em Winbledon em 59 e 60 e Eder Jofre traz para casa o título mundial de pesos pesados em 60.



A televisão chegou ao Brasil em 1950, trazido pelo pioneirismo do paraibano Assis Chateaubriand. A Radio Nacional transmite a novela O Direito de Nascer e a TV apresenta a primeira telenovela em 1951. Com muita ironia, humor e provocação, Chiclete com Banana (Gordurinha e Almira Castilho) expressava a crítica à influência de música norte americana no Brasil. A música veio ao público na década de 50, na interpretação de Jackson do Pandeiro. Os filmes da Atlântida reinam absolutos nesta década. Surge a Vera Cruz com o cinema profissional.



No Brasil ainda não havia nada mais ambicionado do que um Cadilac rabo de peixe. O chiclete de bola, o blue jeans, o rabo de cavalo, o topete e a cuba livre são obrigatórios. Gibi era uma palavra mágica para crianças, adolescentes e muitos adultos. O rádio cria ilusões, vende produtos, fabrica astros, molda a opinião do grande público: Cauby Peixoto, Ângela Maria e Doris Monteiro são os ídolos. Luís Gonzaga divulga o baião. As estampas Eucalol, a Revista do Rádio, os jingles e as novelas da Rádio Nacional (inclusive Gerônimo, o Herói do Sertão) fazem sucesso.



Os produtos culturais midiáticos brasileiros têm grande penetração junto aos receptores. Em um primeiro momento, ocorreu o aproveitamento ou transposição de personalidades ligadas ao mundo cinematográfico aos quadrinhos. Artistas, personagens ou obras específicas foram transformadas em séries ou revistas em quadrinhos. Comediantes de enorme sucesso da Atlântida Cinematográfica, Oscarito e Grande Otelo estiveram entre as primeiras personalidades da esfera pop a ser transformados em personagens de quadrinhos, estreando e titulando a revista da Editora La Selva, de São Paulo, publicada de 1957 a 1959.




O estúdio da Atlântida Cinematográfica, idealizado por José Carlos Burle e Moacir Fenelon em 1941, representou uma bem sucedida tentativa de se criar uma indústria de cinema brasileira, que ganhou impulso especialmente após a entrada de Luís Severiano Ribeiro Jr. na sociedade. Comédias e musicais, e também a mistura destes gêneros foram o grande mote de popularidade da Atlântida, conquistando o público brasileiro. Dos filmes da Atlântida revelou-se uma dupla de comediantes que até hoje possui admiradores entusiasmados: Oscarito & Grande Otelo. Apareceram juntos pela primeira vez, mas sem ainda formar a dupla consagrada, no filme Tristezas Não Pagam Dívidas (de José Carlos Burle, 1944). Ainda na busca do estrelato, puderam ser vistos em Não Adianta Chorar (de Watson Macedo, 1945). Foi sob a batuta deste último diretor, na década seguinte, em filmes como Aviso Aos Navegantes (1950) e Aí Vem O Barão (1951), que a dupla virou fenômeno popular, continuando a trajetória em outros filmes bem sucedidos como Carnaval Atlântida e Barnabé Tu És Meu, ambos dirigidos por Burle e lançados no ano de 1952. O diretor Carlos Manga esteve na frente dos filmes que são considerados por muitos críticos e admiradores, como os melhores estrelados por Oscarito & Grande Otelo: A Dupla Do Barulho (1953) e Matar Ou Correr (1954).




Como era praxe naquela época, de grande popularidade das histórias-em-quadrinhos, Oscarito & Grande Otelo acabaram indo parar nas páginas dos gibis, graças a Editora La Selva. E ficou a cargo de grandes artistas a transposição da formidável dupla das fitas para os quadrinhos. Jayme Cortez produziu, como era marca do talentoso artista luso-brasileiro, capas belíssimas. O roteiro das histórias coube a Flávio de Souza e também Cláudio de Souza, ilustrados por outros grandes nomes do quadrinho nacional – o mais renomado talvez tenha sido o alagoano Messias de Mello, ilustrador e cartunista até hoje reverenciado por seus contemporâneos (Mello já produzia para a La Selva, as HQs da famosa dupla de clowns, Arrelia e Pimentinha). Outro a ilustrar as aventuras de Oscarito & Grande Otelo nos gibis foi João Batista Queiroz, renomado cartunista e chargista da paulicéia, ele que foi o criador do rinoceronte Cacareco, que viria a se tornar símbolo do voto de protesto na política paulistana. Outros que ilustraram a dupla do barulho foram os cariocas Juarez Odilon  e Aílton Thomas. A Editora La Selva lançou o gibi de Oscarito e Grande Otelo em 1957, inspirada pelo grande sucesso da dupla nos cinemas brasileiros. A revista em quadrinhos ficou disponível nas bancas até 1959.




Aproveitando o sucesso feito na TV, pela dupla de palhaços, João Batista Queiroz lançava em 1958, Arrelia e Pimentinha, série humorística, a exemplo de Fuzarca e Torresmo e Grande Otelo e Oscarito. Publicada pela revista Cômico Colegial. O gibi teve desenhos de Messias de Mello (1904-1994) para a Editora La Selva. Acompanhado por uma barulhenta bandinha, o palhaço entra no diminuto picadeiro e cumprimenta seu parceiro cantando uma marchinha que começa assim: "Como vai? Como vai? Como vai? Eu vou bem, muito bem, bem bem!". Era Arrelia apresentando-se para a criançada (e seus pais, avós, tios ...) com o palhaço Pimentinha (o do famoso cone na cabeça) nos anos 50. Seu nome? Waldemar Seyssel que, depois de muita estrada (desde os anos 20), passou a trabalhar com o sobrinho Walter Seyssel. O Arrelia era a alma dessa dupla. Com sua bengala, roupas folgadas e coloridas e as pinturas no rosto fazia todo mundo cair na risada com seus gestos largos e exagerados e modo engraçado de pronunciar as palavras. Esses dois atravessaram toda a década de 50 e 60 fazendo apresentações em circos, festas, inaugurações, promoções comerciais e, principalmente, no que lhes deu a grande projeção: o programa dominical na televisão Circo do Arrelia, na TV Paulista (1951 até 1953) e, depois, na TV Record como Cirquinho do Arrelia (até os anos 70). Foram, também, personagens de revistas em quadrinhos. Alegraram a infância de muita gente. George Savalla Gomes ficou conhecido interpretando o papel do Palhaço Carequinha em circos e mais tarde nas rádios e televisões brasileiras. Ao lado de Fred, outro palhaço, ele animava as crianças em seu programa e em 1958, a história em quadrinhos do Carequinha e Fred chegou às bancas. Os roteiros dos gibis eram escritos por Cláudio de Souza e os desenhos eram feitos por Julio Shimamoto e João Batista Queiroz. As histórias mostravam o palhaço Carequinha e seu amigo Fred em situações e aventuras engraçadas.


02 dezembro 2019

Sesquicentenário dos quadrinhos brasileiros (05)


ANOS 40



Vicente Celestino faz sucesso no filme de Gilda de Abreu, O Ébrio. As chanchadas da Atlântida marcam a década. Orlando Silva se destaca com Carinhoso, de Pixinguinha, e Ademilde Fonseca chega às paradas com Tico Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. Aquarela do Brasil é o maior sucesso de Ari Barroso na voz de Francisco Alves. Marlene e Emilinha Borba tornam-se rainhas do rádio. Nas artes plásticas, a fama foi para o baiano Mário Cravo Júnior. Em 1941, estreiam a primeira novela do radio e o Repórter Esso. A publicação semanal O Cruzeiro lidera o mercado nacional de revistas, com grandes reportagens e ensaio fotográfico. A democracia americana achava-se ameaçada e, para levantar este moral, só mesmo superpoderes imediatos: os super-heróis. As histórias em quadrinhos desempenham seu papel na propaganda ideológica anti-nazista. E a garotada colecionava estampas Eucalol. Na quarta década do século 20 não havia pílula, mas havia a tendência de evitar prole indesejada. O advento da penicilina, no fim da década, resgatou o meretrício, os bordeis onde os jovens se iniciavam. Dentro de casa, sem a TV, a família continuava unida e reunida por falta de alternativas.




Em meados dos anos 40 apareceu na revista O Cruzeiro o criador do mais famoso e popular personagem do cartum brasileiro, o sádico, maldoso e malicioso O Amigo da Onça. Por três décadas foi o personagem mais popular do país. A irreverência do Amigo da Onça encantava o brasileiro. O seu mau caráter era amado. O sucesso do Onça tem tudo a ver com o jeitinho brasileiro. Por essa razão, exerceu a autocrítica de um Brasil que tem tudo para dar certo, mas que sempre é invadido por Amigos da Onça que se deleitam em precatórios ou invadem a alma de policiais que se perdem em autoritarismo.




Desde que foi publicado pela primeira vez no dia 23 de outubro de 1943 até o último desenho, em 03 de fevereiro de 1962, o Amigo da Onça teve 18 anos de vida bem-vivida. Gozou de um sucesso que não teve paralelo na história da imprensa brasileira. De 23 de outubro de 1943 até a passagem de ano de 61 para 62, quando Péricles se suicidou, o Amigo da Onça imperou na revista O Cruzeiro. Ele foi o mais popular personagem do desenho brasileiro de todos os tempos. O Amigo era cruel, sádico, maldoso, malicioso. Apareceu pela primeira vez na edição da revista O Cruzeiro de 23 de outubro de 1943, e por três décadas foi o personagem mais popular do país. A irreverência do Amigo da Onça encantava o brasileiro. O seu mau caráter era amado.  Por ser um personagem peralta e travesso, talvez até parecido com o povo brasileiro, tornou-se uma instituição nacional. Fizeram garrafinhas com sua cara, bibelôs que decoravam guarda-louças ao lado dos famosos pingüins. O Brasil inteiro o esperava a cada semana nas páginas (a última) de O Cruzeiro. O país vivia o getulismo. A tiragem semanal da revista chegava a 500 mil exemplares. Com a morte do idealizador, em 1961, a revista tentou manter seu personagem, entregando-o a Carlos Estêvão e a Appe, que continuaram a fazê-lo até a morte do primeiro, em 1972. Nessa época começava a decadência da revista. Com ele morria também o Amigo da Onça. Só lembrado onze anos depois com a exposição “Pericles e o Amigo da Onça”, no Museu de Arte Contemporânea, em São Paulo. Em 1987 a pequena editora Busca Vida decidiu manter o personagem mais famoso do humor brasileiro e lançou o livro O Amigo da Onça – A Obra Imortal de Péricles, com prefácio de Millôr Fernandes e um texto/pesquisa do cartunista Jota. Em 1988 a Editora Nanica lançou a revista bimestral O Amigo da Onça, editado por Jota. Transformado em peça de teatro pelo humorista Chico Caruso, por encomenda do diretor Paulo Betti, o Amigo da Onça estreou com sucesso no Rio (1988), depois São Paulo. Com Chiquinho Brandão no papel título e Antonio Grassi interpretando Péricles, o Amigo da Onça teve mais seis atores, que se distribuíram por uma extensa galeria de personagens, extraídos ora do universo do cartum, ora da vida real.



Um cara baixinho, cínico, safado, que vivia aprontando poucas e boas com a cara mais deslavada deste mundo. O Amigo da Onça tornou-se a primeira página que todos liam em O Cruzeiro. Ajudou a aumentar, em muito, a popularidade e a circulação daquele semanário. Ganhou inclusive alguns leitores em quadrinhos também, embora Pericles nunca aproveitasse tudo que a fama do personagem permite. Nosso primeiro herói pop. Insensível, cínico, cruel, sádico, malicioso, sobretudo engraçado. Ele reinou nos anos 50/60 na mídia impressa ilustrada. Durante 23 anos, a página semanal da revista O Cruzeiro, em que o Amigo da Onça aparecia, era a primeira a ser folheada, antes de ser colada a paredes dos espelhos, de botequins e barbeiros. Criação do pernambucano Pericles de Andrade Maranhão.




O dono do mundo, o fura fila, o dedo duro, o oportunista, o engraçadinho, o Palhares (aquele que não respeita nem a cunhada). Em 1943, muito antes da Lei de Gerson, Péricles Maranhão sacou o estereótipo da malandragem nacional: criou o Amigo da Onça. Logotipo de uma época, o Onça tinha charme. Bem vestido num Summer branco, gravatinha borboleta, sapato de bico fino e muita brilhantina no cabelo, era a vedete da revista O Cruzeiro, que vendia mais de 800 mil exemplares por semana. O sucesso do Onça tem tudo a ver com o jeitinho brasileiro. Por essa razão, exerce a autocrítica de um Brasil que tem tudo para dar certo, mas que sempre é invadido por Amigos da Onça que se deleitam em precatórios ou invadem a alma de policias que se perdem em autoritarismos.








29 novembro 2019

Há 50 anos Lage iniciava charges e tiras na Tribuna da Bahia


Há 50 anos, em 1969 o cartunista Lage começava a desenvolver charge e tiras de humor o jornal recém fundado, Tribuna da Bahia. De traço simples, Helio Roberto Lage conseguiu captar todo o momento histórico político vivenciado nacionalmente. Cartunzão, L´amou tuju L´amu, Tudo Bem, Brega Brasil, Ânsia de Amar mostra um humor sem retoques – autêntico e mordaz. O humor caligráfico de Lage tem uma marca pessoal muito forte e traz, por inteiro, a perplexidade nossa de cada dia. Hoje, 29 de novembro, 13 anos de sua morte.



Lage pertence a história dos nossos quadrinhos/cartuns. É um quadrinho cartunístico que se cristaliza através de questões sociais e culturais. Conferindo ainda seus efeitos ideológicos e sua marcante criatividade. Enquanto muitos desenhistas se distanciavam dessa nossa realidade em seus trabalhos, Lage procurava se aprofundar mais em nossas questões políticas e culturais.



Se o humor de comportamento conquistou leitores nos anos 50, foi forçado pelo clima político estabelecido pela Revolução a dar lugar ao humor político, engajado. Os cartunistas se armaram contra o ataque, mas os meandros do comportamento humano, o sexo, o casamento, a cultura, enfim tudo aquilo que faz os costumes do cidadão brasileiro foi posto de lado pelos desenhistas de humor. Mas Lage, como grande crítico do cotidiano dissecou as leis e pacotes vindos de Brasília, além de mostrar a política local em suas charges diárias. Nas suas tiras ele mostrou o relacionamento humano, seus conflitos e insegurança, o dia-a-dia do baiano.



Em 1969 começou a desenvolver charge e tiras de humor no jornal recém fundado, Tribuna da Bahia. Na série Estorinha do Lage começou a publicar um herói espacial, sátira ao super-herói. Ainda na serie ele criou o papagaio Put. Nos anos 70 começou a desenhar uma página inteira de humor no jornal O Dia, de Piauí. Durou um ano. Em seguida começou a ilustrar a coluna esportiva de Carlos Eduardo Novaes mo Jornal do Brasil. Depois veio a serie Cartunzão, muito irreverente. Para o suplemento A Coisa criou L´amu tuju L´amu abordando os costumes e comportamentos populares. Nos anos 80 começou outra serie de tiras diárias, Tudo Bem onde a mulher, Kátia Regina por exemplo, era a personagem principal, mesmo com a presença constante de Arlindo Orlando. Em 1989 foi ao ar na Radio Educadora FM o especial Lage, Cartunista Baiano onde as tiras diárias Tudo Bem foram transportadas para a linguagem radiofônica.



De 1976 a 1980 foi editor de arte da revista Viverbahia quando começou a fazer quadrinhos coloridos. Em 1981 passou a ser editor de arte da revista Axé Bahia e publica os quadrinhos da sensual Dora Mulata. Em 1994 no Jornal da Pituba cria o quadrinho Pituboião, satirizando o dia a dia da comunidade. Mais tarde faz diversas ilustrações e cartuns para o jornal O Bocão, da Boca do Rio, bairro de Salvador.



Em 1990 lança a revista de humor e quadrinhos Pau de Sebo, deboche puro. Uma das primeiras publicações de humor e quadrinhos que surgiu em Salvador na década de 70, começou em formato de jornal, como suplemento da Tribuna da Bahia, A Coisa que durou de 1975 a 1976. Ainda em 76 a equipe se mobilizou e lançou o tablóide Coisa Nostra, cujas 20 paginas incluíam reportagens, colunas de cinema, música e cartuns.



O editorial do número um alertava que o “importante é que o riso não fique na boca. Ele tem que dar uma chegadinha na consciência”. Coisa Nostra só teve quatro números. De 1985 a 88 Lage produz vídeo charge (ou charge eletrônica) na TV educativa de Salvador. Foi o primeiro a trabalhar nessa área na Bahia. Participa de diversos salões de humor, sendo premiado no da Mackenzie, SP em 1971 e 1973. Participa ainda nos salões do Rio, Bahia, Piracicaba, Curitiba, entre outros. Em 1984 é premiado no Salão de Humor em Stutgart, Alemanha. Ele faleceu no dia 29 de novembro de 2006.