04 agosto 2020

Resgate das tiras brasileiras em livro

Tira é uma sequência de quadrinhos que geralmente faz uma crítica aos valores sociais. Este tipo de texto humorístico era publicado com regularidade. Contida em jornais diários, essas tiras cotidianas com continuação preservavam o princípio do folhetim, com seus engodos, adiamentos intencionais, e reviravoltas sistemáticas. Os leitores sempre gostaram dessas tiras, cujos personagens partilham os mesmos valores, problemas, cumplicidade ilusória mas fiel. Muitas dessas tiras apresentam uma gag rápida, fundada quase por inteiro em seu desfecho, autônoma, voltada sobre si mesma.

Devido ao seu caráter noticioso e à fragilidade de seu suporte, são descartados e com isso desaparecem. Para resgatar algumas dessas histórias o cartunista e pesquisador Luigi Rocco está lançando o livro Tiras Brasileiras, pela Editora Laços. A obra traz 363 tiras por nome do personagem em forma de verbetes, com explicação de cada uma e pequena biografia de cada autor, como Gedeone Malagola, Ignacio Justo, Mauricio de Sousa, Daniel Azulay, Miguel Paiva, Theo, Mozart Couto e centenas de outros, muitos esquecidos pelo tempo.


“Luigi direcionou suas pesquisas para os acervos dos jornais, onde conseguiu muita coisa, mas uma parcela pequena do universo das tiras publicadas. Pelos mais variados motivos. Muitos jornais, não existem mais. Dos que existem, nem sempre mantiveram o acervo completo. Dos que digitalizaram os exemplares antigos, nem sempre o fizeram com boa resolução. E por aí vão as dificuldades”, revela Edgard Guimarães o prefácio do livro.

Dos personagens baianos estão incluídos Os Bichim, de Nildão; Buteco Teco, de Lessa; Tinoco, de Theo. Muito pouco, mas sabemos das dificuldades de pesquisar quadrinhos no Brasil. Publiquei dois livros (O Traço dos Mestres e Feras do Humor Baiano), independentes e sei do trabalho de pesquisa, edição, publicação e venda. Em 2018 terminei uma pesquisa de personagens brasileiros de quadrinhos para o livro A,B,C dos personagens do quadrinho brasileiro (De Nhô Quim, de Agostini aos Zeróis, de Ziraldo). A obra era para sair pela Editora Noir em 2019 comemorando os 150 anos de Nhô Quim, mas não foi possível devido a toda essa desestruturação do setor cultural empreendido pelo presidente Bolsonaro. A Bahia tem muitas tiras, entre elas Argemiro, de Setubal; Dora Mulata, LÁmour Tuju L´Amour, de Lage; Fala, Menino! De Luis Augusto; Jab um lutador, de Flavio Luiz, Xaxado, de Cedraz entre centenas de outros. Mesmo assim Luigi resgatou tiras do Tivo Tico, A Gazetinha e outras raridades. Vale a pena conferir esta obra muito bem editada pela Editora Laços. Quem quiser saber mais sobre o autor, acesse http://tvmemory.blogspot.com.br.


No ano passado Luigi havia lançado pela editora Laços o livro Tiras Paulistas, focando em tiras diárias brasileiras publicadas nos jornais A Nação, Diário Popular e Diário de S.Paulo no período de cinco anos na década de 1960.

Jornalismo ilustrado

 

A tirinha (em inglês "strip") e outros veículos do chamado "jornalismo ilustrado" nasceram da necessidade dos jornais de diversificar os seus conteúdos  e assim alcançar um maior número de leitores. Durante a sua existência de mais de cem anos, a tirinha mantém uma participação ativa na imprensa tanto com temáticas banais quanto com questões sociais, políticas e filosóficas as mais sérias, mesmo que para fazer rir. E, assim como o artigo, a crônica, o editorial e a charge, com seu caráter opinativo, a tira de jornal apresenta ainda uma linguagem estética verbal e não verbal capaz de burlar censuras e servir de bandeiras ideológicas em momentos de crises sociais, como aconteceu em diversos países.


O sucesso das histórias em quadrinhos nos jornais foi tão grande que não demorou para ganharem as páginas diárias. Por questão de espaço, surgiram as tiras, com algumas características que se mantêm até alguns anos atrás: narrativas concisas que, muitas vezes, fazem rir e refletir.

O caráter de denúncia, revestido de ironia e humor, marcou os primeiros escritos de argutos observadores. No princípio, era a sátira escrita. E Gregório de Matos, o Boca do Inferno inaugurou no século XVII os retratos verbais deformados das autoridades da época. Mas desde a colônia, a crítica jocosa, assumida pelo povo no teatro, nas festividades populares, eram representação figurada e viva da caricatura burlesca de nossos governantes e costumes. E a veia cômica do Brasil completou com a anedota – uma caricatura oral – sublimando suas mazelas. E dessa oralidade jocosa da colonia chegou-se ao desenho satírico do papel impresso que proliferou no Império, constituindo-se o traço caricaturado numa das linguagens de maior aceitação do país.

 

Assim, a construção de “personagens tipo” sempre foi de rigor na produção satírica, alter ego dos criadores, porta-vozes contundentes de suas mensagens, figurações representativas de nações e épocas. Artistas do lápis e da pena procuraram desenhar personagens que traduzissem representantes de segmentos sociais expressivos do país.

 

Essa busca de uma identidade brasileira tem parada obrigatória na caricatura. Coube a ela fixar imagens que recolocaram valores e códigos de nosso processo histórico, documentos que falam por toda uma época, registrando, iconograficamente, personagens nacionais marcantes.

 


19 julho 2020

Há 110 anos nascia NICO ROSSO


Neste domingo, 19 de julho, comemora-se os 110 anos de nascimento de Nico Rosso. Desenhista de histórias em quadrinhos, professor e publicitário ítalo-brasileiro, Nico Rosso (19 de julho de 1910 a 01 de outubro de 1981). Trabalhando em todas as modalidades das artes gráficas, considerado um destacado profissional em seu país, Itália, antes de transferir-se para o Brasil em 1947, a convite da Editora Brasilgráfica. No mesmo ano, assumiu o departamento de artes da editora. Em 1948, fez diversas ilustrações de capas e histórias para a publicação do quinzenário O Jornalzinho, da Pia Sociedade San Paolo. Neste jornal, criou vários personagens como: Léo, o Destemido e Capitão Brasil.


Iniciou sua carreira autônoma como ilustrador, capista e quadrinista, colaborando com inúmeras editoras e trabalhando em quase todos os gêneros de quadrinhos, como de histórias, infantil, humor, terror, entre outros. Trabalhou também na Escola Panamericana de Artes, sendo integrante do corpo docente fundador da instituição. Um dos primeiros trabalhos de Rosso no Brasil foi feito para a Gazeta Juvenil, suplemento infantil do jornal A Gazeta. Mais conhecida como A Gazetinha.

Ele teve uma importante contribuição como ilustrador de revistas de terror e humor. Ilustrou famosas revistas de terror, como a Revista Terrir, Revista Estranho Mundo de Zé do Caixão, Contos de Terror e Targo, bem como trabalhos de humor como a quadrinização de Chico Anísio na revista Era Xixo um Astronauta?, Drácula, Naiara. Fez ilustrações e histórias em quadrinhos para as editoras Saraiva, Melhoramentos, EBAL, Continental, La Selva, Taika, Edrel, Editormex, Abril, Minami e Cunha, etc. Canhoto de nascença, desenvolveu habilidades de ambidestrismo durante sua vida profissional, fato este que, mais tarde, permitiu-lhe retomar o desenho no pontilhismo.

13 julho 2020

Dia Mundial do Rock




Hoje, 13 de julho é comemorado o Dia Mundial do Rock. Esta data é uma homenagem ao estilo musical do Rock n’ Roll, que revolucionou a música e o comportamento social da juventude na segunda metade do século XX. 


Primeiro foi o grito negro que cortou os céus americanos. O negro veio para a América como escravo. Seu grito era o reconhecimento do ambiente novo e hostil que o cercava. Em seguida o grito ia se alterando, assumindo novas formas. A única tábua de salvação era sua musicalidade. Seu lamento se transformou em grito. E o grito ia se alterando, assumindo novas formas Servia de suporte às canções de trabalho e às cantigas de escárnio, aos cânticos religiosos, a spirituals, gospel songs, e às canções de menestréis. Dessa forma, com música, o trabalho tornava-se menos pesado. A mão de obra negra, desde os tempos da escravidão, se refugiava na música (os blues) e na dança para dar vazão, pelo corpo, ao protesto que as vias convencionais não permitiam.


O rock and roll nasceu praticamente da fusão do rhythm & blues (velho blues rural em roupagem urbana) com o country & western). O country era a música rural do “branco pobre” dos EUA e o western a música dos cowboys do Oeste. Assim, houve o encontro de duas grandes correntes populares americanas: a branca e a negra. Uma mistura do velho blues rural, o rhythm & blues urbano, o country (música das zonas rurais brancols), o western (música dos vaqueiros do Oeste) e a tradição folclórica tanto negra (work songs, spirituals, gospels,etc) como branca, de origens americanas ou europeias.


Assim, Elvis Presley juntou o rhythm and blues ao contry and western. Chuck Berry, o blues com o country.  Billy Halley, o boogie, o rhythm and blues e o country, e assim por diante. O resultado foi chamado de rock´n´roll.


Muita gente deve estar perguntando: porque a música europeia se misturou facilmente com a música da África Ocidental? Porque elas são parecidas. Em tempos antigos, a Europa e a África eram ligadas (por parte do mesmo continente) segundo os arqueólogos. Ambos, músicas europeia e africana, usam a escala diatônica (notas brancas no teclado do piano) e empregam em suas canções uma certa quantidade de harmonia.


Em fins de 1950, nos Estados Unidos, a chamada “geração silenciosa”, marcada pelo fim da Segunda Guerra Mundial, viu-se frente a um ritmo até então desconhecido, derivado da sonoridade de um povo marginalizado. O grito e o blues eram afirmações da individualidade do negro. Quando Elvis Presley juntou as duas correntes (o rhythm and blues e o country and western) o produto final, o rock and roll, surgiu carregado de ritmo negro e blue notes. E a voz humana ressurge, depois de um longo silêncio. O rock surgiu como o grito de revolta de uma nova geração.


12 julho 2020

ANÍSIO TEIXEIRA: 120 anos de nascimento


Hoje, dia 12 de julho comemora-se os 120 anos de nascimento daquele que é celebrado como o maior dos educadores brasileiros: Anísio Teixeira (1900-1971). Ele foi um importante teórico da educação no Brasil. Foi o principal idealizador das grandes mudanças que ocorreram na educação brasileira no século XX. Fez parte do movimento de renovação do ensino chamado de Escola Nova. Uma das maiores autoridades educacionais da América Latina, estudando a educação como o maior problema político do Brasil. 


Para ele, a educação deve ser ajustada as condições da sociedade, servindo de instrumento para a mudança e progresso. Dedicou-se inteiramente a área da educação, na qual exerceu cargos relevantes. Situou a educação como talvez o maior problema político brasileiro. Entre suas obras, destacam-se Educação Progressiva, A Educação e a Crise Brasileira, Vida e Educação, e Educação não é Privilégio. Ele foi um dos principais pensadores brasileiros do século 20 e deixou um legado de grandeza universal. Sempre acreditou que a educação era o caminho mais seguro para a democracia, e este foi o seu ideal de vida.


Em Salvador, Anísio escolheu um bairro pobre da capital, a Caixa D´Água para implantar o modelo de escola que queria espalhar pelo país: Centro Educacional Carneiro Ribeiro (nome oficial da Escola Parque) que se tornou um novo modelo de educação integral. Anísio foi mentor de duas universidades: a do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, desmembrada pela ditadura de Getúlio Vargas, e a de Brasília, da qual era reitor quando do golpe militar de 1964.

09 julho 2020

Bordões que marcaram a História do Brasil


Cada momento da República a História registra um bordão, uma máxima, um slogan.



1891 – Marechal Deodoro da Fonseca: “Assino a carta de alforria do último escravo do Brasil”. O “escravo” era o próprio, e a carta, a de renúncia no dia 23 de novembro.



1930 – Washington Luís, tido como presidente frasista: “Governar é abrir estradas” (mote associado ao progresso). “A questão social é um caso de polícia” (sobre as greves).



1937-45 - Getúlio Vargas iniciou a ditadura do Estado Novo com um bordão populista: “Trabalhadores do Brasil”.




“O Brasil vai viver 50 anos em 5” prometia Juscelino Kubitschek entre 1956 e 1961.



Nas eleições de 1960, Jânio Quadros prometeu passar a vassoura no país, com o seu slogan Varre, varre, vassourinha. Crítica aos desvios de verba e corrupção do governo anterior para construir Brasilia.




1969 - O gaúcho General Emílio Garrastazu Médice era dado ao estilo ufanista: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. “Homens do meu tempo, tenho pressa...” (ao discursar assumia ares messiânicos). “Ninguém segura este país”, dizia o departamento de propaganda do governo.



1974-79 - Outro general, desta vez outro gaúcho Ernesto Geisel assumiu a presidência com a missão de iniciar o processo de abertura no país e de levar de volta os militares para os quartéis



1979-85 - Outro general, João Batista Figueiredo foi o escolhido para governar o país. Antes de entregar o poder aos civis, preferiu o mau humor: “Gosto mais do cheiro de cavalo do que do cheiro do povo”. E ao dirigir-se aos jornalistas: “Peço que me esqueçam”.



Em 1985, após o fim da ditadura militar, o slogan do presidente José Sarney tentava focar na busca pela igualdade. O Tudo pelo social acabou naufragando por causa da inflação.




1984 – O presidente Tancredo Neves morreu em 1985, sem conhecer o gosto do cargo, mas é o autor dessas frases, driblando a esquerda e a direita: “Entre a Bíblia e o Capital (o livro de Karl Marx, com as bases econômicas do comunismo) prefiro o Diário Oficial”.



1985-90- O maranhense José Sarney que ficou no lugar de Tancredo, em julho de 1985 soltou o verbo: “O destino não me trouxe de tão longe para ser sindico da catástrofe...”



1990-92 – Fernando Collor na campanha eleitoral: “Caçador de marajás”. “Não me deixem só”. No discurso de posse: “Vencer ou vencer”.





1994-98 - Slogan, usado nas campanhas eleitorais de Fernando Henrique Cardoso à Presidência: "Gente em primeiro lugar".



2003-11 - Luiz Inácio Lula da Silva: "Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar" (em 4 de outubro de 2008, ao comentar os efeitos da crise financeira no país).



2011-16 - Dilma Rousseff: “Na vida a gente não sobe de salto alto”. “O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável”.




2019 - Jair Bolsonaro: "Não houve golpe militar em 1964" (durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, 30 de julho de 2018). "Trabalhadores tem que escolher entre ter direitos ou emprego". Bolsonaro numa entrevista a Joven Pan em maio de 2018.


11 junho 2020

País do covering


Você sabe o que é covering! É discriminação disfarçada. Uma forma de discriminação sutil pós fase   não usam seus cabelos crespos naturais de discriminação direta. Trata-se de uma forma introjetada onde o discriminado deixa de manifestar sinais mais marcantes de sua identidade, como por exemplo, os gays que não podem andar de mãos dadas, ou os negros que



O Brasil é o país do covering! Segundo o antropólogo da UERJ, Sérgio Carrari, “na medida em que os negros ascendem socialmente e assumem um certo padrão de comportamento, de vestimenta e de linguagem eles passariam por um processo de branqueamento e deixariam de ser tratados como negros”.




Será que em pleno século 21, especialmente nos grandes centros urbanos onde muita gente que se orgulha de ser livre de qualquer discriminação, tem pessoas que ainda não pode assumir sua identidade cultural? Questões sobre direitos civis, sobre preconceito e sobre assimilação ainda não estão resolvidas. Exemplos? Nas entrevistas para empregos, muitos jovens de Salvador afirmam que não poderiam utilizar cabelo rastafari porque não pegava bem já que os clientes do shopping não gostam do visual afro.



Se antes a discriminação era direta, ou seja, contra mulheres, negros, gays, deficientes físicos. No século 20, onde a luta pelos direitos civis tornou isso ilegal, agora, a nova forma de discriminação é sutil. Não contra todos os negros, mas somente contra aqueles que usam cabelo diferente.




O professor de Direito e reitor na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, Kenji Yoashino, criou um novo termo para essa questão: Covering, algo que pode ser traduzido como um acobertamento, um disfarce. “Na minha pesquisa para escrever sobre o covering, ou a discriminação disfarçada, me deparei com um provérbio brasileiro: ´O dinheiro empobrece´. Os negros americanos também conhecem isso: usam terno para trabalhar porque dizem que são mais respeitados vestidos dessa maneira. Mas, quando estão com roupas de ginástica, são mal vistos até pelos vizinhos, porque, aí, são associados a bandidos. Ter o que eu chamo de disfarce faz toda a diferença entre ser um negro bom ou um negro mau”, explica Yoashino.



O que falta no mundo de hoje é respeito. As pessoas têm que entender que existem diferenças e respeitar isso. Alisar o cabelo para tentar se enquadrar no que a sociedade exige para determinados grupos de pessoas não é o correto. Se enquadrar em certos padrões de respeitabilidade seja no modo de se vestir, de ser, de estar para ficar indistinguível é fazer concessão para ser aceito pela sociedade na sua diferença. Um preço nessa aceitação para ser discreto e não trazer sinais muito visíveis dessa diferença. E quem desafia essa situação? As leis garantem igualdade, mas as pessoas não, sempre cobrando dos outros a sua própria imagem.



É preciso ter força para mostrar que todos são iguais nos direitos, e diferentes na maneira de pensar, de ser e de estar e procurar sempre uma forma de resistência, consciente. Um bom exemplo de resistência é o do escritor americano James Baldwin que, em meados do século passado, usou a literatura para se afirmar como negro e homossexual.




Como bem escreveu o escritor brasileiro Luis Capucho (Rato), as pessoas normais vivem mais à superfície, mais à flor da pele do que outras, sempre submersas, meio sem o fôlego necessário à vida social, como os peixes que vivem mais no fundo do mar, portanto mais nas trevas, mais solitários, parados, diferentes, mais no fundo da vida. Os da superfície que dão movimento, são quem decide para que direção vai a vida, porque, com o temperamento expansivo, as atitudes e as palavras são dominantes. O assunto é complexo e é preciso um novo olhar para denunciar formas nada sutis de discriminação e preconceito. Pense e reflita sobre essa questão. (Texto escrito e publicado neste blog em 2007)

10 junho 2020

Mascarados da pop music (2)


1971 foi o ano dos Secos & Molhados. João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad explodiram. O rosto pintado, o corpo reluzente de purpurina, o rebolado e uma voz aguda interpretando uma mistura de rock com ritmos latinos e brasileiros, com letras que iam do folclore à poesia de protesto. Assim Ney Matogrosso e seus companheiros Gerson Conrad e João Ricardo levaram à frente um dos maiores fenômenos da história da música brasileira, o Secos & Molhados. Em 1973, saíam o primeiro disco da banda. A capa com as cabeças dos integrantes servidas em bandejas, a atitude e o repertório, fizeram do disco um fenômeno, com 800 mil cópias vendidas.




Um fenômeno musical e comportamental que dominou a Grã Bretanha entre 1971 a 1974 foi o rock purpurina (ou glam – abreviação de glamour-rock). A banda T. Rex, de Marc Bolan causou sensação com o visual extravagante: plumas e paetês, maquiagem, jaquetas de cetim e sapatos plataforma e de salto alto.




Esse visual tomou conta das ruas, privilegiando o brilho e a androgenia. Amigo de Bolan, David Bowie entrou na onda e tornou-se ainda mais popular, com figurino futurista e cabelo abóbora metálico. Seu álbum The Rise ad Fallof Ziggy Stardust and the Spiders from Mars ele criava o personagem Ziggy, um rockstar androgino e bissexual vindo de outro planeta.



Outro grande nome foi a banda Roxy Music, que revelou Bryan Ferry e Bria Eno. No som, calcado no rock'n'roll dos anos 1950 e no pop melódico, o glitter também era pura sensualidade e diversão.



Ainda da Inglaterra veio a banda Wizzard, que surgiu em 1971. Liderados por Roy Wood, eles faziam um som que misturava rock progressivo, glam rock e hard rock. Wood tinha seu estilo de pintar o rosto e foi um dos grandes influencia na maquiagem do Kiss.




No lado americano surgiram poucas bandas de glam rock. Kiss, Alice Cooper e New York Dools. Esse último visualmente eram os mais escrachados de todos, parecendo verdadeira drag queen em sua maneira debochada de se vestir e se apresentar ao vivo.




Em 1972 o baiano Edy Star, parceiro de Raul Seixas em disco de 1971, é tido como o primeiro artista glitter do Brasil. Ele consagrou-se em shows em boates da Praça Mauá no Rio de Janeiro em 1972 e 1973. E é em 1973 que a banda de hard rock formada em Nova Iorque popularizou a maquiagem – Kiss.



O vocalista e guitarrista Paul Stanley (o da estrela) se tornava em um ser andrógino, encarnação do amor. O guitarrista Ace Frehley (o de maquiagem prateada) se tornava em um alienígena interplanetário. O baterista Peter Cris se tornava em um gato (ou tigre de dentes de sabre conforme outras versões). O baixista e vocalista Gene Simmons (o com cara de mau) por sua vez se transformava em um demônio, encarnação do mal.



Durante anos a identidade real de todos foi guardada a sete chaves. Como se isso tudo já não fosse marketing suficiente os shows eram muito mais do que espetáculos de som, luz e gelo seco. Entre outros pequenos detalhes a guitarra de Ace Frehley soltava fumaça e rojões em meio aos solos, o baixista Gene Simmons voava sobre a plateia, vomitava sangue e cuspia fogo (literalmente, sem truques). A kissmania rapidamente tomou conta dos Estados Unidos. A imagem da banda estava em qualquer coisa que pudesse ser vendida, máquinas de fliperama, bonecos, máscaras, kits de maquiagem, cereais, escovas de dentes..



Na música, o grupo Marilyn Manson buscou como influência Ozzy Osbourne, David Bowie e Ziggy Starter. Sua fórmula de sucesso vem principalmente pela mídia. No palco a banda utiliza satanismo, homossexualismo e sadomasoquismo como ferramentas para atacar a cultura americana. Seu nome artístico foi formado a partir dos nomes Marilyn Monroe e Charles Manson, mostrando o que ele considerava o último e mais perturbante dualismo da cultura estadunidense.




O circo de horrores de Marilyn Manson não ficou sozinho. No final da década de 90 aparece o Slipknot, banda que adotou o visual de máscara de Hallowen, inspirado no personagem Jason, do filme Sexta Feira 13. Em 1995 o Slipknot é o heavy metal do grupo, surgido em Iowa, já é decorrência de quase tudo que veio antes, com acréscimo de pirotecnia e uma imagem de fim de mundo. As letras da banda sempre foram niilistas, sombrias, raivosas e melancólicas, o que estava em alta no mercado musical da época. Tem ainda Rob Zyumbie, Panic'at the Disco... 
(Publicado anteriormente neste blog em dezembro de 2012)

09 junho 2020

Mascarados da pop music (1)


A década de 1970 foi de explosão da música de grupos de mascarados. Tinha Alice Cooper, David Bowie, Secos & Molhados, Kisss... Mas bem antes desses existia Os Mamíferos na cena musical de Vitória, Espírito Santo, a partir de 1966. O trio era composto de Afonso Abreu, Mário Ruy e Marco Antônio Grijó. Eles assanhavam as plateias com uma performance psicodélicas, os rostos pintado, maquiagem pesada e a atuação insana e performática de um cantor andrógino (Aprígio Lírio).




A banda tornou-se uma espécie de célula vanguardista no decorrer dos anos e foi amealhando intelectuais e músicos pelo caminho. Torquato Neto, por exemplo, menciona a banda no livro póstumo Os Últimos Dias de Pompeia. Depois disso ninguém mais nunca ouviu falar do grupo, entrou no limbo junto com o movimento beat americano que eles eram tão fans.



Em 1969, Vincent Furnier trouxe um circo de excessos para o rock na virada dos anos 1960 para os 70. Alice Cooper chegou. Ele inventou o rock teatral, afrontou costumes, criou tendência, incitou uma verdadeira revolução sexual e acima de tudo, escreveu em forma de música uma verdadeira biblioteca de rock clássico. Vincent Furnier começou usando o nome Alice Cooper para o personagem andrógino que encanava durante seus shows. As apresentações eram regadas de violência performática como um verdadeiro circo repleto por psicodelia e rock progressivo.



Alice Cooper no palco era um espetáculo à parte. Um maluco numa camisa de força que escapa e estrangula a enfermeira, Alice sempre usou uma série de elementos de teatro para representar suas músicas e em todos os shows ele era executado como uma tentativa de redimir a plateia que o acompanhava ensandecida. No início ele era executado numa cadeira elétrica, mas conforme suas transgressões aumentavam, sua morte também foi sendo cada vez mais fantástica. Ele foi enforcado e chegou a ser guilhotinado em seus shows. Mas outro assunto com o qual Alice sempre gostou de mexer é a ressurreição. Alice sempre voltava dos mortos a tempo de fazer o último bis!




O ano de 1970 o Major Tom chegou na música inglesa, e em 1972 a androgenia definitiva de David Bowie com a explosão do glam rock trazendo Ziggy Stardust e o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. É a história de um alienígena, encarnado pelo cantor inglês, que vem à Terra com o intuito de passar uma mensagem de esperança nos últimos cinco anos de existência do planeta, que iria acabar devido à falta de recursos naturais



Bowie utilizou toda a sua apurada imaginação e senso estético para criar o personagem do rock star alienígena que vinha do espaço para salvar a Terra. O disco reúne algumas das composições mais famosas de Bowie como “Starman”, Sufragette City” e a homônima “Ziggy Stardust”, e se tornou um verdadeiro marco do chamado glam rock. Pouco tempo depois, Bowie assassinaria seu personagem em pleno palco. Era o fim de uma verdadeira febre que tomou de assalto a Inglaterra e, posteriormente, o mundo. Mas errou quem profetizou que o fim de Ziggy Stardust era o fim de Bowie. O camaleão ainda tinha planos muito ambiciosos para o futuro. Depois viriam o andrógino Aladdin Sane, o sombrio Thin White e o isolado artista kraut dos discos gravados durante o autoexílio na então murada cidade alemã de Berlim. Até que vieram os anos 80 e a confirmação de Bowie como um megastar do rock´n´roll, agora desprovido de personas e alter-egos.




Na época, aqui no Brasil, Os Brazões, criado pelo baiano Miguel de Deus (o mesmo mentor de Assim Assado), inspirava-se principalmente na umbanda. Miguel nasceu em Ilhéus, na Bahia. Já morando no Rio de Janeiro em meados de 1969, formou a banda Os Brazões que explorava as influências africanas na música e na maneira de vestir e dançar. A banda fazia uma mistura de rock e psicodelia com elementos da música brasileira e africana e chegou a acompanhar Gal Costa em uma de suas turnês no final dos anos 60. Em 1974, Miguel de Deus criou a banda “Assim Assado”, muito bem “inspirado” no grupo Secos e Molhados. A banda fez sucesso como Gotham City, em 1969, música de Jards Macalé que o grupo defendia no IV Festival Internacional da Canção. Em 1974 o progressivo Assim Assado surgiu como uma continuidade de Os Brazões e fez um só disco. Depois disso, Miguel de Deus enveredaria pelo funk.

05 junho 2020

Ecologia é a heroína dos quadrinhos*


*(Artigo publicado no jornal A Tarde, Caderno2, página 1, 09/06/1992 por Gutemberg Cruz)



Uma coleção em quadrinhos de seis álbuns coloridos com aventuras de Jacques Cousteau está à disposição dos amantes da ecologia. A série foi lançada em 1985 pela Editora Robert Laffont, de Paris, e agora (1992) chega às livrarias brasileiras publicadas pela Siciliano. Os argumentos e desenhos são de Dominique Sérafini, que não apenas imaginou aventuras envolvendo a equipe do oceanógrafo francês Jacques Yves Cousteau. Sérafini participou delas. O realismo dos seus desenhos e a riqueza dos detalhes transportam facilmente o leitor para a aventura, como se fizesse parte da equipe Cousteau. Na aventura O Boto Cor de Rosa da Amazonia, Sérafin conta a saga do barco Calypso no Rio Amazonas. O boto cor de rosa é uma espécie em extinção, e o álbum adota uma posição preservacionista. A equipe teve que se virar em busca de ilustrações já perdidas, como astecas, fenícios e maias, pra contar a saga da Atlântida.




Lutar pela proteção do “planeta azul” e contra as ameaças que as atividades humanas fazem pesar sobre ele são os objetivos fundamentais da equipe Cousteau. Há anos, os homens do Calypso vêm vivendo mil aventuras, tais como cavalgar baleias, identificar tubarões, filmar jacarés, brincar com polvos e enguias, explorar ruínas, encontrar vestígios das civilizações submersas. Tudo está registrado na série que começa com A Ilha dos Tubarões e vai até A Onda de Fogo, passando no caminho por Leões do Calypso, O Boto Cor de Rosa da Amazonia, O Mistério da Atlântida e A Selva de Coral.




ECOLOGIA



A questão ecológica já frequenta as páginas das histórias em quadrinhos desde o início de 1980, década que marcou a ascensão dos quadrinhos adultos. Muitos autores se preocupam com o meio ambiente e discutem em suas obras a melhor maneira de como a civilização pode continuar a viver, sem que, para isso, a natureza deixe de existir. Com a onda verde que atingiu os meios de comunicação, a ecologia entrou com mais força nos gibis. Basta lembrar o Monstro do Pântano, Homem Animal, Orquidea Negra, o caipira Chico Bento, o baiano Mero, dentre outros.




Um personagem obscuro e com poucas histórias publicadas nos anos 1960 surgiu através dos traços de Carmine Infantino. Trata-se do Homem Animal, cujo poder era a capacidade de absorver as características de animais que estivessem por perto. A partir de 1988, o argumentista inglês Grant Morrison iniciou a sua versão do herói e, em pouco tempo, a revista Animal Man passou a ser uma das mais elogiadas pela crítica e público. Motivo: as histórias têm sido a sua aproximação real com os animais, não apenas para extrair poderes, mas para sentir o que eles sentem. A partir daí, Morrison humaniza os animais que aparecem nas histórias: um golfinho relata ao impressionado herói como foi a festa anual da matança de uma aldeia de pesadores; a agonia de um chipanzé aidético e estágio terminal, propositadamente contaminado pelo homem. O Homem Animal se envolveu tanto com as causas ecológicas que, ao chegar em casa e encontrar a geladeira cheia de pedaços de amigos seus, virou vegetariano. O enredo é consistente, e os desenhos de Chas Troug e Doug Hazlewood, bem estruturados.




VEGETAL



A febre verde continuou ainda pelas mãos de outro inglês. Desta vez, Alan Moore, que utilizou o Monstro do Pântano, a criatura idealizada por Len Wein e Bernie Wrightson como uma mutação humana em contato com produtos químicos e a vida dos pântanos do Sul dos EUA. Para ele, o Monstro do Pântano não era uma aberração e sim um vegetal capaz de pensar e, como tal, sentir o sofrimento das plantas, infligido pelo homem. Moore começou a revitalizar o personagem em 1983 e criou o Parlamento das Árvores.




Outra personagem dos anos 1970 que foi revisitada nos aos 1980, a Orquídea Negra, ressurge como a mais rara das flores. Na verdade, ela é um ser híbrido, que necessita das mesmas condições que uma planta precisa para sobreviver. Mas ela não é uma planta...Nem uma mulher. A Orquídea Negra é um enigma de rara beleza e poesia. O autor dessa nova origem é o escritor inglês Neil Gaiman, junto com o desenhista Dave Mckrean, que usou uma técnica mista de tinta e óleo com tinta spray para carros e filtros de tecido sobre aquarelas. Em cada imagem sequenciada, a fusão do expressionismo figurativo e abstrato com o impressionismo numa atmosfera de sonho, imaginação, memória.



O personagem de Paul Chadwick, Concreto, chegou a ser profético numa história, ao ponderar a seus amigos sobre os perigos dos acidentes com petroleiros em alto mar, citando explicitamente a Exxon. Dias após a publicação dessa história, o petroleiro Exxon Valdez poluiu a costa do Alasca. E até o Príncipe Submarino, Namor, em sua fase idealizada por John Byrne, tornou-se um empresário que dedica seu tempo a comprar indústrias poluidoras. Mais recentemente, a Editora Abril colocou no mercado uma revista em quadrinhos para as meninas: Barbie, onde o ponto alto, além da moda, é o movimento ecológico. Frank Miller em sua obra Give Me Liberty questionou a respeito do futuro da Floresta Amazônica.



AMAZÔNIA



No Brasil, a Brasiliense vem lançando a importante coleção Ecologia em Quadrinhos. O terceiro volume enfocou o tema Amazônia. A autora é uma jovem advogada, que começou fazendo tiras nos jornais de São Paulo. Dotada de grande talento, senso de humor original e texto de primeira, Cláudia Lévay fez um trabalho de fundamento científico na base das aventuras do jacaré-tinga Jorge Ginga e do papagaio urbano Eurico. Os dois embrenham-se nos mistérios da Floresta Amazônica, e juntos explicam o funcionamento do maior ecossistema florestal do mundo. É visível a qualidade literária do texto. “Tanto uma criança quando um ativista verde  podem utilizar este livro de linguagem simples e acessível, tal o rigor de seus dados científicos básicos”, escreveu no prefácio o professor e jornalista Alvaro de Moya.



A obra despertou interesse da Organização Mundial da Saúde, na Suíça, e a Brasiliense lança, dentro da mesma coleção e da mesma autora, Pantanal, Mata Atlântica e outros. Um importante trabalho na luta pela relação do homem e seu meio. Maurício de Sousa, autor da Mônica e sua turma (Cebolinha, Magali, Tina, Cascão dentre outros), considerado o Walt Disney brasileiro pelo alto índice de vendagem e tiragem de seus gibis, sempre se preocupou com a flora e a fauna. Seus personagens Papa Capim, Chico Bento e Horácio, dentre outros, discutem a questão do meio ambiente. Em 1990, a Superintendência Estadual de Rios e Lagos, distribuiu em todas as escolas do Rio de Janeiro, 30 mil exemplares da cartilha A Turma do Pererê, de Ziraldo, esclarecendo que jogar lixo no rio polui e entope o curso d´água; que o desmatamento, além de provocar deslizamentos, encher o rio de lama, e que não se deve construir nada nas margens do rio.





Na Bahia, há mais de 20 anos, o cartunista Paulo Serra vem divulgando o seu personagem Mero na luta ecológica. Mero surgiu para criticar e alertar sobre a devastação do meio ambiente. “Mero – diz o autor – nasceu em plena metrópole paulista, de uma rachadura de parede, um ser de forma arqueada e corcunda que, passado para o papel, ganhou uma cabeça com quatro pontas, em forma de coroa, óculos redondos, terno e gravata, estereotipo de um cidadão urbano. Com o desenrolar de suas atitudes, sempre dosadas de forte cunho ecológico, recebeu o nome de Mero, que, como substantivo, quer dizer piche e, como adjetivo, puro, simples, genuíno, sem mistura. Portanto, achei este adjetivo ideal, pois o tema natureza sugere pureza e simplicidade”. Filiado, hoje ao grupo ecológico Germen, Paulo Serra vem trabalhando durante todos esses anos em favor da causa ecológica.




Também o baiano Cedraz, criador de Joinha, Pipoca, Birita, Turma do Xaxado e muitos outros desde os anos 1970 discutia a questão ecológica e seus quadrinhos. Assim, todos esses personagens como Homem Animal, Monstro do Pântano, Orquidea Negra, Jorge Ginga, Chico Bento e Mero, cada um a seu modo, fazer parte da preservação da natureza. Seria bom que essa consciência ecológica pudesse passar das páginas dos gibis para a realidade. Mas é um passo. Sonho também se torna realidade.


04 junho 2020

A revolta do verde


No início tudo era verde. A relva, a selva, a seiva. A floresta, a mata, o jardim. As plantações se espalhavam por toda a região e a vida florescia. As flores eram cheias de cores, as folhas verdejantes, as árvores gigantes, e o ar exuberante. Tudo era vida e amor.




Nesse mundão esverdeado não havia barulho, só silêncio que as vezes era quebrado pelo soprar do vento, as folhas do coqueiro balançando, as palmeiras se agitando e tudo mais refrescando.



O rio corria solto para o encontro do mar. O sol brilhava tanto para dar mais vida no pomar e a lua chegava sorrateira logo após o sol se deitar. Mas houve uma quebra do silêncio, a presença do ser humano chegou a quebrar esse encantamento, e o homem severo deu fim no firmamento.




Começou derrubando árvores, queimando o mato para construir casas, apartamentos, edifícios. E o concreto se espalhou em todas as direções. As plantas gemiam, sofriam a devastação. Mas o homem nem socorria, queria mais espaço para construção.



Cada vez mais o verde foi desaparecendo e a fumaça da indústria crescendo. A poluição chegou forte, os rios ficaram à deriva, na morte. Foi secando, secando a toda sorte.




E logo o que era verde amarronzou-se em todo sertão. A vida verde se apagou em muitas regiões. Mas a natureza não aguentou tanta devastação. Reuniu todas as árvores mais resistentes, espalhando sementes pelo poente e semeando a terra novamente.



Primeiro foi crescendo no norte, depois no sul, ao chegar na cidade, o chão tremeu de verdade, e a natureza reclamou seu espaço na cidade.




As casas foram tombando, a enchente dos poucos rios foram chegando, o mar se aproximando e depois tudo foi se arrumando.



O homem que devastou agora agoniza no morro, as terras se abrindo, buracos negros surgindo e a morte emergindo. Logo tudo virou cinzas e pó. Ressurgindo a natureza feito nó. Nó de galhos secos revigorados, plantas verdes nos telhados e todo verde revigorado.



Agora volta o silêncio. O sol brilhou novamente e a selva tomou de volta o que era seu. Nesse planeta, o verde rejuvenesceu.




Nada mais para se dizer, o silencio cresceu.



E a vida verde se estabeleceu. Dou ponto final  nessa história que o verde venceu. Não se toma de ninguém aquilo que é seu! (Gutemberg Cruz. Outono de 2014)

02 junho 2020

Um enigma de rara beleza e poesia: Orquídea Negra


Quando a minissérie foi publicada no Brasil em 1990 pela Editora Globo o sucesso foi imediato. Agora a minissérie escrita por Neil Gaiman e ilustrada por Dave Mckean é republicada numa edição de luxo com direito a capa dura, pela Opera Graphica Editora. Trata-se de Orquídea Negra. A personagem surgiu pela primeira vez no nº428 da revista Adventure Comics, agosto de 1972. Participou das histórias da Supermoça, apareceu na revista Super Friends e foi integrante da antiga legião dos Super Heróis, sempre sem passado nem futuro, apenas com o presente. Depois passou a fazer parte do Esquadrão Suicida na série Crise nas Infinitas Terras para logo em seguida desaparecer.





Gaiman e McKean pegaram a personagem totalmente obscura e criaram uma obra-prima. A graphic novel tem visual inovador. A história da personagem é recontada de outra maneira e toma novos rumos cheios de beleza e poesia. Num ambiente cinzento e corrompido pelo poder de um magnata sem escrúpulos chamado Lex Luthor, a Orquídea Negra ressurgir como a mais rara das flores. Na verdade, ela é um ser híbrido que necessita das mesmas condições que uma planta precisa para sobreviver. Mas ela não é uma planta...nem uma mulher...A Orquídea Negra é um enigma cuja solução encontra-se em seu próprio passado.



Em busca de suas origens, ela depara-se com seres bastante incomuns como o Monstro do Pântano, Hera Venenosa e o Homem Morcego. O autor dessa nova origem é o escritor inglês Neil Gaiman (Sandman, o Mestre dos Sonhos). Usando uma técnica mista que mistura tinta e óleo com tinta spray para carros e filtros de tecido sobre aquarelas, o desenhista Dave Mckean trabalhou as imagens da minissérie mantendo apenas o tom do uniforme da Orquídea, cor púrpura, intacto. Os cenários mudavam de tonalidade de acordo com a situação e o estado de espírito dos personagens. Lembra o filme de Bergman, “Gritos e Sussurros”, ou mesmo o trabalho do desenhista Bill Sienckiewicz.




A narrativa mostra como Philip Sylvian, um botânico que estudou na mesma classe de Pamela Isley (futura Hera Venenosa, inimiga de Batman) e Alec Holland (que se tornaria o Monstro do Pântano), desenvolveram criaturas mistas de planta e ser humano. Essas criaturas, geradas a partir de orquídeas, foram feitas à imagem de uma outra botânica por quem Sylvian era apaixonado. Mas cada uma das plantas carrega em si uma espécie de memória genética que é despertada conforme cresce, e uma série de incidentes pode impedir essas memórias de despertarem totalmente. As criaturas têm poderes enormes e uma tendência a fazer o bem, mas não sabem se devem se importar mais com plantas ou seres humanos.



O problema começa a surgir no momento em que o ex-marido da musa que inspirou as orquídeas de Philip sair da cadeia e envolver Lex Luthor na história. Luthor passa a fazer de tudo para dominar o segredo das orquídeas. Ao mesmo tempo, duas delas - uma adulta e uma criança - tentam manterem-se vivas, longe de Luthor e reiniciar o plantio de sua raça.




Na obra, Orquídea Negra busca sua identidade tal qual uma criança inocente que começa a conhecer o lado negro do mundo: o Asilo Arkham. “Ela é uma flor – conta Neil Gaiman -, não uma divindade da natureza como o Monstro do Pântano. O termo técnico que usei para ela foi Rainha da Primavera com todas as implicações que isso traz, inclusive vida curta. Os Monstros do Pântano vivem eternamente, as Rainhas da Primavera não. Elas representam beleza, inocência, pureza e paz”.



Antes que Dave pegasse o lápis – conta Neil – nós conversamos sobre o que queríamos fazer com a atmosfera de cada número da minissérie. A decisão inicial foi de que a primeira parte seria muito direta, ousadamente realista. Tudo acontece em cidades e salas dentro de um mundo feito pelo homem”. Os tons arroxeados da Orquídea convivem com o cinza, o preto e o branco, do mundo ao seu redor. “Na segunda parte, começamos a explorar outras coisas como o Central Park de Gotham City e o cemitério nos fundos do Asilo Arkham. Ainda são locais feitos pelo homem, mas há profundezas estranhas neles”. As cores se misturam gradativamente.




Ao fazer a última parte, sabíamos que tudo aquilo tinha que sair bonito, porque tudo acontecia em áreas selvagens: as flores tropicais da Amazônia e os pântanos da Louisiana. Em vez de minúsculos borrifos de cor num mundo cinzento, nós temos minúsculas pessoas cinzentas movendo-se dentro da bela floresta tropical. E é neste último número que há uma explosão de cores. Orquídea encontra o Monstro do Pântano, e acaba na Amazônia, onde enfrenta agentes de Lex Luthor. Em cada imagem sequenciada, a fusão do expressionismo figurativo e abstrato com o impressionismo numa atmosfera de sonho, imaginação, memória. Essa viagem através da arte estonteante de Mckean atravessa caminhos que parecerão novos, mas que sempre estiveram lá, apenas nunca havia sido trilhados. E tudo começa com uma orquídea e um pôr-do-sol. Belo. (Texto publicado neste blog inicialmente em 28 junho 2006).

27 maio 2020

A natureza humana pela ótica de Calvin (3)


As aventuras de Calvin & Haroldo falam a todos nós, remetendo a experiências comuns a nossas vidas. Quem nunca achou a escola uma prisão? Quem nunca teve uma professora ou professor que só queria ver de longe, de preferência bem longe? Quantas vezes sentimos que nem nossos pais nos entendem, e quantos de nós não gostariam de ter um amigo absolutamente fiel e companheiro, mas igualmente capaz de ser nossa consciência como Haroldo?




No quadrinho, o sagaz garoto de 6 anos e seu tigre de pelúcia --que ganha vida na imaginação do menino-- entabulam diálogos divertidos e surreais. Em suas conversas inteligentes e bem-humoradas, debatem o jeito de ser dos humanos, enquanto expõem particularidades do mundo infantil e contradições do mundo adulto.



Bill Watterson, eternamente oposto aos estragos que o capitalismo e o merchandising provocam em qualquer criação original, proibiu expressamente a sua editora de vender os direitos para lançar no mercado uma panóplia de artigos baseados na série. Por este motivo, Watterson passou vários anos em guerra aberta com a Universal Press e existem mesmo algumas tiras que fazem referência a esse conflito de forma muito pouco dissimulada. No final, Watterson levou a melhor e não permitiu o lançamento de qualquer merchandising exceto alguns artigos únicos de edição limitada como postais e posteres originais.




Apesar desta proibição, hoje em dia não é nada difícil encontrar T-shirts estampadas, porta-chaves ou autocolantes para carros pirateados, com imagens de Calvin a dizer e a fazer coisas que nunca disse nem fez nos quadrinhos. A proibição imposta por Bill Watterson ao merchandising da série significa também que nunca irá haver uma série de desenhos animados, como aconteceu com Garfield e Charlie Brown. Poucos ilustradores conseguiram captar tão bem a imaginação de um garoto, e ainda assim desenvolver críticas à sociedade de forma tão sutil. E sem nunca se vender ao sistema, já que jamais liberou os direitos dos personagens para bonecos, camisetas e toda essa porcariada que gera muito dinheiro.




A obra foi multipremiada. Seu autor recebeu os principais prêmios dos quadrinhos, como o Harvey Award (oito edições), o prêmio Eisner (duas edições) e Reuben Award (duas edições), todos nos Estados Unidos, e o Angoulême International Comics Festival, na França, entre muitos outros.



Calvin era - e continuava sendo até pouco tempo atrás - a tira favorita de dez entre dez leitores de tiras. Em 1995, no entanto, Watterson declarou estar “cansado de acordar todos os dias pensando no que Calvin iria fazer” e anunciou sua aposentadoria da tira - muitos viram na atitude do quadrinhista uma resposta às pressões para comercializar os direitos do personagem em produtos de licensing, algo que ele sempre se recusou a fazer, mas o autor, avesso a entrevistas, nada confirmou. Quando Watterson anunciou o fim da tira, Calvin era publicado em 2,5 mil jornais apenas nos Estados Unidos e em centenas de outras publicações de mais 13 países, entre eles o Brasil. O autor recebia, com o personagem, cerca de US$ 1 milhão. Ainda hoje, as tiras de Calvin são republicadas por diversos jornais (inclusive brasileiros) e podem ser vistas e até mesmo adquiridas, em quadros, via Internet (www.calvinandhobbes.com).




Os cartunistas de antigamente se consideravam homens de jornal, simplesmente. Seu trabalho era ajudar o periódico a vender sempre mais, sem se preocupar com qualidade. Assim, repor um desenhista era muito mais fácil. A tira continuava, mas seu criador não tinha seu lugar garantido. A situação mudou e hoje em dia até mesmo os syndicates acham que apenas o autor pode dar à tira sua forma ideal. Por isso, atualmente, os quadrinhos são levados mais a sério do que em anos anteriores, tanto pelo público como pelos seus criadores e empresários do ramo de comunicação. (Texto publicado originalmente neste blog em 2012)

26 maio 2020

A natureza humana pela ótica de Calvin (2)


Inteligente, criativo e carismático, Calvin recebeu seu nome em homenagem a Calvino (filósofo e teólogo francês do século XVI que foi uma das figuras chaves na reforma protestante) e seu amigo tigre, Haroldo (Hobbes), foi batizado em referência a Thomas Hobbes, filósofo britânico do século XVII). Watterson teria escolhido estes nomes por acreditar que os dois foram os grandes responsáveis pelos conceitos religiosos e morais americanos, que muitas vezes são colocados em xeque nas tiras.




Os dois são melhores amigos e adoram pregar peças nos outros. Com uma imaginação sem limites e um vocabulário sofisticado para um garoto, Calvin ironiza - mais que isso, é sarcástico em relação aos - costumes, crenças, morais, instituições e relacionamentos tipicamente americanos. Se Calvin é sarcástico e muitas vezes cruel, Haroldo, por outro lado, é irônico e altamente filosófico, o que d’um contraponto à história - mas não impede que os dois briguem em suas reuniões de clubinho para decidir quem tem mais poder, o “supremo ditador para toda a vida” Calvin ou o “primeiro tigre” Haroldo.





Calvin adora dar dor-de-cabeça a seus pais, que têm bastante trabalho para educá-lo. O pai eventualmente “se vinga” dando explicações nada claras sobre fenômenos naturais ou brincando com assuntos “sérios” como o presente de Natal que não virá, ou ainda levando o garoto para viagens de camping e atividades “que constroem o caráter”, o que dá ainda mais dor-de-cabeça à pobre mãe. Calvin adora ainda pregar peças e deixar enojada a coleguinha de escola e vizinha Suzie Derkins.



E, por falar em escola, o garoto deixa louco a professora, senhorita Wormwood (batizada em homenagem a um demônio aprendiz de um conto de C.S. Lewis), graças à sua farta imaginação e criatividade imensurável que ele raramente aplica aos estudos - e também por causa de perguntas capiciosas em relação ao sistema de ensino americano.



Ainda na escola, Calvin sofre com o gorilão Moe, o típico valentão do colégio. Depois de uma tira em que Calvin é gozado pelo professor de Educação Física por ser demasiado fraco para entrar na equipe de basebol e não saber seguir as regras da equipe, Calvin decide criar o seu próprio desporto, onde a única regra é nunca repetir a mesma regra duas vezes. Assim nasceu o Calvinbol, um desporto fictício (não segundo Watterson, que ainda por cima já recebeu inúmeras cartas a perguntar como se joga) que fez inúmeras aparições na série.



O desenhista Bill Watterson sempre usou a tira como um espelho de si mesmo. Por exemplo, uma vez a mãe de Calvin vai fazer compras no supermercado e passa por aquelas situações bem comuns: mal atendimento, filas intermináveis etc. No final, a moça do caixa diz: “Tenha um bom dia!” e ela responde: “Tarde demais!”. Com certeza esta situação já deve ter acontecido com o próprio Watterson. A piada se escreveu sozinha.



Calvin e seu fiel tigre Haroldo (que só ganha vida quando os dois estão a sós), em uma série dominical de página inteira, discute a respeito do lixo deixado por algum imbecil em pleno bosque. "Aposto que as civilizações futuras vão saber mais do que gostaríamos sobre nós", ele comenta desapontado com uma sociedade que polui, estoca armas nucleares e emporcalham tudo. Haroldo comenta que tem orgulho de não ser humano, e no final Calvin concorda. Watterson, o mago, critica sem dó as mazelas da sociedade, mas com uma finesse, uma leveza e um bom humor inigualáveis.




A completa falta de sintonia entre Calvin e os pais é que faz as tirinhas e histórias maiores serem tão divertidas. Mesmo quando Calvin se dá mal em uma de suas armações, a lição que tiramos daí nada tem de didática ou maçante. Watterson, sempre ele, consegue sempre nos maravilhar e fazer rir. (Texto publicado originalmente neste blog em 2012)