02 dezembro 2016

Centenário do samba



 “Não deixa o samba morrer/

Não deixa o samba acabar/
O morro foi feito de samba/
De samba para gente sambar”

Hoje é o dia do samba, centenário, e para comemorar, presenças de Daniela Mercury, Zelia Duncan, Nelson Rufino, Walmir Lima, Edil Pacheco, Grupo Cor do Brasil e muito mais, às 18h no Terreiro de Jesus.

A origem do samba é afro-baiana. Desde a chula, passando pelo samba de roda, samba duro, samba reggae até o axé music. O reconhecimento do samba aconteceu quando o líder de classe Donga (Ernesto dos Santos com Mauro de Almeida) registrou “Pelo Telefone” na Biblioteca Nacional, em 1916, ou seja, há 100 anos.

O samba primal foi gravado no ano seguinte e Donga efetivava como gênero descendente do lundu africano. As modinhas, maxixes, polcas, tangos e outras formas musicais já haviam evoluído e se cruzado a tal ponto que já se misturavam a origem nobre de umas com o uso popular de outras.

Desde os primeiros anos da colonização portuguesa no Brasil, uma esperteza das elites dominantes tem permitido ao negro cantar. Assim os negros puderam continuar a cultivar seus cantos e danças, se não como o estimulo, ao menos com a condescendência interesseira dos senhores brancos. Esse assunto foi notado em 1803, na Bahia, pelo contrabandista inglês Thomas Lindldey.


Disse ele: “Não tendo de trabalhar demasiado e apreciando seus alimentos vegetais nativos, os negros mostram-se alegres e contentes. Uma política acertada é a mola da aparente humanidade dos colonos portugueses que receberam terrível lição antes de adotar essa linha de conduta”. E essa lição havia sido a da formação do Quilombo de Palmares, arrasado em 1697.

De qualquer forma (e a história do massacrado povo brasileiro que não podia ser de outra maneira) os trabalhadores brasileiros descendentes dos antigos escravos negros souberam sobrepor-se às próprias condições ainda com o samba, uma das formas mais originais do canto coletivo do mundo moderno.

A música tem sentido vital para o povo africano. Os sons têm papel fundamental e se integram na vida, na família, o trabalho, nos mercados, na caça, na religiosidade e nas festas.

Até fins do primeiro Império só existiam o jongo, o batuque o cateretê. Mais tarde veio o fado brasileiro e, por último, o samba. O primitivo samba era o raiado, com aquele som e sotaque sertanejos. Depois veio o samba corrido, harmonioso e com a pronuncia de gente da capital baiana. Apareceu entre o samba chulado, rimado, cheio de melodia, um queixume, prece, invocação, uma expressão de ternura, de amor, um desabafo.

Nas décadas de 1960 e 70 que surgira alguns dos mais destacados compositores como Nelson Rufino, Walmir Lima, Edil Pacheco, Batatinha e tantos outros.


01 dezembro 2016

Reverência ao samba



Compositor de alma, Riachão foi reverenciado como o sambista de maior expressão e longevidade da Bahia. Em 2007 ele foi personagem-símbolo da maior festa popular do Brasil, o Carnaval. A reverência ao samba como forma de folia momesca foi uma forma de resgate e a busca por uma maior valorização deste gênero. E foi justamente em 1917 (há 100 anos) que o conhecido samba carnavalesco, “Pelo Telefone” estourou no Carnaval. Gravado pela Casa Edison, na voz de Baiano, a composição assinada por Donga e Mauro de Almeida ainda tem muito do maxixe, ritmo hegemônico na época, e vira cantiga nordestina em um dos trechos. E a história do samba já começou marcada pelas misturas que sempre envolveram o gênero. Os puristas preferem o samba original, os apologistas das fusões querem misturar com o rock, frevo e pop.

Quando Noel Rosa compôs o samba “Feitio de Oração” e Vinícius de Moraes em “Samba da Bênção” afirma que “o bom samba é uma forma de oração”, estavam certos. A palavra samba veio do lamento “kusamba”, rezar, orar. “Quem se atreve a me dizer, do que é feito o samba?” pergunta Marcelo Camelo na composição “Samba a Dois”. E quem responde é Caetano Veloso em “Desde que o samba é samba” ao compor: “O samba é o pai do prazer/o samba é o filho da dor/o grande poder transformador”.

“É melhor ser alegre que ser triste/Alegria é a melhor coisa que existe/É assim como a luz no coração/Mas pra fazer um samba um samba com beleza/É preciso um bocado de tristeza/Senão não se faz um samba, não//Senão é como amar uma mulher só linda; e daí?/Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza/Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora/Qualquer coisa que sente saudade/Um molejo de amor machucado,/Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher,/Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor/E para ser só perdão//Fazer samba não é contar piada/Quem faz samba assim não é de nada/O bom samba é uma forma de oração/Porque o samba é a tristeza que balança/E a tristeza tem sempre uma esperança/De um dia não ser mais triste não...//Ponha um pouco de amor numa cadência/E vai ver que ninguém no mundo vence/A beleza que tem um samba não/Porque o samba nasceu lá na Bahia/E se hoje ele é branco na poesia/Se hoje ele é branco na poesia/Ele é negro demais no coração” (Samba da benção, de Vinícius de Moraes)

Fernanda Porto e Alba Carvalho falam que nunca foram numa roda de samba, mas seu sambar tem repique e batuque sampleando reco-reco e agogô. “Esse samba é meu groove da vez/com guitarras e drum´n´bass/só pra ver como é que fica/eletrônica e couro da cuíca//Samba assim assado/de hit acelerado, será que é samba assim?/samba assim assado/de hit acelerado, é samba, sim” canta em “Sambassim”. Em 2005 o baiano radicado em São Paulo, Péri lançou seu quarto CD dedicado inteiro ao samba. Mesclando a batida bossa-novista de João Gilberto, a elegância de Paulinho da Viola, e a suavidade da voz e violão ele canta: “o samba é como a vida. Só na maciota. Um samba pequenininho. Um samba diferente. Um samba passarinho. Que voa quando está contente” (Samba Passarinho).
 
Já o compositor Assis Valente teve nova leitura do seu “Brasil Pandeiro” na voz dos Novos Baianos: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor/eu fui na Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar/salve o Morro do Vintém, pendura a saia eu quero ver/eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar/o Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada/anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato/vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará/na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá//Brasil, esquentai vossos pandeiros/iluminai os terreiros que nós queremos sambar/há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente/num batuque de matar//Batucada, batucada, reunir nossos valores/pastorinhas e cantores/expressão que não tem par, ó meu Brasil/Brasil, esquentai vossos pandeiros/iluminai os terreiros que nós queremos sambar/Ô, ô, sambar, iêiê, sambar.../queremos sambar, ioiô, queremos sambar, iaiá”.

E Jadir de Castro e Luiz Bittencourt atacaram de “Samba do Ziriguidum” na voz de Jackson do Pandeiro: “Ziriguidun, ziriguidun/Meu coração num teleco-teco/Puxe e largue/Como no futebol/A onda vai, vai, vai/E, balança mas não cai/E o samba continua/Na base do ziriguidum/Abre a roda moçada/Pra entra mais um/Abre a roda moçada/Pra entra mais um”. Para encerrar só mesmo o “Samba e Amor” de Chico Buarque: “Eu faço samba e amor até mais tarde/E tenho muito sono de manhã/Escuto a correria da cidade que arde/E apressa o dia de amanhã/De madrugada a gente ainda se ama/E a fábrica começa a buzinar/O trânsito contorna a nossa cama – reclama/Do nosso eterno espreguiçar/No colo da benvinda companheira/No corpo do bendito violão/Eu faço samba e amor a noite inteira/Não tenho a quem prestar satisfação/Eu faço samba e amor até mais tarde/E tenho muito mais o que fazer/Escuto a correria da cidade - que alarde/Será que é tão difícil amanhecer?/Não sei se preguiçoso ou se covarde/Debaixo do meu cobertor de lã/Eu faço samba e amor até mais tarde/E tenho muito sono de manhã”.

30 novembro 2016

De olho nos óculos



Modelos de óculos que famosos ganham status fashion e reedições. Os óculos de grau são uma necessidade, mas isso não quer dizer que não possam ser usados como um acessório de moda. Os famosos aderem aos mais variados modelos para brincar com a própria imagem. E ficam estilosos. Vejam:

REDONDOS – Os óculos redondos não podem ser considerados exatamente como uma novidade, pelo contrário. Sua pegada retrô não é à toa, já que eles já foram hits na década de 1960 e 70. Eternizados pelo beatle John Lennon, os óculos redondos vem ganhando releituras de várias grifes até hoje e não saem do rosto de quem desfila estilo por aí.

GATINHO – Usado no final dos anos 1940, viraram moda nos anos 1950. As atrizes de cinema famosas, como Audrey Hepburn e Grace Kelly, apareceram usando os óculos gatinho de grau, chamando bastante atenção do público e da imprensa. Já caíra na graça de celebridades cheias de atitudes como Madonna (clipe Celebration)

AVIADOR – Surgido na década de 30 com a função de proteger os olhos dos pilotos da alta intensidade da luz solar, atualmente esse modelo faz parte do dia a dia de um grande número de pessoas ao redor do mundo. Tido como uma peça coringa, por se encaixar em diversas composições de estilo desde o clássico até o esporte, o óculos de sol aviador além de ter originado a marca Ray-Ban também é um sucesso de vendas da empresa. Clássico estilo adotado por estrelas internacionais como Brad Pitt. Ganhou armação em metal e as ruas do mundo.
 
MAXI OCULOS – Tendência absoluta nos anos 1960 e 1970, os maxi óculos foram os preferidos das celebridades da época, e agora várias marcas revisitam estas armações. Óculos enormes tiveram tamanho impacto entre as mulheres que Jackeline Kennedy Onassis ficou conhecida como Jackie O. Jennifer Lopez também usava.

WAYFARER – Clássico nas décadas 1950/1960, usado por Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo e Tom Cruise em Negócio de Risco, Madonna em Procura-se Susan Desesperadamente. Tem ainda Bob Dylan e Andy Warhol que apareceram com ele por todos os lugares. Depois disso, o sucesso dos óculos com este formato foi crescendo cada vez mais, atingindo uma grande parcela dos artistas de Hollywood, que incorporaram o modelo como acessório indispensável para completar o visual. A introdução do modelo Wayfarer ao mercado também permitiu que a marca ampliasse seu catálogo de cores, introduzindo óculos unissex e femininos.


VENETIAM BLIND - Modelo que tem origem nos óculos de esquimós. Foi também usado nos anos 50 e estava muito bem sepultado nos anos oitenta, quando o cantor Kanye West resolveu não só fazer um clipe com ele, como também relançá-los industrialmente. 2007 foi a febre dos descolados fazendo clipes sem enxergar nada, modelos fotografando editoriais de moda sem saber o que estava acontecendo ao redor.


BLINDE - Os icônicos óculos utilizados no filme são da marca Blinde, que os produz artesanalmente. Keanu Reeves, Carrie-Ann Moss e Laurence Fishburne nas telas na pele de Neo, Trinity e Morpheus, respectivamente, em mais uma aventura na fronteira da realidade virtual: Matrix. O tom futurista fica evidente no figurino dos personagens e nos óculos escuros, que viraram mania mundial com o primeiro filme da série, em 1999.

29 novembro 2016

Saudade de Lage (1946/2006)



Foi com o suplemento semanal A Coisa, publicado na Tribuna da Bahia nos anos 1970 que conheci
mais de perto o cartunista Lage. No final da década de 1960 havia criado um movimento (clube) de estudo das histórias em quadrinhos e artes gráficas em geral na minha comunidade, o bairro do Pero Vaz aqui em Salvador. Com a publicação do fanzine Na Era dos Quadrinhos e as exposições e palestras sobre o tema nas escolas e bibliotecas da cidade ficamos conhecidos em toda Salvador (até mesmo contato com o desconhecido, na época, Umberto Eco). Defendíamos com unhas e dentes o movimento em prol das artes gráficas – cartuns, quadrinhos, charges e poema processo.

A força de nossas ações deu origem em reunir os cartunistas para a criação de uma publicação local para reforçar o trabalho desses artistas “invisíveis” da sociedade. Depois do suplemento A Coisa (publicado todas as sextas na Tribuna da Bahia), lançamos o jornal quinzenal Coisa Nostra, revista Pau de Sebo, além de exposições dos trabalhos dos cartunistas onde a interação era uma das molas do evento porque o público participava votando no melhor cartum da mostra. A mídia também, oferecendo prêmios aos melhores.
 
Referência na área do humor gráfico, especialmente na charge, Lage era dono de um estilo particular, marcado pela contestação calcada no humor virulento. Iconoclasta, dono de um traço simples e cortante, Lage logo se destacou pela mordacidade de seus desenhos. Costumava dizer que o bom cartum “é o que sai no estalo”. Durante o regime militar, entrou em controvérsias e chegou a ser chamado para depor nas famosas “sessões de informação” da ditadura. Mesmo assim, não diminuiu o tom de deboche, dizendo às vezes sem palavras o que todo uma nação calava na garganta.

Todos os dias, na redação do jornal Tribuna da Bahia, ele ia no começo da tarde, conversava com uma ou outra pessoa, ficava folheando os jornais, calado e, de repente, aparecia com uma de suas charges geniais. Assim, nos últimos 35 anos, a história da Tba está ligada a de Lage. Quando ele chegou nas páginas do jornal, primeiro em preto e branco, depois às cores, o papeis era outro e o jornalismo também. Mas sua ferramenta continuava as mesmas: o traço exato e o humor demolidor.

As charges de Lage se casam perfeitamente com a missão da Tribuna da Bahia, que é dar informação
de forma exclusiva., analítica, sintética e contextualizada.

Quem quiser entender a Bahia de 1969 a 2006 precisa levar a sério o trabalho de Lage e olhar com atenção o comentário cáustico e agudo de suas charges. Mais do que jornalistas, são cronistas do desenho, que respondem diretamente aos acontecimentos com traço e legenda.

Lage morreu no dia 29 de novembro de 2006, aos 60 anos de idade. Trabalhou como chargista no jornal Tribuna da Bahia desde a sua fundação. Foi funcionário da TB Educativa. Formado em arquitetura pela UFBa, o artista optou desde cedo pelo desenho. Criou, ao lado de outros desenhistas, a revista Pau de Sebo, o jornal Coisa Nostra e o Dicionário de Baianês.

“Bastava um pedacinho de papel , e tinta preta, que ele derramava com uma humanidade rimada de simplicidade. Neste mundo de aparência, foi-se um exemplar de gente que não curtia alarde”, escreveu o mestre em comunicação Paulo Roberto Leandro (A Tarde - 01/12/2006).
 


“Nunca dizia não, mas jamais admitia utilizar a sua pena para ilustrar ideias dos outros. Era original e muitas vezes demolidor nas suas charges inteligentes sobre os assuntos nacionais daqueles que faziam doer quando a gente ria”, escreveu o jornalista Sérgio Goes (TB – 01/12/2006).

“Lage foi genial. Seu traço simples das figuras humanas que retratava, o cidadão classe média quase sempre com a cara do baiano que vai a padaria no final da tarde, narigão, olhos de gude; os policiais brucutus; e as suas tirinhas sobre sexualidade (o casal na cama, o papagaio putz) deixava seus fãs admirados. A primeira coisa que o leitor da Tribuna da Bahia fazia quando pegava o jornal era olhar e ler a charge de Lage”, escreveu o jornalista e escritor Tasso Franco (TB – 04/12/2006).

Em setembro de 2010 ele ganhou importante mostra retrospectiva na Caixa Cultural Salvador. Com curadoria do cartunista Nildão, Lage – 40 Anos de Humor apresentou 60 trabalhos de diferentes fases do desenhista, que revelam seu olhar crítico, mas sempre bem humorado, para fatos que marcaram as últimas décadas.

O artista recebeu diversos prêmios nacional e internacional durante sua trajetória. O último deles, em 1997 quando foi um dos vencedores do Trofeu HQ Mix dedicado aos melhores da área.