13 fevereiro 2020

Oito HQs ambientadas em Salvador


A trama do desenhista Marcelo Quitanilha,  TUNGSTÊNIO  (2014) tem Cidade Baixa como cenário de um conflito que envolve policiais, X9 e traficantes. “Tungstênio”, que foi publicado no Brasil pela editora Veneta, e depois traduzido e republicado na França. A história, uma comédia de erros, se passa em Salvador e envolve dois policiais, um X9, traficantes e pescadores da Cidade Baixa. Além de prejuízos à fauna e flora marinha, a pesca com bombas na Baía de Todos-os-Santos já deu muita confusão. Nenhuma, porém, tão ensandecida quanto a mostrada na graphic novel de Marcello Quintanilha. Em 2004, Quintanilha esteve na capital baiana para produzir o álbum Cidades Ilustradas: Salvador (Casa 21, 2005). A estadia o marcou profundamente, rendendo ainda um par de HQs no álbum Almas Públicas (Conrad, 2011) e, agora, uma graphic novel inteira: Tungstênio. O livro foi premiado no 43º Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, o mais importante da Europa, na categoria policial. E também foi adaptado para os cinemas pelo diretor Heitor Dhalia, conhecido pelo filme “O Cheiro do Ralo“. O quadrinista é conhecido pelo rigoroso domínio narrativo sequencial, além de um especial interesse em histórias protagonizadas por tipos bem populares: motoristas de ônibus, jogadores de futebol, camelôs.




Batizado como o movimento da capoeira, (2008) conquistou o público leitor carente de personagem baiano. Com desenhos cheios de movimento (traço limpo e dinâmico), diagramação elaborada, trama cativante, Aú o capoeirista agrada baianos, romanos, gregos e americanos, mas o espírito baiano está alí, centrado nos personagens, no ambiente. Flávio canta sua aldeia e mostra ao mundo. A história, ambientada em Salvador, é repleta de aventura, humor, consciência ecológica e mostra o cotidiano do capoeirista mirim Aú e seu inseparável amigo, o macaquinho Licuri. O adolescente investiga o desaparecimento de uma garota francesa sequestrada no Pelourinho ao presenciar o início de um incêndio. A investigação do capoeirista Au o leva à ilha particular do misterioso Armando Confuzionni. A partir daí o leitor vai encontrar muita ação pelas ladeiras do Pelô e outros pontos da cidade, além de uma eletrizante perseguição de jetskis nas águas da Baía de Todos os Santos.




As descobertas sexuais, os tabus e a sexualidade são temas pouco trabalhado nas histórias em quadrinhos brasileiras. O QUARTO AO LADO (2013) é um álbum que mostra as curiosidades, experimentações e diversidades sexuais de jovens e de adolescentes. São três histórias em quadrinhos, e um conto, passadas em cidades da Bahia sobre os relacionamentos afetivos e sexuais entre personagens de diferentes sexualidades. Idealizado pelo roteirista Marcelo Lima, o álbum tem como desenhista principal o ilustrador André Leal, com participações de Daiane Oliveira e Bruno Marcello, além de arte para a capa feita por João Oliveira. Foi patrocinado pelo Fundo de Cultura da Bahia (Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e Fundação Pedro Calmon), e selecionado no Edital de Culturas LGBT.





O trânsito de Salvador é um dos mais congestionado do mundo. Buracos, engarrafamento, falta de fiscalização e estresse. São alguns dos problemas da cidade. Os congestionamentos na cidade são cada vez mais longos. O aumento do número de automóveis não foi seguido por melhorias nas redes viárias e, tampouco, no incentivo a um transporte público de melhor qualidade. Diante desse quadro no presente, os autores Camilo Fróes, Moreno Pacheco e Bruno Marcello mostram Salvador do futuro. Em CIDADE-MOTOR (2016), a primeira incursão dos autores pelo mundo dos quadrinhos, uma Salvador distópica se torna pano de fundo para uma narrativa policial onde os carros viraram casa, o trânsito virou a vida, e a cidade se transformou em via para automóveis. Nesse ambiente, o destino do policial Celso se cruza com o de Moema, jovem da classe média empobrecida. Moema é uma jovem motogirl que se vê emaranhada em um perigoso jogo de interesses depois de sofrer um acidente de trânsito envolvendo dois policiais: um corrupto, do controle de trânsito, e outro, civil e honesto, chamado Celso. E o desfecho desse encontro passará pelas mãos de um grupo radical clandestino que busca medir forças com o poder público de um futuro nem-tão-distante.




BILLY JACKSON (2013) é a primeira investida do escritor Victor Mascarenhas e do desenhista Cau Gomez pelo mundo dos quadrinhos. Originalmente um conto de autoria do próprio Mascarenhas, intitulado Superstar e publicado em 2011 no livro A insuportável família feliz (Editora P55), a trama da HQ se passa nos dias subsequentes à morte de Michael Jackson, quando encontramos Agnaldo, o Billy Jackson, um cover baiano do artista norte-americano, se apresentando no palco do Blue Moon. Deprimido, frustrado e devastado com a perda da sua referência de vida, Agnaldo/Billy tem que enfrentar o palco, o público e uma crise de identidade que o coloca diante de um grande dilema: seguir adiante com sua vida ou imitar seu ídolo num desesperado gesto final?. De leitura ágil, a HQ segue a trajetória do sósia em paralelo à do ídolo. E vai mostrando como o processo de transformações bizarras, decadência e morte precoce se reflete em Agnaldo / Billy. O ousado projeto é publicado pelo selo editorial da RV Cultura e Arte, que aposta arrojadamente no talento de autores baianos e na força de histórias locais, acreditando estar aí um importante ingrediente para a interlocução entre obra e leitor.




A Cidade da Bahia é mágica, povoada por gente de fé, que desde criança escolhe ou é escolhido por um santo e um orixá protetor. Mas neste mesmo cenário de tanto misticismo, e quem vive no bairro da Mata Escura sabe disso, é preciso não só ter fé, mas coragem para seguir a vida. Patrocinado pelo Fundo de Cultura da Secretária de Cultura do Estado da Bahia, SÃO JORGE DA MATA ESCURA (2011) é uma história em quadrinhos de 52 páginas, que conta, através de arquétipos do misticismo religioso baiano, a história de três personagens que habitam a região da Mata Escura (periferia de Salvador): o negro, pobre e virtuoso Jorge, o traficante albino ambicioso Jarcisley e a tempestuosa e bela Bárbara. A trama tem roteiro de Marcello Fontana e desenhos de André Leal, mas também conta com as participações gráficas de Antônio Cedraz (Turma do Xaxado) e Naara Nascimento. No panteão do candomblé, fruto do sincretismo religioso brasileiro e africano, São Jorge é o orixá Oxóssi, o bravo caçador.




Da simplicidade do traço à criatividade da narrativa, Xaxado retrata a vida rural com todas as suas lendas e mistérios. São aventuras de um garoto, neto de um famoso cangaceiro que vivia com o bando de Lampião, às voltas com problemas do dia a dia, junto com seus pais e amigos. A Turma do Xaxado reúne personagens tipicamente brasileiros e já recebeu diversos prêmios. PELOURINHO EM QUADRINHOS (2005), a Turma do Xaxado conta a história deste que é um dos mais conhecidos e bonitos pontos do Centro Histórico de Salvador, capital da Bahia. O livro Pelourinho Patrimônio da Humanidade traz muita informação sobre um dos pontos mais conhecidos de Salvador. Além de contar a história do lugar, traz referências sobre outros pontos turísticos da capital. O álbum ganhou o Troféu HQMix, o Oscar dos quadrinhos nacionais, como o melhor álbum infanto-juvenil em 2006.  


Romance gráfico ambientado na Salvador de 2049, que perdeu seu nome e é conhecida pelas suas coordenadas geográficas (-13, -38 ). A história toda se desenrola em um dia da vida de Clarissa Huang, uma sino-baiana que trabalha com a poesia de Gregório de Mattos. Uma curiosidade é que o sobrenome da protagonista é uma referência a uma pastelaria de uma família chinesa do centro de Salvador. Com roteiro de Igor de Albuquerque e ilustrações de Amine Barbuda, -13, -38: AMANHÃ DE NOVO (2019) foi contemplada pelo edital Gregórios, da  Fundação Gregório de Mattos, Prefeitura de Salvador. Nas 24 horas em que a narrativa se passa, o leitor acompanha um dia comum da vida dessa personagem que lida com temas como o impacto das tecnologias no futuro da humanidade, o impasse filosófico das realidades virtuais e as reconfigurações da história e das artes. A dupla criativa responsável pela criação da HQ (Igor e Amine) se inspirou em universos da ficção científica em diversas linguagens, como o cinema, a literatura e as artes plásticas, além de discussões acerca dos processos urbanísticos de Salvador e suas possíveis consequências no futuro.



11 fevereiro 2020

Quando a natureza empresta seu nome


Diante da enorme variedade de vegetal que o Brasil possui, não é de se admirar que inúmeras cidades baianas tenham ganhado seus nomes a partir de espécies da flora brasileira. Palmeiras, Angical, Cansanção, Araças, Macaúbas, Canápolis, Buritirama, Cocos, Jaborandi, Mucugê, Juazeiro, Cipó, Pau Brasil, Umburanas, entre outras, são alguns municípios que evidenciam em seu topônimo, toda a beleza da natureza.




Em plena Chapada Diamantina, Palmeiras, que teve seu nome originado da abundância de palmeiras existentes nas proximidades da cidade, é o lugar certo para quem gosta do contato direto com a natureza. Em meio a imensos paredões, rios, grutas e cavernas, a grande atração é a estonteante Cachoeira da Fumaça. Do alto dos seus 370m de altura, o intenso fluxo de água mal consegue tocar o poço, se espalhando pelo ar como se fosse vapor e dando a impressão de uma grande nuvem de fumaça; daí seu nome.




Descoberta à margem do rio Pardo, a cidade de Canavieiras teve sua povoação e desenvolvimento iniciados principalmente devido a produção de cana-de-açúcar, notadamente na propriedade dos Vieiras, primeiros colonizadores, o que constitui forte motivação para que a povoação passasse a ser conhecida por seu nome atual. Abrigo de uma diversificada fauna silvestre, a cidade é também o maior pesqueiro natural de robalo do Brasil, e o maior viveiro de Marlin Azul do mundo. Às margens do rio Pardo e de frente para o mar, seus 17 km de praias reservam águas rasas e tranquilas, ondas radicais para a prática do surf e pontos ideais para pesca.




Contrariando a ideia de que todo sertão é seco, quente e sem vida, a cidade de Cipó se apresenta como uma opção diferente. O nome do município provém de um cipoal existente numa fonte à margem do rio Itapicuru, onde se desenvolveu a localidade. Sua grande particularidade brota de seu solo: fontes de água termais, com propriedades medicinais. As águas de Cipó impulsionaram a economia do município e levaram o turismo em larga escala para a região. Além das três fontes de águas termais da cidade, tem ainda as agradáveis praias fluviais do Itapicuru.




O nome Jaborandi é de origem indígena, e quer dizer “o que faz salivar”. É também nome de uma cidade baiana, designada assim devido à enorme quantidade da planta de mesmo nome que existia na região onde o município teve origem. A cidade teve início em 1902 com a construção de algumas casas às margens do córrego Jaborandi. A economia do município é sustentada basicamente por atividades agrícolas, como o cultivo da cana-de-açúcar. Já a sabedoria indígena, deu nome ao município de Umburanas, palavra composta (Umbu + Rana), que quer dizer “falso umbu”. Devido a grande quantidade de palmeiras (coco babaçu) na região, o município de Cocos ganhou esse topônimo, além da paisagem da cidade ganhar muito com a presença dessa espécie.




Do antigo porto de passagem de tropeiros e comerciantes que se embrenharam pelo sertão, ficaram para o registro histórico, os frondosos pés de juazeiro (nome de uma árvore muito frequente no Nordeste e que tem como fruto o juá) que deu origem ao município, e alguns monumentos da arquitetura civil do século passado. Um próspero comércio se desenvolveu as margens do Rio São Francisco, no principal ponto de divisa entre os estados da Bahia e Pernambuco. Juazeiro transformou-se em um moderno polo agro industrial, com intensa atividade de exportação.

 

10 fevereiro 2020

Maiores municípios em extensão territorial da Bahia


Com 16.514 km², o município de Formosa do Rio Preto é o maior em extensão territorial da Bahia. Situado no Oeste baiano, à margem do rio Preto, a cidade possui mais de 22  mil habitantes. É ainda na região Oeste que encontramos o segundo maior município do Estado. São Desidério conta com uma área de 14.876 km² e uma população de mais de 27 mil pessoas. “O coração da Brasil”, como afirmam seus habitantes, está localizada a 869 km de Salvador. Para a autoridade municipal, a segurança e a infra estrutura das estradas são os maiores problemas. O município possui 125 povoados com 2 grandes distritos. Além disso, conta com mais de 3.500 quilômetros de estradas vicinais e que precisa ser dado manutenção todos os anos.



Pouco conhecida pelos baianos, apesar de cercada de um lado pelo rio São Francisco e do outro por belíssimas serras, estando a uma distância de 689 km da capital, Sento Sé, fica na região norte da Bahia, às margens do lago de Sobradinho. Foi fundada em 1832, e tem como fronteira os municípios de Campo Formoso, Casa Nova, Itaguaçu da Bahia, Jussara, Morro do Chapéu, Pilão Arcado, Remanso, Sobradinho, Umburanas e Xique-Xique. Tantas cidades como divisa dão a dimensão da extensão territorial de Sento Sé, que possui 12.629 km² e é o 3º maior município do Estado em território, segundo dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).



Com uma área de 12.348 km², a cidade de Barra, também na região Oeste da Bahia, chega a ser maior do que alguns países da Europa, como Luxemburgo, por exemplo, sendo quase cinco vezes maior. Barra é uma cidade que possui belo traçado urbanístico, com ruas, praças e avenidas amplas e arborizadas, sendo considerada uma das urbes mais bonitas de toda a margem do São Francisco.  Tem uma população de mais de 49 mil habitantes.




Com a quinta posição no ranking das cidades com maior território da Bahia, Barreiras, também na região Oeste, aparece com 11.979 km². A chamada “Capital do Oeste” é o principal centro urbano, político, tecnológico e econômico da região. Distante 857 km de Salvador e 622 km de Brasília, sua posição estratégica e sua organização administrativa a concederam o título capital regional. Com mais de 137 mil habitantes, Barreiras produz toneladas de grãos, café, algodão, frutas, além da pecuária que movimenta mais de um bilhão de reais. Nos últimos anos foi o município que alcançou a maior taxa de crescimento no Estado e possui um enorme potencial para continuar crescendo.



Atrás de Barreiras está a cidade de Pilão Arcado, com uma área de 11.761 km². Conta a tradição local que a denominação está ligada a uma lenda de pescadores que encontraram um pilão, com formato de uma curva em arco, em uma das margens do Rio São Francisco, e passaram a utilizá-lo para pilar o sal que salgava o peixe. O município conta com mais de 32 mil habitantes.




Correntina é o sétimo município baiano com grande área. Com uma população com mais de 31 mil habitantes tem uma área de 11.636 km2. Côcos vem a seguir com 10.121 km2 com mais de 18 mil habitantes. Jaborandi tem 10.066 km2 tem mais de 6 mil habitantes. O décimo município é Casa Nova com uma área de 9.697 km2 e uma população de mais de 64 mil habitantes.

09 fevereiro 2020

Nossas Raízes: JOÃOZINHO DA GOMÉIA


O enredo do Acadêmicos do Grande Rio de 2020 vai contar a história do baiano Joãozinho da Gomeia, babalorixá do candomblé, que se estabeleceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ganhou fama no país e recebeu em seu terreiro artistas, embaixadores, políticos, como Getúlio Vargas. Gabriel Haddad e Leonardo Bora vão estrear no Grupo Especial, assinando “Tata Londirá: o canto do caboclo no quilombo de Caxias”.
 

Líder religioso, João Alves de Torres Filho, o Joãozinho da Goméia (1914-1971), baiano de Inhambupe, no interior da Bahia, viu sua vida se transformar quando ainda criança foi à cidade de Salvador em busca da cura para uma doença que o atormentava. Iniciou sua trajetória religiosa em 1931 e levou a dança dos Orixás para os palcos de teatros de Salvador. Em 1946 mudou para o município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde alcançou poder e fama e se tornou um dos mais importantes babalorixás da história do candomblé no Brasil. 

Figura polêmica, Joãozinho da Goméia era negro, homossexual, artista e apaixonado pelo carnaval. Não tinha papas na língua e muito menos medo de ser ousado e revolucionário dentro da religião. Era considerado um homem a frente de seu tempo que não se envergonhava de ser homossexual na homofóbica Bahia do início do século XX, pai-de-santo que afrontava os princípios de que homens não podiam “receber” o Orixá em público, tornando-se famoso pela sua dança; vestia-se de mulher para brincar carnaval. João foi responsável por enfeitar as festas no terreiro e também é dele a ideia de bolos decorados nas festas de santo. 

Popularizou a religião atraindo importantes nomes da cultura, da política, de toda a alta sociedade brasileira, que saíam de suas zonas de conforto e viajavam até a Baixada Fluminense para consultas e orientações com o Babalorixá. Joãozinho da Goméia atraiu também a atenção da imprensa e se tornou responsável pelo crescimento do candomblé no país. O babalorixá mais famoso do Brasil chegou a ser considerado o “rei do candomblé”.  Sua figura foi, inclusive, inspiração

07 fevereiro 2020

Menores municípios, em extensão territorial, da Bahia


A Bahia tem em sua extensão territorial 567.295 km² distribuídos ao longo dos 417 municípios. Alguns deles possuem menor extensão, mas isso não significa dizer que não possuam importância histórica, econômica e cultural. Entre os 10 menores estão: Madre de Deus, Lauro de Freitas, São José da Vitória, Dom Macedo Costa, Muritiba, São Félix, Governador Mangabeira, Muniz Ferreira, Itamarí e Conceição do Jacuípe. Mostraremos como as cinco primeiras são destaques no nosso estado.



Madre de Deus faz parte da Baía de Todos-os-Santos, tem população estimada em 21 mil habitantes e é considerada a menor em extensão territorial, com apenas 32 km2. Porém ela é uma das cidades mais desenvolvidas do país por abrigar o terminal marítimo da Petrobras, o Polo Petroquímico de Camaçari e do Centro Industrial de Aratu, os quais movimentam a economia local e nacional. O município merece destaque pelo turismo, por possuir ilhas, belas praias e a festa “Madre Verão” que atrai a população local e turistas todos os anos.




Localizado ao norte de Salvador, Lauro de Freitas é banhado pelas praias de Ipitanga, Vilas do Atlântico e Buraquinho, totalizando sete quilômetros de litoral. Entre as atrações turísticas estão a Igreja Matriz de Santo Amaro de Ipitanga, o mais representativo monumento arquitetônico, e a igreja do padroeiro, que fica em um dos pontos mais altos do município. A cidade apresenta grande potencial para a hospitalidade, o turismo de lazer e de negócios.



São José da Vitória, uma das menores cidades da Bahia com população estimada em 5.715 habitantes, é abastecida pelo rio Una e tem como fonte de renda um pequeno comércio e a agricultura. O principal ponto turístico e cartão-postal da cidade é a represa. Esta cidade fica às margens da BR 101, é conhecida pela hospitalidade do seu povo e pela venda de produtos artesanais. Sua emancipação ocorreu em 10 de junho e 1989.



O município de Dom Macedo Costa tem uma curiosidade no que diz respeito ao seu surgimento, pois surgiu em uma região primitivamente habitada pelos índios maracás. A partir do povoamento através da colonização portuguesa, as terras foram divididas em fazendas e de uma dessas foi criado um povoado de São Roque do Bate Quente, que se ampliou, passando a adotar o novo nome. Dom Macedo. No São João a cidade recebe turistas de vários lugares, que aproveitam a romaria à igrejinha de Milagres de Santo Antônio para pedir sua bênção, e curtem os festejos juninos, as atrações musicais com o forró pé-de-serra e comidas típicas.




Com ano de fundação em 1919, a cidade de Muritiba tem como base econômica a agricultura, com a produção de mandioca, fumo, laranja e limão. Entre os principais pontos turísticos estão a Casa da Fazenda Dendê, de grande valor arquitetônico, a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim a Igreja de São Pedro (padroeiro da cidade), a Cachoeira do Pinga e a ponte do Buraco do Inferno. A cidade também é famosa pela tradicional Festa do Senhor do Bonfim, que acontece todos os anos e tem duração de onze dias e termina com a Procissão do Senhor do Bonfim na última segunda-feira de festa.

31 janeiro 2020

ORALIDADES


A prática da “história oral” remonta à Grécia antiga, quando a narração era a arte de contar histórias e o poeta era o “mestre da verdade”, como Hesíodo e Heródoto. Através da própria história, a arte de morrer perde, aos poucos, seu caráter épico e poético – esgotando as formas tradicionais de comunicação e marcando o fim da narração por uma nova escrita.




A memória se esvazia, se fragiliza nesse abismo entre a prática ancestral de narrar e a técnica moderna de imprimir, ela se precariza nessa relação de ruptura, nessa inadequação entre “contar uma experiência” e “fazer história”.



A educação nas sociedades antigas se ministrava essencialmente na oralidade, informa o historiador Georges Duby em sua obra “Escrever...Para quê? Para quem?” (Lisboa, Portugal, Edições 70, 1975, p.79). Para a Russel Means, liderança indígena americana, em uma entrevista, disse detestar escrever. Ela afirmou que a escrita “resume o conceito europeu do pensamento legítimo: o que é escrito tem uma importância que é negada ao falado. A minha cultura, a cultura lakota, tem tradição oral e, portanto, eu usualmente rejeito escrever. Um dos meios de que se vale o mundo dos brancos para destruir as culturas dos povos não europeus e impor uma abstração à relação falada de um povo. Por isso, o que você lê aqui não é o que escrevi. É o que eu disse e outra pessoa escreveu. Permito que assim seja porque me parece que a única via de comunicação com o mundo dos homens são as folhas mortas e secas dos livros”. (Means, R. Marxismo e as tradições indígenas. In: Religião e Sociedade. Rio de Janeiro. ISER, 1981, p.49).




Ao colocar a oralidade em contraposição à escrita, estamos buscando reinstalar a voz do lugar onde foi, de certa forma, expulsa ou – conforme Paul Zunthor – abafada por uma “mentalidade escritural”. A voz, segundo este autor, entendida como expressão privilegiada da poesia, propiciará o retorno ao poder encantatório da palavra. Não em propiciará o retorno ao poder encantatório da palavra. Não em sua forma original, mítica, mas nos termos da modernidade, ou seja, em series radiofônicas, televisivas e nas revistas em quadrinhos. E aposta que esta voz que “moderniza-se pouco a pouco (…) atestará um dia, em plena sociedade do ter, a permanência de uma sociedade de ser” (Zumthor, Paul. A letra e a voz. São Paulo, Companhia das Letras, 1993).




A oposição entre escrita e oralidade determina o empobrecimento de ambas. Viñao Frago afirma que o “baixo nível de domínio e uso da leitura e escrita é consequência – não só, mas em boa parte – do não reconhecimento e estimulação da oralidade, de não se assentar sobre ela a alfabetização, a linguagem escrita.



Além disso, esta dissociação é causa da progressiva perda do ouvido, da escuta e, por isto, da riqueza, vivacidade e precisão da fala”. (Frago, Antonio Viñao. Alfabetização na sociedade e na História. Porto Alegre. Artes Médicas, 1993, p.21).




Os seres mais antigos contam que quando Oxalá (orixá que representa o ar) veio a esse mundo, criou os seres humanos. E para cada ser humano criou uma árvore.



As árvores carregam o princípio da ancestralidade, representam os ancestrais e são elas que estabelecem a dinâmica da relação entre os seres humanos e a natureza.




Oxalá está relacionado à cor branca. O axe, sangue branco, caracterizado por substâncias minerais como o giz, metais brancos, como prata e chumbo, pela seiva da palmeira igi-opa, pelo algodão, pelo sêmen, pelos ossos e pela cuva.



Pela chuva-sêmen que fertiliza e fecunda a terra regenerando-a e proporcionando o brotar das sementes. 



Apresenta representações simbólicas de progenitora, capacidade de gerar filhos, de expandir a descendência, multiplicação dos seres tanto no aiye como no orun.



Nessa estética do sagrado, as árvores são as responsáveis pela purificação do ar para que os seres humanos tenham plenitude de vida.




O poeta baiano Waly Salomão (1943/2003) aboliu categorias como poesia e prosa, fala e texto, coloquial e erudito para buscar a ponto de liga alquímica – amálgama de oral e de escrita.



Na sua bricolagem semiótica ele apresentou uma dicção confessional, de inflexão babilaque.

30 janeiro 2020

Desenhistas de quadrinhos na Bahia 02




ADA BRITO




Com a força de comunicação do Clube de Quadrinhos na Bahia nos anos 70, além da publicação de uma coluna semanal sobre o assunto no jornal A Tarde e o apoio do jornalista e professor Adroaldo Ribeiro Costa, a desenhista Ada Brito começou a publicar tiras diárias n´A Tarde. Chamava-se Tico, a vida de um garoto negro e todas as suas peripécias. Ela ainda criou uma garotinha chamada Any que adorava apreciar pinturas. Essa tira também foi publicada no jornal A Tarde. 

Em 1973 foi lançada a cartilha A Independência foi guerra na Bahia, com texto de Adroaldo Ribeiro Costa e desenhos de Ada Brito, editada pela Secretaria de Educação do Estado da Bahia.





REINALDO




Reinaldo Rocha Gonzaga, natural de Buerarema (1952), formado em Belas Artes, já trabalhou como ilustrador, chargista e programador visual. Participou de várias exposições coletivas de pintura. É criador do personagem Joca para o suplemento do Jornal da Bahia. Trabalhou no jornal A Tarde e no Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. Seus primeiros trabalhos n´A Tarde foi no início dos anos 70. Mais tarde começou a publicar a tira Saravá, um tipo folgado que a todo momento está reclamando da vida, mas nunca para de beber. 

Seu trabalho mais importante nos quadrinhos junto com o historiador baiano Henrique Campos Simões: o álbum O Achamento do Brasil – A carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel. O lançamento foi em 1999 e a edição em quadrinhos reproduz a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal. Produzido a partir de uma pareceria entre a Secretaria da Cultura e Turismo e a Universidade Estadual de Santa Cruz, o álbum retrata, de forma lúdica, a chegada dos portugueses às terras brasileiras. As ilustrações foram feitas à mão livre, em bico de pena e pincel, e coloridas no computador. Para compor os personagens, foram estudados os trajes portugueses de época, bem como os costumes dos povos e os traços indígenas. O álbum, foi distribuído na rede de ensino público da Bahia e bibliotecas do estado.



MENANDRO RAMOS




Natural de Riacho de Santana, teve os primeiros contatos com desenho profissional em 1972 para agências de publicidade. Possui graduação em Licenciatura em Desenho e Plástica pela Universidade Federal da Bahia(1979) e doutorado em Educação pela Universidade Federal da Bahia (2008). Professor assistente da Universidade Federal da Bahia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Tópicos Específicos de Educação. Atuando principalmente nos seguintes temas: Multimeios, Recursos Audiovisuais, Imagem, Iconografia, Educação e Comunicação e Linguagem.  Realizou algumas exposições de pintura e desenho, incluindo trabalhos de humor. Começou a publicar charges no jornal A Tarde desde 1975, além de ilustrar livros, jornais e onde fez o curso de artes plásticas.





CARLOS FRANÇA




Natural de Itiruçu, Carlos França passou toda a infância em Feira de Santana, onde começou a desenvolver seu lado profissional numa agência de publicidade. Em 1974 entrou para a Escola de Belas Artes da UFBa. Ingressou no jornal A Tarde em 1975 como ilustrador e chargista. Ilustrou livros de Jorge Calmon, Silvio Simões, Adroaldo Ribeiro Costa, Antonio Sobrinho e Sérgio Mattos. Participou do I Salão de Verão (1977) no Museu de Arte da Bahia, da mostra Quadrinhos na Imprensa Baiana (1977) no ICBA, expondo o personagem Bacuri, que era publicado em tiras n´A Tarde.








29 janeiro 2020

Desenhistas de quadrinhos na Bahia 01


ALBERTO ROMERO




Argentino/baiano. Nasceu em Buenos Aires em 1937 e cursou Belas Artes. Aos 17 anos comercializou seus desenhos pela primeira vez. Tornou-se cantor de um conjunto de jazz e em 1958 ganhou o concurso de novos valores do jazz. Aos 20 anos conseguiu o primeiro emprego como desenhista e passou por várias agências de propaganda argentinas. Publicou seus quadrinhos na revista portenha Poncho Negro. Publicitário, artista plástico e jornalista, dedicou mais de 60 anos de sua vida ao estudo e pesquisa da Ufologia. Em 1963 chegou ao Brasil com a família e começou a trabalhar no jornal Folha de S.Paulo, depois foi para a Editora Abril. 

Em 1968 chegou à Bahia e começou a trabalhar na Vínculo Propaganda que mais tarde seria fundida com a Denison Propaganda Nordeste. Depois passou para a Randan Comunicação. Nessa época começou a publicar uma série de reportagens sobre discos voadores no Jornal da Bahia. Nos anos 70 começou a publicar charges. Em novembro de 1976 lançou com Adinoel Motta Mais o suplemento O Mutante com uma HQ central intitulada Experiência. Realizou uma exposição coletiva de cartunistas e chargistas e foi para Alemanha participar da Expo Cartoon 77. Ainda em 1977 publicou no suplemento de domingo do Jornal da Bahia a HQ Missão Genes..(a data maior do mundo cristão). Era fã do desenhista norte americano Alex Raymond. Faleceu em 20 de maio de 2018 em Salvador-BA.







APS




Anildson Pereira dos Santos, conhecido como APS, nasceu em Paulo Afonso em 20 de março de 1954. Cartunista de ocasião, engenheiro mecânico por opção, publicou cartum pela primeira vez em 1973 no fanzine Na Era dos Quadrinhos, de Gutemberg Cruz que foi seu colega no Colégio Central. Em 1975 participou como colaborador do suplemento A Coisa da Tribuna da Bahia. E em 1976 participou do Coisa Nostra. No mesmo ano colabora com vários jornais estudantis: Resistência, Novação, Viração. 

Em 1978 participa do I Salão de Humor da Bahia na Eucatexpo e classifica-se entre os três melhores. Nessa época (1978) começou a publicar uma tira diária no Jornal da Bahia com o personagem Locutor de poste comentando os problemas do dia a dia. A publicação vai até março de 1979. Em seguida deu continuidade ao seu traço criativo e experimental. Um trabalho de grande força visual.





GABRIEL LOPES PONTES




Nasceu basicamente o teatro. Seus pais faziam teatro. Aos sete anos ganhou um prêmio de revelação infantil. Descobriu o desenho e começou a sonhar. Aos 14 anos se entregou completamente ao desenho. Aos 19 anos lançou a exposição de HQ Algo de HQ no Front em agosto de 1985. Entrou na Escola de Belas Artes da UFBa e gostava de ouvir jazz. A partir daí passou a fazer quadros grandes com uma linguagem de quadrinhos usando como tema jazz. Em 1986 realizou a exposição Quadrinhos para Xuxu no Projeto Galeria do Aluno da professora Maria Adair. Apreciava quadrinhos que envolvesse elementos de outras artes, preferia leitura de quadrinhos europeus (Hugo Pratt, Manara, Crepax).

Ganhou um prêmio no Salão Universitário de Artes Plásticas, baseado em HQ, 1988. Autor de História em Quadrinhos Avançada Um Permanente Diálogo Entre A Nona-Arte e as Belas Artes, sob orientação do Professor Doutor Juarez Paraíso. Entre 2005 e 2007, foi professor substituto de História da Arte Contemporânea na EBA / UFBA. Tem experiência nas seguintes áreas: Artes plásticas, com ênfase em pintura, desenho e história em quadrinhos; Teatro, com ênfase em dramaturgia, direção, interpretação, cenografia e figurino; História, com ênfase em História-Imagem, História da Arte e História Contemporânea. Além do romance Absynto Azul e da coletânea de contos e novelas Estórias de Monstrengos & Aberrações. Tem ainda o curta-metragem documental / ficcional Incarcânu a Tiortina, roteirizado e dirigido em parceria com Tau Tourinho, marca seu ingresso no cinema.




28 janeiro 2020

110 anos sem Angelo Agostini


Há 110 anos (dia 28 de janeiro de 2010) morria Angelo Agostini (1843/1910) o mais importante artista gráfico do Segundo Reinado. Colaborou tanto com desenhos quanto com textos com as publicações O Mosquito, Vida Fluminense, Revista Ilustrada, Don Quixote, O Tico Tico, O Malho, Gazeta de Notícias, entre outros. Publicou, a 30 de Janeiro de 1869, Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte, considerada a primeira história em quadrinhos brasileira e uma das mais antigas do mundo. Mais tarde publica outro personagem, Zé Caipora. Seu nome serviu de inspiração ao Prêmio Angelo Agostini, concedido anualmente pela Associação de Quadrinistas e Caricaturistas de São Paulo aos melhores do ramo e para a criação do Dia do Quadrinho Nacional. Agostini esteve à frente de sua época, criou um estilo, influenciou e tornou a caricatura, a sátira política e os quadrinhos parte de nossa nascente imprensa.




Quando se investiga a origem das histórias em quadrinhos no Brasil o principal nome é de Angelo Agostini (08/04/1843, Vercelli/Itália, 23/01/1910, Rio de Janeiro). italiano de nascimento, mas brasileiro por escolha. Artista gráfico, pintor e critico de arte, Agostini trabalhou com os quadrinhos e com as caricaturas, que tinham como alvo os políticos do Segundo Império e da futura República. Nhô-Quim, um caipira que vive inúmeras aventuras cômicas na capital do Império é o nosso legítimo personagem nacional.




Publicada na revista Vida Fluminense, essas histórias não apresentavam os famosos balões de diálogos e o texto narrativo era bastante simples e convencional. Porém, Agostini tinha um traço elegante. Vale lembrar ainda que além do Nhô-Quim, o artista ítalo-brasileiro criou também Zé Caipora e a primeira heroína, a índia Inaiá, que viviam inúmeras aventuras na revista Revista Illustrada, de 1876 a 1891. Agostini publicou também nas revistas O Arlequim, O Mosquito suas caricaturas, suas ilustrações e, principalmente, suas ideias abolicionistas e republicanas, sempre com humor e critica.




Num Brasil em profunda transformação política, econômica e social, repleto de lutas pela abolição dos escravos e pela proclamação da República, Ângelo Agostini produziu uma arte que se recusava a ficar parada, estática. Avançando no tempo e no espaço, o artista criou uma narrativa sequencial com cortes gráficos que futuramente apareceriam nas histórias em quadrinhos. O mesmo pode-se dizer de suas caricaturas, pois elas não foram apenas um retrato de uma época, mas um olhar critico de uma sociedade que crescia em todos os sentidos. Ou seja, o pai de Nhô Quim e de Zé Caipora, nos deixou como legado aventuras e caricaturas que revelam um tempo histórico significativo, de um país que se tornará Nação, porém, com fortes desejos de ser uma República.



Para Herman Lima, estudioso da obra de Angelo Agostini, o artista tem grande valor. Segundo Lima, “durante quarenta e seis anos, de 1840 a 1910, esse formidável polemista do lápis, sem descanso nem folga, [...], sempre se afirmou como irreverente fustigador de homens e de costumes, em milhares de charges, na época em coisa alguma inferior às melhores dos seus contemporâneos europeus” (Cirne, 1990, p. 16-7). Isso significa que esse ítalo-brasileiro foi um crítico feroz, que usou a pena como arma para instigar e mostrar à sociedade seus problemas e falhas, contudo, fez de belíssima e inovadora forma.




Essa inovação se faz presente especialmente nos quadrinhos. Ao publicar as aventuras de Nhô Quim e de Zé Caipora, Agostini traz os principais elementos visuais da narrativa quadrinizada, mas incomuns para o século XIX. Waldomiro Vergueiro, do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da USP, comenta que ele usava “recursos metalingüísticos ou de enquadramentos inovadores para a época (entre estes últimos pode-se destacar, já no primeiro capítulo, uma sucessão de vários quadrinhos utilizando um mesmo cenário de fundo, uma técnica que apenas muito tempo depois foi explorada pelas histórias em quadrinhos)”.



Isso mostra que Angelo Agostini foi, sem sombra de dúvida, o principio dos nossos quadrinhos. E também um artista que por meio das histórias em quadrinhos, muito antes delas existirem como as conhecemos; revelou um país repleto de divisões sociais, econômicas e políticas, que começava a caminhar pelas próprias pernas, apesar delas serem, ainda, bastante frágeis.



Revolucionária no uso de elementos narrativos da linguagem dos quadrinhos que só viriam a ser “descobertos” no século seguinte e por adotar um estilo realista de desenho indo de encontro à estética cartunesca vigente no período, a saga de Zé Caipora começa com uma deliciosa comédia de erros e depois se transforma numa grande aventura, emocionante e realista onde o personagem aos poucos se revela um herói épico. Agostini experimenta ousadas diagramações de página, enquadramentos cinematográficos, grandes cenas panorâmicas, coloca os personagens em situação dramática e cria a primeira heroína universal dos quadrinhos: a índia Inaiá. Toda essa revolução pode ser apreciada no álbum As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora: os primeiros quadrinhos brasileiros, um belíssimo trabalho organizado pelo professor Athos Eichler Cardoso e publicado pelo Senado Federal em 2002.

25 janeiro 2020

Suingue da negra voz celebra 40 anos de carreira




Ele é ariano nascido e criado no bairro da Garibaldi, perto do terreiro de Mãe Menininha de Gantois que foi amiga de sua avó materna. Assim, desde criança ele ficava ouvindo os cânticos do candomblé. Com o tempo já estava na roda de samba, cantando. Foi o samba que lhe deu base rítmica desenvolvido nos redutos como as agremiações Cacique do Garcia e Bafo de Jegue. Ele participou ainda de grupos folclóricos dos colégios ICEIA e Severino Vieira. Das rodas do Garcia ele foi levado à grande inovação baiana dos anos 70, o Ilê Aiyê, do qual fez parte entre 1979 e 1980. Estamos falando de uma das melhores vozes masculinas da Bahia: Lazzo Matumbi. Conhecido pelas interpretações carregadas de swing e lamento, o cantor é um dos ícones do reggae brasileiro.



“Ôôô/Vem correndo me abraça e me beija/Vem ver, chamar chamar/Vem provar do meu encanto/Vem dizer que eu não fui santo nenén/Onda do mar me levou/E eu resisti//ôôô/Vem correndo me abraça e me beija/Vem me dar, todo o chamego//Vem vem dia 20 de novembro/Se todo dia é santo neném/Onda do mar me levou/Me levou, mas hoje estou aqui/Onda do mar me levou/E eu resisti” (Me abraça e me beija)




Em maio de1980 no antológico show de Gilberto Gil e Jimmy Cliff, onde eu era, na época, editor do caderno de cultura do jornal Correio da Bahia e fazia a cobertura,. Lazzo estava presente e ficou arrebatado pela batida do reggae e da força de sua mensagem política. No ano seguinte ele fazia sua estréia solo: “Luz no escuro”, primeiro show de reggae depois de Gil e Cliff.




A primeira música que gravou foi “Salve a Jamaica” (Raí). Em 1983 lançou “Viver, sentir e amar” com a autoral “Do jeito que seu nego gosta”, um dos seus maiores sucessos. Dois anos depois, em São Paulo, vem “Filho da terra”. Nos anos 90 ele lançou dois discos: Arte de Viver (1990) e Nada de Graça (1999) onde registrou músicas como “Alegria da cidade” (parceria com Jorge Portugal) e “Coração rastafari” (Djalma Luz) ou imprimindo sua releitura para “Gostava tanto de você” (Édson Trindade), “A tonga da milonga do kabuletê” (Toquinho e Vinícius) e “Charlie Brown” (Benito Di Paula). Depois vieram outros sucessos marcantes como “Me abraça e me beija” e “Abolição” (parceria com Capinan).



“Tomara, tomara que a chuva/Tomara que a chuva caia logo/Pra molhar você/Pingo de estrela cai do céu azul/Do jeito que seu nego gosta/O jeito molhado do seu corpo nú/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta/Te ver brilhando em meu olhar/Do jeito que seu nego gosta/E te amando peço seu cantar/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta/Cortando espaço de norte à sul/Do jeito que seu nego gosta/Gotas de mel no seu sorriso blue/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta/Te ver brilhando em meu olhar/Do jeito que seu nego gosta/E te amando peço seu cantar/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta/Cortando espaço de norte à sul/Do jeito que seu nego gosta/O jeito molhado do seu corpo nú/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta/Te ver brilhando em meu olhar/Do jeito que seu nego gosta/E te amando peço seu cantar/Do jeito que seu nego gosta/Do jeito que seu nego gosta” (Do jeito que seu nego gosta)




Entre as várias experiências sem sua trajetória se destaca a turnê ao lado de Jimmy Cliff, dez anos depois daquele show da Fonte Nova que foi fundamental para suas convicções político musicais. Foram três anos de 50 apresentações de abertura para o jamaicano, passando pela Europa, Estados Unidos e Ásia, visitando países como a Jamaica e o Senegal, e conhecendo personalidades como Youssou N´Dour e Salif Keita.



Em maio de 2006 ele comemorou seus 25anos de careira com show no Teatro Vila Velha. Teve uma época que o artista montou um bloco sem cordas, o Coração Rastafari, com grande participação popular. Lazzo trocou o abadá por três quilos de alimentos para distribuir com entidades assistenciais. Por causa dessa ação social, foi muito criticado. “A Bahia e o Brasil são ingratos porque valorizam muito mais o que vem de fora do que o que se produz aqui dentro”, disse em uma entrevista.



“Do horizonte vai rasante o meu grito, vai encontrar/aquele negro bonito/Que transava bem o corpo e o espírito, possuído de/amor e conflito/No seu rosto sempre viam sorrindo/ôooo/No teu corpo moço, moço... onde a paz fez abrigo/Foi no teu corpo moço, moço, moço onde a paz fez/abrigo/Sempre amava a mother negra Jamaica/Era um pedaço da nossa mãe África/Ele queria igualdade entre as raças/E batalhava nos palcos de praças/Cantando reggae/Ele era o seu povo rasta/Falando a dor que fere a negra e oprimida raça/A muita gente que não tem cidade/Ele deixou amor, tristeza e saudades/E uma voz que floresce e invade e fortalece o grito de/liberdade/Liberdade, eu grito, eu grito Liberdade/Grito aflito, eu grito ao meu coração Rastafari/Liberdade, eu grito Liberdade... (Coração rastafari)




Foi no show de estreia Luz no Escuro, no Vila Velha que Baby Santiago, outra grande voz, desta vez da rádio baiana, chamou Lazzo para produzir um disco e perguntou-lhe seu nome. Na época seu nome artístico era Lazinho Diamante Negro. Depois, por causa do Ilê, Lazinho do Ilê. E Baby sugeriu Lazzo com dois zes e Matumbi, que segundo ele era uma pedra sagrada da Nigéria. O nome ficou.



“A minha pele de ébano é.../a minha alma nua/espalhando a luz do sol/espelhando a luz da lua (2x)//Tem a plumagem da noite/e a liberdade da rua/minha pele é linguagem/e a leitura é toda sua//Será que você não viu/não entendeu o meu toque/no coração da América eu sou o jazz, sou o rock//Eu sou parte de você, mesmo que você me negue/na beleza do afroxé, ou no balanço no reggae//Eu sou o sol da Jamaica/sou a cor da Bahia/eu sou você e você não sabia//Liberdade Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto//Nosso céu é todo blues e o mundo é um grande gueto//Apesar de tanto não/ tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade/apesar de tanto não/tanta marginalidade, somos nós a alegria da cidade (2x)” (Alegria da Cidade)




“Duas coisas me enchem o saco. Uma é as pessoas ficarem o tempo todo dizendo que ´você canta pra caramba´, mas não me dão a oportunidade de cantar. Isso é de uma demagogia que é bem a cara da nossa cidade, do nosso país. Eu adoro você, mas não lhe dou emprego. Acho você um profissional maravilhoso, mas não lhe chamo para fazer nada. Outra, é quando eu vou visitar um amigo, tô querendo curtir a amizade dele, o momento, e aí vem alguém e pede pra que eu cante uma música. Isso é uma coisa que me aborrece e algumas pessoas ainda dizem: ´esse cara é cheio de pose´. Outro dia eu perguntei a um advogado amigo meu se ele podia bater uma petição, depois que ele me pediu pra cantar. Ele pulou fora...”, disse Lazzo em uma das entrevistas que deu. Verdadeiro!




"Passar quarenta anos, e não se corromper, fazer música de qualidade, com compromisso, músicas que passado todo esse tempo todo mundo canta até hoje, é uma 'responsa' que eu tenho, e que eu preciso devolver ao meu público" disse em uma entrevista ao jornal Correio.


24 janeiro 2020

80 anos de nascimento de Ildásio Tavares




“Não existe hora certa, existe o meu relógio,/Lembrando sempre com seu tic-tac/Que há vida/Para ser vivida,/Que houve a vida/Que não se viveu./Não importa que o rádio renitente ruja/São tal hora e tal minuto,/Hora oficial,/Afinal,/Que há de oficial em minha vida?” (O meu tempo, Ildásio Tavares)



Há 80 anos, dia 25 de janeiro, nascia Ildásio Tavares. Poeta, romancista, novelista, dramaturgo, ensaísta, tradutor, compositor, Ildásio Tavares (1940 – 2010) pertenceu à geração da Revista Bahia, ao lado de Cyro de Mattos, Marcos Santarrita, José Carlos Capinam, Ruy Espinheira Filho e tantos outros.



Ildásio Marques Tavares nasceu na fazenda São Carlos, atual município de Gongogi, região cacaueira da Bahia, no dia 25 de janeiro de 1940, filho de Eduardo Tavares dos Santos e Hilda Marques Tavares. Estudou em Salvador, onde se formou em Direito, e em Letras pela Universidade Federal da Bahia. Fez mestrado na Southern Illinois University, dos Estados Unidos, doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutorado na Universidade de Lisboa.



Publicou artigos de filosofia, cotos, poemas e traduções em revistas da Bahia, Rio e São Paulo. Pouco tempo depois ampliou sua colaboração a Minas Gerais, Pernambuco e Portugal. Seu primeiro livro de poesia, Somente um Canto, foi publicado em 1968 e a esse seguiram outros, de poesia e em prosa: romances, teatro e ensaios.




Entre os livros publicados estão Imago, Ditado, O canto do homem cotidiano, Tapete do tempo, Poemas seletos, Livro de salmos, IX Sonetos da Inconfidência, Lídia de Oxum, O amor é um pássaro selvagem, O domador de mulheres, A arte de traduzir... entre outros. É ganhador, entre tantos prêmios, do Leonard Ross Klein, de tradução; do Afrânio Peixoto, de ensaio; do Fernando Chinaglia, de poesia; e do prêmio nacional do centenário de Jorge de Lima.



Seu trabalho como jornalista compreende participação em vários periódicos, entre os quais, Diário de Notícias, Jornal da Cidade, A Tarde e Tribuna da Bahia. Membro praticante do candomblé, foi consagrado Ogan Omi L’arê, na casa de Oxum, e Obá Arê, na casa de Xangô e no Axé Opô Afonjá. Como  compositor teve 46 músicas gravadas por Vinícius de Moraes, Maria Bethania, Alcione, Toquinho, Nelson Gonçalves e Maria Creusa.




Também foi autor da ópera Lídia de Oxum.com música de Lindembergue Cardoso,  regida por Júlio Medaglia, levada às margens da Lagoa do Abaeté, em Salvador, para um público de aproximadamente 30 mil espectadores. Depois, foi apresentada em diversos palcos brasileiros. Tradutor e professor de Inglês, durante quase vinte anos, serviu-se dessa experiência para o seu livro A Arte de Traduzir. Faleceu no dia 31 de outubro de 2010, aos 70 anos, em razão de um grave acidente vascular cerebral, que resultou em falência múltipla dos órgãos. Grande perda. No meu livro Gente da Bahia, publicado em 1997, selecionei 100 personalidades baianas, incluindo Ildásio Tavares.



Restos (Ildásio Tavares)



Há um resto de noite pela rua

Que se dissolve em bruma e madrugada.



Há um resto de tédio inevitável

Que se evola na tênue antemanhã.



Há um resto de sonho em cada passo

Que antes de ser se foi, já não existe.



Há um resto de ontem nas calçadas

Que foi dia de festa e fantasia.



Há um resto de mim em toda parte

Que nunca pude ser inteiramente.