20 Julho 2009

Ritos do canibalismo em Os Brasileiros

Para quem gosta de histórias em quadrinhos que aprofundam a nossa brasilidade, vale conferir Os Brasileiros (Editora Conrad), do antropólogo e historiador André Toral. Neste álbum ele reúne histórias que desenhou sobre índios publicadas entre 1991 e 2008 e reapresenta o Brasil. O elemento unificador da obra de Toral é a temática do choque de civilizações, que envolve os povos indígenas brasileiros. Choque retratado em diversas manifestações, distantes umas das outras no tempo e no espaço. As histórias contemplam desde os primeiros anos da “colonização” aos conflitos contemporâneos na Amazônia. "Brasileiros é uma condição plural. Por isso que o título está no plural, ele remete a um problema: o que significa ser brasileiro? Não é uma condição única: varia com o período histórico. Os índios não podem ser retratados como vítimas das circunstâncias, porque sempre foram protagonistas da história. Eles tomam decisões ativas, não apenas reagem aos acontecimentos", diz o quadrinista.

Tanto quanto os brancos, os índios são retratados como homens, com seus próprios valores, costumes e práticas. Toral retrata a relação entre as civilizações em momentos críticos, de conflito bélico - seja em meio a guerras, seja nos fazendo acompanhar bandeirantes traficantes de índios ou nos fazendo testemunhas dos crimes que se perpetram nas selvas amazônicas.

André Toral apresenta sete narrações fictícias interligadas apenas pela relação entre brancos e índios no território brasileiro das descobertas até o passado recente. A maior parte da obra retrata os primeiros séculos depois do início da colonização pelos portugueses, quando grande parte do Brasil ainda não havia sido dominado e esta era uma terra sem lei. Esta condição atraiu para cá, além dos colonos lusitanos, toda espécie de marginais e aventureiros que não eram bem-vindos no Velho Mundo. Os europeus viam os índios como meros animais, apenas semelhantes ao homem, por isso podiam usá-los como mão-de-obra e eliminá-los conforme suas necessidades, sem ter que enfrentar nenhum tipo de lei.

VIOLÊNCIA - As ficções de Toral narram o choque cultural e social destas civilizações, mas sem mostrar os índios como vítimas gentis ou criaturas indefesas diante do homem branco, como foram retratadas em clássicos da historiografia brasileira. Partindo da violência sem limites dos bandeirantes, e passando pela fúria predatória dos fazendeiros inescrupulosos até chegar às armadilhas contemporâneas da ganância e do alcoolismo, surgem relatos impressionantes da luta de povos que resistiram e até hoje marcam presença como representantes das sociedades mais antigas e originais que fazem parte da população e da cultura brasileiras.

O paulistano Toral, professor da Faculdade de Comunicações e Artes Plásticas da Faap mostra uma identidade brasileira sempre em movimento. A começar pela violência do Brasil no século 16 através do canibalismo, praticado entre inimigos rituais (tupinambás e tupiniquins). “Nessa guerra de vingança, a violência sistematizada aparece num conjunto cerimonial. Os índios consideravam que ser comidos pelos vermes era uma morte covardes. A morte gloriosa era ser devorado pelo inimigo, era a melhor morte, era o destino ideal para um guerreiro”.

E as histórias mostram como os europeus utilizaram essa característica para obter escravos e em seu proveito. A partir dessas situações a naturalidade da violência vai se incorporando a naturalidade nacional. Em meio a rituais de devoração do inimigo e conflitos sangrentos que se arrastam da Europa até o Novo Mundo, de 1560 até aos grileiros e madeireiros de 2008, notam o quadrinho nacional em plena maturidade.

Os desenhos mais antigos são feitos em nanquim, outros, a lápis. Enquanto o nanquim é a parte do trabalho mais sério, requer mais cuidado, a parte feita em lápis é menos comprometido, e representa mais a “descontração” do meio. A cada história o leitor vai se envolvendo, mergulhando na história. Toral estreou nas HQs em 1986, com história Pesadelos Paraguaios, na extinta revista Animal. Em 1999 ganhou o troféu HQ Mix de roteirista por Adeus, Chamigo Brasileiro. Ele considera que o quadrinhista é um “diretor de cinema em miniatura”, que vive da obsessão hitchcockiana de “controlar tudo, cada pulga de uma cena”.

Essas e outras obras em quadrinhos podem ser encontradas na Galeria Retrô Quadrinhos Cultura e Arte, rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho, Salvador. Telefone 3347-4929.
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um estado d´alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

17 Julho 2009

Maurício de Sousa: “Tudo ficou mais intenso, condensado”

O desenhista Mauricio de Sousa é o criador do personagem infantil brasileiro de maior sucesso em todos os tempos, a Mônica. Numa manobra incomum no mundo dos quadrinhos, ele reinventou a personagem. Na revista Mônica Jovem, já na decima, a menina dentuça e voluntariosa se transformou numa adolescente sensual, que veste minissaia e beija os rapazes na boca. O sucesso da publicação é estrondoso, com 410 000 exemplares vendidos, contra 200 000 que costuma vender o gibi da Mônica ainda criança. A mudança da personagem, alega Mauricio, foi uma forma de se adaptar às transformações de uma sociedade em que a infância é cada vez mais curta. Aos 73 anos, Mauricio de Souza numa entrevista a revista VEJA (04/02/2009)falou do futuro dos gibis. Leia alguns trechos:

Como explicar que os gibis da Mônica adolescente vendam o dobro dos da Mônica criança?
Em cinco décadas, uma mudança extraordinária aconteceu no nosso público. Se antes adolescentes de 14 anos ainda liam e gostavam dos meus gibis, hoje eles começam a deixar de lê-los aos 7. Aos poucos, passam a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e a comprar mangás japoneses. Quando estão com 10 anos, já se assumem como jovens. São os pré-adolescentes, meninos e meninas com preocupações e vontades diferentes daquelas que havia quando a Mônica foi publicada pela primeira vez. A infância, portanto, encolheu. Há mais ou menos cinco anos, comecei a pensar em uma maneira de não perder esses leitores. Minha solução foi oferecer a eles um pouco do universo jovem, que até então era reservado aos mais velhos. Pegamos os tradicionais personagens da Turma da Mônica e os inserimos em histórias com uma boa dose de relacionamento. Eles agora protagonizam cenas de ciúme, sentem atração pelo outro sexo e ficam inseguros no grupo. Estão com os hormônios pipocando e não sabem o que fazer com isso. No quarto número, colocamos a Mônica beijando na boca o Cebolinha, agora chamado de Cebola. Deu supercerto. Crianças de 7 anos voaram para o mangá como abelhas no mel. Leem as histórias e se projetam nos nossos personagens. As meninas não veem a hora de ser como a Mônica jovem: descolada, bonitinha, moderninha.

Estamos perdendo anos preciosos da infância?
Essa melancolia que vejo em muitos adultos não faz sentido. Nada está sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado. A infância diminuiu em quantidade, mas ganhou em qualidade. As crianças de hoje aproveitam mais e melhor o tempo e se tornam cidadãs e se formam como ser humano antes do tempo. Logo, logo, será preciso adiantar as datas para que possam entrar mais cedo na faculdade. Elas fazem tudo ao mesmo tempo e não se queixam disso. Não têm preguiça. Meu filho Marcelinho, de 10 anos, está passando alguns dias em uma cidade pequena no interior da Bahia. Está adorando conviver com um monte de crianças com bagagem cultural diferente. Brinca na rua, nada no rio, anda de jegue e joga bola livremente. A qualidade dessa experiência pela qual ele está passando é fantástica. O Marcelo está fazendo as coisas que eu fiz quando era pequeno. Mas ele não precisa passar vários anos da vida fazendo isso. Pode ficar apenas dez dias. Quando voltar a São Paulo, retornará para as aulas de inglês e será novamente um dos campeões de xadrez da escola. Jogará videogame e assistirá à novela. Então essa experiência na Bahia se somará às outras. É uma vida vibrante. O Marcelo não é excepcional. Todas as crianças hoje o são, mesmo as que moram em bairros pobres e favelas.

O senhor foi criticado quando criou a Mônica jovem?
No Orkut, teve gente dizendo que eu apelei, que estava expondo as crianças a algo nocivo. Pura besteira. Os pequenos não entendem que uma roupa curta ou um decote têm algo a ver com sexualidade. Eles interpretam isso como algo fashion, colorido, quase uma mensagem gráfica. Outros disseram que eu devia estar sob efeito de alguma droga, que eu tinha matado a Mônica. Esquecem ou não percebem que nosso trabalho sempre tem a família como foco principal. Acontece que nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de 5 anos faz isso por ele. É preciso parar de tratar as crianças como seres inferiores, sem senso crítico, sem experiência de vida. Tudo pode virar tema. Não é preciso censurar, apenas deve-se tomar cuidado para usar uma linguagem correta. Em 2004, decidimos que o Xaveco, amigo do Cebolinha e do Cascão, seria filho de pais separados. Ele passaria alguns dias com o pai e outros com a mãe, normalmente. Depois que publicamos a primeira história do Xaveco, nós nos sentamos e ficamos esperando os e-mails e cartas de reclamação. Não houve um único sequer. É um exemplo claro de como o mundo mudou.

O senhor já pensou em criar um personagem rebelde ou fazer histórias para adultos com mais realismo?
Confesso que não saberia fazer isso. Minhas histórias sempre têm uma preocupação, uma proposta de futuro. Tenho para com meus personagens uma atitude parecida com a que exerço com meus filhos. Às vezes, convoco um deles para um sermão, pedindo que se comporte melhor. Muita gente reclama que eu deveria mostrar coisas negativas, como miséria e fome. Também não é a nossa proposta. Durante a II Guerra, todos os personagens dos quadrinhos americanos foram para o campo de batalha. Todos menos o Ferdinando, do Al Capp. Quando perguntaram ao desenhista se o personagem era contra os Estados Unidos, Al Capp respondeu que o soldado que lia o jornal na trincheira não queria saber de guerra. Ele precisava, sim, é de algo gostoso, bucólico, que o fizesse lembrar que tinha um lugar para retornar quando o conflito acabasse. É essa, um pouco, a nossa ideia. Promovemos lazer, entretenimento e diversão. O resto, a criança encontra na televisão ou na esquina.

Com a internet, o celular e a preocupação com o consumo de papel, existe um futuro para os gibis?
O papel pintado ainda vai durar muito tempo. Há uma diferença gigantesca entre a atenção que as crianças dão ao que está no papel e a dedicada ao que aparece nos equipamentos modernos, como videogame e computador. Meu filho Maurício ouve música com três telas ligadas, joga videogame e estuda ao mesmo tempo. Para quem é mais velho parece estranho, mas as crianças de hoje conseguem fazer isso normalmente. Quando uma criança pega um gibi, contudo, ela se isola totalmente do mundo. Fica completamente mergulhada na história. Com isso, o gibi ou o livro ajudam os pequenos a se concentrar. O cérebro deles estabelece uma prioridade, o que é ótimo para o aprendizado e a memória. Se eles lerem gibis cinco minutos por dia, o papel nunca vai desaparecer.
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um estado d´alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Roha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

16 Julho 2009

Da infância a fase atual (4)

Mauricio de Sousa nasceu numa pequena cidade do estado de São Paulo, chamada Santa Isabel. Foi em outubro de 1935. Seu pai era o poeta e barbeiro Antônio Mauricio de Sousa. A mãe, Petronilha Araújo de Sousa, poetisa. Além de Mauricio, o casal teve mais três filhos: Mariza (já falecida), Maura e Marcio. Com poucos meses, Mauricio foi levado pela família para a vizinha cidade de Mogi das Cruzes, onde passou parte da infância. Outra parte foi vivida em São Paulo, onde seu pai trabalhou em estações de rádio algumas vezes. Suas primeiras aulas foram no externato São Francisco, ao lado da Faculdade, no centro de São Paulo. Mas depois continuou estudos no primário e no ginásio, dividindo-se entre as duas cidades.


Enquanto estudava, trabalhou em rádio, no interior, onde também ensaiou números de canto e dança. E, para ajudar no orçamento doméstico, desenhava cartazes e pôsteres. Mas seu sonho era se dedicar ao desenho profissionalmente. Chegou a fazer ilustrações para os jornais de Mogi. Mas queria desenvolver técnica e arte. Para isso, precisava procurar os grandes centros, onde editoras e jornais pudessem se interessar pelo seu trabalho.

Pegou amostras do que já tinha feito e publicado e dirigiu-se para São Paulo em busca de emprego. Não conseguiu. Mas havia uma vaga de repórter policial no jornal Folha da Manhã. E Mauricio fez um teste para ocupar a vaga. E passou. Ficou 5 anos escrevendo reportagens policiais. Mas chegou um tempo em que tinha que decidir entre a polícia e a arte. Ficou com a velha paixão.

Criou uma série de tiras em quadrinhos com um cãozinho e seu dono Bidu e Franjinha e ofereceu o material para os redatores da Folha. As historietas foram aceitas, o jornalismo perdeu um repórter policial e ganhou um desenhista. Essa passagem deu-se em 1959.

Nos anos seguintes, Mauricio criaria outras tiras de jornal Cebolinha, Piteco, Chico Bento, Penadinho e páginas tipo tablóide para publicação semanal - Horácio, Raposão, Astronauta - que invadiram dezenas de publicações durante 10 anos. Para a distribuição desse material, Mauricio criou um serviço de redistribuição que atingiu mais de 200 jornais ao fim de uma década.

Daí chegou o tempo das revistas de banca. Foi em 1970, quando Mônica foi lançada já com tiragem de 200 mil exemplares. Foi seguida, dois anos depois, pela revista Cebolinha e nos anos seguintes pelas publicações do Chico Bento, Cascão, Magali, Pelezinho e outras. Durante esses anos todos, Mauricio desenvolveu um sistema de trabalho em equipe que possibilitou, também, sua entrada no licenciamento de produtos. Seus trabalhos começaram a ser conhecidos no exterior e em diversos países surgiram revistas com a Turma da Mônica. Mas chegou a década de 80 e a invasão dos desenhos animados japoneses.

Mauricio ainda não tinha desenhos para televisão. E perdeu mercados. Resolveu enfrentar o desafio e abriu um estúdio de animação a Black & White com mais de 70 artistas realizando 8 longas-metragens. Estava se preparando para a volta aos mercados perdidos, mas não contava com as dificuldades políticas e econômicas do país. A inflação impedia projetos a longo prazo (como têm que ser as produções de filmes sofisticados como as animações), a bilheteria sem controle dos cinemas que fazia evaporar quase 100% da receita, e o pior: a lei de reserva de mercado da informática, que nos impedia o acesso à tecnologia de ponta necessária para a animação moderna.

Mauricio, então, parou com o desenho animado e concentrou-se somente nas histórias em quadrinhos e seu merchandising, até que a situação se normalizasse. O que está ocorrendo agora. Conseqüentemente, voltam os planos de animação e outros projetos. E dentre esses projetos, após a criação do primeiro parque temático (o Parque da Mônica, no Shopping Eldorado, em São Paulo, seguido do Parque da Mônica do Rio de Janeiro) Mauricio prevê a construção de outros, inclusive no exterior.

As revistas vendem-se aos milhões, o licenciamento é o mais poderoso do país e os estúdios se preparam para trabalhar com a televisão. A par de um projeto educacional ambicioso, onde pretende-se levar a alfabetização para mais de 10 milhões de crianças. A Turma da Mônica e todos os demais personagens criados por Mauricio de Sousa estão aí, mais fortes do que nunca, com um tipo de mensagem carinhosa, alegre, descontraída, dirigida às crianças e aos adultos de todo o mundo que tenham alguns minutos para sorrir, felizes. O criador da “Turma da Mônica” recebeu em 2007 o título de Escritor para as Crianças do Unicef. No ano seguinte foi apontado como um dos dez escritores mais admirados do país, em pesquisa encomendada pelo Instituto Pró- Livro.
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15 Julho 2009

Mauricio de Sousa comemora 50 anos de carreira (3)

O jovem de 73 anos de idade, Mauricio de Sousa está pronto para ampliar seus domínios no campo da diversão e do entretenimento. Consciente de que é preciso ampliar o acesso das crianças à pré-escola, seu foco agora é a Educação. “Para a próxima década vamos direcionar alguns dos nossos produtos com o foco na Educação. Há algum tempo procurei autoridades brasileiras para tentar ajudar num problema terrível. É que 12 milhões de crianças no Brasil têm acesso à chamada pré-escola, e 14 milhões não têm. Chegam à escola sem saber pegar num lápis. Essas crianças despreparadas atrasam as outras em um ou dois anos. E daí vêm evasão, desconforto, desânimo. Eu quero criar uma série de filmes com programas como a Vila Sésamo, que funcionem atendendo às crianças que não têm acesso à pré-escola, mas têm televisão em casa. Montar um show de educação, com base no currículo do Ministério da Educação. A China já me abriu as portas para fazer isso. Vamos atuar como auxiliares da Educação formal. Vamos também atuar na área de livros didáticos ou paradidáticos, e em todos os nossos produtos, com orientação dos nossos pedagogos, vamos ter uma visão voltada para a Educação”.


Segundo Maurício, “tudo o que fizermos agora terá o viés da educação (...) Quem abriu meus olhos foi a China, que me contratou para um projeto de pré-alfabetização para 180 milhões de crianças”. O governo chinês passou uma lista com “mandamentos” sobre o que deveria estar nas histórias: respeitar os mais velhos, ser educado etc. “Tudo o que minha família havia ensinado sobre comportamento”, conta Maurício. Não haverá mudança no tema das histórias para aproximá-las da cultura chinesa. A primeira revista a ser apresentada, inclusive, narra o Descobrimento do Brasil.

O quadrinista irá desenvolver materiais da Turma da Mônica para as crianças chinesas. Os livros, impressos ou disponíveis na internet, atenderão cerca de cem milhões de jovens só em Xangai e outros milhares de estudantes por todo o país. "Os personagens brasileiros irão ajudar os pequenos a se interessarem pela leitura", completou Mauricio. Essa não é a primeira participação de Sousa no mercado editorial chinês. Ele já editou em mandarim o livro infantil Descobrimento do Brasil, em 2007.Há também um outro projeto voltado para crianças brasileiras por meio da TV, com uma série de 60 programas educacionais.

As revistas editadas na China pertencem a uma série didática que inclui temas como "Fenômenos da Natureza", "Futebol", "Meio Ambiente " e "Imigração". “Não há uma periodicidade definida ainda, mas já foram lançadas cinco edições e vem mais por aí”, explicou o diretor de Planejamento Editorial da Mauricio de Sousa Produções, Sidney Gusman. “O mercado chinês tem um potencial muito grande, mas como a ‘Turma da Mônica’ adora desafios, o Mauricio já está pensando em outras possibilidades de negócio no país“, disse Gusman.

Maurício de Sousa afirmou acreditar que a China é um mercado potencial para os seus produtos. “O primeiro sinal eu percebi há muitos anos, quando participei de um festival de desenho animado promovido por uma emissora de TV de Pequim. Enviei o único material que eu tinha na época e foi um grande sucesso”, lembrou. O empresário disse ainda que recebeu um convite para “negociar a série de desenhos animados” dos seus personagens, mas ainda não tinha esse projeto desenvolvido. Em relação à diferença do idioma e da cultura entre Brasil e China, o cartunista afirmou que as crianças “são iguais em todos os países”. Além disso, ressaltou que parte do interior do Brasil é “parecido com as regiões rurais da China”.

No Brasil, o grupo vende mensalmente cerca de 2,5 milhões de revistas em quadrinhos com os personagens criados há quase 50 anos. Além de exportar as publicações para cerca de 50 países, a Maurício de Sousa Produções tem por volta de 3.000 produtos licenciados. Segundo Maurício de Sousa, as versões internacionais das revistas são comercializadas pelo escritório do seu grupo em Nova York, que também cuida das traduções para os países onde o material circula
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14 Julho 2009

Mauricio de Sousa comemora 50 anos de carreira (2)

Para começar as comemorações dos 50 anos de carreira, no dia 18 de julho, às 22h, o canal de TV a cabo The Biography Channel irá estrear o documentário “Biography: Mauricio de Sousa”, que traça um perfil do artista e traz entrevista com fãs e outros desenhistas dos quadrinhos como Jim Davis, criador do Garfield. No dia seguinte, 19 até o dia 18 de agosto, no MuBE, em São Paulo (Av. Europa, 218, Jardim Europa), abrirá a exposição “Maurício 50 anos” que fará um apanhado da trajetória do artista, divididos em duas partes: uma sobre a carreira do quadrinista, reunindo tiras e personagens, dos clássicos aos menos famosos, e outra com releituras de quadros e esculturas de Leonardo da Vinci, Rodin e Michelangelo, “adaptados” com personagens da Turma da Mônica..

A antologia MSP 50 - Mauricio de Sousa por 50 Artistas Brasileiros, reunirá interpretações de 50 desenhistas brasileiros para os personagens da Turma da Mônica. A obra, com 200 páginas, terá participação de Spacca, Laerte, Ziraldo, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, entre outros. E deverá ser lançada em setembro, durante a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro.

Ainda na programação de eventos tem o livro Bidu 50 Anos, coletânea de histórias do primeiro personagem de Mauricio de Sousa. A edição trará a reimpressão de Bidu # 1, gibi publicado em 1960 pela Editora Continental. O lançamento também deverá acontecer em setembro, na bienal carioca.

Site Máquina de Quadrinhos, em que as crianças terão a oportunidade de criar HQs da Turma da Mônica por meio de um banco de dados com imagens de personagens, cenários e outros elementos. As melhores histórias poderão ser publicadas nas revistas da turma do Bairro do Limoeiro. Deverá entrar no ar em agosto.

Está programado ainda um livro ainda sem título, contando a trajetória artística do criador da Turma da Mônica. Lançamento previsto para dezembro. E um CD Maurício, 50 anos de música, com as melhores canções já feitas para shows, desenhos animados, campanhas institucionais e programas especiais de Mônica e seus amigos.

PROJETOS

Sobre seus novos projetos Maurício confessou: “Vamos dar uma renovada na nossa produção de filmes. Fiz um contato com estúdios do mundo todo, e vamos começar a fazer co-produção. Um estúdio só te limita a fazer um projeto, e isso não atende à demanda do mundo. Eu tenho que fazer um filme em co-produção com chineses, outro com italianos, outro com americanos… Estamos planejando o Penadinho em computação gráfica, para a televisão; e Astronauta, também em três dimensões, para ser visto com óculos. A Turma da Mônica vai virar “Romeu e Julieta” para cinema; depois, Horácio. Chico Bento, também virá em computação gráfica. E em Roma vamos fazer Ronaldinho Gaúcho”.

“Ronaldinho é um sucesso danado no mundo - embora aqui não seja tanto. Só em revistas está em 32 idiomas diferentes, e a Mônica em 20. Veja a força do futebol. Por isso mesmo estou sugerindo que o Pelezinho seja o mascote do campeonato do mundo em 2014, no Brasil. Estamos atirando em todos os lados que nos é permitido. E eu estou preparando terreno para poder delegar um pouco mais na empresa, e voltar a fazer o que gosto: tira de jornal, que me fascina”.

Sobre a queda no índice de leitura ele foi enfático: “A Mônica Jovem é a revista de mangá mais vendida no mundo, hoje. O pessoal vai à banca de jornal e faz reserva para garantir seu exemplar, antes que acabe. A criançada não está lendo? Não concordo. E lê mais também por causa da internet. Meus netos hoje escrevem, se comunicam mais do que meus filhos. Vendemos quase três milhões de exemplares da revista tradicional da Turma da Mônica, e vamos chegar a cinco milhões. Quatro pessoas leem cada revista, é só multiplicar. As crianças e os jovens leem, mas é preciso chegar à revista, ao livro, o bom produto, a mensagem interessante, curiosa, bem escrita, e com bom preço, para estimular ainda mais a leitura. Quem lê fala e escreve melhor”.

Ao perguntar sobre o crescimento da Mônica para atingir uma faixa de público diferente ele informou: “É que a infância começou a encolher. Aos sete, oito anos, as crianças começaram a ir para o mangá japonês, e abandonar a Turma da Mônica tradicional - embora depois, quando as pessoas casam, indicam para os seus filhos. Pensei: já que elas gostam de mangá e também da Turma da Mônica, vou juntar as duas coisas. Aí nasceu a Turma da Mônica, meio mangá. E deu certo. Tanto que já tem concorrente na nossa cola”.
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13 Julho 2009

Mauricio de Sousa comemora 50 anos de carreira(1)

Para comemorar os 50 anos como quadrinista, Maurício de Sousa organizou uma série de eventos como o lançamento de uma exposição, um livro em que 50 quadrinistas brasileiros reinterpretam a Turma da Mônica, CD com músicas dos personagens, documentário e anuncia qual caminho seguirá daqui para frente. Foi no dia 18 de julho de 1959 que uma tira em quadrinhos publicada na Folha da Manhã trazia a estréia dos personagens Franjinha e Bidu criados pelo então repórter policial Maurício de Sousa (MS). De lá para cá ele não parou mais de desenhar e hoje cerca de 16 revistas com a assinatura de MS chega, às bancas brasileiras.

Os 50 anos serão comemorados ao longo de um ano, a partir de 18 de julho, com eventos diversos. Um dos mais originais será a publicação do livro "MSP 50", que significa "Mauricio de Sousa Por 50 Artistas Brasileiros", um trocadilho com a sigla da empresa, Mauricio de Sousa Produções. O livro contará com gente como os baianos Cedraz (Xaxado), Cau Gomez (cartunista de A Tarde) e Flavio Luiz (Aú, o Capoeirista); Fábio Lyra (Menina Infinito), Samuel Casal (Prontuário 666), Spacca (Jubiabá), Fábio Moon e Gabriel Bá (O alienista), Jean Okada (Exploradores do Desconhecido), Rafael Sica (Picabu), José Aguiar (Folheteen), Renato Guedes (Super-Homem), Vinicius Mitchell (Irmãos Grimm em quadrinhos), Ivan Reis (Lanterna Verde), Ziraldo (Menino Maluquinho), Laerte (Os piratas do Tietê), Lelis (Cidades do Ouro) e Fernando Gonsales (Níquel Náusea).
De fato, aos 73 anos e pai de dez filhos, Mauricio de Sousa busca informações no seu dia a dia. "Quando comecei, jovem ainda, a única experiência que realmente dominava era a minha relação com um cãozinho, daí o Bidu ter sido o primeiro personagem. Em seguida, ao observar o comportamento das minhas filhas, consegui me sentir seguro para criar a Mônica, a Magali. E hoje ainda observo os pequenos e suas relações com a tecnologia para ficar sempre atualizado."
Foi a partir de tal observação que Mauricio vislumbrou o passo seguinte à Turma da Mônica, ou seja, iniciar uma coleção com os personagens já adolescentes. Mais: notou a voracidade com que os jovens brasileiros devoravam quadrinhos em mangá e decidiu criar a Turma da Mônica Jovem que, agora em seu décimo número, tem uma tiragem média de 200 mil exemplares. É pela editora Panini que Mauricio desdobra seus projetos, que incluem livros e coleções. Antes, ele passou pela Editora Abril, onde começou a publicar em 1970, e Globo (1988). "Foram grandes parceiros mas, em um determinado momento, senti falta de mais fôlego nos investimentos."
Ele, de fato, é insaciável. Depois de uma frustrada negociação com a TV Globo nos anos 1990, Mauricio pretende retomar a produção de desenhos para telas pequena e grande. Na televisão, ele negocia com o canal Discovery um programa com bonecos, semelhante ao Vila Sésamo. No cinema, o esquema envolve parceria com produtoras de diversos países, cada uma cuidando de um personagem. "Assim, teremos vários filmes em um mesmo tempo." E os quadrinhos continuam na pauta: já há um projeto de histórias do Penadinho com o traço tridimensional. "Quero agora investir em educação", conta Mauricio, que já acertou com a China conteúdos sobre a história do Brasil. "Eles se interessaram, por exemplo, sobre o descobrimento do nosso País. Quero fazer isso também aqui."
Maurício em números:
1 bilhão de revistas publicadas
3 mil produtos licenciados
7 vezes campeão do prêmio Ibest, como melhor site infantil brasileiros
12 filmes já foram produzidos
50 idiomas traduzidos
120 é o número de países que publicam as revistas
200 mil foi a tiragem da primeira revista da Turma da Mônica
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um estado d´alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Roha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

10 Julho 2009

Poesia, poesia, poesia para melhorar o dia-a-dia

Apanhador de palavras


Sou um apanhador de palavras
encostadas em um livro qualquer
uso para compor meus silêncios
repor meus sentimentos
e reunir meus tormentos.


Quero secar as palavras
molhadas em meus sentimentos
controlar as lágrimas
que correm sofregamente.


Umedecendo minha alma
prestes a desaguar rio acima
tipo de doença que rói
e rói silenciosamente.


As palavras voam e a escrita permanece
é o que garante o adágio vindo do latim
escrita é que nem ódio, só envelhece
e o amar nunca se esquece, é que nem prece.



Decifrar segredos

Quero me alfabetizar
para decifrar seus segredos
lampejos, apelos, tormentos
tudo dentro de um só tempo.


E a sua letra esférica
De caligrafia corrida
escrevendo em minha pele
toda minha vida sentida.


E a felicidade inside
na fragilidade da natureza revolta
Amores, odores, sabores, tudo flores
No amanhecer de todas as coisas


Sei que sem você não existo.


Queria tirar os pés do chão
amar com intensidade
para voar com os pássaros
livre, volto, na imaginação.


Espero que você capte a essência
e que sua sensibilidade não morra na superfície
ao grudar em meu corpo para esquentar minha alma
você possa sentir o pulsar suave
a dor insustentável
a tristeza cortante
a vida transbordante
dessa minha solidão.



Desejo da alma

Para acessar minha alma
é preciso acionar os cinco sentidos
expondo meu corpo em movimento
adentrando no pelo da pele
no traçado do toque e dos gestos
um manifesto
no cheiro amiscado do meu tato
um fato
no gosto salgado do meu suor
não se afogue no lençol
na visão transparente da ruptura
sem amargura
na audição sussurrada das palavras
gemidas, desgovernadas
para sentir minha energia
entre o limite do interno e externo
a única vida que pulsa
expulsa a razão
transborda o coração
para viver de emoção
pura paixão.



Tatuagem

Quero tatuar na minha pele
Todas as formas de seu corpo
Que minha visão excita
Meu paladar agita
Meu tanto transmita
Minha audição incita
E meu cheiro infiltra
Tudo isso circulando em corpo
Como energia nos limites entre a cabeça e os pés
Maremotos, incêndios, tempestade
Quero estar agora no por do sol de fim de tarde
De um céu transmutado de vermelho em abismo alaranjado
Inflamado no caráter dionisíaco de sua nudez
E a minha flaxidez se infla, se retesa em flecha
Entre as formas arredondadas de seu corpo febril
E rios de energia escorrem entre montes-seios
Até o vale-púbis sobre o branco colchão
E os corpos fundidos em corrosões
Ondas de energias fagulham filosofia
É a vida, é a vida, é a vida
Num êxtase de sensação desmedida.


Linguagem

Fale comigo
na linguagem do amor
no esboço de um sorriso,
de um afeto e não de dor.


Fale comigo
na linguagem do olhar
do brilho da retina
que não esconde o desejar.


Fale comigo
na linguagem do tocar
de sentir sua mão em meu corpo
deslizando sem parar.


Fale comigo
na linguagem do sentir
o cheiro doce de ervas
perfumando meu jardim.


Fale comigo
Na linguagem de sinais
no acervo do seu corpo
que não esquecerei jamais.


Escrita

Não sei porque
Preciso tanto escrever
Para poder viver.
E com toda essa escrita
É a minha voz que grita
Esperando por você.


Utilizo um mar de letras
Para conseguir na sarjeta
Minha voz interior
E no fim dessa história
Tantas lutas, tantas glórias
Numa vida sem pudor.


Agora me dê licença
Não vou descrever a crença
Que me faz superar.
É que de tanto escrever
Eu só penso em você
Para poder sobreviver.



Quem desejar adquirir o livro Bahia um estado d´alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Roha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

09 Julho 2009

Contexto Midiático, obra de Sérgio Mattos, expõe o jornal, a rádio, a tevê e a internet

Para celebrar o bicentenário da fundação da imprensa na Bahia, em 2011, o jornalista, poeta e professor Sérgio Mattos lança uma obra com reflexões sobre políticas nacionais de comunicação, projetos pedagógicos e os impasses conceituais com que se defrontam professores e estudantes do campo midiológico. Trata-se de O Contexto Midiático, livro publicado pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), José Marques de Melo, no prefácio do livro, “produzidos no período 1982-2007, os estudos que formam esta coletânea estão amalgados pelo fator que os interliga dialeticamente, bem explícito na palavra-chave do título: contexto. Trata-se do contexto pressentido por seu mestre McAnany: a globalização que perpassa a conjuntura pós-guerra fria, projetando-se, no espaço brasileiro, através da tumultuada reconstrução democrática”.

Dividido em cinco partes, o primeiro aborda conceitos e tendências, refletindo sobre o contexto teórico e histórico da periodização da televisão (definindo as fases do desenvolvimento histórico da tevê brasileira): Multimídia – uma nova revolução da informação mostra o impacto das novas tecnologias na mídia, considerando-se a influência da Internet no jornalismo e na televisão; a convergência das mídias, as redes pessoais e o profissional multimídias; as tendências; O papel social do rádio: a mão dupla da comunicação, levanta questões que levam a refletir sobre o papel social das emissoras de rádio educativas; E os efeitos da publicidade: uma introdução ao debate.
A segunda parte do livro (A Censura, o estado e os Meios de Comunicação) está dividido em três capítulos. O primeiro aborda O Estado e os meios de comunicação: o controle econômico. Segundo o professor Mattos, “como reflexo direto do modelo de desenvolvimento econômico adotado, a indústria publicitária do país cresceu tão rapidamente que, hoje, o Brasil está entre os dez maiores países do mundo em investimento publicitário. Como resultado da política do governo de entregar suas contas de publicidade apenas para agências nacionais, em 1980, sete das dez maiores agências do país eram domésticas. Em resumo, a influência do Estado no desenvolvimento da indústria publicitária tem sido realizada através da legislação (contra e a favor), como também pela sua participação direta na economia. Como resultado dessa participação, o governo se transformou no maior anunciante individual do país. Como anunciante, o Estado tem contribuído de várias maneiras para o crescimento do setor publicitário, além de ter aumentado o seu poder de pressão e controle sobre o meio de comunicação”.
O segundo capítulo, Mecanismos de controle da informação e da cultura, discute a atuação do Estado como entidade reguladora dos fluxos informativos e da difusão cultural na sociedade, por meio da legislação, dos subsídios e da seleção e ou indução de conteúdos. Um balanço sobre os instrumentos de censura no Brasil identifica os instrumentos de controles utilizados pelos regimes constituídos a partir da segunda metade do século XX, e as novas formas de censura praticadas no dia a dia, tanto pelo cidadão como pelo governo.

Educação, Jornalismo e Comunicação. Três assuntos discutidos e analisados na terceira parte. A começar por Freire e a natureza política da educação onde o educador revela a “politicidade da educação” e a “educabilidade do político e do ato político”. Em Proposta de Trabalho para a UFBA (1988-1992) ele expõe a plataforma de reforma da UFBA quando se inscreveu como candidato reitor (1987). Estatuinte para a UFBA e Universidade de Verdade são artigos que complementam suas propostas. Meio de comunicação a serviço da educação (pedagogia dos meios) ele mostra a luta para engajar nossas escolas no processo tecnológico de nosso tempo, procurando desenvolver tecnologias alternativas para usufruir os benefícios dos meios de massa no processo ensino-aprendizagem. Afinal, educação é a solução para todos os nossos problemas, conclui. Ensino do Jornalismo: sem integração entre a teoria e a prática não haverá solução estimula o debate sobre o ensino do Jornalismo e sua prática laboratorial.. E Vinte anos de conquistas que deram respeitabilidade à comunicação ((1957-1977) mostra a expansão da industria cultural devido à criação, nas universidades, das escolas de Comunicação, que se multiplicaram por todo o país.
A quarta parte da obra, Contribuição Ético-Profissionais aborda a ética na mídia e na saúde, e a trajetória de sucesso de Roberto Marinho, responsável pela implantação das Organizações Globo. A quinta e última parte analisa a televisão na Bahia, e singularidade regional – A Tare Municípios: uma experiência jornalística voltada para o municipalismo.
Autor de inúmeros trabalhos acadêmicos, Sérgio Matos já lançou obras como “O vigia do tempo” ('977), “Estandarte” (1995), “Mídia controlada: a história da censura no Brasil e no mundo” (2005), “Memória da imprensa contemporânea da Bahia” (2008), “Amadeu, um bandido nordestino” (2008) e “Só Você pode Jayme – um perfil de Jayme Ramos de Queiroz” (2009). Segundo a presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Consuelo Pondé de Sena, na orelha do livro, “esta obra tem tudo para agradar aos jornalistas e comunicadores, não só pelo conteúdo histórico, mas especialmente por tratar de assuntos poucos explorados, a exemplo de Á censura, o Estado e os meio de comunicação´, tão presentes no passado quanto nos dias de hoje (...) Expõe, também, sua visão da mídia regional, trazendo à consideração dos leitores da Bahia a televisão no Estado, além da sua experiência como editor de A Tarde Municípios”.
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um estado d´alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Roha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

08 Julho 2009

Uma turma que chegou para ficar

Tudo começou nas salas de aula, do contato com tantas crianças, daquela algazarra gostosa do dia-a-dia na escola, do zum zum zum juvenil. Parecia que ele estava dentro de um gibi que tanto gosta de ler junto com os livros desde garotinho. Assim Luis Augusto teve a idéia de criar uma história em quadrinhos cujo foco é o universo infantil em toda a sua diversidade, abordando questões como diferenças físicas e sociais, paixão, ciúme, traquinagem, entre outras. E tudo com espaço para alegria, fantasia, sonho, dor, tristeza e a luta para continuar a viver. O que Luis Augusto faz é mostrar a criança primeiro como cidadã, como ser presente e atuante, seus direitos, deveres e responsabilidade com muito senso de humor. E haja humor em cada tirinha!.

O primeiro as saltar do papel para os quadrinhos e depois os livros infantis e até desenho animado foi Lucas, um garotinho que não sabe falar. O menino que já carregava a responsabilidade de representar a mudez social da infância sem perder a doçura agradou a todos. Lucas é apaixonado pelo esporte: joga futebol, anda de skate com o amigo Pedro Souza e adora viajar nas palavras. Ah!, ele também gosta de sonhar, olhar para as estrelas e tentar imaginar quantas delas estão olhando para ele... Além de frequentar a escola, de fugir da Carolina (e se Lucas não fala, Carolina fala pelos dois, diz o que pensa e fala sem pensar), nosso garoto acompanha o dever de casa dos gêmeos (Vitor e Gabriel) e ganha uns trocados tomando conta do Luís Fernando, o filho do vizinho.
Os gêmeos Vítor e Gabriel têm imaginação para o resto da vida e estão nas tiras para contestar e transgredir, como as personagens mais velhas já não conseguem fazer. “Imaginação é a arma mas eficaz para uma infância trancada entre as quatro paredes de um apartamento de classe média, numa cidade como a nossa”, disse o autor. Caio em sua cadeirinha de rodas levanta poeira e polêmicas sobre nosso direito de ir e vir, sobre os livros que a professora lê na escola, e sobre a escola, que roda, roda sem sair do lugar. Ele sabe brigar por seus direitos e dizer o que pensa com tranquilidade
Um outro garoto prodígio é Leandro, o melhor amigo do Lucas. Ele tem uma enorme capacidade de ser criança, sonhar e acreditar nos seus sonhos. Sonhar é bom... Ele é judeu, frequenta a sinagoga e deixa o rabino com os cabelos ainda mais branco. Assim é Leandro, uma criança doce que brinca sem pressa de crescer, e ele está sempre de olhos arregalados, admirado com o novo, e tudo é novo para ele.
Quem gosta de barulho deve conhecer Winnie, irmã mais nova do Martin. Ela é bem diferente do irmão mauricinho. Enquanto Martin passa horas na frente do computador, Winnie treina para sua vida política, fazendo discursos para suas bonecas ou meso passeatas no playground. Tem ainda a romântica Mirela, a sonhadora Lívia, o filósofo Rafael que confessa sua paixão pela Natália, a vaidosa que vive organizando desfiles e apresentações de moda.
A turma conta com Félix, sempre achando que existe algo de ruim atrás de tudo de bom que lhe acontece; Diogo, menino de rua que tem tanto medo das pessoas quanto as pessoas tem dele; Ícaro que apareceu nos sonhos de Lucas e é um grande mistério da turma, e muitos outros. Os personagens discutem, com bom senso, algumas questões sérias do dia a dia. São diversas crianças que fazem parte do Fala Menino!, exemplo de dignidade humana, de vida. Os traços são firmes com personagens bem delineados e roteiros precisos e profundos. Assim é o trabalho do professor, arquiteto, desenhista e escritor Luís Augusto que já espalha sua criação para todos os estados brasileiros. Confira então essa seleção de suas melhores tiras, leia, reflita e se divirta.

07 Julho 2009

Quadrinho que fala ao coração e chega na consciência

Lucas é mudo, mas sempre consegue passar o seu recado. Caio é cadeirante e sabe lidar muito bem com a trajetória da vida. Rafael é deficiente visual que gosta de filosofar sobre tudo o que ainda não viu, mas enxerga o mundo de uma perspectiva lúcida. Mateus é autista e consegue entender o que está em sua volta. Leandro, o melhor amigo de Lucas, é um garoto judeu super ativo e cheio de imaginação. Essa é uma turminha muito especial. Faz parte da tirinha Fala Menino!, do cartunista e escritor baiano, Luis Augusto Gouveia. Os personagens possuem necessidades especiais, mas os traços de Luis Augusto não caem no arquétipo da cartilha contra o preconceito. Mesmo com limitações físicas, as crianças não permitem que isso impeçam de realizar as ações típicas da infância como as brincadeiras, as paqueras, os sonhos. Tudo isso com uma dose de humor e otimismo. Uma turminha que tem que lidar com os dilemas da infância, dialogando com o mundo dos adultos de um jeito muito especial.

Desde 1996 que Luis vem publicando suas tiras diárias no jornal A Tarde. Ao colocar luz sobre a infância e juventude da garotada, Luis Augusto desmistifica e dá dignidade ao personagem. Em termos de inclusão e exclusão, Augusto mostra como as crianças ouvem o som do mundo, sente os perfumes, o calor do toque, do abraço amigo e sugere a inclusão, onde todos se tratam de igual para igual. Se seus personagens possuem limitação visual e/ou auditiva, são crianças felizes e com capacidade de sentir o mundo. O objetivo é falar sobre diferenças e deficiências. As crianças não nascem com preconceito, mas vão adquirindo no decorrer da vida, então o artista trabalhar na infância para ter uma sociedade melhor.
DIVERSIDADE - Assim é o trabalho criativo de Luis Augusto, discute o relacionamento do mundo adulto com a infância apresentando a diversidade do universo infantil e contribuindo para que a criança tenha voz atuante na sociedade. Reflexivo, contemplativo e incisivo.“Com a honestidade da perspectiva infantil, falar da criança como o ser inteligente e crítico que é, capaz de discutir o comportamento adulto. E junto com o Lucas, discutir o relacionamento do mundo adulto com a infância, talvez o único momento da vida em que somos quem nascemos para ser, sem tantas máscaras sociais, sem tantos preconceitos”, diz o autor. O Fala Menino! nos conta de diferenças físicas ou sociais, de superação de limites, de inclusão, de responsabilidade social com a naturalidade das lições que apenas a infância sabe dar.
Os desenhos de Luis Augusto Gouveia foram premiados pela UNICEF, inclusive no Prêmio Ibero Americano de Comunicação pelos Direitos da Infância. A tira está sendo publicada no jornal A Tarde, além de vários livros editados e uma série de desenhos animados de 15 capítulos (de 45 segundos cada) que ficou no ar na programação das emissoras baianas.
O que chama atenção nos quadrinhos de Luis Augusto é sua perspectiva nova em termos de linguagem, conteúdo e forma. Refletir e expressar o seu tempo é essencial para o desenhista. Ter consciência de sua época. Como expressar seu mundo, de que formas dispõe para a execução e que posições tomar frente à realidade do momento. Essas são perguntas que muitos desenhistas se fazem a todo instante, uns mais outros menos. Uma obra de arte significa sempre uma tomada de posição do artista perante a vida. Aqueles que procuram uma arte de consumo fácil, de puro ócio, dificilmente seu trabalho resistirá ao passar do tempo. O de Luis Augusto vai atravessar gerações, porque além de falar ao coração, chega junto na consciência, o que é essencial. Promove dignidade e emancipação das pessoas especiais.
Antes de se formar em Arquitetura e Urbanismo, em 1994, já trabalhava com arte educação em escolas da Bahia. Trabalhou com Ziraldo fazendo histórias para a revista O Menino Maluquinho, da Editora Abril. Em 1989, publicou a tira Liu e o Mágico do Sobaco, lançou o fanzine Calouro humano. A seguir produziu uma série de quadrinização de músicas da MPB publicada em forma de revista, a MPB em HQ. Em 1995, recebeu Menção Honrosa no 1º Concurso Nacional de Histórias em Quadrinhos da Academia Brasileira de Artes, em São Paulo, com a história Hamlet na Varanda. Fez ilustrações em Nova York, desenho animado em São Paulo (participou da animação do clip da música “Tieta”, de Caetano Veloso), e tem trabalhos publicados em todo o Brasil. Da sua experiência como Arte-Educador nasceu o “Fala Menino”, obra pela qual ganhou o Prêmio HQ Mix de Melhor Álbum Infantil (1997) e Menção Honrosa na Categoria Trabalhos Gráficos, outorgado pela Unicef (1999). O antigo estudante de Arquitetura seguiu de vez sua vocação para desenhista.

06 Julho 2009

O mundo pelos olhos das crianças

Desde sempre, as crianças se destacaram nas histórias em quadrinhos. Mas o termômetro do sucesso desses personagens foi indicado pelo público leitor. O alemão Wilhelm Busch criou, em 1865, dois garotos travessos, Juca e Chico. Mas a primeira criança que deu impulso à nova arte foi sem dúvida Yellow Kid, o Garoto Amarelo, criado em 1895 por Richard Outcault. Inspirados nos personagens Juca e Chico, Rudolph Dirks começou a publicar, em 1897, as trapalhadas dos Sobrinhos do Capitão. Em 1912, Richard Outcault lançou Chiquinho (Buster Brown). Em 1905, Wilson McCay fez surgir O Pequeno Nemo com desenhos surrealistas e oníricos.

Se nos EUA o apoio ideal da HQ foi no jornal diário para adultos, na França quem desempenhou o mesmo papel foi a revista infantil. E no Brasil, as revistas de humor. Em 1924 Harold Gray cria uma garotinha de cabelos encaracolados e olhos vazados: Aninha, a Pequena Órfã. Em 1929 Hergé criou o adolescente Tintin e seu cão Milu em viagens pelo mundo. 1931 surgiu o trio Reco Reco, Bolão e Azeitona, de Luiz Sá na revista Tico Tico. 1943 Marge lançou Luluzinha e Bolinha. 1950, Charles Schulz, inspirado, criou o incompreendido e desprezado Charlie Brown em seu Peanuts. 1951 nasceu Dennis, o Pimentinha de Ketchan. 1960 Ziraldo lançou a revista Pererê, o melhor exemplo de brasilidade que temos nos quadrinhos. Mauricio de Sousa publicou as tiras de Bidu, Cebolinha, O Astronauta. Em 1964 inspirada em sua filha ele criou Mônica, e o argentino Quino deu vida a terrível e questionadora Mafalda. Em 1984 o irreverente Menino Maluquinho, de Ziraldo, sai das páginas do livro para os quadrinhos.
Existem outras crianças nos quadrinhos, muitas outras. Mas, em grande parte, colocadas de modo idealizado, sem problemas. Em dezembro de 1996 estreou nas páginas do jornal A Tarde a tira diária Fala Menino!, de Luís Augusto Gouveia. Trata-se da primeira série de quadrinhos que enfoca o universo infantil chamando a atenção para toda a diversidade que neste existe, onde há lugar para alegria, fantasias e sonhos, mas também para momentos de dor, tristezas, perdas e diferenças... deficiências. São histórias de crianças, das quais algumas são portadoras de necessidade especial, que vivem as mais divertidas aventuras em casa, na rua ou mesmo na escola. Tudo com muita reflexão. Onde a deficiência é apresentada não como algo desejado, mas que é superada. Assim surgiu Lucas e sua turminha. Lucas é mudo, porque não sabe falar. E, entre muitos, ele é amigo da surda Mirela, do cego Rafael e do autista Mateus.
Tratar, nos quadrinhos, de crianças “deficientes”, que o autor prefere chamar de “portadoras de necessidades especiais” requer muita sensibilidade, habilidade e criatividade para não cair no tom piegas. Mas as aventuras desses pequenos que pintam e bordam a todo momento e fazem barulho como todas as crianças são resultados do convívio de Luís Augusto com centenas de crianças, entre elas, meninas e meninos autistas e portadoras de vários tipos de deficiências. Com este contato direto, e muitas pesquisas, ele percebeu que as crianças convivem, muito bem, com as diferenças e as dificuldades. E viu mais: elas sabem superar limites (seus e dos outros) sem culpas ou piedade. Essa turminha sapeca convive muito bem com a diferença.
O que Luís Augusto está fazendo é mostrar a criança primeiro como cidadã, seus direitos, valores, o respeito, carinho e amizade, tudo com muito senso de humor. Nas entrelinhas diz muito mais: a mudez de Lucas pode ser uma metáfora que representa a mudez social da criança. Quantas vezes os adultos não têm paciência de ouvir o que os pequenos tem a dizer. Se no início escrevi que Fala Menino! trazem histórias sobre crianças deficientes, estava errado. São histórias sobre crianças. Crianças que superam, seja um simples problema de matemática, ou mesmo uma surdez de nascença. Os limites de cada um entram no contexto para realçar a capacidade do homem de ultrapassar obstáculos para ser feliz. Assim, o limite traz, sempre, potenciais a serem desenvolvidos. São histórias sobre NÓS!.
E o próprio autor superou todos os obstáculos em publicar seus desenhos, enfrentando os quadrinhos estrangeiros que invadem quase todos os nossos espaços, superou a falta de visão de muitos editores que não acreditam no tema abordado, superou a tudo e a todos porque acreditou no que fazia. E foi com os olhos de criança que conseguiu enxergar esperanças nesse mundo de contrastes e incertezas. Com os olhos brilhando de verdades que conseguiu atingir crianças e adultos, redescobrindo a vida e o mundo. É preciso espalhar essas sementes com urgência para todos. Desde as crianças até aos mais idosos.
Suas histórias são exemplo de dignidade humana. Exemplo de vida que merece ser divulgado a todos, professore, médicos, engenheiros, psicólogos, donas de casa, pais e filhos, todos formadores e multiplicadores de opiniões. Com traços firmes, personagens bem delineados e roteiros precisos e profundos, o professor, arquiteto, desenhista e escritor Luís Augusto espalhou seu aprendizado na Bahia e já atingiu muitos outros estados. É preciso observar o amadurecimento e a evolução de seu trabalho. Desde a primeira tira publicada durante o ano de 1997 o que se nota é o crescente equilíbrio entre roteiro e imagem, e o constante desenvolvimento da personalidade das crianças. Esse eterno aprendiz sabe das coisas, sabe da vida, e passa tudo isso em seus quadrinhos. Nós agradecemos por essas preciosidades diárias que são publicadas no jornal e que agora estão reunidas em livro. Vale a pena conferir.
Do convívio diário com crianças de escolas particulares de Salvador e, principalmente de seu trabalho junto às meninas e meninos autistas e/ou portadores de necessidades especiais, que surgiu a turminha do Fala Menino!. Lá, Luis Augusto percebeu que as crianças convivem muito bem com as diferenças e dificuldades e, o que é mais importante, sabem superar limites.
O autor consegue despertar no leitor o sentido de cidadania, fazendo-o refletir em como as crianças podem ser atuantes sem perder a infância. Mas ao escolher esse foco como tema, o assunto ainda rende preconceitos. Crianças com necessidades especiais são capazes de aprender e desenvolver novas habilidades da mesma maneira que qualquer outra.

01 Julho 2009

Acabar com obrigatoriedade do diploma no jornalismo foi “erro” do Supremo

O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, classificou como "um erro de avaliação” a decisão do Supremo Tribunal Federal que declarou inconstitucional a exigência obrigatória de diploma para o exercício da profissão de jornalista. Segundo Britto a independência e a qualidade necessárias ao correto trabalho jornalístico são “obtidas somente com diploma e com o registro no Ministério do Trabalho. O primeiro garante a qualidade técnica e o segundo a qualidade ética.” Britto argumentou ainda que a legislação vigente até então já garantia reserva de mercado para outros profissionais atuarem na imprensa, por meio das figuras do colaborador e do articulista. "A decisão do STF, na minha compreensão, não observou corretamente qual é o papel do jornalista e a sua função na defesa da liberdade de expressão", afirmou o dirigente da OAB.
Em matéria publicado no mês de maio (18/05/2009) o jornal A Tarde revelou que a Bahia é o terceiro Estado em “coronelismo eletrônico”, ou seja, dez parlamentares baianos são acionistas de rádio ou TV. E o jornalista, escritor e deputado federal Emiliano José em artigo publicado no jornal A Tarde (22/06/2009) informou: “Quem acredita e defende a democracia compreende e defende a necessidade de uma nova lei de imprensa que proteja e defenda a cidadania e assegure a liberdade de imprensa”. Dos 191 países da ONU só um não tem uma Lei de Imprensa: o Brasil. “Não é possível ficar à mercê da cabeça de cada juiz, que estabelecerá o que fazer em cada situação caso permaneça o quadro legal atual”, comenta Emiliano. O jornalista e escritor Tasso Franco na Tribuna da Bahia (22/06/2009) disparou: “Agora, o STF, anuncia a contratação de 14 jornalistas por concurso com salário inicial de R$6.651,52 e vive o drama, em edital, se exige diploma de jornalista ou se abre para todos: motoristas de táxis, cozinheiros, médicos, terapeutas ocupacionais, mágicos, garçons e outros. E tome tiro no pé”.
As discussões sobre a necessidade ou não de diploma para o exercício jornalístico "costumam confundir liberdade de expressão com liberdade de imprensa, e liberdade de imprensa com liberdade de empresa". Segundo o pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (Nemp) da Universidade de Brasília (UnB), Venício Lima, essa confusão ficou evidente durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que acabou (dia 17) com a exigência do diploma de jornalista para quem exerce a profissão. Lima disse que a confusão ficou mais evidente nos momentos em que advogados e ministros partiam da falsa premissa de que "os jornalistas seriam os senhores de suas pautas”. “Quem assistiu ao julgamento notou que as condições reais da autonomia passaram longe das discussões. Até mesmo o advogado da Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas] cometeu esse equívoco durante a defesa, quando questionou a dispensa do diploma sob o argumento de que a profissão seria o quarto poder. Isso é falso porque esse poder nunca pertenceu aos profissionais, mas às empresas.”
Para o pesquisador, “ficou a impressão de que toda essa discussão [ocorrida no STF] estava no vazio, uma vez que, nos últimos 40 anos – durante a vigência da Lei de Imprensa – nunca os jornalistas tiveram tal independência”. Por esse mesmo motivo, Lima acredita que a dispensa de diploma para a prática jornalística não trará grandes mudanças para a imprensa brasileira. “O jornalista já funcionava como um profissional qualquer. Só que as pessoas muitas vezes ignoram o fato de que esse exercício profissional era feito em empresas que têm, como quaisquer outras empresas capitalistas, sua ética e seus objetivos voltados para o lucro”, afirmou.
Lima defende que o estudo da ética como disciplina, comum aos cursos de jornalismo, não representa uma garantia de que o exercício profissional da atividade seja realizado de forma ética. “Não haverá necessariamente prejuízos éticos porque formação e diplomas não garantem ética nas atitudes do indivíduo”, argumenta. Já as corporações sindicais ligadas a jornalistas e às empresas de ensino que formam jornalistas terão, segundo o pesquisador, prejuízos sensíveis a partir da decisão do STF. “Apesar de provocar poucas alterações para o exercício jornalístico no país, a decisão do Supremo afetará diretamente as corporações sindicais e as empresas de educação que fabricam jornalistas em escolas pouco qualificadas”, disse.
“A exemplo do que ocorre em outros países, a imprensa não poderá abrir mão de pessoas qualificadas. Por isso não acredito em demissões. Isso representaria a piora significativa da qualidade do material jornalístico”, disse. Para Lima, o público brasileiro é bem mais esclarecido do que o da década de 1980 e, com isso, os veículos estarão atentos para não comprometer a qualidade de sua produção e a efetividade dos processos comunicativos com o público.

Projeto de lei para regulamentar a profissão
O deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) afirmou (18) que poderá propor ao Congresso um projeto de lei para regulamentar a profissão de jornalista, após ouvir os representantes da sociedade civil e entidades do setor. Segundo o parlamentar, a decisão do Supremo não levou em conta a evolução das profissões. Ele citou como exemplo a advocacia. “Os advogados, antigamente, para atuar nos tribunais, não precisavam de diploma. Depois, havia o diploma, mas não o Exame de Ordem. Em seguida, além do diploma, passou a ser necessária uma prova duríssima na OAB”, explicou Miro. A construção de uma lei regulamentando a profissão também é defendida pelo presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo. “A Constituição diz que é livre o exercício das atividades profissionais no país, na forma estabelecida em lei. Se o questionamento é sobre um decreto-lei da ditadura, agora, sob o império e o abrigo da Constituição de 1988, é possível fazer outra lei para legitimar essa exigência do diploma”, afirmou Azedo.
O presidente da ABI defende que os profissionais e os estudantes de jornalismo promovam um protesto em frente ao Supremo contra a decisão da Corte. “Nós vivemos um processo em que, através das décadas, a competência, a qualificação e a ética aumentaram e o ministro Gilmar Mendes e os seus companheiros deram um gigantesco passo atrás”, disse. Para o professor de comunicação, autor de vários livros sobre jornalismo e atualmente presidente da Biblioteca Nacional, Moniz Sodré, a decisão do STF beneficia principalmente os donos de empresas. “Não concordo com a tese de que estavam defendendo a liberdade de expressão. Foi uma desconsideração do Supremo com a importância da atividade jornalística”, afirmou Sodré.
Segundo ele, apesar da crise que abriu, a decisão do STF pode ser útil para levar a uma reflexão entre os jornalistas sobre qualificação profissional. “Crise também significa oportunidade. É uma boa chance para se discutir o que é jornalismo e o que é informação hoje”, disse Sodré. Sobre o impacto que a extinção da necessidade do diploma pode causar no meio acadêmico, o professor afirmou que as boas escolas vão permanecer, mas que poderá haver reflexos negativos nas faculdades mais fracas. “Considerando que qualquer profissão passa por qualificação e isso hoje acontece através dos cursos universitários não tem como suspender a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, mesmo porque, como em outras profissões, o jornalista pode causar riscos às pessoas se publicar informações de forma equivocada. A formação superior é importante para a qualificação do profissional de jornalismo”, considerou.
Decisão “rebaixa” exercício do jornalismo
O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) Sérgio Murillo, considerou um “prejuízo imenso e histórico” para a categoria a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que declarou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma em curso superior específico para o exercício da profissão de jornalista no Brasil. O Ministério do Trabalho não pode mais exigir o diploma para conceder registro de jornalista a qualquer cidadão. “Aparentemente, não precisa de nenhum critério. Inclusive pessoas sem formação escolar, analfabetas, podem obter o registro de jornalista. Não sei se o STF tomou pé do nível de rebaixamento em que coloca o jornalismo no Brasil neste momento”, criticou Murillo.
A Fenaj também lamentou a argumentação usada pelo presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, em seu voto. Ele foi o relator do recurso ajuizado pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp) e pelo Ministério Público Federal (MPF) contra uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que tinha afirmado a necessidade do diploma. “O presidente do STF desrespeitou os jornalistas brasileiros, ao dizer que esta atividade tem a mesma dimensão da culinária e do corte e costura”, disse Murillo. “ Por que, então, não permitir que um cidadão sem advogado possa se defender perante uma Corte?”, comparou, em alusão à formação profissional exigida dos advogados.
Para a Fenaj, o STF optou por acatar na íntegra a tese das empresas e enfraquecer a categoria.“É entregar o galinheiro para os lobos tomarem conta. Acaba a valorização do mérito pessoal de se procurar por um escola de jornalismo e substitui-se pela vontade do patrão, que vai decidir com base num 'talentômetro' quem pode, ou não, ser jornalista”, ressaltou Murillo. O dirigente da Fenaj confessou que ainda não sabe como orientar o posicionamento dos sindicatos, mas ressalvou que, apesar do “ golpe profundo”, a decisão do STF não foi uma “sentença de morte” para a organização profissional dos jornalistas. (Fonte: Agência Brasil, A Tarde e Tribuna da Bahia).

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30 Junho 2009

Fim do diploma expõe jornalistas a riscos e fragilidades

O Supremo Tribunal Federal (STF)) derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. O presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Maurício Azêdo, criticou a decisão. "A ABI lamenta e considera que esta decisão expõe os jornalistas a riscos e fragilidades e entra em choque com o texto constitucional e a aspiração de implantação efetiva de um Estado Democrático de Direito, como prescrito na Carta de 1988", disse ele em nota. Na nota, Azêdo diz esperar que a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) recorra ao Congresso Nacional para "restabelecer aquilo que o Supremo está sonegando à sociedade, que é um jornalismo feito com competência técnica, alto sentido cultural e ético". Ele informa que a ABI organizou o 1º Congresso Brasileiro de Jornalistas em 1918 e aprovou "como uma das teses principais a necessidade de que os jornalistas tivessem formação de nível universitário".

O Brasil virou um Estado Judiciário. Tudo é decidido pelo Gilmar Mendes e seus comparsas de STF. Medida Provisória que a oposição não gosta: vai pro STF. Número de vagas nas câmaras municipais: vai para o STF. Projetos de lei aprovados, mas que alguém resolve contestar: vai para o STF. Obrigatoriedade ou não de diploma para exercer uma profissão: vai para o STF. O Judiciário decide tudo, praticamente governa esse país e as pessoas ainda aplaudem. Quanto tempo vai demorar para o STF resolver julgar se eleição foi válida ou não. "Ah, acho que o povo votou nele, mas foi por causa da propaganda. Vamos tirá-lo do cargo e dar posse para o outro". O que ninguém quer ver é que vivemos a mercê de juízes, com um poder desproporcional nas mãos. Controle externo do Judiciário? É tarde, porque eles já nos controlam!
"Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área". Com essa declaração polêmica, comparando comida e notícia, Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) justificou a decisão do órgão proferida no dia 17 de junho que dispensa o diploma de jornalismo como requisito obrigatório para o exercício da profissão. Mendes alegou que a sentença – de oito votos contra um – foi baseada na Constituição Federal de 1988, que garante a ampla liberdade de expressão, não contemplando o Decreto-Lei nº. 972/69, que exigia o diploma.
PRIVILÉGIOS - Em um artigo publicado no jornal A Tarde (Toga de privilégios, 19/05/2009), o professor universitário, economista e jornalista Helington Rangel foi enfático: “Ao Supremo Tribunal Federal se conferem méritos por corporificação ao guardião-mor da democracia e do ordenamento jurídico da liberdade, mesmo sendo instituição de magistrados como qualquer outra, composta por homens pactuados ideologicamente, capazes de erros na mesma intensidade que qualquer mortal na sua habilidade de decidir”.
“Na realidade – continua Rangel -, converte-se como utópica a formação da imagem de que juízes, abrigados pelas togas, são munidos unicamente de seriedade, competência e honestidade, fiquem preservados das tentações experimentadas pelas simples almas pecadoras, livres das fraquezas mundanas, incorporadas de forma dinâmica no ambiente social”.
BOMBA - O veredicto caiu como uma bomba dividindo opiniões entre os profissionais de imprensa, tanto os diplomados quanto os chamados "precários", ou seja, os que não passaram por uma faculdade. Deixou atônitos também milhares de estudantes de jornalismo em todo o país que contraíram dívidas junto ao Programa de Financiamento Estudantil (Fies) e outros empréstimos particulares para cumprir a exigência legal vigente até a controversa decisão do STF.
Representantes do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba) e Associação Baiana de Imprensa (ABI) se pronunciaram contra a decisão judicial. A presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado da Bahia (Sinjorba), Kardé Mourão Lopes, defende que “a decisão é um retrocesso, um golpe duro para a categoria, e vai comprometer a qualidade do jornalismo”. Repórteres, sindicalistas, professores e estudantes de jornalismo repudiaram a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Para Sérgio Mattos, professor de Assessoria de Comunicação e Ética, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), “parece que os ministros não sabiam o que estavam dizendo, o que me causa espanto. Eles confundiram alhos com bugalhos. Fizeram uma mistura muito grande sobre o que é ser jornalista e quais as atividades desempenhadas com o direito e a obrigatoriedade do diploma. As declarações deixaram transparecer que eles estavam por fora sobre a função do jornalista”. Mattos considera a decisão um “retrocesso” e afirma que a categoria precisa unir forças.
“O posicionamento do ministro é um absurdo porque a atividade jornalística lida com a vida das pessoas e é preciso que se entenda isso. Um erro jornalístico pode ser fatal”, avalia a coordenadora do curso de Jornalismo do Centro Universitário da Bahia (FIB), Cristiana Serra. “Assim como medicina, o jornalismo precisa de especialidades. Acredito que estas pessoas que votaram nunca entraram numa redação de TV, rádio ou jornal. Temos o comprometimento com a veracidade das informações”, informou a radialista e jornalista Márcia Melo.(Fonte: Agência Brasil, A Tarde e Tribuna da Bahia).

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29 Junho 2009

As artes vão sobreviver no século XXI?

A tecnologia transformou o mundo das artes. Primeiro aconteceu uma acentuada mudança geográfica para longe dos centros tradicionais (européias) de cultura de elite. A partir do final dos anos 40 New York substituiu Paris como o centro das artes visuais. O modernismo supunha que a arte era progressista e, portanto, o estilo de hoje era superior ao de ontem. Era, por definição, a arte da avant garde. O pós-modernismo contestava a essência de um mundo que se apoiava em crenças opostas, ou seja, o mundo transformado pela ciência e a tecnologia nela baseada, e a ideologia de progresso que refletia.

A tentativa de comparar “a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (Walter Benjamin) com o velho modelo do artista criativo individual reconhecendo apenas sua inspiração pessoal tinha de fracassar. A criação era agora essencialmente mais cooperativa que individual, mais tecnológica que manual. Como observou Benjamin, a era de “reprodutibilidade técnica” transformou não apenas a maneira como se dava a criação, mas também a maneira como os seres humanos percebiam a realidade e sentiam as obras de criação. Isso não mais se dava pelos atos de adoração e prece seculares em nome dos quais os museus e galerias, tão típicas da civilização burguesa do século XIX, supriam as igrejas.

As impressões dos sentidos, e mesmo as idéias podiam alcançá-los simultaneamente de todos os lados. A tecnologia encharcaria de arte a vida diária privada e pública. A obra de arte se perdera na enxurrada de palavras, sons e imagens, no ambiente universal do que um dia se teria chamado arte. Então esse crítico alemão excêntrico chamado Walter Benjamin foi um visionário. Ele percebia nas discussões sobre arte uma supressão da cultura popular, um foco limitado, um desprezo mesmo daquilo que era chamado de arte comercial. Ele se opôs a um certo modo elitista de enfocar arte, e a viu enquanto um dos efeitos da cultura. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica enfocava o que estava acontecendo em decorrência da ascensão da fotografia, o fato de que a fotografia permitia a exploração da arte em si mesma.

Abalou conceitos, tabus como originalidade e autoria, colocou em questão a idéia do artista como o único produtor que vende sua tela. A “aura” do original foi descrito pela primeira vez por Benjamin, quando ele fala da qualidade única que um original possui, de como foi produzido, em seu tempo e lugar. Só que hoje ela é reproduzida por todo o mundo de todos os jeitos e essas reproduções não têm nenhum valor ao original, de seu self origin.

O sociólogo Renato Ortiz no capítulo sobre “legitimidade e estilos de vida” (no livro Mundialização e Cultura. Editora Brasiliense, 1991) informa: “É somente na passagem do século XVIII para o XIX que o universo artístico torna-se independente das injunções políticas e religiosas. Até então, a obra de arte cumpria uma função religiosa (habitava as igrejas e os conventos), política (luta entre burguesia iluminista e o poder aristocrático), ou ornamental (os retratos nas cortes ou nas famílias dos grandes comerciantes). Este constrangimento se reforçava ainda com a existência do mecenato. O artista dependia materialmente daquele que o sustentava. A modernidade reformula este quadro. Surge o artista enquanto indivíduo livre (isto é, capaz de escolher seus temas e sua linguagem), e uma esfera autônoma (quase sagrada) da arte enquanto tal. Os julgamentos políticos, religiosos, ou comerciais (antagonismo entre os românticos e a literatura de `massa`, o folhetim) são substituídos por critérios exclusivamente estéticos. A afirmação de Flaubert, ´a arte pela arte`, revela um novo espírito, a presença de um domínio fechado sobre si mesmo, cujas regras de funcionamento escapam às ingerências externas”.

No final do século XX os interesses econômicos de indústrias de consumo se fundiram com as vanguardas e extraíam seus lucros de um certo ciclo de moda e de vendas em massa instantâneas para uso interativo mas breve. Se a distinção entre o sério e o trivial, o bom e ruim, profissional e amador foi deixado de lado com base em que a única medida de mérito eram as cifras de venda, ou que eram elitistas, ou que, como dizia o pós-modernismo, não se podia fazer qualquer distinção objetiva. Qual será o papel ou mesmo a sobrevivência das artes no século XXI?. Só o tempo dirá.

Para Hipócrates, a arte é longa, a vida é curta. Já Mário Pedrosa resumiu: arte, necessidade vital. Com mais de 40 mil anos de história, a pintura continua sendo um espaço aberto à reflexão e ao prazer. “Não podemos matar uma tradição pictórica. A pintura é mais poderosa que a guerra, os governos ou o gosto”, disse René Ricard. A arte não morrerá, informou o crítico Frederico Morais (no seu livro Arte é o que eu e você chamamos arte. Record, 1998), simplesmente porque em arte não há progresso. Nem, a rigor, decadência. Mudam os meios de expressão, mudam os suportes, os materiais, e as técnicas empregadas pelo artista, as formas de apresentação e circulação das obras de arte, mas, essencialmente, a arte não muda. Desde os tempos pré-históricos ela é sempre uma necessidade vital para o homem e as nações. As questões da arte serão as questões de sempre. Assim, quando será decifrado o mistério da arte?.
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26 Junho 2009

Manifestações artísticas (7)

Bauhaus (1919 a 1933)

Escola democrática alemã que fundava-se no principio da colaboração da pesquisa conjunta entre mestre e alunos. Progresso é educação e o instrumento da educação é a escola. Devido ao afastamento entre artesão e artista a escola tinha o objetivo de recuperar o artista para produção industrial. Em 1919, o arquiteto alemão Walter Gropius integrou duas escolas existentes na cidade de Weimar, a Escola de Artes e Ofícios, do belga Henri van de Velde, e a de Belas-Artes, do alemão Hermann Muthesius, e fundou uma nova escola de arquitetura e desenho a que deu o nome de Staatliches Bauhaus (Casa Estatal de Construção), com sede em um edifício construído em 1905 por Van de Velde.
As origens mais remotas da Bauhaus provêm do movimento Arts and Crafts, do inglês William Morris, que procurou restabelecer a dignidade medieval do artesanato e do artesão. Todavia, o ensino da Bauhaus opunha-se às concepções de Morris, contrárias à revolução tecnológica e à produção em série. Também não agradava a Gropius o estilo art nouveau, devido a seu caráter decorativo e esteticista. A ascendência mais próxima da Bauhaus está na associação Deutscher Werkbund, fundada em 1907 por Hermann Muthesius para incentivar as relações entre os artistas modernos, os artesãos qualificados e a indústria. Muthesius desejava criar o que chamava de Maschinenstil (estilo da máquina). Gropius, que foi membro da Werkbund, materializou esse objetivo, em grande parte, na Bauhaus.

A Bauhaus combatia a arte pela arte e estimulava a livre criação com a finalidade de ressaltar a personalidade do homem. Mais importante que formar um profissional, segundo Gropius, era formar homens ligados aos fenômenos culturais e sociais mais expressivos do mundo moderno. Por isso, entre professores e alunos havia liberdade de criação, mas dentro de convicções filosóficas comuns. O ensino era suficientemente elástico, com a participação, na pesquisa conjunta, de artistas, mestres de oficinas e alunos. Para Gropius, a unidade arquitetônica só podia ser obtida pela tarefa coletiva, que incluía os mais diferentes tipos de criação, como a pintura, a música, a dança, a fotografia e o teatro. De tal maneira a filosofia da Bauhaus impregnou seus membros que sem demora se definiu um estilo em seus produtos despidos de ornamentos, funcionais e econômicos, cujos protótipos saíam de suas oficinas para a execução em série na indústria. O estilo Bauhaus era fruto do pensamento dos professores, recrutados, sem discriminação de nacionalidade, entre membros dos movimentos abstrato e cubista.

Pop Art (Década de 1950)
O pop art começou a tomar forma quando alguns artistas, depois de estudar símbolos e marcas da propaganda, começaram a transformar isso em arte. O objetivo principal dos artistas do pop art era criticar a sociedade por causa do consumismo. O épico foi sendo transformado pelo cotidiano, eram usados quadrinhos, ilustrações e anúncios publicitários, além de tinta acrílica, poliéster, látex, etc, como materiais artísticos. Entre os principais artistas do Pop Art, destacam-se Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein e Andy Warhol. O Pop art surgiu como uma rebelião aos estilos convencionais de arte, trazendo de volta as realidades do dia-a-dia e a cultura popular. Essa nova modalidade de manifestação artística surgiu na Inglaterra, porém teve seu pleno desenvolvimento em Nova York, EUA, nos anos 60.
Arte Conceitual (Década de 1960)
Textos, imagens e objetos são as referências artísticas deste tipo de arte. A obra deve ser valorizada por si só. Um dos meios preferidos dos artistas conceituais é a instalação, ou seja, um espaço de interação entre a obra e o espectador. Até mesmo a televisão e o vídeo são usados nas instalações. Destacam-se os seguintes artistas: Joseph Beuys, Joseph Kosuth, Daniel Buren, Sol Le-Witt e Marcel Broodthaers, Nam June Paik, Vito Acconci, Bill Viola, Bruce Naumann, Gary Hill, Bruce Yonemoto e William Wegman.
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25 Junho 2009

Manifestações artísticas (6)

Futurismo (1909 a 1918)

O futurismo é um movimento artístico e literário surgido oficialmente em 20 de fevereiro de 1909 com a publicação do Manifesto Futurista, do poeta italiano Filippo Marinetti, no jornal francês Le Figaro. A obra rejeitava o moralismo e o passado. Apresentava um novo tipo de beleza, baseado na velocidade e na elevação da violência. O slogan do primeiro manifesto futurista de 1909 era “Liberdade para as palavras”, e considerava o design tipográfico da época, especialmente em jornais e propaganda. A diferença entre arte e design passa a ser abandonada e a propaganda é escolhida como forma de comunicação. O novo é uma característica tão forte do movimento, que este chegou a defender a destruição de museus e de cidades antigas. Considerava a guerra como forma de higienizar o mundo. O futurismo desenvolveu-se em todas as artes, influenciando vários artistas que posteriormente instituíram outros movimentos modernistas. Repercutiu principalmente na França e na Itália, onde vários artistas, entre eles Marinetti, se identificaram com o fascismo. O futurismo enfraqueceu após a Primeira Guerra Mundial, mas seu espírito rumoroso e inquieto refletiu no dadaísmo, no concretismo, na tipografia moderna e no design gráfico pós-moderno.

Dadaísmo (Décadas de 1910 a 1920)
Arte entre guerras surge no cabaré Voltaire. Atitude internacional que se expandiu de Zurique para França, Alemanha e Estados Unidos. Dada é um estado de espírito, obras transitórias de natureza teatral. Questiona a superioridade do artista como criador. Não confiam mais na razão e na ordem estabelecida. Revolucionário, anárquico e anticapitalista, o dadaísmo, prega o absurdo, o sarcasmo, a sátira crítica e o uso de diversas linguagens, como pintura, poesia, escultura, fotografia e teatro. Destacam-se os artísticas: Hugo Ball, Hans Arp, Francis Picabia, Marcel Duchamp, Max Ernst, Kurt Schwitters, George Grosz e Man Ray.

Surrealismo (Década de 1920)

Nas duas primeiras décadas do século XX, os estudos psicanalíticos de Freud e as incertezas políticas criaram um clima favorável para o desenvolvimento de uma arte que criticava a cultura européia e a frágil condição humana diante de um mundo cada vez mais complexo. Surgem movimentos estéticos que interferem de maneira fantasiosa na realidade. O surrealismo foi por excelência a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente. Suas origens devem ser buscadas no dadaísmo e na pintura metafísica de Giorgio De Chirico. Este movimento artístico surge todas às vezes que a imaginação se manifesta livremente, sem o freio do espírito crítico, o que vale é o impulso psíquico.
Os surrealistas deixam o mundo real para penetrarem no irreal, pois a emoção mais profunda do ser tem todas as possibilidades de se expressar apenas com a aproximação do fantástico, no ponto onde a razão humana perde o controle. Os artistas exploram o inconsciente e as imagens que não são controladas pela razão. O surrealismo usa associações irreais, bizarras e provocativas. O rompimento com as noções tradicionais da perspectiva e da proporcionalidade resulta em imagens estranhas e fora da realidade. Obras: Auto-Retrato com Sete Dedos, de Marc Chagall; O Carnaval do Arlequim, de Joan Miró; A Persistência da Memória, de Salvador Dalí; A Traição das Imagens, de René Magritte; e Uma Semana de Bondade, de Max Ernst, são algumas das obras mais representativas.

19 Junho 2009

Manifestações artísticas (5)

Impressionismo (1880 a 1900)
Na década de 1870 o conceito de arte enquanto impressão foi associado àquelas características estilísticas da pintura por meio das quais uma visão pessoal e espontânea era supostamente expressa. E foi celebrada na história da arte moderna como o momento do estabelecimento consciente de uma vanguarda, “pedra de toque para todos os futuros esforços modernistas desse tipo”. A fidelidade à impressão autêntica e subjetiva passou a ser vista não só como uma medida de originalidade dos artistas de vanguarda, mas também como uma condição de sua modernidade. O estilo impressionista foi do final da década de 1860 e no início da de 1870. Entre os artistas estavam Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Camille Pissarro, Alfred Sisley, Edgar Degas, Berthe Morisot e Paul Cézanne.
Através da luz e da cor os artistas do impressionismo buscam atingir a realidade. As obras são feitas ao ar livre para aproveitar a luz natural. Obras mais conhecidas: Impressão, Nascer do Sol, de Claude Monet, A Aula de Dança, de Edgard Degas; e O Almoço dos Remadores, de Auguste Renoir. O movimento nasceu na França. Rejeitou o academicismo, a perspectiva, composição equilibrada, figuras idealizadas. Valorizou a percepção sensorial, com propósito de retratar sensações visuais imediatas de uma cena. Temas: paisagem ao ar livre, mar, cenas de rua e cafés.
Pós-impressionismo
É o período marcado pelas experimentações individuais. Os artistas buscam a realidade e imitam a natureza, utilizando recursos de luz e cor. O cromatismo é muito utilizado.As cores mais intensas são exploradas por Vincent Van Gogh com pinceladas fortes e explosivas, como em Noite Estrelada. Henri de Toulouse-Lautrec usa a técnica da litogravura.
Expressionismo
Artistas plásticos de diferentes períodos são considerados precursores do expressionismo, entre eles Goya, Van Gogh, Gauguin e James Ensor. O expressionismo pode ser considerado como uma postura assumida em diversas formas de manifestação artística durante o século XX. Vários artistas desta trabalham nessa linha, sem ligar-se a movimentos ou a grupos. Podemos citar alguns: Edvard Munch, Emil Nolde, Amedeo Modigliani, Oskar Kokoschka, Egon Schiele, Chaim Soutine, Alberto Giacometti e Francis Bacon. A expressão é o movimento do exterior para o interior. O Expressionismo se põe como antítese do Impressionismo. Utilizavam formas exageradas, e cores destinadas a causar impacto emocional.
Fovismo (1904 a 1908)
O Fovismo ou Fauvismo (do francês les fauves, 'as feras', como foram chamados os pintores não seguidores do cânone impressionista, vigente na época) é uma corrente artística do início do século XX. O Fauvismo, movimento principalmente francês, tem como características marcantes a simplificação das formas, o estudo do uso das cores, e uma elevada redução do nível de graduação das cores utilizadas nas obras. Os seus temas eram leves, retratando emoções e a alegria de viver e não tendo intenção crítica. A cor passou a ser utilizada para delimitar planos, criando a perspectiva e modelando o volume. Tornou-se também totalmente independente do real, já que não era importante a concordância das cores com objeto representado, e sendo responsável pela expressividade das obras.Uso de cores intensas e fortes, explosivas. Perspectiva distorcida com pinceladas vigorosas. Motivos chapados e lineares.Libertaram a cor de seu papel tradicional de descrever os objetos.

Cubismo (1908 a 1915 )
Este estilo rompeu com os elementos artísticos tradicionais ao apresentar diversos pontos de vista em uma mesma obra de arte. As formas geométricas são utilizadas muitas vezes para representar figuras humanas. Recortes de jornais, revistas e fotos são recursos utilizados neste período. São obras representativas desta época: Les Demoiselles d'Avignon, de Pablo Picasso, e Casas em L'Estaque, de Georges Braque. Influências: A escultura africana e a pintura de Cézanne. Visão multifacetada. 1°Fase corresponde ao Cubismo Analítico caracterizada pelo uso de cores monocromáticas. 2°Fase o Cubismo Sintético destaque para colagens.
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A vocês leitores, bom São João. Estarei de volta na próxima quinta-feira, dia 25 para terminar com essa saga das manifestações artísticas dos anos 30 aos dias atuais.

18 Junho 2009

Manifestações artísticas (4)

Neoclassicismo (1750 a 1820)


Novamente os elementos e valores da arte clássica ( grega e romana ) são resgatadas.. Há uma incidência maior do desenho e da linha sobre a cor. O heroísmo e o civismo são temas muito explorados neste período. Principais obras: Perseu com a Cabeça da Medusa, de Antonio Canova; O Parnaso, de Anton Raphael Mengs; O Juramento dos Horácios e A Morte de Sócrates, de Jacques-Louis David; e A Banhista de Valpinçon, de Jean-Auguste-Dominique Ingres.


Romantismo (1790 a 1850)

Subjetividade e introspecção, sentimentos e sensações são características deste período. A literatura romântica, os elementos da natureza e o passado são retratados de forma intensa no romantismo. São representantes desta época o artista Francisco de Goya y Lucientes. Algumas de suas principais pinturas são: A Família de Carlos IV, O Colosso e Os Fuzilamentos do Três de Maio de 1808. Outras obras românticas : A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault; A Carroça de Feno, de John Constable; A Morte de Sardanapalo, de Eugène Delacroix; e O Combatente Téméraire, de Joseph William Turner.

Fotografia
















A história da fotografia pode ser contada a partir das experiências executadas por químicos e alquimistas desde a mais remota antiguidade. Niepce e Louis-Jacques Mandé Daguerre iniciaram suas pesquisas em 1829. Dez anos depois, foi lançado o processo chamado daguerreótipo. Em 1935 a fotografia a cores tornou-se realidade quando a Eastman Kodak Company anunciou a comercialização do kodachrome. Em 1947 surgia o sistema polaróide e mais tarde outros aperfeiçoamentos.


Segundo o pensador McLuhan, o passo da era do Homem Tipográfico para a era do Homem Gráfico foi dado com a invenção da fotografia. Mas a maior revolução introduzida pela fotografia foi, talvez, a observada no mundo das artes tradicionais. O pintor já não podia pintar um mundo fotografado em demasia. Dedicou-lhe, pois, à revelação do processo interno da criatividade, no expressionismo e na arte abstrata. O escritor também já não podia descrever objetos e acontecimentos para os seus leitores, já informados pela fotografia, pela imprensa, pelo cinema e pelo rádio. O poeta e o romancista voltaram-se para os gestos interiores da mente – que nos fornecem a introvisão e com as quais elaboramos nosso mundo e nós mesmos. A arte se deslocou da descrição para o fazimento interno. Houve críticas e polêmicas com o surgimento da fotografia que abalou um pouco a dinâmica da pintura.



Hercules Florence em 1830, inventa seu próprio meio de impressão, a Polygrafie, já que não dispunha de um prelo. Ele descobre isoladamente um processo de gravação através da luz, que batizou de Photografie, em 1832, três anos antes de Daguerre. A ironia histórica, oculta por 140 anos, é que o processo era mais eficiente do que o de Daguerre. Já em 1833 utilizou uma chapa de vidro em uma câmara escura, cuja imagem era passada por contato para um papel sensibilizado.

Realismo (1848 a 1875)


O realismo destaca a realidade física através da objetividade científica e crua. Estas obras são inspiradas pela vida cotidiana e pela paisagem natural. Aparecem fortes críticas sociais e elementos do erotismo, provocando criticas dos setores conservadores da sociedade européia do século XIX. Principais pinturas: Enterro em Ornans, de Gustave Courbet; Vagão de Terceira Classe, de Honoré Daumier; e Almoço na Relva, de Édouard Manet.




Art Nouveau
Floresceu entre 1890 até a Primeira Guerra Mundial em oposição a esterilidade da era industrial.Estilo decorativo internacional conhecido na Alemanha como Jungenstil, Itália Liberty, arts and Crafts na Inglaterra . Estilo artístico desenvolvido na Europa a partir do final do século XIX. O estilo Art Nouveau é caracterizado pela sua ruptura com as tradições que até então persistiam excessivamente na arte e na arquitetura. Tratou-se de um estilo novo voltado para a originalidade da forma, de modo que era destituído de quaisquer preocupações ideológicas e independente de quaisquer tradições estéticas. Pretendendo-se como nova arte, o estilo procura ainda rejeitar as formas meramente funcionais envolvidas em todos os objetos decorativos provenientes da produção em massa e adere às formas sinuosas, curvilíneas. Portanto tal estilo teve principal influência sobre a arte decorativa do início do século e ainda sobre a arte arquitetônica, na qual grandes nomes da arquitetura moderna se utilizaram deste estilo, como por exemplo o arquiteto espanhol Gaudi. Também na pintura, o estilo esteve relativamente presente nas obras de personalidades artísticas como Vasili Kandinsky e Franz Marc. O estilo teve seu período de sucesso entre as duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX, em que é substituído paulatinamente pelo estilo Art Deco e definitivamente abandonado por ser considerado um estilo já ultrapassado.




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17 Junho 2009

Manifestações artísticas (3)

Arte Romana do Ocidente e do Oriente ( Arte Bizantina )
Com forte influência dos etruscos, a arte romana antiga seguiu os modelos e elementos artísticos e culturais dos gregos e chega a "copiar" estátuas clássicas. É a época da construção de monumentos públicos em homenagem aos imperadores romanos. A pintura mural recorre ao efeito tridimensional. Os afrescos da cidade de Pompéia (soterrada pelo vulcão Vesúvio em I a.C.) são representativos deste período. No Império Romano do Oriente ( Império Bizantino ) com capital em Constantinopla (antiga Bizâncio), aparece a arte bizantina, sob forte influência da Grécia . Podemos destacar as pinturas murais, os manuscritos, os ícones religiosos e os mosaicos de cores fortes e brilhantes, carregados de profundo caráter religioso
Estilo Gótico (1200 a 1500)
O termo gótico foi criado pelos renascentistas para denominarem um tipo de arquitetura compreendida por eles como bárbara, uma vez que destronou a arte clássica. Acabou sendo aplicado também para a escultura, pintura e ornamentação do período em que as obras arquitetônicas foram construídas, apesar de ser considerada, por alguns críticos, como uma denominação não precisa. Entretanto, o termo, hoje em dia, já perdeu o sentido depreciativo que os renascentistas quiseram imprimir-lhe. O gótico refere-se a um determinado período que se inicia com um estilo arquitetônico revolucionário, o qual durou do Século 12 ao 14 na maioria da Europa. Em alguns lugares, continuou persistindo até o Século 16 e, isoladamente, continuou-se a praticar a arte até o Século 18. Destaque para a arquitetura. Os construtores usavam nas catedrais Góticas o arco pontudo, explorando a verticalidade. Destaque também para os vitrais e a tapeçaria.
Arte Renascentista
Os elementos artísticos da Antiguidade clássica voltam a servir de referência cultural e artística. O humanismo coloca o homem como centro do universo ( antropocentrismo ). São características desta época : uso da técnica de perspectiva, uso de conhecimentos científicos e matemáticos para reproduzir a natureza com fidelidade. Na pintura, novas técnicas passam a ser utilizadas : uso da tinta a óleo, por exemplo, buscava aumentar a ilusão de realidade. A escultura renascentista é marcada pela expressividade e pelo naturalismo. A xilogravura passa a ser muito utilizada nesta época. Entre as pinturas destacam-se: O Casal Arnolfini, de Jan van Eyck; A Alegoria da Primavera, de Sandro Boticcelli; A Virgem dos Rochedos, Monalisa e A Última Ceia de Leonardo da Vinci; A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio; o teto da Capela Sistina e a escultura Davi de Michelangelo Buonarotti.
Barroco (1600 a 1750)
Começa em Roma quando a igreja católica financia a construção de grandes catedrais, simbolizando o triunfo da fé depois da Contra- Reforma. O movimento se expandiu na França onde monarcas reinavam por direito divino e construíam grandes palácios como marco de poder e gloria. A arte barroca destaca a cor e não o formato do desenho. As técnicas utilizadas dão um sentido de movimento ao desenho. Os efeitos de luz e sombra são utilizados constantemente como um recurso para dar vida e realidade à obra. Os temas que mais aparecem são: a paisagem, a natureza-morta e cenas da vida cotidiana. Obras barrocas mais conhecidas: A Ceia em Emaús, de Caravaggio; A Descida da Cruz, de Peter Paul Rubens; A Ronda Noturna, de Rembrandt; O Êxtase de Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini; As Meninas, de Diego Velásquez; e Vista de Delft, de Jan Vermeer.
Rococó (1730 a 1800)
O estilo rococó é marcado por pinturas com tons claros, com linhas curvas e arabescos. O estilo é bem decorativo e a sensualidade aparece em destaque. Os afrescos ganham importância e são utilizados na decoração de ambientes interiores. Surgiu na França com Luis XV, nome derivado do termo rocaille (concha). Estilo leve , gracioso e delicado. Uso de marchetaria, painéis pintados, cores suaves. Curvas sinuosas em forma de S e C, arabescos, floreados semelhantes a fita. Uso de espelhos nos interiores dos palácios. Artistas mais importantes do rococó: Jean-Antoine Watteau, Giovanni Battista Tiepolo, François Boucher e Jean-Honoré Fragonard.

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16 Junho 2009

Manifestações artísticas (2)

Mesopotâmia
O povo assírio viveu na antiga Mesopotâmia, região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates. Sua capital, nos anos mais prósperos, foi Nínive, numa região que hoje pertence ao Iraque. O Império assírio abrange o período de 1700 a 610 a.C, mais de mil anos. Os assírios eram guerreiros e usavam sua grande força militar para expandir seu Império. Libertando-se dos sumérios, conquistaram grande parte do seu território, mas logo caíram em poder dos babilônios, um povo que morava ao sul da Mesopotâmia. O Império Assírio conheceu seu período de maior glória e prosperidade durante o reinado de Assurbanipal (até 630 a.C). Cobravam pesados impostos dos povos vencidos, o que os levava a revoltarem-se continuamente. A escrita dos assírios constituia-se de pequenas cunhas feitas com estilete em tabuletas de argila - é chamada de escrita cuneiforme. Descobriram-se milhares de tabuletas na biblioteca de assurbanipal em Nínive, conhecendo-se grande parte da história do Império Assírio a partir da leitura.
Arte Mesopotâmica
Na região entre os rios Tigre e Eufrates desenvolveu-se a civilização mesopotâmica. Nesta região, sumérios, babilônios, assírios, caldeus e outros povos desenvolveram uma arte que demonstra a religiosidade e o poder dos governantes. São touros alados, estatuetas de olhos circulares, relevos em paredes representando guerras e conquistas militares e animais e pictogramas representando fatos da realidade daqueles povos. Usando tijolo seco como bloco básico da construção eles planejaram cidades complexas ao redor do templo. Destaque para arquitetura: Torre de Babel com 90 metros de altura. Os Jardins Suspensos (uma das sete maravilhas do mundo). A escultura era em baixo relevo e narrava cenas de guerra. Escrita cuneiforme.
Grécia
A civilização grega surgiu entre os mares Egeu, Jônico e Mediterrâneo, por volta de 2000 AC. Formou-se após a migração de tribos nômades de origem indo-européia, como, por exemplo, aqueus, jônios, eólios e dórios. As pólis (cidades-estado), forma que caracteriza a vida política dos gregos, surgiram por volta do século VIII a.C. As duas pólis mais importantes da Grécia foram: Esparta e Atenas.
Foi na Grécia Antiga, na cidade de Olímpia, que surgiram os Jogos Olímpicos em homenagem aos deuses. Os gregos também desenvolveram uma rica mitologia. Até os dias de hoje a mitologia grega é referência para estudos e livros. A filosofia também atingiu um desenvolvimento surpreendente, principalmente em Atenas, no século V ( Período Clássico da Grécia). Platão e Sócrates são os filósofos mais conhecidos deste período. A dramaturgia grega também pode ser destacada. Quase todas as cidades gregas possuíam anfiteatros, onde os atores apresentavam peças dramáticas ou comédias, usando máscaras. Poesia, a história , artes plásticas e a arquitetura foram muito importantes na cultura grega.
Arte na Grécia Antiga
A cultura e a arte minóica desenvolveu-se na ilha grega de Creta. Nas pinturas dos murais as cores diversificadas mostram-se fortes e vivas. Desenhos de touros, imagens abstratas, símbolos marinhos e animais ilustram a cerâmica. O período clássico da arte grega é a época de maior expressão da arte grega. A natureza é retratada com equilíbrio e as formas aproximam-se da realidade. A perspectiva aparece de forma intensa nas pinturas gregas deste período. Nas esculturas de bronze e mármore, destacam-se a harmonia e a realidade. Os principais escultores são Mirón, Policleto, Fídias, Praxíteles. A arquitetura e a ornamentação de templos religiosos, como o Partenon, a acrópole de Atenas e o templo de Zeus na cidade de Olímpia mostram força e características expressivas.

No período helenístico, ocorre a fusão entre as artes grega e oriental. A arte grega assume aspectos da realidade, fruto do domínio persa. Nas esculturas verifica-se dramaticidade e as formas decorativas em excesso. Entre as obras mais representativas deste período estão: Vitória da Samotrácia , Vênus de Milo e o templo de Zeus, em na cidade de Pérgamo. Começo da civilização ocidental.“O homem é a medida de todas as coisas” Protágoras. A figura humana era o principal motivo na arte grega.

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15 Junho 2009

Manifestações artísticas (1)

Período Paleolítico (c. 30000 a. C.)
O Período Paleolítico é caracterizado pelo resfriamento na superfície terrestre e descoberta do meio de produzir o fogo. Para fabricar suas armas e utensílios, os homens faziam uso de osso, madeira, marfim e pedra. Devido a essas características da cultura material do período, também costumamos chamar o Paleolítico de Período da Pedra Lascada. Por volta de 40 mil anos, os povos do paleolítico começaram a viver em grupos mais populosos. Ao mesmo tempo, começaram a criar novas moradias feitas a partir de gravetos e peles de animal. Uma das grandes fontes de compreensão desse período é encontrada nas paredes das cavernas, onde se situam as chamadas pinturas rupestres. Nelas temos informações sobre o homem pré-histórico referente à suas ações cotidianas. No fim do Paleolítico, uma série de glaciações transformou as condições climáticas do mundo. As temperaturas tornaram-se mais amenas e, a partir de então, foi possível o processo de fixação dos grupos humanos. Com isso, uma série de mudanças marcou a passagem do período Paleolítico para o Neolítico

Período Neolítico (c. 18000 a.C)
Durante o Neolítico ou Idade da Pedra Polida ocorreram grandes transformações no clima e na vegetação. Mudanças climáticas favoreceram a agricultura, origem da cerâmica. A prática da caça e da coleta se tronaram opções cada vez mais difíceis. A agricultura e o conseqüente processo de sedentarização do homem se estabeleceram gradualmente. Além disso, a domesticação animal se tornou uma prática usual entre os grupos humanos que se formavam nesse período. A estabilidade obtida por essas novas técnicas de domínio da natureza e dos animais também possibilitou a formação de grandes aglomerados populacionais.
Arte na Pré-História
As primeiras obras de arte datam do período Paleolítico. Entre as obras mais antigas já encontradas estão pequenas estátuas humanas como, por exemplo, a Vênus de Willendorf (aproximadamente 25000 a.C.). Os mais conhecidos conjuntos de pinturas em cavernas ( arte rupestre ) estão em Altamira, na Espanha e datam de 30000 a.C. a 12000 a.C.; e em Lascaux, na França de 15000 a.C. a 10000 a.C. , onde se encontram pinturas rupestres de animais pré-históricos como: cavalos, bisões, rinocerontes. Estas pinturas indicam rituais pré-históricos ligados à caça. As imagens demonstram um naturalismo e evoluem da monocromia à policromia entre os anos de 15000 a.C. a 9000 a.C.

Egito Antigo
Originários do norte da África, instalaram-se ao longo do rio Nilo, na Idade Neolítica, em cerca de 5000 a 3000 a.C., divididos em pequenos Estados independentes (nomos), gradualmente unificados em dois territórios, o Baixo e o Alto Egito. Em cerca de 3000 a.C, unificam-se sob um único Faraó. A fase do Antigo Império ( 2850 a 2052 a.C), com capital em Mênfis, é a da construção das pirâmides. O médio Império (2052 a 1570 a .C), com capital em Tebas, tem seu fim marcado pelas invasões dos hicsos, povo semita que introduz o cavalo na região. O Novo Império ( 1570 a 715 a.C), com capital em Tebas e depois em Sais, assiste à expansão militar e à reforma que faz surgir a primeira religião monoteísta do mundo. Os egípcios acreditavam que preservar o corpo era necessário para o espírito sobreviver após a morte. No início, a mumificação era muito cara, sendo reservada apenas aos faraós e outros nobres. A partir da 18ª dinastia (1570-1304 a.C.), o costume estendeu-se ao resto da população.

As pinturas e os hieróglifos nas paredes eram forma de se inventariar a vida e as atividades do falecido. O faraó era a representação divina na terra. A Estátua do faraó oferecia uma morada alternativa para o ka (espírito) , caso o corpo mumificado se deteriorasse. Acreditavam no poder da imagem como elemento de preservação. A pintura e a escultura obedecia padrões rígidos de representação da figura humana, lei da frontalidade, hierarquia divina.

Arte do Egito
No Antigo Egito as obras de arte possuíam um possui forte caráter religioso e funerário. Essas características podem ser explicadas em função da crença que os egípcios tinha na vida após a morte. Há representações artísticas de deuses, faraós e animais explicadas por textos em escrita hieroglífica. As pinturas eram feitas nas paredes das pirâmides ou em papiros. Representavam o cotidiano da nobreza ou tratava de assuntos do cotidiano. Uma das características principais da arte egípcia é o desenho chapado, de perfil e sem perspectiva artística
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10 Junho 2009

O olhar na MPB

Quantas composições foram feitas para traduzir o olhar? Na música popular brasileira o olhar sempre foi uma referência. Vamos citar algumas. “Olhar Matreiro”, de Cazuza e Fagner revela: “Quando eu voltar pra você/Eu vou voltar inteiro/Quando eu chegar com meu olhar matreiro/Quando eu tocar a campainha/Me aninha/Certo que você é minha rainha...”. Tom Jobim parece que não entendeu o significado do olhar na composição “Este Seu Olhar” cuja letra diz: “Este seu olhar quando encontra o meu/Fala de umas coisas/Que eu não posso acreditar/Doce é sonhar, é pensar que você/Gosta de mim como eu de você//Mas a ilusão quando se desfaz/Dói no coração de quem sonhou/Sonhou demais, ah! se eu pudesse entender/O que dizem os seus olhos”. Já o tropicalista Tom Zé vai fundo em “Teu Olhar”: “Quando é dia/teu olhar/água clara/teu olhar/pela fresta/do olhar/procurava/teu olhar/minha alma, minha calma, estrela-dalva”. Mesmo sem entender a separação, Tim Maia encontra “Ternura em seu Olhar”: “Que parou comigo/Estou perdido e pra você/Eu já não sou ninguém/Mas apesar de tudo/Ao cruzar olhos nos olhos/Estou certo que tem//Ternura, ternura/Em seu olhar/Ternura, ternura/Em seu olhar”.

E foi dessa maneira que Gilberto Gil viu “Seu Olhar”: “Há no seu olhar/Algo que me ilude/Como o cintilar/Da bola de gude/Parece conter/As nuvens do céu/As ondas brancas do mar/Astro em miniatura/Micro-estrutura estelar//Há no seu olhar/Algo surpreendente/Como o viajar/Da estrela cadente/Sempre faz tremer/Sempre faz pensar/Nos abismos da ilusão/Quando, como e onde/Vai parar meu coração?//Há no seu olhar/Algo de saudade/De um tempo ou lugar/Na eternidade/Eu quisera ter/Tantos anos-luz/Quantos fosse precisar/Pra cruzar o túnel/Do tempo do seu olhar”
O trio Flávio Venturini, Zé Eduardo e Paulo Oliveira escreveram a composição “Teu Olhar, Meus Olhos”: “Olhei teus olhos/Vi o meu olhar e/Uma luz nasceu//Fechei meus olhos/Vi o seu olhar e/Tanto amor cresceu//E vi o brilho dos teus olhos/Brilhar no mundo dos meus sonhos/Me vi no fundo dos teus olhos/Brincamos juntos tantos sonhos//Amor o sonho/Nunca vai mudar em/Teu olhar, teu olhar, meus olhos”. Candeias ficou preso pela “Expressão do teu olhar”: “Na expressão do teu olhar foi que senti/Que me amavas, eu não podia, não podia fugir/Na expressão do teu olhar compreendi/Que precisava do carinho que nunca senti/Os teus olhos lindos, encantadores tinha um quê das flores/Rosas formosas com brilho do orvalho da manhã/Calados serenos transmitindo um tom de veneno/Me atraias, olhar sedutor/Cadê, o ativo olhar que há tempos conheci/Sedução do olhar que pressenti cheio de calor/Deus criou a beleza na mulher/Vem o tempo e destrói a obra do criador”. E o paulistano Guilherme Arantes canta que “O universo vai se abrir, sob o efeito de um olhar” na canção “Sob o Efeito de Um Olhar”.

Moraes Moreira e Antônio Risério conheceram o “Olhar de Cobra” que diz: “Ela tem um olhar de cobra/Que toda hora/Paralisa o meu/E toda vez que ela olha/A brisa beija a flora/Estrelas brilham no breu”. A banda Chiclete com Banana dispara o “Olhar 99”: “Olhe meu olhar noventa e nove/Salpicado de amor”. Na carnavalesca “Chão da Praça”, Moraes Moreira e Fausto Nilo falam de “olhos negros, cruéis, tentadores/das multidões sem cantor” pois “lá no Oriente tem gente/com olhar de lança na dança do meu amor”. Alexandre Peixe cantou o “olhar de escorpião”. Na composição “Olhinho”, Zeca Baleiro confessa: “Olhos santos, santos olhos/olhos de quem quer ver/o que ninguém vê/quer ver o que ninguém ver/furacão, avião, lamparina, sina, carnificina e solidão”.
Já Humberto Teixeira em “Dono dos Teus Olhos” cheio de ciúme revela: “Não se esqueça/que eu sou dono dos teus olhos/faz favor de num espiá pra mais ninguém;esse azul cor de promessa dos teus olhos/faz qualquer cristão gostar de tu também/que nosso Senhor perdoe os meus ciúme/quando penso em cegar os óio teu/pra que eu/somente eu/seja o teu guia/os óio dos teus óio/a luz dos óio teu”.
Leila Pinheiro conhece muito bem o “Olhar de Mulher” quando canta: “Ninguém pode ofuscar/A jóia rara/Que brilha no olhar/De uma mulher/Quem sabe o que quer/Não pode resistir/A gloria de existir/Sobe essa luz/A jóia que seduz/Não cabe em sua mão/Só pode possuir/Quem sabe o seu valor/E der em troca/O coração/De graça em troca/O coração”. Tem muito mais olhar na MPB...

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O olhar na Bahia cultural
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09 Junho 2009

Primeira princesa negra da Disney estréia este ano

Tiana é a primeira princesa negra da Disney. A estréia está prevista para o final deste ano. O longa intitulado A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog), se passa no bairro francês de Nova Orleans, uma forma do estúdio apoiar a reconstrução da cidade, destruída pelo furacão Katrina. A história acontece na época do nascimento do jazz. O filme tem direção de John Musker e Ron Clements, diretores de A Pequena Sereia, Aladin e Hércules. A dupla foi trazida de volta ao estúdio após a Disney adquirir a Pixar. No momento em que os afro-americanos estão ocupando lugar de destaque nos EUA, Tiana será a protagonista de "A Princesa e o Sapo", cuja estréia nos EUA está prevista para 11 de dezembro.

A história de A Princesa e o Sapo é descrita como um conto de fadas às avessas e é baseada num conto russo. Tiana será uma jovem garçonete e chef talentosa cujo sonho é ser proprietária de um restaurante. Mas sua vida muda ao beijar um sapo e se transformar em rã. Com isso, começa uma viagem para encontrar a cura. O longa é um conto baseado em “A princesa enfeitiçada“, um romance para adolescentes escrito por E.D. Baker e que se passa na Nova Orleans da década de 20. O filme marca o retorno da Disney aos musicais, com uma trilha sonora de Randy Newman (Oscar em 2002 por "Monstros S.A.") e tem o famoso jazz de Nova Orleans como referência, e à animação tradicional (2D)
Tiana se junta ao grupo de oito princesas que geraram mais de três bilhões de dólares em vendas desde 1999, quando foram reunidas na marca de maior crescimento da empresa. A nova personagem faz parte da diversidade étnica iniciada com Jasmine, a primeira princesa não caucasiana, que estreou com Aladin em 1992. Em seguida vieram a indígena Pocahontas e a chinesa Mulan. As novas personagens também têm fugido da característica básica da princesa que espera um príncipe para solucionar seus problemas. Embora as histórias sempre envolvam um grande romance, Jasmine quebra a tradição de um casamento arranjado por razões de estado e Mulan não só vai para a guerra em lugar do pai como salva a China de uma invasão.
POLÊMICA
O site do jornal britânico The Independent publicou um artigo sobre o caminho de polêmicas percorrido por A Princesa e o Sapo, o primeiro filme em animação 2D do estúdio desde Nem Que a Vaca Tussa. Uma das grandes jogadas do filme é que ele trará a primeira princesa afro-americana da Disney, fato que está rendendo discussões em grupos mais conservadores e dores de cabeça à Disney. A versão original de A Princesa e o Sapo (que se chamava na época A Princesa Sapo) teria como protagonista Maddy, uma criada negra que trabalhava para uma mimada debutante sulista. Maddy seria ajudada por uma fada madrinha que na verdade é uma feiticeira de vodu para ganhar o coração de um príncipe branco, após ele tê-la resgatado das garras de um mágico de vodu.
Os grupos politicamente corretos criticaram o primeiro tratamento da história, alegando que a personagem principal era um papel clichê que mostrava uma personagem negra como serva e com ecos de escravidão. Além disso, o nome Maddy soava muito como “Mammy” - nome empregado para chamar as escravas negras.
Temendo maiores protestos, a Disney reformulou o filme, mudando até mesmo o título e o nome da heroína. Esta agora se chama Tiana, um jovem de 19 anos que vive em um país que nunca teve uma monarquia. Ela deve viver “feliz para sempre” com um companheiro que não é negro - segundo rumores ele é do Oriente Médio e se chama Naveen. A etnia do vilão também teria sido supostamente mudada. Apesar de todas as mudanças, o filme ainda está planejado para fazer sua estréia em dezembro de 2009.
As princesas da Disney foram o espelho para milhões de meninas e adolescentes desde que, em 1937, a Branca de Neve apareceu pela primeira vez. Hoje, os estúdios Disney, através da fabricante de brinquedos Mattel, possuem uma linha de desenho, moda e decorações com esses personagens como protagonistas, que deram à companhia lucro de US$ 4 bilhões em escala mundial.
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08 Junho 2009

Politicamente segregados

O leitor está cada vez mais buscando notícias em suas incursões online. O resultado disso é que o público seleciona o tipo de notícias e opiniões de que mais gosta. Não deseja informações confiáveis, e sim as que confirmem as idéias preconcebidas. Um bom exemplo disso é que os norte americanos vêm se segregando em comunidades, clubes e igrejas onde são cercados por pessoas que pensam como eles. Em seu livro editado em 2008, “A grande classificação: porque a divisão da América em agrupamentos de idéias iguais nos está dividindo”, de Bill Bishop, ele diz que quase metade dos americanos vive em condados que votam por maioria avassaladora em candidatos democratas ou republicanos. Nos anos 60 e 70, em eleições nacionais igualmente disputadas, só cerca de um terço dos eleitores vivia em condados que apresentavam maiorias avassaladoras nas eleições.

“O país está ficando mais politicamente segregado – e o benefício que deveria advir da presença de uma diversidade de opiniões se perde para o sentimento de estar com a razão que é próprio dos grupos homogêneos”, escreve Bishop. Além de mostrar que os americanos demonstram menos tendência a discutir política com pessoas de visões diferentes, o declínio da mídia noticiosa tradicional acelera a ascensão de idéias preconcebidas. O perigo disso tudo é que esse noticiário autosselecionado aja como entorpecente como aconteceu nos anos 50 quando um obscuro psiquiatra do sistema judiciário de Nova York, Frederick Werthmam escreveu um livro, A Sedução dos Inocentes, alertando aos pais que as história sem quadrinhos são veículos que aumentam a violência juvenil e não traz benefício aos leitores. Todos seguiram a cartilha de Wertham e o resultado agora prova o contrário.

No Brasil a imprensa está se transformando numa instância de uma sociedade abandonada e agredida por muitas de suas autoridades. O Ministério Público, no cumprimento de seus deveres constitucionais, se sente respaldado pela sociedade. E o Judiciário deveria seguir essa linha contra a a corrupção e à altura da indignação nacional. O jornalista deve investigar, obter provas concretas do que vai ser publicado. A informação é a base da sociedade democrática. É preciso melhorar os controles éticos da notícia, combater as injustas manifestações de prejulgamento. Jornalismo não existe onde não há liberdade. No jornalismo diário, numa crise política como a atual, não se pode ter a dimensão do todo antes que o todo exista. Por isso os jornais não podem contar uma história arrumada, é no processo diário que a coerência se constrói, que o sentido se forma.
O jornalista é o profissional que estabelece vínculos entre os fatos corrente e passados, provocação estimula o raciocínio do leitor/ouvinte/telespectador, e procura ainda extrair disso tudo alguma perspectiva que sinalize o futuro. Tudo isso com princípios éticos, sem se deixar contaminar por influências políticas ou interesses pessoais. O desafio hoje é permitir que o leitor entenda os fatos, pois existe uma avalanche de informações. A função do jornalista é buscar a verdade camuflada através da verdade aparente. Ser jornalista hoje é ter perseverança, vontade e amor pela profissão, já que os jornalistas ganham mal e não há incentivos para a realização do trabalho. É tentar ser uma testemunha do seu tempo.
Aprendemos eticamente nos bancos das faculdades que a preservação da verdade (ainda que subjetiva) e a apuração de fatos através de fontes idôneas (se possível na investigação junto a especialistas), é fator primário a ser observado na apuração de qualidade. Somos seres carentes de informação, fontes, verdades e de espaço para veiculação de nosso material.

Por que as pessoas não prestam atenção na política?. São poucas as que se interessam pelo assunto. O desinteresse pela política e a capacidade do cidadão comum estabelecer uma ponte entre o que ocorre no poder e seus interesses é muito grande. Sabemos que o Brasil recuperou há muito tempo todos os seus direitos políticos, as eleições livres são rotineiras, mas a distribuição de renda ainda é uma vergonha. A escolaridade do brasileiro vem crescendo, a taxa de mortalidade infantil decrescendo. Afinal o que está acontecendo?. A política é fundamental no cotidiano dos indivíduos. Ela influencia na geração de emprego, no valor dos salários, na qualidade da educação, nos transportes públicos e programas assistenciais. Enfim, no dia adiado cidadão, e porque essa falta de interesse?.

Uma pesquisa divulgada pelo IBGE informou que 53,3% de jovens entre 18 e 24 anos (73% no Nordeste) estão matriculados no ensino fundamental (eles deveriam estar cursando faculdade pela faixa etária). Se for fazer um teste com esses jovens, muitos deles não entendem o que lêem. E se não entendem não sabem o que acontecem ao seu redor. Fecha o ciclo.
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05 Junho 2009

Culto do falo (3)

Foram as preferências sexuais das mulheres que conduziram as principais evoluções do órgão sexual masculino, selecionando para a cópula os machos que tinhas as informações genéticas que as agradavam. A opinião é do psicólogo americano Geoffrey Miller, especializado em evolução humana e autor do livro A Mente Seletiva. “E a ereção humana representou um papel importante nessa escolha, já que ela é uma forma de o macho demonstrar que é saudável e forte e que, além disso, está disposto para a cópula”, diz Miller. Para ele, o prazer também foi determinante para chegar ao formato final do pênis, o que aconteceu há cerca de 60 mil anos.

O homem é falocêntrico, põe toda sua erotização no pênis, enquanto a mulher a distribui pelo corpo. “O pênis reúne os conceitos de procriação, prazer, virilidade e paternidade. Na mulher, eles estão separados entre o clitóris (prazer), útero (procriação), vagina (gênero), seios (maternidade)”, informa a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do programa de sexualidade do Hospital das Clínicas da USP. Isso justificaria a angústia dos homens em relação à sua virilidade. O símbolo de sua força e poder está fora de seu controle.
Foi Sigmund Freud que primeiro se preocupou com a alma do pênis. O fundador da psicanálise dedicou parte de sua vida e de sua obra para explicar o papel dele na formação do indivíduo e da sociedade. Para ele, o pênis era o órgão fundamental na formação do caráter de todas as pessoas. As mulheres se caracterizariam pela ausência e a inveja do falo, os homens pelo medo da castração e pelo complexo de Édipo. Freud acreditava que todo o comportamento dos indivíduos podia ser explicado pela relação dele (ou dela) com o pênis.

INVEJA
Com os conceitos fundamentais de inveja do pênis e ansiedade da castração, a sua descrição do inconsciente como um domínio tornado caótico pela luxuriado pênis, e a sua afirmação de que toda libido, tanto feminina quanto masculina, é fálica, Sigmund Freud no início do século XIX pôs o pênis na boca e mente de quase toda pessoa instruída no mundo ocidental. As idéias e atitudes que Freud presidiu tiraram as folhas de parreira deixadas por 1.50 anos de civilização cristã. Para alguns, foi um ato de coragem monumental. Para outros, um ato de barbarismo.
Que o pênis é um marcado, uma parte do corpo com significados conscientes e inconscientes de conseqüências sérias e duradouras, é um insight que também foi exposto a Freud quanto criado por ele. Tornando-se homem na Europa no fim do século XIX, Freud sabia que a sua condição de judeu definia-o como doente aos olhos de seus vizinhos cristãos. Também sabia que esses olhos concentravam-se na sua parte que “causavam” a sua doença. Essa parte do corpo tornava-o, e a todos os judeus, uma perigosa fonte de contágio par os não-judeus. O órgão que fazia isso era o pênis judeu. Medo e aversão por esse órgão permearam a cultura européia por dois mil anos.
O judeu era definido por seu pênis, e esse pênis era definido pela circuncisão. O ritual provava a perversidade do judeu – remoendo o prepúcio e, desse modo, numa menção indireta à castração, expondo a glade, exatamente como o pênis quanto ereto. Por causa desses sinais mistos, a idéia cristã do judeu era sexualmente confusa, mas uniformemente negativa.
GUERRA
A partir da década de 60 o pênis se tornou mote da guerra dos sexos, virou emblema político e foi um dos alvos prediletos dos discursos feministas. E o falo chegou a ser ameaçado por sua versão plastificada, o vibrador, cujo uso era encorajado pelas feministas. O resultado dessa batalha foi a chamada democratização do falo. Homens e mulheres dividiram o poder na esfera social.
A historia do pênis e a história de sua evolução como idéia. Ao longo do tempo, o pênis foi divinizado, demonizado, secularizado, racializado, psicanalisado, politizado e, finalmente, medicalizado pela moderna indústria da ereção. Cada uma dessas lentes foi uma tentativa de dar sentido intelectual e emocional à relação do homem com o seu órgão definidor.
Atualmente, a população ocidental jura sobre a Bíblia, mas antes de haver as Bíblias, os homens costumavam jurar por seus pênis, ou pelos pênis dos homens para quem faziam o juramento. A palavra “testemunho” vem do latim testemonium, derivado de testi, principalmente no plural testes: jurar sobre os testículos. Muita sculturas antigas levavam em alta conta o juramento dado empenhando-se a própria virilidade.
Leitura recomendada:
Uma Mente Própria: A história cultural do pênis, de David M. Friedman. Rio de Janeiro. Objetiva, 2002
O Livro do Pênis, de Maggie Paley. São Paulo. Conrad Editora do Brasil, 2001
O Livro do Pênis, de Joseph Cohen. Colônia, Konemann Verlagsgesellschaft, 2001
A Mente Seletiva, de Geoffrey F. Miller, São Paulo, Campus, 2000
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04 Junho 2009

Culto do falo (2)

O pênis não foi simplesmente exaltado em Atenas – ele foi exposto. A reverência pela forma masculina foi personificadas em milhares de estátuas de rapazes nus, espalhadas pelo mundo grego. “Na Grécia”, escreveu Michel Foucault em História da Sexualidade, “a verdade e o sexo estavam ligados na forma da pedagogia pela transmissão de conhecimento precioso de um corpo a outro corpo; e sexo servia como meio para iniciações na aprendizagem”.

Não foram os padres da Igreja e sim os filósofos estóicos, como Sênica, que começaram a chamar os órgãos genitais de “partes vergonhosas”, ou pudendas (os gregos diziam cidia).
A partir do século V Agostinho pregava que o homem adoeceu pela luxúria e o sêmen e, então, estabeleceu a Igreja como o Grande Médico Espiritual. As opiniões negativas de Agostinho sobre ereção, sêmen e natureza humana se tornariam “a influência dominante no cristianismo ocidental, católico e protestante, e dariam o tom de toda a cultura ocidental, cristã ou não”, informou Elaine Pagels.

O pênis mudou-se para outro lugar. Depois de homenageado como motor da vida pelos homens que construíram as pirâmides e o Panteão, depois de reverenciado como o deus interior pela tribo do deserto que introduziu no Ocidente o monoteísmo e a idéia do Messias, esse “caule sagrado” foi derrubado de seu pedestal e apagado do léxico cultural ocidental. O seu lugar foi ocupado pela “vara do demônio”, o corruptor de toda a humanidade.
O pênis na Europa medieval, geralmente estava longe dos olhos, mas nunca longe do pensamento. A vara do demônio tornou-se uma obsessão da Igreja na literatura conhecida como penitencial. Tendo se originado na Irlanda do século VI, esses manuais para confessores definiram o comportamento cristão – especialmente o comportamento do pênis. Os penitenciais procederam da idéia agostiniana de que sexo era pecaminoso justamente em relação ao prazer que gerava.
Tomás de Aquino perpetuou a atribuição de características demoníacas ao pênis, que começou com Agostinho e culminou em um dos períodos mais feios da história. Ele contribuiu para o estabelecimento da histeria da bruxaria.
IDADE MÉDIA
A crença do homem, na Idade Média, em sua integridade física era tão vacilante que alguns ostentavam a braguilha sobreposta no gancho de seus calções, geralmente décor viva e acolchoada, moldada na forma de uma ereção permanente. “A primeira peça na armadura de um guerreiro”, disse Rabelais. Em 1536, o rei Henrique VIII, dono da braguilha mais volumosa da Inglaterra, decapitou sua segunda esposa, Ana Bolena, antes cortesã, que ele denunciou como feiticeira depois de perder o interesse sexual por ela – ou terá sido a capacidade de ereção?. A misogenia, em suas expressões sutil e bestiais, provavelmente fornece, de modo geral, a resposta. O que havia era uma permanente obsessão cultural com o pênis, as inseguranças que gerava e o mal que poderia fazer.
A masturbação “proclama a independência do macho”, escreveu John H. Gagnon e William Simon em “Sexual Condut”. “Concentra o desejo sexual masculino no pênis, por causa da centralização da genitália nos domínios físico e simbólico (...). A capacidade de ereção é um sinal importante” a maioria dos homens diria o sinal mais importante – “de virilidade e controle”.
Os pregadores do século 17 afirmavam que a masturbação era o mais grave pecado contra a natureza, pois acarretava fraqueza física, incapacidade para o casamento e abreviava a vida, levando ao suicídio. Com o Iluminismo, a condenação muda radicalmente de sentido. A masturbação não é mais uma “falta” apenas, ela se torna uma “doença”. No século 19 a idéia fixa médica do onanismo como doença beirou o delírio e justificava todo tipo de recomendações, admoestações e ameaças dirigidas aos jovens. O discurso médico refletia as fantasias da classe burguesa, em vias de se tornar a nova classe dominante.
Há diversos nomes para a masturbação: servir-seda mão, punhetear, polir o instrumento, pelar o ganso, os cinco contra o careca, onanismo, matar o zezinho, glorioso, empinar a pipa, descascar o pepino, descascar abanana, amolar a ferramenta, bater bronha, tocar pífano, tocar aflauta, vício solitário...
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um estado d´alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Roha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)


03 Junho 2009

Culto do falo (1)

Desde o período paleolítico, a imagem do pênis é encontrada nas paredes das cavernas. Ela volta com força no neolítico, especialmente na forma de megálitos (pedras monumentais erguidas em tempos pré-históricos) muito fálicos. Nessa época, o homem se torna sedentário e passa a desenvolver a agricultura.

Nas culturas pagãs que precederam o cristianismo, o elo entre o humano e o sagrado, um agente do êxtase físico e espiritual que aludia à comunhão com o eterno. Mas também era uma arma contra as mulheres, crianças e homens mais fracos. Era uma força da natureza, reverenciada por sua potência, ainda que não menos amoral. Unia o homem à energia cósmica que cobria os campos todo ano com novos rebanhos e safras – e, com a mesma freqüência, os destruía.

Desde o começo da civilização, o pênis foi mais do que uma parte do corpo. Foi uma idéia, na medida-padrão conceitual, ainda que real, do lugar do homem no mundo. Há séculos, o falo é símbolo de poder e glória. Oscilando entre o sagrado e o profano, já foi motivo de orgulho e vergonha, mas jamais saiu do centro das atenções humanas.
Mito e religião conviveram em paz com o pênis durante toda a Antiguidade. “Egípcios, gregos, romanos usavam a imagem do falo para representar as forças criadoras e fecunda do Universo, o poder gerador da natureza”, diz Bayard Fischer Santos, médico andrologista de Porto Alegre (RS), autor do livro A Medida do Homem.
CULTURA DA VENERAÇÃO
Algumas culturas, antigas e modernas, veneram, esculpem e usam o pênis como pingentes. Outras, como a nossa cultura judaico-cristã, consideram melhor pra todos os envolvidos mantê-lo escondido. Do período neolítico, quando os homens descobriram qual era o seu papel na concepção, até o cristianismo se espalhar pela Europa, quase todas as culturas tinham deuses com pênis notórios.
Os gregos tinham vários deuses do pênis. Priapo era um deles, Dioniso, outro. Ainda havia Hermes que é uma palavra para pênis em grego. Baco, também chamado de Líber, era o deus do pênis em Roma. Osíris, o deus egípcio do pênis. Shiva era o deus indiano. Em lugares antigos, tão variados e distantes como Índia, Japão, Grécia, Roma e Grã Bretanha, havia festivais anuais em homenagem aos deuses do pênis. Imitações de pênis imensos eram carregadas pelas ruas, as pessoas usavam máscaras de pênis e as celebrações geralmente terminavam em orgias.
Enquanto os deuses do pênis reinavam, os monumentos fálicos se espalhavam pela paisagem. Os egípcios levantaram obeliscos, com extremidade em forma de pontas de pirâmide. Alguns sobreviveram – entre eles, a Agulha de Cleópatra, realocada para o Central Park, em Nova York, e outro para a represa de Londres.
Nas sociedades que praticavam a veneração fálica, os falos quase sempre enfeitavam os objetos do dia-a-dia. Eles eram comuns em pinturas de vasos da Grécia Clássica, que regularmente tinham jogos sexuais como tema – somente entre mortais, e entre mortais, sátiros e deuses. Nas escavações das ruínas de Pompéia, o falo era o motivo condutor. A especialidade da antiga cultura peruana, mochica, era vasos com falos servindo de bicos.
O xintoísmo, a religião original do Japão, se relaciona intimamente com a natureza e a veneração fálica é a veneração à força da vida. O Japão vem a ser cheio de pedras naturais com formato de pênis. Eles são tidas como pedras mágicas, com poderes de proteção. Há santuário de pedras fálicas por todo o país.
Através das eras, artistas desenharam e pintaram ereções e atos sexuais de vários tipos. Mas o Ocidente judaico-cristão essas obras eram consideradas pornográficas. Muitas são mantidas em segredos por seus proprietários e grande parte do restante está nos acervos dos museus, em coleções especiais. Entre os artistas famosos estão obras de Leonard da Vinci, Thomas Rowlandson, Egon Schiele, Toulouse-Lautrec, Cocteau, Dali, Picasso e muitos outros. Na fotografia há obras polêmicas de Robert Mapplethorpe ou de desenho erótico de Tom of Finland. Nos quadrinhos temos o nosso Carlos Zéfiro ou mesmo Milo Manara, Robert Crumb, Serpieri..

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02 Junho 2009

História da Vagina (2)

“A religião – o sistema de crenças de uma sociedade – sempre é um assunto controverso. E, ao examinar como no passado as diversas religiões viam a genitália feminina, descobri as posições mais polarizadas. De um lado, o Ocidente, com sua atitude que considera a vagina como a porta do inferno, a fonte de todos os problemas e sofrimento neste mundo, e a desgraça em potencial do homem. Aqui a vagina era algo a ser temido, ridicularizado e abominado. Entretanto, oposto a isso havia os sistemas de crença originários da Índia e da China. Estes ensinavam que a genitália feminina era a origem simbólica do mundo, a fonte de toda nova vida e a via pela qual se poderia obter longevidade e a vida eterna. Aqui a vagina era um ícone a ser venerado, amado e honrado. A divina vagina. E, caso eu não conseguia acreditar nessas palavras, havia uma abundante e bem visível arte vaginal – pintores, escultores, gravuras –confirmando que essa era a forma com que muita gente, em culturas extremamente variadas, havia concebido milhares de anos”, afirmou.

Enquanto no Ocidente a vagina é tão desvalorizada e a sexualidade feminina reprimida, a etnografia dos últimos 100 anos mostra como é diferente o que ocorre em várias outras culturas. Nas Ilhas Marquisas, Ilha de Páscoa, Ilhas do Pacífico, Polinésia, os genitais femininos são valorizados – é frequente que o clitóris, os pequenos e grandes lábios sejam manipulados e alongados artificialmente e enfeitados com piercings, tendo como objetivo sua maior capacitação para o prazer sexual. A autora termina a obra com amplas considerações sobre o orgasmo feminino.

O livro é um guia meticuloso sobre o sexo feminino. Blackledge não se poupou esforços para realçar o papel que a vagina tem na nossa vida, chamando a atenção para o fato de esse papel ter sido subalternizado durante séculos, não só devido aos conceitos morais vigentes, liderados por homens, mas também devido a uma certa cegueira científica. A Ciência ignorou muitos fatos sobre a importância da vagina já detectados pelos Antigos. Neste particular, o papel obscurantista da Igreja é notável.
Blackledge encontrou coisas curiosas, como a ligação entre chifres, fertilidade e útero. Os médicos sabem que, segundo a anatomia humana, o útero tem cornos. Diz a autora: “A associação entre um homem corneado e chifres prevalece em toda a Europa meridional. Em português (cornudo ou cabrão), em espanhol (cornudo), em catalão (cornut ou cabroni), em francês (cocu) e em grego (ketatas), a palavra para a pessoas corneada quer dizer ´o que foi corneado´ ou áquele que transporta chifres´ (...) E significativo que esse termo que transporta a homen, nunca a mulheres”.

A autora procura também decifrar o significado das palavras relacionadas com a vagina, dedica páginas e prazeres ao clitóris. O papel da vagina na relação sexual é bem destacado pela autora, e da exemplos curiosos: “O escritor francês Gustave Flaubert refere-se\com entusiasmo aos seus encontros com as prostitutas profissionais exiladas na cidade egípcia de Esneh: ´a sua cona ordenhahava- me como rolos de veludo – eu enlouquecia”.
Através do mundo, Shilihong era uma profissional de sexo de Xangai famosa pelo seu excepcional controle dos músculos vaginais. Consta que era capaz de movimentar o pênis do homem para dentro e para fora, simplesmente contraindo e relaxando os seus músculos, movimento que produzia uma sensação de sucção. Diz-se igualmente que a “chupeta de Xangai”, de Wallis Simpson, foi um dos motivos pelo qual a Grã-Bretanha perdeu um rei em 1936. Comentava-se que a Sra. Simpson conseguia que um palito de fósforo se sentisse um charuto de Havana.
A importância do cheiro para as relações bem sucedidas não foi esquecida na obra. Quando uma mulher diz “este tipo não me cheira”, é natural que a relação não avança. O chamado ponto G (aquele que, estimulado, provocaria, o orgasmo da mulher) e outros são abordados sem subterfúgios. Dessa forma Catherine Blackledge contribuiu para derrubar as barreiras e repressão que ainda persistem e constrangem tanto as mulheres. Que essas barreiras e repressões são resistentes dão provas o fato de que a autora, que demonstra tanta bravura no corpo de seu livro, não ousa escrever o título com todas as letras.
Até recentemente as fêmeas de muitas espécies eram tidas como monógamas, preferindo acasalar-se com apenas um macho. Sabe-se agora que tal teoria está errada – as fêmeas da maioria das espécies são polígamas, preferindo acasalar-se com vários machos. Na realidade, a idéia da fêmea monógama era uma noção científica decorrente de uma ideologia, não dos fatos. A ideologia, neste caso, era a idéia ultrapassada que as fêmeas conseguiam e não deveria sentir desejo e prazer sexuais, como os machos podiam e conseguiam. A pesquisadora observa que para entender as teorias científicas deve-se examinar a cultura que as cria.
E ela analisou como a ciência, a medicina e a anatomia ocidentais têm visto a vagina. Doutrinas antigas e arbitrárias determinaram que o homem era a medida da mulher, e que o pênis dele era o padrão de medida da genitália dela. O resultado dessa lógica foi que os anatomistas do Renascimento viram-se proclamando que a vagina era um pênis subdesenvolvido e virado do avesso, que os ovários eram testículos, o útero era um escroto e o clitóris também era um pênis. E fizeram isso a despeito de uma notável evidência em contrário, porque tinham que repetir o que as autoridades de plantão lhes mandavam dizer.
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01 Junho 2009

História da Vagina (1)

Uma viagem pelas diferentes concepções culturais em torno do órgão sexual feminino. A historia da V – Abrindo a Caixa de Pandora (Editora Degustar) é o título do livro da jornalista britânica Catherine Blackledge, especializada na cobertura de Ciência. Ela decidiu se dedicar ao livro por considerar que a vagina é o mais nebuloso, mitológico e incompreendido órgão do corpo humano.

“Este é um livro sobre concepções de vagina. Concepções nada ortodoxas, concepções coloridas, concepções cintilantes e concepções revolucionárias. Nestas páginas, você encontrará perspectivas vaginais provenientes de uma ampla variedade de fontes. Concepções de vagina provenientes da ciência, da história, da mitologia e do folclore, da literatura e das línguas, e da antropologia e da arte. Meu objetivo é fornecer um quadro o mais completo e franco possível da genitália feminina. Uma fotografia tirada com uma lente grande-angular, se preferir. Espero que, devido a este livro, você nunca mais olhe para a vagina da mesma maneira que antes”, escreveu na introdução do livro.

Catherine Blackledge aborda a sexualidade feminina sob o prisma histórico, cultural, antropológico e fisiológico. Ela articula seus argumentos em prol da valorização da genitália feminina e do direito da mulher ao gozo sexual.
Ao longo da História, a Medicina apresentou mal a anatomia sexual da mulher e reduziu suas capacidades à noção de mero receptáculo passivo. A obra reúne os últimos achados científicos sobre a função do sexo feminino e o papel da vagina, tanto em relação ao prazer quanto à reprodução. Procura explicar também por que a simples menção da palavra “vagina” constrange os ouvintes ainda nos dias de hoje.
A autora mostra como as representações da vulva são muito mais antigas do que as do pênis nas pinturas rupestres, atribuindo esse fato ao tardio reconhecimento da importância do órgão masculino nos processos reprodutivos. Descreve antigas crenças relacionadas com a vagina, cuja exibição teria o poder de afastar o mal, proporcionar uma maior fertilidade nos animais, garantir a germinação das plantas, paralisar os inimigos – até mesmo o Diabo. Com o advento do cristianismo, houve uma grande reviravolta, o órgão feminino passou a ser visto como fonte do mal e – consequentemente – algo a ser reprimido. Tal enfoque permanece até nossos dias, evidenciando-se na pobreza etmológica para descrever suas várias estruturas como o clitóris, os pequenos lábios e os grandes lábios.

Blackledge dedica outra parte do livro (a descrição da anatomia e da fisiologia dos genitais da mulher e das fêmeas de várias espécimes do mundo animal. Ela defende a idéia de que as fêmeas têm papel ativo no ato da concepção, senão seu controle total. Mostra os preconceitos culturais e sociais que reprimiram e censuraram portanto tempo a sexualidade feminina, especialmente aqueles que se manifestaram a través das ideologias científicas das diferentes épocas. A negação da sexualidade feminina era de tal ordem que se refletia até mesmo na observação do comportamento social das fêmeas dos animais, cuja poliandria era sistematicamente negada em nome de uma monogamia ideologicamente concebida.
Em épocas passadas, se desconhecia o papel do clitóris na reprodução e, por muito tempo ele foi ignorado pelos tratados médicos. Sua qualidade de zona erógena, de órgão de prazer sexual, não podia ser reconhecida, por isso implicaria na questão do orgasmo feminino, fato negado pelas autoridades científicas e religiosas.
No final do século XIX eram realizadas na Europa e Estados Unidos clitoridectomias (extirpação cirúrgica do clitóris) para curar histéricas. A função erótica do clitóris era implicitamente reconhecida e reprimida pela genética médica. Essa não é uma pratica do passado. Atualmente, como lembra Blackldge, há outros 100 e 130 milhões de mulheres que sofreram a infibulação (extirpação do clitóris, parte dos pequenos lábios e/ou sutura dos grandes lábios), procedimento costumeiro em países muçulmanos. Em 27 países africanos, algumas regiões do Oriente Médio e da Ásia, Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia calcula-se que cerca de 2 milhões de meninas por ano são submetidas atais práticas de mutilação genital.
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29 Maio 2009

Dez anos de Matrix (5)

O filme de ficção científica que reinventou vários conceitos no gênero no final dos anos 90, fala sobre o domínio das máquinas sobre os homens e de um grupo liderado por Morpheus que procuram o “One” (o escolhido) que, diz a profecia, libertará a raça humana desas máquinas. Diversas referências e citações na obra dos irmãos Wachowski são encontradas nos clássicos do cinema moderno como “Blade Runner, o caçador de andróides! (1982), de Ridley Scott; “O Exterminador do Futuro” (1984), de James Cameron; o desenho animado “Akira” (1988), de Katsuhiro Otomo. Outros filmes relacionados: “Metropólis”, de Fritz Lang; “O Show de Truman”, de Peter Weir; “Gattaca – A Experiência Genética”, de Andrew Nicoll; “Simone”, de Andrew Nicoll.

“Ghost in The Shell” (1995), o desenho animado de Oshii Mamoru (uma das principais inspiração para a trilogia Matrix), mostra o ato de heroísmo de um membro da Comissão de Segurança pública Nacional Japonesa, especializado em combater crimes relacionados a tecnologia. Criado por Masamune Shirow, o quadrinho foi publicado pela primeira vez em 1989 e já foi transformado em vários produtos, de videogames a séries de TV. O estúdio DreamWorks (de Steven Spielberg) conseguiu os direitos para adaptar o famoso quadrinho japonês “Ghost in shell” para o cinema em versão 3-D. Vamos aguardar.
O sucesso de Matrix foi tão grande que influenciou muitos cineastas da nova geração como nas idéias para Xavier Gens dirigir “Hitman, Assassino 47” (2007), no visual de “Anjos da Noite” (2003), de Len Wiseman, ou mesmo nos efeitos de “O Procurado” (2008), de Timur Bekmambetov. Depois de Matrix, o cinema nuba mais foi o mesmo.
Animatrix é uma coleção de pequenos filmes em animação, mostrando a história anterior ao universo de “Matrix”, e a guerra original entre humanos e máquinas que levará a criação da Matrix.
A coletânea reúne 9 curta-metragens animados que tratam de eventos relacionados ao mundo de Matrix, proposto pelos irmãos Wachowski. Os desenhos foram em sua maioria, criados e dirigidos por renomados profissionais japoneses, uma forma de homenagear os populares animes, dos quais os irmãos Wachowski são fãs confessos.
“O Segundo Renascer - Parte 1 E 2”: Neste curta-metragem, dividido em duas partes, é contada a história do surgimento da Matrix desde o primeiro assassinato cometido por um robô, que foi o estopim para a rebelião humana e para o início da guerra contra as máquinas; “Coração de Soldado”: Na simulação de um treinamento no mundo dos samurais, CIS, um soldado de Zion, é forçado a escolher entre o amor e seus camaradas no mundo real.”Uma História de Detetive”: Investigador linha-dura, Ash está a procura da cyber-criminosa Trinity. “O Vôo Final de Osíris”: A tripulação da nave Osiris precisa transmitir a Zion uma mensagem de suma importância. E para tal, terão que atravessar um exército de sentinelas que os separa da cidade.
“O Recorde Mundial”: Por meio de uma incrível combinação de força de vontade e força física, Dan, um corredor recordista mundial, consegue sair da Matrix e tem uma breve visão do mundo real. “O Robô Sensível”: Um pequeno grupo de rebeldes captura um robô sentinela e o reprograma para atuar como um aliado da causa. “Era uma Vez um Garoto”: Sentado em sua sala de aula, o garoto recebe um convite pessoal de Neo para fugir da Matrix. Mas achar uma saída comprova-se muito mais difícil do que se imaginava. “Além da Realidade”: Numa pequena cidade, onde nada é como parece, Yoko acha uma falha nos sistemas: uma mansão abandonada na qual tudo parece possível. Mas o suporte técnico vem com força total para fazer o "de-bug".
Inspirado pelas experiências com drogas do escritor Warren Ellis e considerada pelos críticos como uma instigante mistura das tramas policiais de Sin City com o universo de Matrix, “Azul Profundo” é uma das histórias em quadrinhos mais inovadoras da atualidade. A arte de Jacen Burrows está surpreendente ao mostrar a vida do policial Frank na pista de um perigoso serial killer que começa a duvidar da realidade que o cerca (o que é a realidade?)
Os irmãos Wachoswski eram roteiristas de quadrinhos. Steve Skroce, o artista de storyboard dos filmes, foi desenhista, entre outras coisas, do Homem-Aranha. Geoff Darrow, o artista conceitual da série, fez, junto com Frank Miller, a aclamada minissérie Hard Boiled. Juntando essa equipe e mais outros artistas o conceito original do filme foi expandido para os quadrinhos. A Panini acaba de larçar The Matrix Comics Vol. 1 reunindo 12 histórias inspiradas pelo revolucionário mundo do filme Matrix e produzidas por alguns dos maiores criadores contemporâneos como Larry & Andy Wachowski, Geof Darrow, Bill Sienkiewicz, Neil Gaiman, Ted McKeever, John Van Fleet, Dave Gibbons, Paul Chadwick, Kilian Plunkett, entre outros. Vale a pena conferir.
Filme: Matrix
Título original: The Matrix
País: Estados Unidos
Ano: 1999
Filme: Matrix Reloaded / Matrix 2
Título original: The Matrix Reloaded / The Matrix 2
País: Estados Unidos
Ano: 2003
Filme: Matrix Revolutions / Matrix 3
Título original: The Matrix Revolutions / The Matrix 3
País: Estados Unidos
Ano: 2003.

28 Maio 2009

Dez anos de Matrix (4)

Matrix Reloaded: Neo dá mais um passo na busca da verdade, que começa com sua jornada até o mundo real no início de Matrix - mas essa transformação o deixa privado de seu poder, perdido num limbo entre a Matrix e o mundo das máquinas. Enquanto Trinity (Carrie-Annie Moss) cuida de Neo, que está em coma, Morpheus (Laurence Fishburne) sofre com a revelação de que o Escolhido, em quem ele depositou todas as suas esperanças, não passa de mais um sistema de controle inventado pelos criadores da Matrix. Com o auxílio de Niobe (Jada Pinkett Smith), Neo e Trinity decidem ir até onde nenhum humano jamais ousou ir, numa jornada traiçoeira acima do solo, através da superfície queimada da terra e para o coração da ameaçadora Cidade das Máquinas. Nesta imensa metrópole mecanizada, Neo se vê face a face com o maior poder do mundo das Máquinas - Deus Ex Machina - e parte para uma negociação que é a única esperança de um mundo que agoniza. A guerra chegará ao fim esta noite, e os destinos de duas civilizações e do próprio Neo dependem inexoravelmente do desfecho de seu confronto com Smith.

Matrix Revolutions (2003): O explosivo episódio final da trilogia Matrix, a guerra épica entre homens e máquinas atinge o seu clímax: os militares de Zion, ajudados por corajosos voluntários civis como Zee (Nona Gaye) e o Garoto (Clayton Watson), lutam desesperadamente para deter a invasão de Sentinelas na medida em que o exército das máquinas avança sobre sua fortaleza. Sob a ameaça de aniquilação total, os cidadãos do último bastião da humanidade lutam não apenas por suas vidas, mas pelo futuro de toda a humanidade. Sem que ninguém saiba, porém, o grupo está contaminado por dentro: Smith (Hugo Weaving) astuciosamente se apodera do corpo de Bane (Ian Bliss), membro da frota de hovercrafts. Tornando-se mais poderoso a cada segundo que passa, Smith está fora até mesmo do controle das máquinas e agora ameaça destruir o império destas, juntamente com o mundo real e a Matrix. Oráculo (Mary Alice) diz a Neo suas derradeiras palavras de orientação, e ele as acata, embora ciente de que também ela é um programa e de que suas palavras podem não passar de mais um elemento enganador no grande esquema da Matrix.
Matrix Revolutions, o terceiro episódio mostra que o maior problema de Neo não será somente salvar a humanidade, ele terá que combater o Agente Smith, que desenvolveu os mesmos poderes que ele. Smith pode voar, lutar como Neo, e destruir Zion, já que ele se tornou como um vírus dentro da Matrix, e somente Neo poderá detê-lo. Paralelamente a isto, os humanos livres lutam para salvar Zion do ataque das máquinas.
“O que é real? Como define real? Se você está falando do que pode ser cheirado, provado e visto, então real é simplesmente um sinal eléctrico interpretado pelo seu cérebro “( Morpheus)
Além das seqüências Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, nove capítulos de curtas de animação compõem a série Animatrix, uma fusão inédita da tecnologia CGI com os “animés” japoneses que consumiu mais de três anos em estúdios no Japão, Coréia e Estados Unidos. Esta série mergulha mais profundamente no mundo de Matrix e de seus habitantes. Houve uma série de games (Enter The Matrix, entre outros), histórias em quadrinhos, bonecos e muitos outros objetos.
O final chega com Revolutions, a paz. A maioria das pessoas não aceitou este final, mas os cineastas fizeram uma crítica à raça humana, incapaz de aceitar a paz como solução. Ainda vivemos em tempos de força, de preconceito, de guerras, de superioridade, de poder... Não aceitamos a convivência pacífica com os desiguais. O Universo Matrix não é uma simulação, mas sim uma metáfora. Nossa condição humana é jogada na nossa cara. Nossa fragilidade e angustia existencial fazem com que acreditemos em qualquer história que nos conforte e traga esperança. Enquanto ficamos acreditando em algo superior a nós, seremos facilmente controlados. O Oráculo descobriu e se aproveitou dessa característica humana, como muitos têm feito durante nossa história. Acreditando em mentiras reconfortantes, e nos opondo a aceitar o mundo real, nunca conheceremos nossas possibilidades. Nunca poderemos construir nosso próprio futuro. Nunca seremos realmente livres. Enquanto insistirmos na pílula azul, seremos sempre escravos.

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27 Maio 2009

Dez anos de Matrix (3)

Já o terceiro filme há muitas dúvidas: Seria Neo apenas uma simulação da Matrix para cumprir sua tarefa de retirar 23 pessoas de Zion antes que ela seja destruída ou um ser humano real? O oráculo está do nosso lado ou ainda é fiel as máquinas e ao seu criador? O Arquiteto era um ser humano ou uma manifestação da Matrix, como um programa de inteligência própria? Zion será destruída? Terá Neo que escolher entre a morte dos humanos que ainda estão presos dentro da Matrix ou a morte dos que estão fora dela? Não seria Zion uma simulação da própria Matrix para abrigar as pessoas que não aceitaram ficar dentro do programa?



Mas afinal, o que é a Matrix? "Você pode escolher entre a pílula vermelha ou a azul" diz Morpheus a Neo a certa altura do filme. "Se escolher a azul você vai acordar de manhã em sua casa e sua vida vai permanecer a mesma . Mas, se escolher a vermelha, vai descobrir o quão funda é a toca do coelho da Alice". Numa das cenas iniciais do filme, Neo é desafiado a escolher entre a pílula azul e a pílula vermelha. Esta é sua primeira (e decisiva) escolha Ou seja, ele terá que escolher entre permanecer como está ou conhecer a verdade do Real. Imbuído de aguda curiosidade, Neo escolhe a pílula vermelha, que o conduz a uma outra dimensão da sua vida pessoal.

Ao escolher a pílula vermelha, Neo renasce, literalmente. A partir daí, Neo “conhece” a Matrix e o significado da luta do grupo de Morpheus. Torna-se membro da resistência humana, atuando na Matrix a partir de sua base submarina, o Nabucodonosor. Desde a escolha da pílula vermelha, a trama do filme dos Irmãos Wachowski se desenrola em fases delimitadas: o (re)nascimento de Neo, o descobrimento da Verdade, seu treinamento, a ida ao Oráculo; a traição e armadilha de Cypher, a captura de Morpheus, seu resgate por Neo e Trinity, o duelo no Metrô entre Neo e o agente Smith; a fuga de Neo, sua morte e ressurreição e a afirmação de Neo como o Escolhido, aquele que irá redimir a humanidade da dominação das Máquinas, libertando-os da Matrix. A tragédia de Neo, no decorrer de Matrix, é ser obrigado a escolher, a agir e não apenas a perguntar (o mesmo desafio moral é posto no decorrer de todo o filme). Em vários momentos, Neo se depara com o desafio: “Você é quem escolhe”.



“É a pergunta que nos impele, Neo. Foi a pergunta que te trouxe aqui. Sabes a pergunta, assim como eu sei. A resposta está lá fora Neo “( Trinity)



A trama narrativa é permeada de escolhas e de enfrentamento do destino, daquilo que está programado e contra isto se insurge Neo e os demais. É, em última instância, o tema da liberdade humana e da própria dialética liberdade e necessidade. É através deste enfrentamento cotidiano, que Neo adquire a consciência de si. É outro ponto decisivo – não existe consciência de si sem luta intensa e enfrentamento com as condições dadas (a Matrix é uma condição dada e os agentes federais, como software de rastreamento, são condições dadas, programadas, escravos da programação-mor da Matrix, obstáculos à liberdade pleiteada pelos seres humanos).



Dois planos espaço-temporais permeiam a narrativa de Matrix. A primeira ocorre no deserto do Real, onde a Terra após a vitória das Máquinas transformou homens e mulheres em fonte de energia. Mas existem homens que resistem no subterrâneo, habitando a cidade de Sião, “a última cidade humana, o único lugar que nos restou perto do núcleo da Terra onde ainda é quente”, cujo acesso é secreto (o que os agentes federais queriam era o código de acesso a Sião para poderem derrotar, de vez, a resistência humana). Segundo, o que ocorre no mundo real simulado pela Matrix, cenário urbano da metrópole, com sua vida cotidiana, onde as pessoas estão imersas no emprego e nas suas ambições triviais. É o mundo tal como ele é.





A realidade simulada é uma virtualização complexa que oculta a verdadeira Realidade, o “deserto do Real”. De um lado, a bárbarie regressiva perto de 2199. De outro lado, o simulacro digital complexo que oculta a exploração do gênero humano pelas Máquinas Inteligentes. Estamos diante de um mundo digital, binário, tão perfeito quanto a própria realidade concreta. Neste mundo de Matrix, os objetos e pessoas são meros sistemas de códigos binários, programas de computador, deste imenso sistema informático. “A Matrix é um mundo dos sonhos gerado por computador feito para nos controlar, para transformar o ser humano nisto aqui [bateria]”, observou Morheus.
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26 Maio 2009

Dez anos de Matrix (2)

O sociólogo e poeta e fotógrafo francês Jean Baudrillard é considerado um dos principais representantes do pensamento pós-moderno. Desenvolveu teorias sobre o impacto dos meios de comunicação de massa, principalmente da tv, na cultura contemporânea. Um de seus conceitos mais famosos é o de hiper-realismo. Essa teoria estuda como a consciência interage com a realidade e a fantasia, criando uma cópia do mundo, chamada por Baudrillard de hiper-realidade. É a idéia de que as coisas não acontecem se não são vistas.

No cinema, Baudrillard é famoso por ter inspirado a trilogia Matrix. No primeiro filme da série, o personagem Neo, interpretado por Keanu Reeves, aparece escondendo um de seus programas subversivos no interior do livro “Simulacros e Simulação”, de Baudrillard. Os autores do filme chegaram a chamar o filósofo para colaborar com Matrix Reloaded e Matrix Revolutions. Mas Baudrillard não aceitou. Declarou na época que não tinha ligação com o kung fu e que seu trabalho era o de discutir idéias “em ambientes apropriados para isso”. Em entrevista recente para a revista Época, o filósofo declarou que não gostava do filme. Disse que ele faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Baudrillard disse preferir filmes como Cidade dos Sonhos e Show de Truman. Neles os produtores perceberam que essa diferença entre realidade e ilusão é menos evidente.

Para quem deseja se aprofundar na teoria do filme, a narrativa revela que no futuro os humanos terminaram de destruir o planeta numa guerra com as máquinas. Bombas nucleares geraram uma nuvem de poeira para impedir a chegada de raios solares cortando uma fonte de energia renovável, o que levaria a extinção das máquinas. Antes deste fato os humanos criaram a Inteligência Artificial (IA). Com a I.A. e o fim da energia solar, começou uma batalha entre as máquinas e os humanos. As máquinas venceram e acabaram aprisionando os humanos dentro delas, após descobrir que o ser humano produzia uma carga de energia diária gigantesca, e que poderia ser usado como espécie de bateria para que as máquinas pudessem continuar a existir.

Foi criada então a Matrix, uma máquina que simula uma realidade virtual para que os humanos não saibam que estão presos dentro de uma realidade virtual, e que eles fazem sua mente imaginar que está vivendo em um mundo real, enquanto o seu corpo está deitado dentro de uma câmara com um liquido e conectado a vários fios que puxam a sua energia. Os sobreviventes da guerra entre as máquinas e os homens criaram a cidade de 'Zion', uma cidade que se encontra no núcleo da terra e é eternamente procurada pelos sentinelas, robôs da Matrix que destroem as naves. Neo é, na verdade, a reencarnação do único homem que conseguia enxergar o código da Matrix e alterar ele da maneira que quiser, ou seja, dentro da realidade virtual ele pode fazer o que quiser, sem barreiras.
“Já teve um sonho, Neo, que você tinha a certeza de que era real? E se você não conseguisse acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o sonho e o mundo real? “( Morpheus)
O segundo filme traz a seguinte teoria: A primeira versão da Matrix não foi aceita pelos humanos, pois era perfeita demais, sem problemas, guerras, pressa, violência, e foi isso que desencadeou a fúria das máquinas e a guerra entre os humanos e elas. Após vencerem, as máquinas criaram uma Matrix mais imperfeita, e aprisionaram os humanos, fazendo-os esquecer de tudo o que aconteceu e voltar ao ano de 1999, onde o mundo ainda era da maneira que vemos hoje. A Matrix já passou por seis reformulações, assim como programas como o Windows, em cada reformulação havia um predestinado, como o Neo, que tinha a missão de selecionar apenas 23 humanos que vivem fora da Matrix, divididos entre homens e mulheres, para que comece tudo de novo, e a Matrix é aprimorada e os erros que foram encontrados nesse tempo são concertados, assim como um Update. Os outros humanos fora da Matrix serão mortos, e a cidade de Zion será destruída, e a missão dos 23 sobrevivente é reconstruir a cidade e povoá-la novamente, pois se Zion continuasse a crescer a Matrix estaria ameaçada.
O Oráculo é um programa da Matrix, ou melhor, a mãe da Matrix, é um programa com vontade própria que tem o dom de encontrar e concertar todos os problemas dentro da Matrix. Mesmo após a rebelião das máquinas, o segundo filme mostra que os seres humanos ainda tem que usá-las, como é mostrado na cena em que se passa dentro de Zion, onde uma máquina controla a água e outra cria o oxigênio necessário para a sobrevivência. Os humanos tem o controle sobre as máquinas, mas as mesmas exercem o mesmo controle sobre os humanos. Se os humanos desligar, morrem, se elas matar os humanos, param de funcionar por falta de manutenção ou energia.
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25 Maio 2009

Dez anos de Matrix (1)

Há dez anos, os irmãos Larry e Andy Wachowski entravam para história do cinema com um filme. Misturava filosofia, audiovisual, kung fu, budismo, matemática, física, cyberpunk, referências a Philip K. Dick e William Gibson (pais do cyberpunk), clássicos do cinema (Blade Runner, Exterminador do Futuro, Akira) e um efeito especial nunca antes visto foram alguns dos elementos que provocaram o sucesso de Matrix.

Matrix utilizou, além do próprio longa, dois jogos de videogames, um site e uma série de animes – os Animatrix – para completar o universo da trama, onde homens e máquinas inteligentes travam um duelo em ambientes reais e virtuais. A Matrix vem da raiz européia Matr, mãe. Assim, Matrix é a fêmea com crias (no filme, os seres humanos são amamentados, origem, útero, matrix, de onde todos nós viemos)

Só para o leitor ter uma idéia do sucesso: 460 milhões de dólares foram arrecadados pelo filme nas bilheterias de todo o mundo. 29ª posição no ranking dos melhores filmes de todos os tempos, segundo o site MDB. E quatro Oscars na bagagem: Edição, som, edição de som e efeitos visuais. Agora, vamos entrar nessa Matrix e conhecer mais de perto...
“Há uma grande diferença entre saber o caminho e percorrer o caminho” (Matrix)
Em um futuro próximo, Thomas Anderson (Keanu Reeves), um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Em todas essas ocasiões, acorda gritando no exato momento em que os eletrodos estão para penetrar em seu cérebro. À medida que o sonho se repete, Anderson começa a ter dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade.

Este é o enredo de Matrix, filme dirigido pelos irmãos Andy e Larry Wachowski e que ganhou quatro Oscars (Melhor Edição, Efeitos Sonoros, Efeitos Especiais e Som) e recebeu uma indicação ao Grammy, como Melhor Trilha Sonora.
“Você acredita em destino?", "Temos o controle sobre as decisões da nossa vida?", e “O que é real?" são algumas das reflexões lançadas pelo primeiro filme. O que há de tão diferente entre se comer um delicioso bife e simplesmente ser induzido por seu cérebro a acreditar que se está fazendo isso. Afinal, como nos é mostrado no filme, somos baterias para as maquinas dominantes, e estas geram sensações em nosso sistema nervoso para que nosso cérebro acredite que estamos levando uma vida perfeitamente normal, com todas as alegrias e frustrações cotidianas, quando na verdade estamos hibernando desde a nossa criação.
O visual dos personagens é dark ao extremo. Roupas escuras, poucas palavras, óculos escuros e muita elegância. Um dos principais destaques do filme é a técnica "bullet time photography", cenas de intensa ação são desaceleradas, com a ajuda de computadores, gerando até 12 mil quadros por segundo, transformando totalmente a forma que é vista determinada seqüência do filme, como, por exemplo, a cena em que Neo consegue desviar dos tiros de um dos agentes que o perseguem O bullet time congela a cena e dá um giro por ela é um belo efeito especial. Outros efeitos importantes: as explosões, os vidros quebrando, as balas caindo em direção ao chão enquanto tocam em alguns pedaços do helicóptero, o “mini bullet-time” que é utilizado quando o agente Smith acerta um tiro de raspão no pé de Morpheus, quando ele ainda está pulando.

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Quem desejar adquirir o livro "Bahia um estado d´alma", o mesmo está à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria doLivro (Boulevard 161 no Itaigara e Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela). A obra trata de um passeio cultural pela Bahia.




22 Maio 2009

Paulo Leminski (1944 – 1989)

Faz 20 anos que Leminski se foi. Vamos lembrá-los através de seus poemas

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

Ameixas
ame-as
ou deixe-as

Tarde de vento.
Até as árvores
querem vir para dentro.
Tudo o que eu faço
alguém em min que eu desprezo
sempre acha o máximo

Vai ver o dia
quando tudo o que eu diga
seja poesia
SE
se
nem
for
terra
se
trans
for
mar

A noite me pinga
uma estrela no olho
e passa.

Amor bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.


Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

RAZÃO DE SER


Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.



Tem que ter por quê?


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21 Maio 2009

Emília Biancardi faz um tributo ao índio brasileiro

A folclorista e musicóloga baiana Emília Biancardi já realizou diversas exposições em homenagem ao índio brasileiro. Ela possui peças indígenas como instrumentos no vestuário (máscaras, saias, colares, joelheiras, adornos corporais em geral que trazem chocalhos), instrumentos de sopro (flautas, trompetes, apitos), percussão (maracás, tambores entre outros), além de baners e fotografias em geral com textos relacionados as peças expostas. Na mostra que percorre diversas cidades a pesquisadora focaliza numerosas e expressivas manifestações artísticas populares, refletindo a permanente musicalidade indígena. Fruto de investigações, pesquisas e levantamentos efetuados durante anos em diversas regiões baianas, e também em outros estados.

Colecionar peças e objetos é uma prática tão antiga quanto a própria técnica de confecciona-los. A pesquisadora de folclore, Emília Biancardi se dedica a juntar instrumentos musicais primitivos do mundo inteiro. Essa paixão vem desde os 19 anos de idade e pode ser avaliado nos enormes sacrifícios feito pela pesquisadora para a compra de suas peças, como, durante suas viagens, deixou muitas vezes de alimentar-se corretamente, a fim de poupar dinheiro. Ela não se arrepende, porém. Hoje já são mais de 2.000 instrumentos espalhados por casas e garagens de amigos. Há instrumentos do mundo todo. De Katmandu, no Tibet, a vilarejos do interior da França. É um acervo interminável. “Não existe um só lugar que não tenha instrumentos primitivos”, garante, com razão, Emilia, que se ressente, porém, com a falta de preservação dos instrumentos aqui no Brasil.

Criadora do primeiro grupo para-folclórico da Bahia, na Escola Normal, em 1962, Emilia começou a viajar pelo interior em busca das feiras livres, onde pudesse encontrar preciosos instrumentos primitivos. Mais tarde, já coordenando o grupo folclórico Viva Bahia, pôde viajar ao exterior, quando adquiriu instrumentos em países da Europa, da África e do Oriente. Mesmo dos países que não teve oportunidade de visitar, Emilia possui algumas peças presenteadas por vários amigos diplomatas que se encarregavam sempre de lhe trazer um exemplar novo para a coleção.

No acervo de Emília, contudo, há espaço também para os instrumentos primitivos brasileiros. Da tribo dos Kamaiurás, no Xingu, ele trouxe, por exemplo – a flauta jacuí – considerada sagrada na tribo e exclusivamente dos homens. Outra flauta, a uruá, é usada às vésperas do quarup para limpar as casas dos índios contra os maus espíritos. Outras preciosidades da coleção de Emília são algumas réplicas de instrumentos pré-colombianos, trazidos do México, e o instrumento africano monocórdico que se chamava rucumbo e hoje é conhecido como berimbau.
LIVROS - Desde o início dos anos 60, a professora e musicóloga Emília Biancardi realiza pesquisa sobre cantos e danças do folclore baiano. Publicou seis livros sobre o tema, abordando diversos aspectos do folguedo, incluindo partitura musical, fotografias antigas de dançarinos e mestres e coreografias. “Lindro Amô” foi lançado em 1968 e narra a trajetória do folguedo típico de Santo Amaro da Purificação e de outras cidades do Recôncavo baiano que tem por finalidade tirar esmolas ou “missa perdida”, em louvor aos santos mais populares da região. Em 1969 ela lançou “Cantorias da Bahia” só dedicada a música folclórica da Bahia.
“Viva Bahia Canta”, lançado em 1972, foi uma homenagem aos dez anos do grupo Viva Bahia e foram registradas músicas das zonas rural e urbana da Bahia. “A Dança da Peiga”,em 1983, registrou a dança do interior de Santo Amaro feita só por homens e ligada ao dia da hora. Naquele dia pára tudo, até as moscas. A noite é realizada a oração ao dia da hora. A dança hoje se perdeu no tempo. “Olelê Maculelê”, de 1990, conta a história da dança guerreira presente no Recôncavo baiano, seu desenvolvimento, mestres, divulgadores e a descaracterização que vem sofrendo, além das partituras, desenhos e nomes dos instrumentos. É o quinto livro de Emília e trata de uma das mais significativas manifestações da cultura popular do Recôncavo Baiano, especialmente Santo Amaro da Purificação onde proliferou o Maculelê. A obra registra a trajetória de suas andanças, desde o primeiro contato em 1962 até os nossos dias. Além de examinar, aborda os diversos aspectos do folguedo, traz a partitura musical dos cânticos do Maculelê, fotografias antigas de dançarinos, mestres e coreografias que facilitam a divulgação e a aprendizagem.
O livro “Raízes Musicais da Bahia” (2000) reúne partituras e informações raras. Na obra há inúmeros registros de letras de canções e ritmos que já não existem, além de passos de danças e coreografias como as do maculelê, samba de roda e outras. Focaliza numerosas e expressivas manifestações artísticas populares, como festas tradicionais e folguedos, instrumentos e cantorias da capoeira, reisados, ternos e ranchos da Bahia, ranchos do boi, da burrinha, queima da palhinha, puxada da rede do xaréu, o som dos orixás, candomblé e orquestra afro brasileira. Há letra e partitura musical dos cânticos que integram cada uma dessas tradições, além do desenho ou da fotografia de instrumentos musicais das três etnias que deram origem à nossa música folclórica.

A obra, segundo a autora, visa a contribuir não só para reativar o papel social do folclore no âmbito de nossas manifestações artísticas, mas, sobretudo, se propõe a divulgar tais manifestações em suas múltiplas dimensões de grandeza para o fortalecimento das raízes musicais populares da Bahia. Além do grupo folclórico Viva Bahia, Emília criou a Orquestra Afro Brasileira, fez a direção musical do Balé Brasileiro da Bahia, fez a direção musical dos espetáculos.

20 Maio 2009

Besouro, um nome na história da capoeira da Bahia nas telas

“__Você viu pra onde foi aquele negro?”, “__Vi, sim senhor. Ele virou besouro e saiu voando”. Foi assim que o apelido de Manuel Henrique Pereira surgiu e começou a correr por toda a Bahia. Nascido no antigo quilombo de Urupy, distrito de Oliveira dos Campinhos, município de Santo Amaro, em 1895, Besouro foi um dos capoeiristas mais famosos de sua época e extremamente hábil com as facas. Reza a história que quando ele nasceu, também estavam lá (e do seu lado nunca saíram), os protetores da capoeira: os orixás Ogum e Oxossi.

Depois do sucesso do musical Besouro Cordão de Ouro inspirado na vida do capoeirista com texto do compositor Paulo César Pinheiro, chegou a vez do valente que desafiava as autoridades se exibir nas telas do cinema. O publicitário brasileiro mais premiado no Festival de Publicidade de Cannes, João Daniel Tikhomiroff escolheu a história do capoeirista para estrear seu primeiro longa metragem. O filme Besouro foi rodado em Igatu, na Chapada Diamantina. Besouro será interpretado pelo ator Ailton Carmo, o Coquinho. O fotógrafo Christian Cravo (filho do renomado Mário Cravo) está preparando um livro com a fotodocumentação artística da aventura da produção do filme na Chapada Diamantina e no Recôncavo Baiano.

NA HISTÓRIA - Aos 13 anos, Besouro ganhou o mundo: saiu de casa para trabalhar e começou a escreveu seu nome na história através de suas aventuras. Foi vaqueiro e amansador de burro bravo pelas vilas do Recôncavo Baiano. Aprendeu com um tio africano e ex-escravo os mistérios da capoeira, do jogo, das facas e das boas orações. Já adulto foi também saveirista e soldado do Exército Brasileiro. O capoeirista era tão respeitado que costumava sair às ruas avisando aos comerciantes que fechassem as portas, pois tinha acabado de decretar feriado. Também era comum vê-lo presenteando um de seus compadres com penas de pavão, arrancadas dos chapéus dos valentões de Santo Amaro.
Nas rodas de capoeira do Trapiche de Baixo (até hoje o bairro mais pobre de Santo Amaro) e nas festas populares, o jovem Besouro começou a se destacar. O seu forte era a agilidade, a rapidez de raciocínio, a calma e a surpresa, além de ter o corpo fechado com fortes mandingas e rezas. Paulo Barroquinha, Boca de Siri, Noca de Jacó, Doze Homens e Canário Pardo, todos moradores do local, foram os seus companheiros nas memoráveis rodas de Capoeira que hipnotizavam quem quer que passasse. Rodas de capoeira como aquelas só são vistas de tempos em tempos e, talvez, mesmo assim, nunca se vejam outras iguais.
UMA LENDA - Besouro fez história e virou lenda. Um homem que é tido por alguns como arruaceiro, criminoso ousado, fora-da-lei e, ao mesmo tempo, é considerado por outros um justiceiro, protetor dos oprimidos. Apesar de violento, não se tem notícia de que ele tenha matado alguém. Os casos de suas façanhas são contados por pessoas antigas, algumas conviveram com ele, outras que ouviram falar de sua rebeldia. Ele vivia num mundo em que para sobreviver era preciso ter malícia dentro e fora da roda de capoeira.
O difícil é descobrir como esse homem negro e pobre nascido no fim do século XIX, numa época em que ser praticante de atividades ligadas à herança africana era considerada um crime, se tornou a figura mais respeitada no mundo da capoeira. Sua fama extrapolou os limites do Recôncavo, chegou à Salvador, ao restante do país e alcançou os quatro cantos do mundo. Capoeirista valentão num tempo em que não havia a divisão entre os estilos Angola e Regional, muito menos escolas e academias de ensino, “Besouro Cordão de Ouro”, como era também conhecido, inspirou um dos capítulos do livro Mar Morto, de Jorge Amado.
JUSTIÇA - Para alguns, Besouro desejava apenas justiça. Ele era o elemento negro injustiçado pela cultura dominante que necessitava existir pela formulação de um novo código e, ao mesmo tempo, de um novo conceito de justiça. Foi em meio a essa cultura dominante, de nobres e senhores de escravos, que o hábil capoeirista conseguiu se sobressair. Besouro morreu muito jovem, assassinado antes de completar 30 anos. O homem mais valente do Recôncavo baiano foi golpeado traiçoeiramente com uma faca de ticum (preparada especialmente para abrir seu corpo fechado pela mandinga) por um de seus colegas. Até hoje, Besouro é símbolo da capoeira em todo o território baiano, sobretudo pela sua bravura e lealdade com que sempre comportou com relação aos fracos e perseguidos pelos fazendeiros e policiais.
“Quem é você que acaba de chegar//Eu sou Besouro Preto/Besouro de Mangangá/Eu vim lá de Santo Amaro/Vim aqui só pra jogar/Quem é você que acaba de chegar/Quem é você que acaba de chegar//Eu sou Besouro Preto/Besouro de Mangangá/Ando com corpo fechado/Carrego meu patuá/Quem é você que acaba de chegar/Quem é você que acaba de chegar//Me chamam Besouro Preto/Besouro de Mangangá/Bala de rifle não me pega/Que dirá faca de matar/Quem é você que acaba de chegar/Quem é você que acaba de chegar//Aqui em Maracangalha/Você não vai escapar/Contra faca de tucum/Ninguém pode se salvar/Quem é você que acaba de chegar/Quem é você que acaba de chegar”.

19 Maio 2009

Charge, libertinagem da imaginação

Absolutista na política, iluminista na filosofia, no século XVII, a razão (quando investe na seriedade como condição de credibilidade para os discursos sociais e as práticas que deles decorrem) destitui o humor da ordem dos saberes, como portador de discurso cômico sem razão, desprovido, portanto, de verdade. Exilado da cultura, banido da função de expressar o sujeito, o humor recupera, agora no traço da charge, essa sua antiga faculdade de produtor e portador da verdade.

Enquanto existirem o poder e o ser humano, a charge persistirá, independentemente do regime político vigente, seja a ditadura ou a democracia. Charge significa carga, bateria e só é possível na periodicidade de um jornal diário e de um contexto político. A charge é uma ferramenta que revela as fraquezas. Para Lage nada pode apagar o sorriso provocado pela exposição de um político ao ridículo extremo. Tem o poder de catarse. Ele não acreditava nos políticos nem na honestidade deles. Na dinâmica social, o povo é o grande inimigo da ditadura.
A charge é um desenho de humor que estrutura sua linguagem como reflexão e crítica social. A proposta não é registrar o real, mas significá-lo. Registra a história, a partir do que a história, objetivamente, não registra. A charge, “essa libertinagem da imagem”, é um instrumento universal de crítica e sátira política limitado pelas especificidades culturais de cada país, ao contrário da caricatura e do cartum, sempre iguais, independentemente de origem. Dos três gêneros gráficos que se apropriam da realidade para expressá-la através do traço de humor, a charge é o mais sofisticado, pois conta e resume histórias reais de modo e maneiras convincentemente irreais.
O caráter de denúncia, revestido de ironia e humor, sempre marcou os traços de Lage. Em sua trajetória na imprensa baiana ele fez da pena o instrumento de crítica lúcida e afiada, traduzida na melhor literatura.
A charge é um tipo de texto que atrai o leitor, pois, enquanto imagem, é de rápida leitura, transmitindo múltiplas informações de forma condensada. Além da facilidade de leitura, o texto chárgico diferencia-se dos demais gêneros opinativos por fazer sua crítica usando constantemente o humor. Mas a charge não está isolada dos demais textos que aparecem no jornal. Ela contém a expressão de uma opinião sobre determinado acontecimento importante com muita probabilidade de aparecerem outros textos do jornal.
Os textos chárgicos transmitem informações utilizando o sistema pictórico e verbal. A charge assim é um texto visual humorístico que critica uma personagem, fato ou acontecimento político específico. Por focalizar uma realidade específica, ela se prende mais ao momento, tendo, portanto, uma limitação temporal.
Há charges compostas por um único quadro e outras compostas por mais de um. Nas charges com mais de um quadro, os primeiros funcionam como preparadores para o efeito humorístico ou surpreendente que é colocado no último. O humor surge do traço, do gag, da contraposição entre os códigos verbal e visual.
O humor é o principal fundamento de sua narrativa, o instrumento singular de sua linguagem, uma vez que é através dele que a charge transforma a noticia numa consciência sobre ele. Como charge se designa, sobretudo, imagens, cujo sentido está além dos limites da razão. Assim, a charge resume situações políticas que a sociedade vive como problemas, e os re-cria com os recursos gráficos que lhe são próprios. Essa economia de recursos que a caracteriza, isto é, o modo como sua linguagem se articula produtivamente, aponta para a negação da razão como doadora exclusiva de significado à realidade, e para a criticada linguagem textual como instrumento privilegiado de seu sentido. E a charge produzindo uma verdade independente da realidade, da razão. Ao incorporar o humor como linguagem produz uma verdade cujo sentido esta fora da realidade e além da razão.

18 Maio 2009

Leve, ágil, cortante e irreverente traço de Lage (6)


No livro Feras do Humor Baiano o jornalista e pesquisador Gonçalo Júnior dá seu depoimento sobre Lage. Eis um trecho: “Excessivamente calado, Lage só abria o bico na edição do dia seguinte, com seu traço majestoso e a marca da simplicidade dos grandes artistas. Estaria a obviedade de Lage atrelada ao que lhe cabe como artista? Basta contextualizá-lo na Bahia dos últimos 30 anos para observar com alegria que Lage submerge como um falcão, a voar bem lá no alto sobre o marasmo e a mediocridade que sempre marcaram o humor na Bahia – exceções, claro, para Nildão, Valtério e o mineiro-baiano Cauh. Seu humor é engajado, militante sem ser partidário, contestador, enfim. Portanto, mais que óbvio, é essencial, puro, em estado bruto. Exatamente como deve ser. Quando faz charges para terceiros, Lage o faz por convicção, por simpatia política, como nos saudosos anos 70”.

“Lamentavelmente, ao contrário da maioria dos artistas do reino encantado do axé – principalmente na música -, para quem política e arte têm uma combinação burra, estúpida e subserviente. De uma outra forma meio puta – de prostituta mesmo. É a ´política´ da bajulação dos governantes. Da eterna reverência ao rei gordo e temido, feita de cima dos trios. Ou o engajamento pelos cachês estatais pagos através da Bahiatursa para animar as inaugurações e comerciais de teve. Ou desembolsados por candidatos não muito comprometidos com os problemas sociais para subirem em seus palanques de campanha. Como é confortante fisgar Lage desse festivo universo”.

“Três décadas depois de sua estréia, após três presidentes militares, uma ditadura, um regime (comunista), Lage parece ter conseguido a façanha de entrar na toca e sair com a mesma essência. O que eleva seu humor óbvio a um valor estratosférico. Para ele, deve ter sido fácil não aderir aos modismos do humor neoliberal –digamos assim – de hoje, quando os cartunistas baianos tentam apenas ilustrar editoriais e fazer rir com chavões bobos. E por que não deve ter sido difícil para Lage?. Creio que pelo seu jeito calado. Quem sabe essa característica pessoal de não abrir espaço para comentário pessoais tenha sido útil?. Nesse contexto, impressiona-me como Lage se engrandece”.
O jornalista, poeta, escritor de ficção, ensaísta e professor do Instituto de Letras da UFBA, Ruy Espinheira Filho comentou: “Conheço Lage desde 1969. Fizemos parte da equipe que, naquele ano, capitaneada por Quintino de Carvalho, lançou a Tribuna da Bahia. Lage, cartunista; eu, cronista do cotidiano. A arte de Lage nasceu madura. Desde o princípio ele se igualou aos melhores do país: traço leve, ágil, carregado de expressividade. Humor finíssimo e capaz de falar plenamente tanto ao público comum quanto ao mais exigente. Inúmeras vezes vi pessoas simples rindo dos seus cartuns e testemunhei elogios a eles dirigidos por cartunistas famosos, como, por exemplo, Jaguar. Castigat ridendo mores, como escreveu um poeta antigo. E é o que Hélio Roberto Lage faz: rindo castiga os costumes. E com isto nos diverte – e mais: nos vinga. Com grande arte”.

15 Maio 2009

Leve, ágil, cortante e irreverente traço de Lage (5)

A jornalista Angélica Menezes compreendeu muito bem a natureza gráfica do traço de Lage no tocante as questões sociais e políticas, o que vai nos servir para entender a própria grafia de seus desenhos de humor, enquanto sintonia plástico de uma dada concepção visual e ideológica do mundo. Eis o que diz Angélica: “A obra de Lage, sem qualquer comedimento, adentra as relações afetivas, vasculha detalhes das relações de classe e escancara os valores do imaginário do autor. Aborda temas de caráter intimista pontilhados de crítica à realidade sócio-política-econômica do país, extrapolada muitas vezes quando o fato que questiona alcança uma repercussão mundial. Ele é o chargista crítico dos desmandos do poder, exercendo a cidadania tal qual a princípio lhe é conferida como um direito natural e constitucional, no papel de fiscalizador dos atos dos políticos e dos governantes, e atinge o seu auge no objetivo quando o tão almejado feed-back é de sucesso absoluto: menções na mídia, processos, como o que, em 1992, moveu o ex-governador da Bahia e senador da República Antônio Carlos Magalhães por se sentir prejudicado pelo traje listrado que lhe conferiu o artista, entendido como indumentária típica de presidiário ou de um criminoso. A fome e o desemprego, assim como chacinas, como a dos Sem-Terra, em abril de 96, no Belém do Pará, trazem para o universo dos pleitos de um significativo segmento social as velhas bandeiras da estabilidade no emprego, de reajustes salariais e da Reforma Agrária”.

“O humor se faz presente com uma carga ideológica misto de humor negro e da sutileza de uma piada bem contada entre amigos, por exemplo, na mesa de um bar. A intimidade que revela com os personagens e com o público tem origem no cotidiano e no acompanhamento dos fatos que fatalmente interferem nas relações sociais quando devidamente dissecados pelas partes interessadas. Lage seguramente é pioneiro na Bahia da charge política, nas duas décadas e meia (70/96) em que se comunica com um público que se amplia. Seu trabalho é referência e faz escola. Não é de veiculação exclusiva da grande imprensa e está requisitado em jornais e outras publicações de sindicatos, entidades ligadas à defesa dos direitos humanos e ambientalistas. Em dois out-doors inclusive teve a oportunidade de mostrar como a charge é um recurso poderoso de comunicação nada devendo em efeito de linguagem às fotos e mensagens escritas boladas pelas grandes agências de publicidade. Nos out-doors o produto vendido foi a crítica à revisão constitucional nos governos Itamar Franco/Fernando Henrique Cardoso dos pontos de vista dos trabalhadores do Fisco baiano (auditores fiscais do Estado) e da Petrobrás”.

E a jornalista detalha os trabalhos de Lage nos quadrinhos (que pode ser lida por completo no livro Feras do Humor Baiano lançado em 1997) e conclui: “Sobre o perfil do autor, eu diria: de jeito considerado tímido, é bastante reservado, perspicaz, introvertido como se estivesse a sondar o terreno onde está pisando, mas bastante humorado. Um tipo raro de pessoa com o poder da visão além das aparências. Com cara de amigo de todos é inimigo da prepotência. O seu trabalho independente na prática inviabiliza chefias, está acima de comandos por achar que está a serviço de ma imprensa livre e embora um estilo aparente tal o de um seminarista a quem se atribui assexuado e sempre cordato, não se auto censura e nem admite censuras”.

TRAÇO RETO COMO O SEU CARÁTER
“Iluminado, demolidor, íntegro, traço reto como o seu caráter. Talento incomum que dignifica a imprensa em geral e a arte do cartunismo em particular. Notável e instigante chargista político. Em abril de 1990, quando chefiava a sucursal da Veja, pautei e acompanhei o fechamento de uma matéria na Vejinha sobre cartunistas baianos, executada com brilho pelo repórter Valdemir Santana. Então Lage desnudava imperadores e rainhas do poder na Bahia e no Brasil na era collorida. Mexia não só com cardeais da política, mas com batinas famosas também. Foi assim na charge que mostrava o vigoroso Avelar Brandão Vilela indeciso e assustado diante de um despacho de candomblé, posto em encruzilhada baiana. Deu rolo tanto com católicos quanto militantes esquentados do MNU”.

“Em 1992 foi a vez de Antonio Carlos Magalhães tentar colocar o garrote da censura no pescoço de Lage e nas páginas da TB. O motivo foi a charge `Farias do mesmo saco`, genial por sinal, na qual ACM aparecia com a tradicional camisa de grife presidiária, com listas horizontais, dentro de um saco levado por PC Farias. Deu bolo também, com os ataques do dono do poder à TB e o surreal pedido de direito de resposta à charge, encaminhada por ACM à justiça. Então Diretor do Sinjorba, acabei entrando na briga contra tamanho disparate, ao lado de muita gente que, como esse jornalista, acompanha com admiração sempre crescente os passos desse original artista do traço, que chega aos 50 anos de idade com o vigor criativo – sua marca inconfundível – inabalado. Mais 50 anos, no mínimo, para Lage, é o que peço. Os poderosos e poltrões não vão gostar. Mas a face ética, criativa e corajosa da Bahia, sorrirá feliz”. A opinião é do jornalista Vitor Hugo Soares, que acompanhou a trajetória de Lage desde o início de carreira. O depoimento na íntegra está no livro Feras do Humor Baiano.

14 Maio 2009

Leve, ágil, cortante e irreverente traço de Lage (4)

“Lage não precisou deixar a Bahia para se tornar um dos mais importantes chargistas brasileiros, muitas vezes premiado nacionalmente. Mas, se tivesse ido para o Rio ou São Paulo, certamente que haveria de transformar-se num criador mais reconhecido e glorificado em todo o país. Muitas vezes eu falei isso para ele. Mas, modesto, e sempre meio silencioso, ele sorria e ignorava a sugestão. Do mesmo jeito que fazia quando alguém se atrevia a sugerir-lhe um tema para uma charge. Nunca dizia não, mas jamais admitia utilizar a sua pena para ilustrar idéias de outros. Era original e muitas vezes demolidor nas suas charges inteligentes sobre os assuntos nacionais, daquelas que faziam doer quando a gente ria. O papagaio desbocado Putz, personagem de tira que publicou durante anos nesse jornal, assim como as suas principais charges, inclusive as premiadas, merecem ser editadas em livro. Que alguém comece a cuidar disso, para que o traço de Lage não se perca nas brumas do tempo e ganhe a eternidade” (Lage, um traço para a eternidade. Sergio Gomes, jornalista. Tribuna da Bahia, 01/12/2006).

“Lage, como era mais conhecido e assinava seus trabalhos, levou uma vida tão simples, tão despreendida de ambições pessoais, certamente por convicção inata de sua baianidade, que se tornou ao longo dos anos um legítimo representante do provincianismo baianês (...) O certo é que Lage deixa uma enorme lacuna no traço do humor político baiano (...). Lage foi genial. Seu traço simples das figuras humanas que retratou, o cidadão classe média quase sempre com a cara do baiano que vai a padaria no final da tarde, narigão, olhos de gude; os policiais brucutus; e as suas tirinhas sobre sexualidade (o casal na cama, o papagaio putz) deixavam seus fãs admirados. A primeira coisa que o leitor da Tribuna da Bahia fazia quando pegava o jornal era olhar e ler a charge de Lage (A charge política sem Lage. Tasso Franco, jornalista e escritor. Tribuna da Bahia, 04/12/2006).
MOÇÃO DE PESAR
O jornalismo baiano perdeu um de seus mais competentes profissionais e o cartunismo brasileiro ficou sem um dos seus expoentes máximos. Partiu o gênio do traço, o chargista que esbanjava alegria, senso crítico e humor sutil e inteligente”. Foi assim, com um misto de tristeza e exaltação das qualidades de Hélio Roberto Lage que a então deputada estadual Jusmari Oliveira se despediu do chargista e cartunista, através de uma moção de pesar. No documento, protocolado na Secretaria Geral da Mesa da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, Jusmari fez um resumo da vitoriosa trajetória do cartunista. “Abdicou do diploma de arquitetura, entregando-se de corpo e alma à profissão que exerceu como poucos durante 40 anos, até que a doença traiçoeira interrompeu sua brilhante carreira”, lamentou a deputada. Jusmari Oliveira lembrou que Lage iniciou seu trabalho em jornal na Tribuna da Bahia na época da fundação do veículo. “Durante a repressão militar, foi convocado para depor em razão de críticas feitas ao regime através de charges que retratavam o pensamento do povo oprimido”, relatou o parlamentar, acrescentando que, apesar da censura, continuou criticando a ditadura com seus desenhos carregados de humor sutil e mordaz. “A Bahia jamais esquecerá o filho que preferiu o anonimato a ter que abandoná-la em busca de fama e do estrelismo fugaz. Com simplicidade e brilhantismo, destacou-se como um dos melhores e mais inteligentes cartunistas do Brasil”, elogiou a autora da moção.
Lage, Nildão e Setúbal no traço de Setúbal
No dia 05 de dezembro de 2006, na 89ª Sessão Ordinária da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, o deputado Álvaro Gomes apresentou a seguinte moção de pesar: “O deputado que esta subscreve solicita que a Mesa Diretora da Assembléia Legislativa da Bahia aprove, na forma regimental, moção de pesar pelo falecimento do chargista baiano Hélio Roberto Lage, ocorrido no dia 29 de novembro de 2006, nesta capital. Lamentamos profundamente a perda de uma dos mais brilhantes profissionais de imprensa, considerado o gênio do traço, Hélio Roberto Lage, ou simplesmente Lage, como assinava os seus trabalhos. Nascido na cidade de Catu, em 16 de setembro de 1946, arquiteto de formação, o chargista fez opção pelo desenho crítico e assim destacou-se na imprensa nacional contra o jugo do regime militar, por sua luta pela liberdade de expressão e pela afirmação da democracia. Satírico, Lage, tanto na charge quanto nos quadrinhos,trazia à tona temas da mais alta relevância, questionava costumes, preconceitos, fatos do cotidiano de grande repercussão e o desempenho dos políticos, com a compreensão dos sábios. Humor refinado e mordaz, foi merecedor de diversos prêmios, inclusive internacionais. Lage fez escola junto aos novos cartunistas e cultivava um profundo sentimento de grupo, posicionando-se enquanto umas das mais expressivas lideranças do cartoon brasileiro. Participou de diversas bienais nas quais se destacava como um dos expoentes máximos da crítica política. Recatado, discreto nas suas aparições públicas, possuía um grande poder de observação. Com a mesma simplicidade e espírito de solidariedade, suas características mais marcantes como pessoa reconhecidamente tímida e avessa ao estrelismo, destacou-se também como artista plástico, tendo realizado exposição de quadros com temas clássicos, que, como sempre, tinha a pitada de humor inteligente. É para ele, este dedicado profissional de imprensa, que devemos as nossas homenagens póstumas, a ele, cidadão Lage, que, em defesa das liberdades democráticas,teve tentativa de voz de prisão dentro da redação do jornal Tribuna da Bahia e depôs por diversas vezes acusado pela ditadura militar de atentar contra o regime, e com quem a Bahia conviveu por 40 anos recebendo as informações tão necessárias ao entendimento e posicionamento acerca da nossa realidade. Portanto, Sr. Presidente, apresento esta moção de pesar, com certeza aqui também subscrita por muitos e muitos colegas, que seguramente intencionam e estão dispostos afazer o mesmo. Muito obrigado”.

13 Maio 2009

Leve, ágil, cortante e irreverente traço de Lage (3)

Outro veterano, o desenhista Valtério foi mais longe. “Pela criatividade, starte visão de mundo que ele tinha, Lage estava entre os dez melhores cartunistas do Brasil, incluindo ai nomes como Ziraldo e Paulo Caruso. Ele apenas teve menos visibilidade. Além de tudo, era uma pessoa boa, essa doença foi uma brutalidade”, declarou. Valtério, que se refere ao artista como “amigo-irmão” esteve ao lado de Lage na fundação da Galeria do Humor, que funcionou na Boca do Rio entre as décadas de 80 e 90, e na criação da revista Pau de Sebo, junto com o também cartunista Paulo Setúbal. “Eu o conheci por volta do ano de 1975, quando comecei a trabalhar no Jornal da Bahia, antes de trabalhar com ele já o admirava muito. A gente desenvolveu um lado muito afetivo. Ele era muito generoso, como profissional tinha o seu humor próprio, um humor de alta qualidade. O que fica dele é a imagem de um cara bem humorado e criativo”, definiu Paulo Setúbal. Para ele, Lage sempre teve um humor diferenciado e muito pessoal. “Enquanto todo mundo fazia o convencional, ele conseguia colocar umas pitadas de baianidade. No Brasil, poucos fazem charge como ele fazia”.

A publicação serviria de inspiração para uma nova geração de artistas baianos. “Quando comecei profissionalmente, ele já tinha 20 anos de estrada. Eu comprava a revista Pau de Sebo só para ver seus desenhos que tinham um estilo marcante, tanto pelo traço quanto pelo tom politizado, além deterem um timming maravilhoso”, disse Flávio Luiz, ilustrador na época do Correio da Bahia

“Tive poucas oportunidades de estar com ele, mas o admirava porque ele combatia o autoritarismo fazendo críticas contundentes sem nunca perder a veia do humor. Infelizmente, não há outro que possa ser posto no lugar. E a Bahia vai perdendo a graça”, disse Cau Gómez.
“Eu fui amigo de Lage desde meninote, no colégio Maristas, na década de 50, companheiro de sala, já então um grande desenhista. E a vida sempre nos deixou juntos: no lançamento da Tribuna da Bahia, em 69, sob o comando de Quintino de Carvalho, onde ficou até o fim, na sucursal do Jornal do Brasil, na década de setenta, onde foi um dos cartunistas, e, no fim, na Coopercom, uma cooperativa de profissionais de comunicação, onde fizemos juntos a revista Viver Bahia e o Jornal do Metrô até 2005 e estreitamos a nossa amizade. O Jornal do Metrô era um projeto nosso. Com a doença de Lage, o projeto ficou suspenso e, sem ele, extinto. Ele nunca assumiu a sua dimensão. Quando trabalhou no Jornal do Brasil, tinha tudo para ser um nome nacional. Não quis. Ele gostava mesmo era de sua vida simples ao lado de Marta, sua esposa, e Daniel, o filho”, declarou o jornalista Osvaldo Gomes.
O diretor-presidente da Tribuna da Bahia, Walter Pinheiro, disse que Lage tinha sido um ótimo filho, esposo e um pai generoso, extremado e invejável colega de trabalho como poucos chargistas sabia se manifestar diante das agruras da vida, das injustiças e da desumanidade. A Tribuna da Bahia, sem dúvida, cresceu tendo uma das suas grandes estrelas. Com a sensibilidade do artista, de sua pena para comunicar-se com todos os seus leitores e admiradores, transmitindo as suas críticas, os seus protestos, as suas reflexões, através do amor. Como todo gênio, seu trabalho permanecerá para sempre, porque um gênio não morre nunca”. A história do cartunista é considerada a própria história da Tribuna da Bahia para o diretor de redação do jornal, Paulo Roberto Sampaio, “marcante por seu talento, independente e de muita criatividade”.
ÂNSIA DE AMAR O TRAÇO
“Para quem não o conheceu, vou me atrever a apresentar. Era o cara das tirinhas Ânsia de amar e desenhos de ironia finíssima que valiam tanto quanto os editoriais. Lage mexia também com a política, e nem sempre agradava ao pessoal que gostava do poder. Cabeça baixa, risinho de canto de boca, quando a gente menos esperava, lá vinha um desenho reinventando uma cena do cotidiano, um relance de uma situação inusitada. Ele nem tinha e nem precisava desses aparatos techno das telas de 200 mil cores de hoje. Bastavam um pedacinho de papel e tinta preta, que ele derramava com uma humanidade rimada de simplicidade. Neste mundo de aparência, foi-se um exemplar de gente que não curtia alarde (...) Ele foi antes, mas todo mundo vai um dia. Tanto talento, é claro, nem sempre foi reconhecido como deveria pelos baianos (...) Nestes tempos difíceis de digerir, pois os talentos são engolidos como mercadorias, a lembrança de Lage vai ficar como a de um cara que tem mesmo a ânsia de amar o traço como gênero jornalístico muitas vezes superior aos melhores textos” (Paulo Roberto Leandro, jornalista – “Esse Lage é engraçado!”. A Tarde, 01/12/2006).

12 Maio 2009

Leve, ágil, cortante e irreverente traço de Lage (2)

Traço simples, Lage consegue captar todo o momento histórico político vivenciado. Tudo Bem, Ânsia de Amar e outras tiras trazem um humor sem retoques, autêntico, mordaz. O humor caligráfico de Lage tem uma marca pessoal muito forte e traz, por inteiro a perplexidade nossa de cada dia. Traço rápido, leve, ágil, sinuoso, carregado de expressividade, firme, ajusta-se a brevidade do momento.

O desenho de humor de Lage é uma análise crítica do homem e da vida, uma análise desmistificadora. Seu humor é uma forma de tirar a roupa da mentira. Na Tribuna da Bahia, Lage conquistou a liberdade de criação no veículo, ele é quem responde pelas tiras e charges diárias. A ele é permitido criar e, veicular, todas as suas idéias sem censuras e castrações. É aí que ele desenvolve sua verve artística crítica, explorando os costumes baianos e satirizando os fatos políticos.

A obra de Lage adentra as relações afetivas, vasculha detalhes das relações de classe escancara os valores do imaginário do autor. Aborda temas de caráter intimista pontilhados de crítica à realidade sócio-política-econômica do país, extrapolada muitas vezes quando o fato que questiona alcança uma repercussão mundial. Ele é o chargista crítico dos desmandos do poder, exercendo a cidadania tal qual a princípio lhe é conferida como um direito natural e constitucional, no papel de fiscalizador dos atos dos políticos e dos governantes.
A história em quadrinhos na Bahia tomou fôlego com o surgimento do tablóide A Coisa, do jornal Tribuna da Bahia. A Coisa foi um seguimento natural do fanzine Na Era dos Quadrinhos e tinha como meta principal “uma maior valorização do autor brasileiro e em particular baiano”. “Pretendemos também – dizia o editorial -, divulgar e abrir novas perspectivas aos humoristas e desenhistas que ainda não tiveram oportunidade de publicar seus trabalhos”. Em pouco tempo o suplemento revelou novos cartunistas e desenhistas de quadrinhos. Lage foi um de seus editores.
O suplemento da Tribuna, aberto para os novos desenhistas, aproveitou uma percentagem expressiva, com experiência que abriu novas possibilidades para a pesquisa temática ao nível gráfico. Seu lançamento serviu para aproveitar vários desenhistas que antes apenas trabalhavam em outros setores. Durou oito meses, tempo suficiente para a reunião dos cartunistas e discussão de novas idéias e projetos. Em junho de 1976 surgiu o nanico Coisa Nostra, com texto, cartuns e quadrinhos. "O importante - diziam os editores - é que o riso não fique na boca. Ele tem de dar uma chegadinha na consciência". Coisa Nostra durou apenas quatro números.
Aos 60 anos de idade, o cartunista Lage, bastante conhecido em todo o meio artístico da Bahia, morreu no dia 29 de novembro de 2006. Ele sofria de câncer no cérebro. O corpo do cartunista foi sepultado no cemitério Bosque da Paz, no Trobogy. Casado com Marta, com quem teve o filho Daniel, Hélio Roberto Lage nunca saiu de Salvador, terra onde nasceu e, trabalhou como chargista no jornal Tribuna da Bahia desde a sua fundação, em 1969. E parece que não poderia haver momento melhor para a estréia. Foi também funcionário, por muitos anos, da TV Educativa. Formado em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, o artista optou desde cedo pelo desenho, deixando o diploma de lado, a não ser por poucos e pequenos trabalhos.
Referência na área do humor gráfico, especialmente na charge, Lage era dono de um estilo particular, marcado pela contestação calcada no humor virulento. Lage esteve ao lado de outros ilustradores conhecidos na Bahia na criação de trabalhos humorísticos, a exemplo do suplemento semanal A Coisa, do tablóide Coisa Nostra, da revista Pau de Sebo e do Dicionário do Baianês. A década de 70, que batia à porta com toda sua turbulência política e social, trouxe boa parte da munição com a qual Lage disparava sua ironia. A ousadia rendeu ao cartunista alguns desafetos, mas outros tantos admiradores.
Iconoclasta, dono de um traço simples e cortante, Lage logo se destacou pela mordacidade de seus desenhos. Costumava dizer que o bom cartum “é o que sai no estalo”. Durante o regime militar, entrou em controvérsias e chegou a ser chamado para depor nas famosas “sessões de informação” da ditadura. Mesmo assim, não diminuiu o tom de deboche, dizendo às vezes sem palavras o que toda uma nação calava na garganta.
“Lage é um dos maiores cartunistas que a Bahia já teve e eu dizia isso a ele o tempo todo. Além de ter um estilo próprio e nunca abrir mão disso, foi um grande companheiro de trabalho”, disse o artista plástico e cartunista Reinaldo Gonzaga, conhecido como Rei, que realizou trabalhos com Lage como programador visual ao longo dos 15 anos em que ele colaborou com o Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb).

11 Maio 2009

Leve, ágil, cortante e irreverente traço de Lage (1)

Helio Roberto Lage pertence a história dos nossos quadrinhos/cartuns. Homem simples, de bom papo e cultivador dos momentos humorísticos da vida. Desde seu relacionamento com as pessoas que lhes cercam, até o momento em que executa um trabalho, é um humorista nato. Além de humorista, era arquiteto e pintor nas horas vagas. Desenvolvendo sua atividade de cartunista com bastante brilho, Lage é um nome respeitado entre os que fazem humor e quadrinhos. Seu desenho é a melhor forma de expressão que compensa o seu lado introvertido. O lado humorístico, presente não só nas tiras, mas também nas charges políticas, são a contrapartida do seu temperamento melancólico.

De traço simples, Lage consegue captar todo o momento histórico político vivenciado nacionalmente. Cartunzão, L´amou tuju L´amu, Tudo Bem, Brega Brasil, Ânsia de Amar mostra um humor sem retoques – autêntico e mordaz. O humor caligráfico de Lage tem uma marca pessoal muito forte e traz, por inteiro, a perplexidade nossa de cada dia. É um quadrinho cartunístico que se cristaliza através de questões sociais e culturais. Conferindo ainda seus efeitos ideológicos e sua marcante criatividade. Enquanto muitos desenhistas se distanciavam dessa nossa realidade em seus trabalhos, Lage procurava se aprofundar mais em nossas questões políticas e culturais.
Se o humor de comportamento conquistou leitores nos anos 50, foi forçado pelo clima político estabelecido pela Revolução a dar lugar ao humor político, engajado. Os cartunistas se armaram contra o ataque, mas os meandros do comportamento humano, o sexo, o casamento, a cultura, enfim tudo aquilo que faz os costumes do cidadão brasileiro foi posto de lado pelos desenhistas de humor. Mas Lage, como grande crítico do cotidiano dissecou as leis e pacotes vindos de Brasília, além de mostrar a política local em suas charges diárias. Nas suas tiras ele mostrou o relacionamento humano, seus conflitos e insegurança, o dia-a-dia do baiano.
Nascido no dia 16 de setembro de 1946, desde cedo teve contato com as formas e a criação. Ainda criança, fazia bonecos de cera, e ganhou até um prêmio no concurso da Toddy. Aos 15 anos se apaixonou pelo desenho. Em 1967 foi trabalhar como ilustrador na Revista de Turfe. Em 1969 começou a desenvolver charge e tiras de humor no jornal recém fundado, Tribuna da Bahia. Na série Estorinha do Lage começou a publicar um herói espacial, sátira ao super-herói. Ainda na serie ele criou o papagaio Put. Nos anos 70 começou a desenhar uma página inteira de humor no jornal O Dia, de Piauí. Durou um ano. Em seguida começou a ilustrar a coluna esportiva de Carlos Eduardo Novaes mo Jornal do Brasil. Depois veio a serie Cartunzão, muito irreverente. Para o suplemento A Coisa criou L´amu tuju L´amu abordando os costumes e comportamentos populares. Nos anos 80 começou outra serie de tiras diárias, Tudo Bem onde a mulher, Kátia Regina, por exemplo, era a personagem principal, mesmo com a presença constante de Arlindo Orlando. Em 1989 foi ao ar na Radio Educadora FM o especial Lage, Cartunista Baiano onde as tiras diárias Tudo Bem foram transportadas para a linguagem radiofônica.
De 1976 a 1980 foi editor de arte da revista Viverbahia quando começou a fazer quadrinhos coloridos. Em 1981 passou a ser editor de arte da revista Axé Bahia e publica os quadrinhos da sensual Dora Mulata. Em 194 no Jornal da Pituba cria o quadrinho Pituboião, satirizando o dia a dia da comunidade. Mais tarde faz diversas ilustrações e cartuns para o jornal O Bocão, da Boca do Rio, bairro de Salvador. Em 1990 lança a revista de humor e quadrinhos Pau de Sebo, deboche puro.
Uma das primeiras publicações de humor e quadrinhos que surgiu em Salvador na década de 70, começou em formato de jornal, como suplemento da Tribuna da Bahia, A Coisa. O seu editorial dizia: “Esquecidos como profissionais sérios, confundidos muitas vezes com o seu trabalho que faz rir ou divertir, os desenhistas de humor e quadrinhos lutaram com dificuldade até serem reconhecidos como artistas importantes, ou mesmo artistas (...) A importância do humor e quadrinhos e indiscutível hoje em dia, pois nunca se discutiu tanto a respeito (...) Trata-se então de tomar consciência de nossa própria importância como profissionais e nos impor através da qualidade de nossos trabalhos. Consciente disso, foi que nós de A Coisa, lutamos e conseguimos reunir um grupo de pessoas interessadas que tem como meta principal uma maior valorização do autor brasileiro e em particular baiano. Acreditamos ter chegado em momento oportuno procurando suprir a falta de uma publicação desse gênero entre nos. Pretendemos também divulgar e abrir novas perspectivas aos humoristas e desenhistas que ainda não tiveram oportunidade de publicar seus trabalhos”.
A Coisa durou de 1975 a 1976. Ainda em 76 a equipe se mobilizou e lançou o tablóide Coisa Nostra, cujas 20 paginas incluíam reportagens, colunas de cinema, música e cartuns. O editorial do número um alertava que o “importante é que o riso não fique na boca. Ele tem que dar uma chegadinha na consciência”. Coisa Nostra só teve quatro números. De 1985 a 88 Lage produz vídeo charge (ou charge eletrônica) na TV educativa de Salvador. Foi o primeiro a trabalhar nessa área na Bahia. Participa de diversos salões de humor, sendo premiados nos da Mackenzie, SP em 1971 e 1973. Participa ainda nos salões do Rio, Bahia, Piracicaba, Curitiba, entre outros. Em 1984 é premiado no Salão de Humor em Stutgart, Alemanha.
O talento do chargista conquistou um espaço excepcional num jornal que sempre escolheu a opinião pela noticia sem comentários. Cada dia novo que surge é sempre o primeiro dia para o jornal que sofreu investidas ferindo seu direito de pensar e agir livremente, mas continua resistindo. Antes de se debruçar sobre a prancheta, Lage, cercado de fatos por todos os lados, gasta uma hora diária com a leitura dos jornais locais e nacionais. Depois e só deixar o lápis correr sobre a folha de papel em branco. Mais uma hora e a charge sai finalizada em nanquim. O prazer do desenhista é descobrir detalhes de alguns políticos, seus defeitos, suas virtudes e ampliá-los para o publico leitor. Em sua trajetória, militou na imprensa nanica (independente, alternativa) dos tempos da ditadura, fez crônicas na TV e deu até aulas sobre desenhos de humor. Na trilha de humor de comportamentos, ele criou personagens impagáveis, fazendo a melhor crítica de costumes dos quadrinhos baianos.

08 Maio 2009

Recordações (2)

Foi com o “Na Era! Que surgiram as primeiras manifestações conscientes no sentido de se construir HQ autenticamente nacional – e popular. O quadrinho baiano tomou fôlego com o surgimento do tablóide A Coisa no jornal Tribuna da Bahia. A Coisa foi um seguimento natural do Na Era. Em pouco tempo o suplemento semanal revelou novos cartunistas e desenhistas de quadrinhos. Surgiu em agosto de 1975, enfrentando diversos problemas com a censura e, por motivos internos do jornal, A Coisa foi reduzida a uma página até sumir, em março de 1976. Saíram 32 números com muito humor, quadrinhos e informações. Durou oito meses, tempo suficiente para a reunião dos cartunistas e discussão de novas idéias e projetos. Em junho de 1976 surgiu o nanico Coisa Nostra com texto, cartuns e quadrinhos. “O importante – diziam os editores – é que o riso não fique na boca. Ele tem de dar uma chegadinha na consciência”. Coisa Nostra durou apenas quatro números.

Em 1977 relançamos o fanzine Na Era dos Quadrinhos, desta vez impresso em off set (antes era mimeografado), mas que só durou cinco números. Lutar pela colocação do quadrinho baiano no mercado, desenvolver a criação de historietas em Salvador e fazer uma avaliação das HQs feitas até aquela época foram os objetivos do periódico, que serviu de estímulo aos criadores, visando o desenvolvimento da consciência quadrinhográfica.
O Centro de Pesquisa de Comunicação, preparando estudos sobre quadrinhos, sua linguagem e importância, influenciou bastante a imprensa baiana, a ponto de levar o tradicional jornal A Tarde, que antes só publicava historietas estrangeiras, a abrir suas páginas aos nossos quadrinhos. E não só A Tarde, mas a Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, Jornal de Salvador, O Mensageiro e Correio da Bahia. Todos eles começaram a se interessar um pouco mais pelos nossos quadrinhos.
COMPLEXO ESCOLAR
Estudei no Centro Educacional Carneiro Ribeiro, um complexo escolar muito eficiente, onde pela manhã estudávamos e pela tarde íamos aprender um ofício na Escola Parque, no bairro do Pau Miúdo. Lembro que antes de entrar na sala de aula, ficávamos enfileirados no pátio da escola para ouvir o hino nacional diante da bandeira, cantávamos juntos para depois entrar em sala de aula. Todos os dias. Uma rotina que não se vê mais.
E nos recreios brincávamos de bolinhas de gude, fura pés, guerreou (todos corriam do vilão para não ser pego) ou esconde-esconde, e em outros locais, o empinar de arraia, a velha pipa nos céus de Salvador. Eram tantas brincadeiras e, mesmo sem ganhar brinquedos no natal por sermos bem pobres ( não tinha problema não, nada de vítimas!), criávamos nossos próprios brinquedos com latas vazias de leite, ou sardinha para fazer os trenzinhos, caminhões ou uma velha tábua com rodinhas de rulemã para fazer deslizar ladeira abaixo, estava pronta nossa patinete e todos participavam da brincadeira, dividíamos nossos brinquedos.
Quando era possível, aos domingos na porta dos cines São Jorge ou Brasil, na Liberdade trocávamos os gibis de faroestes e depois íamos assistir as aventuras do Tarzan, rei das selvas, ou do Cavaleiro Mascarado. E a sessão era bem interativa. A turma gritava muito quando o vilão roubava a cena. O assovio era forte quando a mocinha estava preste a cair na armadilha do vilão. E quando o mocinho chegava para salvar a donzela, era o grito geral. Muita emoção nos seriados de cinema.
TELEVIZINHA
Na casa da vizinha é que víamos os seriados de tevê. Era a televizinha. E haja Doutor Smith resmungando sempre “Os céus, oh dor!!” para conseguir proveito nas aventuras da Família Robson, Perdidos no Espaço, ou mesmo as aulas de História de O Túnel do Tempo, as inimagináveis ações em Terra de Gigantes, A Feiticeira, Pat Boone ou as travessuras de Lassie, de Rin Tin Tin, de Tom Mix, dos brasileiros Gerônimo herói do sertão ou Vigilante Rodoviário. Era seriado que não acabava mais.
Uma infância assim não dá para esquecer, mesmo com um turbilhão de temas envolvidos e emaranhados nos dias atuais, com tantos avanços na medicina, na ciência, na tecnologia e em tudo mais, parece que as pessoas estão cada vez mais distantes, mais fechadas para o mundo, mais solitárias, com medo, receio, traumas. “É a vida!!!”, diriam alguns. “´Novos tempos”, reclamam outros. “Novas atitudes”, pensam alguns outros.
ARTIGOS
De 1970 a 1972 escrevi no jornal A Tarde a coluna semanal “Os Quadrinhos em Foco”. De 1977 a 78 assinei a coluna “Os Quadrinhos em Estudo” n`A Tarde. Em 190 publiquei a coluna diária, “Cronologia das HQs” no Correio da Bahia. Depois de publicar diversos artigos sobre artes gráficas, música, cinema, literatura e potencialidades dos municípios baianos no Jornal de Salvador, Notícias da Bahia, Diário Oficial, revista Quatro Cantos, Revista da Bahia, Revista Estados & Municípios, entre outras, passei a escrever a coluna “Quadrinhos” na Tribuna da Bahia de 1989 a 1991. De 1993 a 95 escrevi a coluna semanal “Quadrinhos” no jornal Bahia Hoje. De 2003 a janeiro de 2009 escrevia sobre municipalismo no Diário Oficial dos Municípios.
Além de jornais, produzi programas nas rádios Educadora, Piatã, Bandeirantes e na TV Itapoan. Ganhei o prêmio Parker de Jornalismo Estudantil (1975), foi citado no livro Comics- The Art of the Comics Strip, da Graphis Press (Zurich, 1972), recebi os troféus Crítico do Ano no 4º Encontro Nacional de HQ, setembro de 1991, na cidade de Araxá (MG) e HQ Mix (considerado o mais importante do mercado brasileiro de quadrinhos) em São Paulo, pelo livro “Traço dos Mestres”.
Em 1997 recebi outro HQ Mix de melhor livro de humor, em São Paulo por “Feras do Humor Baiano”. Além desses dois livros publiquei “Gente da Bahia” (1977) e “Gente da Bahia 2” (1998) e “O Que Nós Falamos sobre Municípios” (2000). Em 2009 publicou “Bahia, um estado d´alma” em homenagem aos 460 nos de fundação da cidade do Salvador. Desde 2005 sou colunista semanal do jornal Agora (Itabuna) e editor deste blog diário Blog do Gutemberg (blogdogutemberg.blogspot.com).
Breve estarei lançando outro livro, “Tudo está na palavra”, com o melhor do que escrevo neste blog. Espero contar com o apoio e/ou colaboração de algum empresário e/ou editora que deseja apoiar esse trabalho.
O que nós definimos como progresso é reflexo de valores que são muito específicos da nossa própria cultura, e que são de data relativamente recente. Falamos dos avanços das ciências, do crescimento econômico, da civilização e do reconhecimento dos direitos humanos. Entretanto, há outros padrões pelos quais as mudanças podem ser medidas. Mas esses padrões estão presentes como contra discursos mesmo em nossa própria cultura. No parâmetro ambiental, por exemplo, nossa sociedade é uma catástrofe. No progresso espiritual estamos regredindo. E há pouca evidência de progresso de valores.

07 Maio 2009

Recordações (1)

A minha primeira recordação de infância era de um garoto franzino, assustado com o mundo. Quando meus pais chegaram à Bahia, vindos de Sergipe, foram se acomodar num terreno abandonado do conhecido bairro Corta Braço, hoje Pero Vaz. Foi lá que construiu sua família. A ansiedade que em mim brotava era o temor da exclusão, da expulsão sempre em busca de um abrigo. Nossa casa era pequena, sem nenhum conforto e foi meu pai quem construiu aos poucos. Dormíamos no chão, ao lado de areia e tijolo e dos diversos insetos. Minha mãe, sempre prestativa, esquentava a comida, seja para a hora do almoço ou do jantar, onde todos se reuniam aos olhos tementes do nosso pai. Sua presença era forte e todos nós obedeciam suas palavras.

Foto do grupo de pesquisa de HQ com uma exposição na Bublioteca Central
Sempre que podia ficava lendo as obras de Monteiro Lobato, as enciclopédias infanto-juvenis e os gibis. Não dá para esquecer a grande paixão em conhecer a Biblioteca Monteiro Lobato, no bairro de Nazaré. Saía do Pero Vaz para as leituras naquele local de sonho onde o livro servia para fazer do mundo real e entrar no mundo imaginário que habitou durante grande parte de minha adolescência. Foi um verdadeiro tesouro entrar naquele local sagrado de tantos e tantos livros. Paixão à primeira vista. Era como visitar a Disneylândia, o grande sonho juvenil daquela época. E como sonhava morar perto daquela biblioteca!. O curioso é que agora, já adulto, vim a morar no bairro da Saúde, colado à Biblioteca Monteiro Lobato, onde meu sonho realizou-se.
Conhecer Denise Tavares foi outra etapa de realizações e ajudar em sua luta diária de criar hábitos de leitura na infância. A casa dos sonhos tinha uma batalhadora à altura. Mulher bonita, talentosa, criativa, empreendedora, sonhadora. Outra pessoa incrível que entrou em nossa vida foi o jornalista e escritor Adroaldo Ribeiro Costa que, anos mais tarde, tornou-se nosso patrono na criação de uma associação em defesa das histórias em quadrinhos. Adroaldo escrevia uma Página Infantil todos os sábados no jornal A Tarde e foi nessa página que comecei a escrever comentários críticos a respeitos dos quadrinhos. Denise Tavares já lutava bem antes para colocar os gibis na biblioteca. Os gibis eram tidos como subliteratura. Aquela velha discussão preconceituosa de alta literatura e baixa literatura, a de massa, a popular.
QUADRINHOS
O interessante foi quando nosso clube em defesa dos quadrinhos realizou uma exposição no Instituto Central de Educação Isaías Alves (Iceia) no Barbalho. Intitulada a importância dos quadrinhos no mundo, mostrávamos como as historietas tinham relações com a literatura, o cinema, as artes plásticas, a música etc. Foi a primeira mostra sobre quadrinhos na Bahia. A mídia deu boa cobertura e realizamos um debate com a presença de educadores, psicólogos e curiosos no tema. Muitos condenavam os quadrinhos por “excesso de fantasia”, rebatíamos com o simples “então vamos acabar com a literatura infantil, a fantasia é necessária para as crianças”. Outros criticavam o “excesso de violência”, e quanto a tevê, o jornal, rádio e cinema?.
E o debate continuou com o resultado positivo pra gente. Nós enfrentamos todos aqueles preconceitos e ganhamos no resultado final. Isso nos deus mais gás para continuar analisando os gibis e escrevendo depois os primeiros fanzines na localidade, o Na Era dos Quadrinhos (comprovado na tese de mestrado de um professor paulistano na série da Editora Brasiliense Primeiros Passos – O que é fanzine). Bem mais tarde escreveria dois livros sobre o assunto provando que os quadrinhos surgiram na Bahia (Traço dos Mestres, e Feras do Humor Baiano), mas essa é outra etapa de vida...
PESQUISA
Em 1968 criei, juntamente com alguns estudantes, o Centro de Pesquisa de Comunicação de Massa (o antigo Clube da Editora Juvenil), órgão que estudou os quadrinhos, cartuns, caricaturas, grafismo em geral. Na época lançamos o fanzine Na Era dos Quadrinhos. Foram exatos 37 números em sua primeira fase, que circularam ininterruptamente a cada mês, entre julho de 1970 e julho de 1973. A segunda fase foi mais curta e durou apenas cinco números publicados (de janeiro a maio de 1977).
Na primeira metade da década de 70, qualquer aficionado por quadrinhos sabia da existência do fanzine baiano. Apesar de ter “agitado” as seções de cartas das principais revistas de quadrinhos nos cinco anos em que circulou, Na Era dos Quadrinhos “desapareceu” da história dos zines brasileiros – certamente pela “distância” da Bahia em relação aos principais pólos editores.
Outra atividade do Centro de Pesquisa na Bahia foi realizar exposições. Em 1970 montamos a I Exposição de HQ do Norte e Nordeste, no salão nobre do ICEIA. O tema abordado: A importância dos quadrinhos. No debate, o professor Adroaldo Ribeiro Costa (muito conhecido na Bahia) foi agraciado com o título de presidente de honra da associação. Em 1971, na Biblioteca Central do Estado o tema da mostra foi Os Quadrinhos no Mundo. No ano seguinte, Os Quadrinhos no Brasil, também na Biblioteca Central. Em 12976 no Instituto Cultural Brasil Alemanha (ICBA), Quadrinhos Baianos. A associação de quadrinhos da Bahia realizou ainda centenas de palestras, aulas e cursos nas escolas, bibliotecas e espaço cultural em Salvador e diversas cidades do interior da Bahia, além de levar as exposições para outros municípios e divulgar melhor o fanzine. O estudioso italiano Umberto Eco também recebia o fanzine baiano e comentou em um de seus livros.

06 Maio 2009

O Roubo da História (3)

O principal objetivo do estudo de Jack Goody foi examinar o modo como a Europa roubou a historiado Oriente, expondo suas próprias versões de tempo (amplamente cristão) e de espaço ao resto do mundo eurasiano. A historiografia européia, ao criar periodizações, como aquela que divide a história em Antiguidade, Feudalismo, Renascença e Capitalismo, contribui consideravelmente para a exclusão dos povos do chamado Oriente. Cria, como defende o autor, a falsa idéia de um desenvolvimento exclusivamente europeu, desde a civilização grega e romana até o advento do capitalismo e a dominação européia do mundo a partir do século XIX, esquema que relega a Ásia, África e América Latina à posição de exceção, estudadas à parte, quando muita.

A crença de um Ocidente superior é usada para justificar o modo como os “outros” são tratados, uma vez que os “outros” são vistos como estáticos, ou seja, incapazes de mudança sem a ajuda de fora. “Acontece que a história nos ensina que qualquer superioridade é um fator temporário e que temos de buscar alternância. A enorme China parece estar tomando a liderança na economia, que pode ser a base do poder educacional, militar e cultural, como aconteceu antes na Europa, e depois nos EUA e mesmo na própria China ainda mais cedo. Essa mudança recente foi liderada por um governo comunista, sem muita ajuda deliberada do Ocidente”, informa Goody.

Em O Roubo da História, Goody expõe o modo pelo qual a dominação do mundo pela Europa, desde sua expansão no século XVI, mas, acima de tudo, desde a sua posição de liderança na economia do mundo a partir da industrialização no século XIX, resultou no domínio da narrativa da história moderna. Para ele a Idade do Bronze começou no Antigo Oriente Médio, espalhando-se em direção a leste para a Índia e China, a sul para o Egito e a oeste para o Egeu. Ela consistiu na introdução da agricultura mecanizada, na formado arado puxado a boi, no controle da água em larga escala, no desenvolvimento da roda e de uma variedade de ofícios urbanos, inclusive a invenção da escrita, provavelmente ligada à expansão da atividade mercantil. A Idade do Bronze foi inicialmente uma “civilização” com base asiática, que precedeu em muito a Renascença européia.

O problema do roubo da história e das ciências sociais também afeta outras humanidades. Em anos recentes, acadêmicos têm tentado tornar suas disciplinas mais comparativas e mais relevantes para o resto do mundo. Essas tentativas, porém, estão longe de cumprir o objetivo. Literatura passou a ser “literatura comparada”, mas o leque de comparações geralmente se limita a algumas fontes européias. O oriente é ignorado e culturas orais desconsideradas.
Um livro polêmico, cheio de temas delicados, relatadas por esse antropólogo conceituado e respeitado. Não reconhecer as qualidades do outro é o melhor caminho para não se dar conta do potencial dele. E Goody analisa que certo desprezo pelo Oriente pode ainda custar muito caro ao mundo ocidental. A obra abre uma janela para aquela que querem descortinar o mundo, e traz contribuição à desconstrução do etnocentrismo enraizado e extremo da história européia e a idéia fictícia de divisão e contraposição do mundo entre Ocidente e Oriente. Leia e se oriente!

05 Maio 2009

O Roubo da História (2)

Desde o início do século XIX, a construção da história do mundo tem sido controlada pela Europa ocidental, que registrou sua presença no resto do mundo como resultado da conquista colonial e da Revolução Industrial. No século XVI, a Europa alcançou uma posição dominante no mundo em parte por conta do Renascimento e dos avanços na navegação e nos armamentos que lhe permitiram explorar e colonizar novos territórios e desenvolver sua empresa mercantil, em parte pela adoção da imprensa, que ampliou o alcance do conhecimento. Pelo final do século XVIII, com a Revolução Industrial, a Europa alcançou o domínio econômico mundial.

O que caracteriza a postura européia, assim como a de sociedades mais simples, é a tendência de impor a própria história ao mundo. Essa tendência etnocêntrica é extensão de um impulso egocêntrico na base de grande parte da percepção humana e se realiza pelo domínio de fato de muitas partes do mundo. Eu vejo o mundo necessariamente com meus olhos, não com os olhos dos outros.

Segundo o historiador, as dimensões atuais de tempo e espaço foram estabelecidas pelo Ocidente. Isso porque a expansão através do mundo requereu controle temporal e mapas que emolduraram a história, tanto quanto a geografia. É claro que todas as sociedades têm alguns conceitos de espaço e tempo, em torno dos quais organizam seus cotidianos. Esses conceitos tornaram-se mais elaborados (e mais precisos) com o advento da leitura e da escrita, que proveu a capacidade para precisar ambas as dimensões.
O Ocidente usa o ciclo sideral (calendário solar), outros usam uma seqüência de 12 períodos lunares. As diferentes formas de calcular o tempo nas sociedades com escrita tinham uma estrutura religiosa, usando como ponto de referência a vida do profeta, do redentor, ou a criação do mundo.
Modelos religiosos de construção do mundo permeiam todos os aspectos do pensamento e em tal extensão que, mesmo tendo sido abandonados, seus traços continuam a determinar nossa concepção de mundo. Categorias espaciais e temporais, originadas de para nossa interação com o mundo, que nós tendemos a esquecer sua natureza convencional.
A globalização compreende uma medida de universalização. Não se pode trabalhar com conceitos puramente locais. Assim, apesar de o estudo da astronomia ter tido sua origem em outro lugar, mudanças na sociedade de informação, particularmente na tecnologia de informação na forma de livro impresso (que, como o papel, veio da Ásia), passaram a significar que o desenvolvimento da estrutura do que se chama ciência moderna é ocidental. Nesse caso, como em muitos outros, globalização significa ocidentalização.
Toda a história mundial foi concebida como uma seqüência de fases constituídas por eventos ocorridos só na Europa Ocidental. O roubo da história pela Europa Ocidental começou com as noções de sociedade arcaica e Antiguidade, prosseguindo daí em uma linha mais ou menos reta pelo feudalismo e Renascença até o capitalismo.
Uma das primeiras matérias da escrita Grega foi a guerra contra a Pérsia que levou à distinção feita em termos valorativos entre Europa e Ásia, com profundas consequências para nossa história política e intelectual a partir de então. Para os gregos, os persas eram “bárbaros”, caracterizados pelo uso da tirania em vez da democracia. Era, claro, um julgamento puramente ectonêntrico, alimentado pela guerra grego-persa. O suposto declínio do Império Persa no reino de Xerxes (485-465 antes de Cristo) decorre dessa visão centrada na Grécia e em Atenas; essa interpretação não surgiu de documentos elamitas de Persépolis, nem acadianos da Babilônia, nem aramaicos do Egito, e está longe de evidências arqueológicas. Na verdade, os persas eram tão “civilizados” quanto os gregos, especialmente em sua elite. Construíram-se no principal caminho pelo qual o conhecimento, vindo das sociedades\literárias do Oriente Médio antigo, foi transmitido aos\gregos.

Linguisticamente (conta o historiador), a Europa tornou-se o lar dos “arianos”, falantes de línguas indo-européias advindas da Ásia. A Ásia Ocidental, por outro lado, foi o lardos povos nativos de línguas semitas, um ramo da família afro-asiática que incluiu a língua falada pelos judeus, fenícios, árabes, coptas, berberes, e muitos outros do Norte da África e Ásia. Foi essa divisão entre arianos e outros, incorporadas mais tarde nas doutrinas nazistas, que, na história popular da Europa, tendeu a encorajar o subsequente menosprezo das\contribuições do Oriente para o crescimento da civilização.

04 Maio 2009

O Roubo da História (1)


Antropólogo fundamental, Jack Goody ataca a superioridade do Ocidente e diz que democracia e capitalismo já existiam no Oriente. Ele denuncia os limites de confundir a trajetória da humanidade com a narrativa histórica criada pelo ponto de vista europeu. Ao mostrar que democracia, capitalismo, liberdade e até o amor estão longe de ser invenções especificamente ocidentais ou conquistas de um processo histórico supostamente exclusivo. Em seu livro publicado no Brasil pela Editora Contexto, “O Roubo da História: Como os Europeus se Apropriaram das Idéias e Invenções do Oriente”, o britânico Jack Goody procura mostrar o caráter etnocêntrico para justificar, no plano das idéias, uma dominação no nível dos fatos, construída pelos regimes coloniais e pela Revolução Industrial.

Assim, os europeus escreveram a história a partir de seu ponto de vista. Em vários trabalhos o antropólogo mostrou como as sociedades letradas da Eurásia oriental e ocidental têm muito mais em comum do que a ciência social sugere. Nesse minucioso trabalho Goody detalha como os ocidentais se apoderaram de invenções e conceitos orientais. Basta lembrar que na abertura dos jogos Olímpicos, os chineses deram um sutil recado ao estender aquele enorme pergaminho e, a partir dali, contar que são do Oriente importantes invenções como o papel, a prensa, a bússola e a pólvora, a manufatura e a industrialização da rede e dos tecidos de algodão. E é a força da China e os tigres asiáticos e do “milagre japonês” que estamos vendo hoje. E só agora que o Ocidente volta seus olhos para esses países.

Retratar a Idade Média na Europa como um período violento, repressivo e sem muita criatividade. O Oriente, ao contrário, vivia um momento de progresso. Na época do Renascimento, os europeus beberam muito de fontes orientais para recuperar o tempo perdido na “idade das trevas”. No entanto, isso pouco aparece nas obras de outros historiadores. A Idade Média foi o auge da ciência, literatura, poesia e filosofia islâmicas, bem como a Época de Ouro do judaísmo, quando filósofos judeus de Al Andalus, como Maimônides, escreveram suas principais obras (em árabe, que era a língua culta da época). A obra do grande filósofo islâmico Ibn Sina (Avicena) chegou à Europa antes da queda do grego antigo Aristóteles, tanto que quando São Tomás de Aquino começou a ler Aristóteles o fez pela lente da leitura prévia de Ibn Sina. O que demonstra que ao longo da “idade média” os árabes não apenas preservaram como desenvolveram o conhecimento herdado da Grécia. Assim, o chamado Renascimento seria melhor compreendido como uma continuidade do florescimento cultural do Islã clássico, ou da própria China, tão avançada quanto, econômica, social e culturalmente.

Considerando um dos maiores cientistas sociais do mundo, ao longo dos últimos cinqüenta anos seus escritos pioneiros nas interseções da antropologia, história e estudos sociais e culturais têm feito dele um dos escritores atuantes mais lidos, citados e traduzidos de nossos dias. O Roubo da História não é um simples ensaio, um trabalho apenas opinativo. Nesta obra ele recorre a pesquisar feitos na Ásia e na África (muitas realizadas por ele mesmo) para dar peso às suas teses.

Dividida em três partes, a primeira emanisa a validade da concepção européia de um tipo equivalente do árabe isnad, uma genealogia sócio-cultural, que surge da Antiguidade, progride para o capitalismo por intermédio do feudalismo e coloca a Ásia na posição de despótica ou atrasada. A segunda parte examina três grandes eruditos, todos altamente influentes, que tentaram enxergar a Europa em relação com o mundo, mas que continuaram a privilegiar essa suposta linha exclusiva de desenvolvimento. São eles, o biólogo Joseph Needham, o sociólogo alemão Norbert Elias e o historiador francês Fernand Braudel. A terceira parte do livro interpreta as pretensões de vários europeus de apresentarem-se como os guardiões de algumas estimadas instituições, como um tipo especial de cidade, de universidade, de democracia e de valores, isso o individualismo, assim como emoções, como o amor (ou o amor romântico).

30 Abril 2009

Trajetória da filosofia (4)

Henry David Thoreau (1817-1862) tinha aversão pelos excessos da sociedade civilizada e defendeu a tática da não-cooperação contundente como meio pacífico de conquistar reformas sociais importantes. Charles Sanders Peirce (1839-1914) desenvolveu uma teoria dos signos e sua inter-relações.

Sigmund Freud (1856-1939) trouxe a idéia de que a mente é em última análise uma entidade material (o cérebro) analisável em termos de neurologia, circuitos de energia e da linguagem da física. O “inconsciente” foi um tópico de discussão para gerações de filósofos. O sociólogo Max Weber (1864-1920) estudou a racionalidade. Para ele, o capitalismo é produto do protestantismo.

O francês Henri Bérgson (1859-1941) gerou em tornou da idéia de duração, a realidade da mudança. O espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936) estudou o senso trágico da vida cheia de ansiedade, brutalidade e decepção. O italiano Benedito Croce (1866-1952) enfatizou o desenvolvimento da consciência humana.
Martin Heidegger (1889-1971) buscou a autenticidade, ou do que poderia ser definido como “mesmidade” que nos transportaria de volta para as questões perenes sobre a natureza do eu e o sentido da vida. O escritor franco-angelino Albert Camus (1913-1960) captou a sensibilidade do século com sua noção dramática do “absurdo”. Gabriel Marcel (1889-1973) insistiu em que deveríamos encarar as experiências mais profundas da vida sem a falsa fachada da objetividade, isto é, sem por essas experiências à distância como meros problemas a resolver.
Simone de Beauvoir (1908-1986) explicou em detalhes as implicações éticas do existencialismo de Sartre. Martin Luther King Jr (1929-1968) defendeu a idéia de uma sociedade plenamente integrada. Malcolm (1825-1965) contestou a opressão social. Toda a obra do francês Gilles Deleuze (1925-1995) é atenta ao que se inventa no domínio do pensamento, da política e da História. Ele acreditou que a filosofia excede a simples arte de formar, de inventar ou fabricar conceitos. Para Deleuze, a arte é um vestíbulo da filosofia, uma preparação necessária para se penetrar nos seus intrincados domínios.

Jacques Derrida (1930-2004) escolheu o caminho da desconstrução, em que a unidade de sentido não se dissolve “no vivo colóquio, mas na trama das seleções de sentido que está na base de toda fala”. O termo desconstrução deve ser entendida como vontade de desarticular o sistema de remetimentos, de “deslocar a unidade verbal” de modo a torná-la menos anquilosa do e mais consciente dos próprios condicionamentos.
Hannah Arendt (1906-1975) procurou suas raíses profundas no progressivo revolvimento da “vida da mente”, na distorção sofrida pelas nossas faculdades: o pensar, o querer, o julgar. Jurgen Habermas (1929- ) diz que as mídias fizeram um desenho e o chamaram razão. A ação comunicativa retece incessantemente seu desafiado tecido simbólico.
John Rawls (1921-2002) pensa o ordenamento das sociedades democráticas, para fixar um ponto de equilíbrio entre a tradição liberal da defesa das liberdades individuais e a democrático-radical de promoção das chances de vida aos mais desfavorecidos. Bernard Henri Lévi (1948- ) é iluminista e ateu, defende o islamismo moderado contra a ameaça do radicalismo islâmico, e procura marcar posição como ativo defensor dos direitos humanos e da universalidade dos valores ocidentais dominantes. Ele é um intelectual público à francesa, mais do que um filósofo técnico. Tornou-se um dos expoentes dos Novos Filósofos, crítico sobretudo do pós-estruturismo e do marxismo.
Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) foi um filósofo fenomenologista francês. Para Merleau-Ponty, o ser humano é o centro da discussão sobre o conhecimento. O conhecimento nasce e faz-se sensível em sua corporeidade. Michel Foucault (1926-1984) descreveu os mecanismos ocultos de grandes estruturas que governam nossos comportamento: a psiquiatria, a justiça e seus agentes.
Georges Bataille (1897-1962) escreveu sobre sexo e morte a partir de uma experiência de vida radical, além do conteúdo sagrado do sacrifício.
Michel Onfray (1959 - ) filósofo francês que se dirige pela fala e escrita a um público: o da Universidade popular, criada por elevem 2002 na cidade de Caen e já se expandiu entre outras localidades. Ele ministra aulas públicas e gratuitas, além da difusão das aulas na Radio France Culture. Para ele é urgente se passar da era da religião para a era da filosofia de massa. A reivindicação ateísta de Onfray caminha junto com a reabilitação do corpo, dos sentidos, e dos prazeres.
Luc Ferry (1951- ) filósofo francês da atualidade e um homem público engajado na transformação da França. Sua preocupação central de filosofia deve ser a de auxiliar as pessoas a superar seus medos e a viver bem. Segundo ele, os medos a serem superados são de três tipos: os medos sociais, as fobias e os medos metafísicos.
Outras leituras para quem deseja se aprofundar mais:
A Filosofia do Século XX, de Remo Bodei. Edusc, 2000
Uma Breve Introdução à Filosofia, de Thomas Nagel, Martins Fontes, 2001
Paixão pelo Saber. Uma breve historia da filosofia, de Robert C. Solomon & Kathleen M. Higgins. Civilização Brasileira, 2003
Mundos Invisíveis. Da alquimia à física de partículas, de Marcelo Gleiser. Editora Globo, 2008.