20 Novembro 2009

Milton Santos, o mestre visionário, foi um dos maiores pensadores da nossa história

A Bahia está sempre surpreendendo o Brasil e o mundo, e não se está falando aqui de música, dança, Carnaval e outras expressões culturais do gênero – ainda que estas sejam nossas matizes mais fortes e que merecem igualmente a devida valorização. Mas, o estado baiano é mais que isso, e uma das maiores provas é um nome: Milton Santos. Negro, nascido no interior da Bahia, em Brotas de Macaúbas, este geógrafo, doutor honoris causa por 20 universidades de sete países, teve mais de 40 livros publicados em diversos idiomas e se tornou um dos maiores pensadores da história recente do Brasil. O mestre visionário baiano morreu aos 75 anos, defendendo a tese de que é pelas idéias que se irá alcançar a transformação social.

Ainda criança, Milton Santos desenvolveu o gosto pela álgebra e pelo francês. Seu “forte” foi a matemática, tanto que aos 13 anos dava aulas no ginásio em que estudava. Aos 15 anos passou a lecionar Geografia e aos 18 prestou vestibular para Direito em Salvador. Enquanto estudante secundário e universitário marcou presença com militância política de esquerda. Formado em Direito, não deixou de se interessar pela Geografia, tanto que fez concurso para professor catedrático em Ilhéus. Nesta cidade, além do magistério, desenvolveu atividade jornalística, estreitando sua amizade com políticos de esquerda.

“o sonho obriga o homem a pensar”
TRAJETÓRIA & RECONHECIMENTO - Apesar de ter se graduado em Direito, desenvolveu trabalhos em diversas áreas da Geografia, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Foi um dos grandes nomes da renovação na geografia brasileira ocorrida nos anos 1970. Embora pouco conhecido fora do meio acadêmico, Milton Santos alcançou reconhecimento fora do Brasil, tendo recebido em 1994, o Prêmio Internacional Vautrin Lud, uma espécie de prêmio Nobel da Geografia, conferido por universidades de inúmeros países. O geógrafo foi dos poucos cientistas brasileiros que, expulsos durante a ditadura militar (naquilo que foi conhecido por êxodo de cérebros), voltaram depois ao país, sendo disputado por diversas universidades.

Sua obra “O espaço dividido”, de 1979, é hoje considerado um clássico mundial, onde desenvolveu uma teoria sobre o desenvolvimento urbano nos países subdesenvolvidos. Sua idéias de globalização, esboçadas antes que este conceito ganhasse o mundo, advertia para a possibilidade de gerar o fim da cultura, da produção original do conhecimento - conceitos depois desenvolvidos por outros. “Por uma Outra Globalização”, outro livro seu escrito dois anos antes de morrer, é referência atual em cursos de graduação e pós-graduação em universidades brasileiras. Traz uma abordagem crítica sobre o processo perverso de globalização atual na lógica do capital, apresentado como um pensamento único.

Na visão dele, esse processo, da forma como está configurado, transforma o consumo em ideologia de vida, fazendo de cidadãos meros consumidores, massifica e padroniza a cultura e concentra a riqueza nas mãos de poucos. Durante toda a vida buscou métodos e visões diferentes para encarar seus temas de estudo. França, EUA, Canadá, Tanzânia, Milton Santos lecionou em diversas universidades mundo afora em seu exílio durante a ditadura militar no Brasil. Também lecionou na Venezuela e no Reino Unido. Regressou ao Brasil em 1977, onde anos depois, finalmente, cursou geografia na Universidade Católica de Salvador.

O renomado baiano Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas
ABORDAGEM INOVADORA - Durante seus 13 anos de exílio, seus contatos com inumeráveis profissionais em diversos países, e, sobretudo sua capacidade de elaborar teorias, a partir de variadíssima leitura, por diversos campos do saber, impulsionaram seu esforço de escrever, de compor sua obra considerada como monumental. A ditadura lhe impôs sofrimento em função de suas idéias. Realizou forte defesa de uma Geografia mais crítica, com abordagens da teoria marxista.
A obra de Milton Santos é inovadora ao abordar o conceito de espaço. De território onde todos se encontram, o espaço, com as novas tecnologias, adquiriu novas características para se tornar um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. As velhas noções de centro e periferia já não se aplicam, pois o centro poderá estar situado a milhares de quilômetros de distância e a periferia poderá abranger o planeta inteiro. Daí a correlação entre espaço e globalização, que sempre foi perseguida pelos detentores do poder político e econômico, mas só se tornou possível com o progresso tecnológico.
Para contrapor-se à realidade de um mundo movido por forças poderosas e cegas, impõe-se, para Milton Santos, a força do lugar, que, por sua dimensão humana, anularia os efeitos perversos da globalização. Estas idéias são expostas principalmente em sua obra “A Natureza do Espaço”, publicada em 2002. Ele recebeu em 1997 o prêmio Jabuti pelo melhor livro em ciências humanas: A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. Em 1998, o geógrafo foi homenageado pelo Jornal do Brasil, recebendo o título de Homem de Idéias. Um ano depois, foi contemplado em concurso nacional pela Revista Isto É como um dos 20 cientistas do século.

Ainda em 1999 recebeu o Prêmio Chico Mendes por sua resistência. Foi condecorado Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico em 1995. Hoje, o geógrafo tantas vezes laureado empresta seu nome ao Prêmio Milton Santos de Saúde e Ambiente, criado pela Fundação Oswaldo Cruz. Milton Santos nunca participou de movimentos negros – acreditava que deveria conquistar reconhecimento em atitudes como, por exemplo, ingressar na universidade. “Minha vida de todos os dias é a de negro”, declarou. “Mantenho com a sociedade uma relação de negro. No Brasil, ela não é das mais confortáveis”.

----------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

19 Novembro 2009

Antropólogo diz que estudos não são jogo de cartas marcadas a favor de índios

A identificação de áreas indígenas desperta reações contrárias da classe produtiva. Em Mato Grosso do Sul, onde 45 mil índios reivindicam mais espaço, os fazendeiros taxam como “viciado” o trabalho dos especialistas responsáveis pelos estudos. O antropólogo Rubem Thomaz de Almeida, que há 30 anos estuda a região, garante que os levantamentos feitos para embasar as demarcações pelo governo federal não são um jogo de cartas marcadas a favor dos indígenas. Ele atribui a “desconhecimento de causa” as críticas dos ruralistas. “É necessário que eles [fazendeiros] entendam que o estudo não vem definido. Em estudos passados, inclusive, deixamos de incluir área porque não tínhamos argumentos nem dados suficientes para colocar espaços como terra indígena. É fundamental realizar os estudos para que o governo possa atuar e decidir um problema social gigantesco, que são 45 mil índios que estão ali sem terra, sem ter onde plantar”, afirmou Almeida.
“Temos atrás da gente a academia. Somos vinculados à Associação Brasileira de Antropologia e, se a gente incorrer em desvios na nossa produção científica, haverá facilidade em derrubar [os laudos]”, acrescentou. Almeida diz ser contrário à “criminalização” dos fazendeiros e reconhece que eles deveriam ser recompensados pelo governo para deixar a terra, em valor além das benfeitorias. “Dificilmente essa coisa vai resolver sem negociação com os produtores rurais. Não podemos criminalizar os fazendeiros, dizer que são todos bandidos. Ficará muito difícil dar conta do problema se não houver mecanismo para se pagar a terra aos fazendeiros”, ressaltou. Entretanto, o antropólogo classifica de “absurdos” os argumentos que tentam vincular a luta dos índios pela terra a interesses estrangeiros.

“São 45 mil pessoas que têm uma história, tradição, e sabem exatamente onde vivem e o que querem. Não tem Cimi [Conselho Indigenista Missionário], antropólogo nem estrangeiro, absolutamente ninguém. Eles não vão deixar de reivindicar a terra. O fazem por sua conta. Quem fala o contrário é para jogar fumaça e não enfrentar o problema”, criticou. Pesquisa da década de 80 já alertava o governo para a necessidade de reconhecer mais áreas indígenas em Mato Grosso do Sul, após o processo de colonização que resultou no confinamento de índios em aldeias delimitadas pelo próprio governo. Hoje o sudoeste do estado é apontado por estudiosos e pela própria Fundação Nacional do Índio (Funai) como o espaço mais problemático da questão indígena no Brasil. Para Almeida, o país já poderia ter superado o quadro.
“Faltou um pouco de decisão política e de ânimo do governo para dar conta antes do problema. É necessário que o governo pegue esse touro a unha e decida levar adiante primeiro os estudos e depois as decisões [de demarcação e homologação de áreas]” , defendeu o antropólogo. A expectativa dos profissionais envolvidos no trabalho de identificação em Mato Grosso do Sul é concluir a fase dos estudos em abril de 2010. O antropólogo entende que as críticas de parte da população de Mato Grosso do Sul à vida dos índios em áreas homologadas, como a aldeia de Panambizinho, a 25 quilômetros de Dourados, deve-se a uma percepção equivocada da cultura tradicional. Na região, áreas antes produtivas viraram mato e os índios trabalham apenas com agricultura de subsistência.
“Não podemos esperar que os guarani vão produzir como nós produzimos. Eles têm um viés cultural e se mostram abertamente contra a produção em larga escala. Eles têm uma relação cosmológica importante com o mato. Buscam o mato, porque lá tem que ter bicho e tem que proteger a água. Mas eles também têm plena consciência de que quem não trabalha não come.” Se os estudos na região confirmarem as reivindicações indígenas, os antropólogos calculam que o problema fundiário das comunidades tradicionais estará resolvido para pelo menos três gerações, cabendo aos indígenas se organizarem futuramente para viver ali. Durante os estudos antropológicos, as equipes deverão ser acompanhadas por representantes do governo estadual e de proprietários rurais na vistoria em fazendas, além de receberem escolta policial. No ano passado, quando os estudos começaram, especialistas foram seguidos e fotografados por desconhecidos. “A presença da polícia é um modo de a gente entrar nas áreas que precisam ser verificadas”, disse Almeida ao destacar a importância do estudo para o processo de demarcação. (Agência Brasil.04/11/2009)

SENADO

O Senado Federal recebeu no dia 11 de novembro de 2009, uma série de sugestões para garantir o cumprimento da lei que tornou obrigatória a inclusão de conteúdos relativos à história e à cultura indígenas no currículo oficial da rede de ensino. Na opinião de quatro debatedores que participaram de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), os parlamentares devem incentivar a formação dos professores e a produção de material didático sobre a história e a cultura indígenas e criar espaços para que as lideranças indígenas participem efetivamente do processo de discussão do ensino dessas matérias e dos demais temas de seu interesse.
Durante o debate, episódios de discriminação e repressão foram relatados por dois representantes de povos indígenas. Álvaro Tukano, idealizador do projeto Séculos Indígenas no Brasil, contou, por exemplo, que, no colégio de padres salesianos em que estudou, os índios perdiam a merenda se falassem suas línguas. E a técnica de educação da Fundação Nacional do Índio (Funai) Mariléia Taiua, do povo Kurâ-Bakairi, relatou que o primeiro animal que seu pai aprendeu a desenhar na escola foi um elefante, e que as línguas e os rituais indígenas eram proibidos:
André Ramos, historiador indigenista e educador da Funai, afirmou que a educação contribuirá para pôr fim à visão dualista que há na sociedade a respeito dos povos indígenas, com os estereótipos do "mau selvagem" e do "bom selvagem". Outra distorção, segundo ele, é o de que os índios são inimigos do progresso. Há também a crença de que há muita terra para pouco índio: “O primeiro desafio é rompermos esses estereótipos. Os povos indígenas são povos contemporâneos da sociedade brasileira, que enfrentam todos os problemas e desafios da modernidade. Não se consegue ver os povos indígenas como aliados do futuro do país, um país politicamente correto do ponto de vista ambiental e da sociodiversidade.”
---------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

18 Novembro 2009

Índios querem mais respeito pelos seus direitos e autonomia política

O Brasil possui aproximadamente 230 povos indígenas e mais de 190 línguas faladas. De acordo com informações do Governo do Estado, na Bahia são encontrados atualmente 20 propriedades de terra, distribuídos em 136.512 hectares com uma população estimada de 11.781 indígenas. As principais localidades estão situadas em reservas nos municípios de Prado, Porto Seguro, Muquém do São Francisco e Santa Cruz de Cabrália, no Extremo Sul; em Glória, Paulo Afonso e Rodelas, no território de Itaparica; Ribeira do Pombal, Banzaê e Euclides da Cunha, no Semi-Árido e em Ibotirama e Bom Jesus da Lapa, região do Velho Chico.

Diferente das incontáveis análises sobre a história dos negros, existe no Brasil um pequeno acervo na historiografia indígena, sendo disponibilizado apenas alguns espaços secundários nos livros escolares, espaços estes que tratam desrespeitosamente a cultura como um mero discurso folclórico, e em caráter universitário pouco se tem avançado. No Brasil ainda existe uma folclorização sobre o que é ser Índio. Para antropóloga Vanessa Caldeira no artigo intitulado “O que é ser índio”, a imagem para muitos dos brasileiros sobre o que é ser índio recaí uma idéia de aproximadamente 500 anos. “Essa imagem de índio – corpo nu, cabelo liso e preto, habitante das matas, falante de língua exótica – recai como forte cobrança para os povos indígenas contemporâneos”.

QUE TRIBO É ESSA? - “Se Deus quiser/Um dia quero ser índio/Viver pelado pintado de verde/Num eterno domingo/Ser um bicho preguiça/Espantar turistas/ E tomar banho de sol”. Qual foi a tribo em que a roqueira Rita Lee se inspirou para fazer a composição da música Baila Comigo, de sua autoria? Licença poética à parte, os índios contemporâneos brasileiros ao invés de ficar “tomando banho de sol” nas tribos, eles possuem uma ação política forte no país. São eles, agentes responsáveis por ações de preservação da cultura, de território, e da luta pelo direito da propriedade de terras.

De acordo com a Constituição Federal de 1988, art. 20, inciso XI, são bens da União, “as terras tradicionalmente ocupada por índios” o que reserva ao direito federal através do art. 49, inciso XVI “autorizar, em terras indígenas, a exploração e o aproveitamento de recursos hídricos e a pesquisa e lavra de riquezas minerais”. A Constituição determinada que o Governo Estadual é o responsável pelos territórios demarcados em suas limites de terras estaduais. Tramita no Supremo Tribunal Federal, há 27 anos, um processo de propriedade de terra entre o Governo Estadual e o Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe que possui uma população estimada de 3.200 indígenas. A justificativa é que o Governo da Bahia se apossou de 54.100 ha do território dos índios. Nessa luta pela devolução territorial, muitos representantes indígenas foram assassinados desde 1983 quando houve a primeira morte por disputa de terras.

REIVINDICAÇÕES DO POVO - Outras reivindicações são levantadas pelo povo Hã-Hã-Hãe, que defende entre diversas propostas a construção, reforma e ampliação de escolas indígenas e a autonomia administrativa e financeira dessas escolas para a implantação de educação diferenciada. Na área da saúde, os índios querem a implantação de postos de saúde e de redes de esgotamento sanitário nas áreas indígenas, a execução dos programas de saúde do governo federal e a criação de laboratórios para a produção de remédios fitoterápicos.

Por meses, manifestantes de grupos indígenas Pataxós e Tupinambás do sul da Bahia se queixam com o descaso da Fundação Nacional da Saúde, FUNASA, que para eles, o órgão federal é o responsável pelo aumento da mortalidade na região. Eles reclamam que há muito tempo está faltando médicos, ambulâncias e medicamentos nas aldeias do sul do Estado.

Sociedade precisa respeitar auto-determinação dos povos indígenas
PARQUE MONTE PASCOAL - Em 1943 o Governo do Estado criou o Parque Nacional Monte Pascoal, localizado em Porto Seguro. De forma irresponsável e sem projetos de preservação os índios que moravam na região foram expulsos e não receberam terras para remanejamento. Em 1961, o Governo do Estado da Bahia repassou o território do parque para a União. Com uma área de 22.500 ha, o Monte Pascoal é um dos principais pontos históricos brasileiros, pois foi essa a primeira porção continental avistada pelos Portugueses, ainda em 1500. Além da importância histórica, esta Unidade de Conservação é uma das que reúne uma diversidade de ecossistemas, como a Floresta Ombrófila Densa, regiões alagadiças, restinga, mangue e praia.

Em 1997 foi demarcada o território Coroa Vermelha, que passou a ser chamada de Terra Indígena Pataxó de Coroa Vermelha, onde os remanescentes da área do parque se juntaram para recuperar a identidade cultural que agrega as aldeias de Coroa Vermelha, Mata Medonha, Corumbauzinho e Craveiro. Nos dias 21 e 22 de agosto no município de Santa Cruz de Cabrália, no extremo sul, foi realizado o Encontro Regional de Povos Indígenas. A iniciativa integra um plano de ação da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) visando garantir uma ampla participação, mobilização, capacitação e fortalecimento dessas populações.

------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

17 Novembro 2009

Revisando o índio brasileiro (2)

O governo encaminhou em agosto de 2009 ao Congresso o novo estatuto do índio, que prevê o fim da tutela do Estado sobre os povos indígenas e regulamenta a exploração mineral em suas terras, hoje proibida por falta de legislação. Pelo projeto, os índios poderão ser responsabilizados penalmente por qualquer crime, como os demais cidadãos. Um laudo antropológico irá embasar a decisão do juiz, que vai avaliar se o ato cometido pelo indígena é aceitável e está no contexto de sua comunidade. "[Com o estatuto] outorgamos a plena capacidade civil, responsabilidades, sem agredir a sua origem cultural e os direitos territoriais", disse o ministro Tarso Genro (Justiça).

Quanto à mineração em terras indígenas, já tramita na Câmara um projeto de lei com basicamente o mesmo conteúdo do estatuto. A atividade deverá ser autorizada pelos próprios índios, que vão receber parte do faturamento bruto com o comércio do produto explorado. É na Amazônia que a regulamentação terá mais impacto, já que 25% dos minerais da região estão em terras indígenas.

DENOMINAÇÃO - Os habitantes das Américas foram chamados de índios pelos europeus que aqui chegaram. Uma denominação genérica, provocada pela primeira impressão que eles tiveram de haverem chegado às Índias. Mesmo depois de descobrir que não estavam na Ásia, e sim em um continente até então desconhecido, os europeus continuaram a chamá-los assim, ignorando propositalmente as diferenças lingüístico-culturais. Era mais fácil tornar os nativos todos iguais, tratá-los de forma homogênea, já que o objetivo era um só: o domínio político, econômico e religioso.

As populações indígenas são vistas pela sociedade brasileira ora de forma preconceituosa, ora de forma idealizada. O preconceito parte daquele que convive diretamente com os índios: as populações rurais. Dominadas política, ideológica e economicamente por elites municipais com fortes interesses nas terras dos índios e em seus recursos ambientais, tais como madeira e minérios, muitas vezes as populações rurais necessitam disputar as escassas oportunidades de sobrevivência em sua região com membros de sociedades indígenas que aí vivem. Por isso, utilizam estereótipos, chamando-os de "ladrões", "traiçoeiros", "preguiçosos" e "beberrões", enfim, de tudo que possa desqualificá-los. Procuram justificar, desta forma, todo tipo de ação contra os índios e a invasão de seus territórios.

CRENÇAS - Já a população urbana, que vive distanciada das áreas indígenas, tende a ter deles uma imagem favorável, embora os veja como algo muito remoto. Os índios são considerados a partir de um conjunto de imagens e crenças amplamente disseminadas pelo senso comum: eles são os donos da terra e seus primeiros habitantes, aqueles que sabem conviver com a natureza sem depredá-la. São também vistos como parte do passado e, portanto, como estando em processo de desaparecimento, muito embora, como provam os dados, nas três últimas décadas tenha se constatado o crescimento da população indígena.

Só recentemente os diferentes segmentos da sociedade brasileira estão se conscientizando de que os índios são seus contemporâneos. Eles vivem no mesmo país, participam da elaboração de leis, elegem candidatos e compartilham problemas semelhantes, como as conseqüências da poluição ambiental e das diretrizes e ações do governo nas áreas da política, economia, saúde, educação e administração pública em geral. Hoje, há um movimento de busca de informações atualizadas e confiáveis sobre os índios, um interesse em saber, afinal, quem são eles.

TRANSFORMAÇÃO - Qualquer grupo social humano elabora e constitui um universo completo de conhecimentos integrados, com fortes ligações com o meio em que vive e se desenvolve. Entendendo cultura como o conjunto de respostas que uma determinada sociedade humana dá às experiências por ela vividas e aos desafios que encontra ao longo do tempo, percebe-se o quanto as diferentes culturas são dinâmicas e estão em contínuo processo de transformação. O Brasil possui uma imensa diversidade étnica e lingüística, estando entre as maiores do mundo. São 215 sociedades indígenas, mais cerca de 55 grupos de índios isolados, sobre os quais ainda não há informações objetivas. 180 línguas, pelo menos, são faladas pelos membros destas sociedades, as quais pertencem a mais de 30 famílias lingüísticas diferentes.

No entanto, é importante frisar que as variadas culturas das sociedades indígenas modificam-se constantemente e reelaboram-se com o passar do tempo, como a cultura de qualquer outra sociedade humana. E é preciso considerar que isto aconteceria mesmo que não houvesse ocorrido o contato com as sociedades de origem européia e africana. No que diz respeito à identidade étnica, as mudanças ocorridas em várias sociedades indígenas, como o fato de falarem português, vestirem roupas iguais às dos outros membros da sociedade nacional com que estão em contato, utilizarem modernas tecnologias (como câmeras de vídeo, máquinas fotográficas e aparelhos de fax), não fazem com que percam sua identidade étnica e deixem de ser indígenas.

A diversidade cultural pode ser enfocada tanto sob o ponto de vista das diferenças existentes entre as sociedades indígenas e as não-indígenas, quanto sob o ponto de vista das diferenças entre as muitas sociedades indígenas que vivem no Brasil. Mas está sempre relacionada ao contato entre realidades socioculturais diferentes e à necessidade de convívio entre elas, especialmente num país pluriétnico, como é o caso do Brasil. É necessário reconhecer e valorizar a identidade étnica específica de cada uma das sociedades indígenas em particular, compreender suas línguas e suas formas tradicionais de organização social, de ocupação da terra e de uso dos recursos naturais. Isto significa o respeito pelos direitos coletivos especiais de cada uma delas e a busca do convívio pacífico, por meio de um intercâmbio cultural, com as diferentes etnias.


--------------------------------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

16 Novembro 2009

Revisando o índio brasileiro (1)

O índio tem ocupado um espaço minúsculo em nossa historiografia, deixando ao esquecimento. Mas o índio tem uma história, plural. É preciso reconstruir o verdadeiro cenário desconstruindo abordagens simplistas que eurocentrizaram as análises, configurando o índio num ambiente social exótico e primitivo.

A história do índio brasileiro permanece adormecida. O que se mostra nas escolas, principalmente no ensino fundamental, são apresentações distorcidas. O conceito de sincretismo deve ser revisto, afastando as possibilidades de folclorização da cultura indígena. Reduzir a contribuição da cultura indígena a sua herança (vocabulário, comida, etc), tal como vemos nos livros didáticos, é empobrecer a sua história. Reescrever a História Indígena é, antes de tudo, modificar os discursos que durante tanto tempo representaram os nossos nativos como os mais nocivos e pejorativos adjetivos. É preciso apontar perspectiva mais seguras de compreensão do universo histórico e cultural do índio.

DIVIDIDOS - Historiadores afirmam que antes da chegada dos europeus à América havia aproximadamente 100 milhões de índios no continente. Só em território brasileiro, esse número chegava 5 milhões de nativos, aproximadamente. Esses índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis (região do litoral), macro-jê ou tapuias (região do Planalto Central), aruaques (Amazônia) e caraíbas (Amazônia). Atualmente calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas e protegidas pelo governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses. O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural.

Em 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil, estima-se que havia por aqui cerca de 6 milhões de índios. Passados os tempos de matança, escravismo e catequização forçada. Nos anos 50, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, a população indígena brasileira estava entre 68 mil e 100 mil habitantes. Hoje o número é bem menor. Contando os que vivem em centros urbanos, ultrapassam os 100 mil. No total, quase 10% do território nacional, pertence aos índios. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, havia em torno de 1.300 línguas indígenas. Atualmente existem apenas 150. O pior é que cerca de 35% dos 210 povos com culturas diferentes têm menos de 200 pessoas

Em seu estudo intitulado Colonialismo Predatório, Desempoderamento, o professor da Faculdade Dois de Julho, Derval Gramacho escreveu: “Ainda no primeiro quarto dos anos 1500, os índios passaram de simpática gente, conforme descrito nos primeiros relatos históricos, notadamente na carta de Pero Vaz de Caminha (1500), a terríveis canibais, antropófagos vorazes, vide, por exemplo, as narrativas de Hans Staden e Jean de Lery. Com isto, pode-se supor, os portugueses pretendiam forçar o afastamento de seus concorrentes na ocupação da nova colônia. Por outro lado, também justificavam a disposição de intervir, juntamente com a Igreja (na plenitude da vigência da Inquisição), na colonização e catequese dos índios que precisavam tornar-se cristãos, quer pelo poder do convencimento da cruz (a Igreja), quer pelo poder das armas (a Coroa). Uma vez submetidos à nova fé, a relação de subordinação deveria se processar de forma menos resistente, mantendo o colonizador a sua supremacia hegemônica” (...) Constata-se, então, que a usurpação do território lesou, não somente no sentido material, o índio com a desapropriação daquilo que lhe era tão caro (a terra) que valia morrer em defesa de seu sítio. Mesmo que fosse de sua natureza ser nômade, haveria sempre uma terra que seria ocupada e na qual se situariam por determinado espaço de tempo. No plano afetivo, o índio também perdeu, pela desapropriação, o lugar onde suas práticas rituais, seus costumes e sua tradição se instalaram, onde construíram relações quer sociais, quer de parentesco”.

NATUREZA - Os índios faziam objetos utilizando as matérias-primas da natureza. Vale lembrar que índio respeita muito o meio ambiente, retirando dele somente o necessário para a sua sobrevivência. Entre os indígenas não há classes sociais como a do homem branco. Todos têm os mesmo direitos e recebem o mesmo tratamento. A terra, por exemplo, pertence a todos e quando um índio caça, costuma dividir com os habitantes de sua tribo. Apenas os instrumentos de trabalho (machado, arcos, flechas, arpões) são de propriedade individual.

O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e idade. As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, colheita e plantio. Já os homens da tribo ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra e derrubada das árvores quando necessárias.

A visão que o europeu tinha a respeito dos índios era eurocêntrica. Os portugueses achavam-se superiores aos indígenas e, portanto, deveriam dominá-los e colocá-los ao seu serviço. A cultura indígena era considerada pelo europeu como sendo inferior e grosseira. Dentro desta visão, acreditava que sua função era convertê-los ao cristianismo e fazer os índios seguirem a cultura européia. Foi assim, que aos poucos, os índios foram perdendo sua cultura e também sua identidade.

ATUANTE - A historiografia costuma mostrar os índios como coadjuvantes incômodos, personagens secundários, selvagens infelizes e retraídos. Mas os índios tiveram um papel muito mais atuante e diferenciado do que se supõe, interagindo com os demais agentes sociais de diversas formas que vão da fuga ao ataque, da negociação ao conflito, da acomodação à rebeldia.

A quase totalidade dos índios do Nordeste foram contactados e passaram por experiências de aldeamento durante o período colonial. Sob a tutela dos jesuítas e de outras ordens religiosas como os beneditinos, os capuchinhos, os carmelitas e os franciscanos, os aldeamentos missionários totalizavam perto de uma centena em meados do século XVIII. O avanço da pecuária e da cultura do algodão e o assentamento de fronteiras no sertão foram devastadores para as populações indígenas. O índio brasileiro e baiano precisa ser reconhecido pelo seu próprio povo: o povo brasileiro.
--------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

13 Novembro 2009

Música & Poesia

Hino de Duran (Chico Buarque)

Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas sussurros ardís
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar



Se trazes no bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X



Se vives nas sombras freqüentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de dobermam



E se definitivamente a sociedade
só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo,
és um estorvo, és um tumor
A lei fecha o livro, te pregam na cruz
depois chamam os urubus



Se pensas que burlas as normas penais
Insuflas agitas e gritas demais
A lei logo vai te abraçar infrator
com seus braços de estivador



Se pensas que pensas estás redondamente enganado
E como já disse o Dr Eiras,
vem chegando aí, junto com o delegado
pra te levar...





Reflexões (Clarice Lispector)

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém…
que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la…
Sonhe com aquilo que você quiser…
Seja o que você quer ser…
Porque você possui apenas uma vida
E nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce,
dificuldades para fazê-la forte,
tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas,
elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram…
Para aqueles que buscam e tentam sempre…
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar…
…duram uma eternidade…




------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

12 Novembro 2009

Brasil lembra 20 anos da morte de Luiz Gonzaga

Disco, filme e museu. Vinte anos depois de sua morte, a obra do compositor pernambucano é resgatada. Nascido em 13 de dezembro de 1912, Luiz Gonzaga conseguiu despertar em cada brasileiro um autêntico nordestino, cantando as dores, saudades e alegrias do sertanejo. Em seus 77 anos de vida, reuniu uma obra poucas vezes atingida por outros artistas, tanto em quantidade quanto em qualidade. Mostrou ao Brasil e ao mundo a beleza do forró, do xaxado, do xote, do maracatu e, principalmente, de sua criação: o baião.

Regravações de valsas que ele compôs na década de 40 e algumas ganharam letras inéditas de Zeca Baleiro, Abel Silva, Fernando Brant e Capinan estão previstos para chegar ao mercado no início de 2010. “Luas do Gonzaga” é o título do álbum que tem o cantor e violonista baiano, Gereba à frente do projeto. Um longa metragem baseado na biografia da jornalista Regina Echeverria (Gonzaguinha e Gonzagão – Explode Coração) está em processo de pré-produção com a direção de Breno Silveira, o mesmo de Dois Filhos de Francisco. Um museu e um complexo cultural em Recife vão reunir a obra e a história do Meste Lua. O Ministro da Cultura Juca Ferreira já levou a idéia ao presidente Lula que estimulou a iniciativa. O complexo segue a linha de museus “interativos”, como o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Vinte anos depois da morte de Luiz Gonzaga, o som de sua sanfona está cada vez mais presente nas salas de reboco das casas do sertão e nos mais diversos auditórios e palanques, enchendo de emoção e lirismo platéias de todas as categorias sociais. O forró pé-de-serra, introduzido no Brasil pelo Luiz Gonzaga na década de 40, conquista o mercado, concorrendo com outros ritmos brasileiros e estrangeiros. "O baião, coco, rojão, quadrilha, xaxado e xote caracterizam o forró e tem cheiro de carne de bode assada", comparou o velho Gonzagão, acrescentando que é uma música com a cara do Nordeste, que canta, ri, chora e "faz pouco" do seu secular sofrimento.

“Quando olhei a terra ardendo/Qual fogueira de São João/Eu perguntei a Deus do céu, ai/Por que tamanha judiação” ("Asa Branca", com Humberto Teixeira)

PRESENTE - Luiz do Nascimento Gonzaga nasceu no dia 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, município de Exu, ao lado da casa onde morou a heroína cearense Bárbara de Alencar. Morreu no dia 2 de agosto de 1989. A escola gonzagueana está cada vez mais presente na vida das novas gerações, vindas das mais diversas categorias sociais.

Intérprete de sucessos imortais nos mais variados ritmos, muitos outros cantores gravaram Luiz Gonzaga a partir do início dos anos setenta, entre os quais Geraldo Vandré (Asa-Branca), Gilberto Gil (Vem Morena), Caetano Veloso (A Volta da Asa-Branca) e até o grego Demis Roussos (White Wings/Asa-Branca). Essa afinidade com a nova geração musical brasileira - principalmente com os baianos - fez a gravadora RCA lançar em 1971 o disco ''O Canto Jovem de Luiz Gonzaga”, com músicas de Caetano Veloso, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Dori Caymmi. O elepê gerou em março de 1972 o show ''Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir'', no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro.

Suas músicas correram o mundo, "Asa Branca" teve interpretações em Israel, na Itália, Estados Unidos e Japão. Luiz Gonzaga ganhou diversos prêmios. Em 1976, recebeu o título de cidadão cearense, em 77 entrou na versão brasileira da Enciclopédia Universal Britânica, em 78 cantou para o Papa João Paulo II, e, em 81, ganhou dois discos de ouro. Embora sendo o terceiro artista mundial a receber o ''Cachorinho da RCA'', prêmio entregue anteriormente apenas para Elvis Presley e Nelson Gonçalves, o verdadeiro reconhecimento do valor de sua obra veio ainda em 1984. Luiz Gonzaga foi o grande homenageado na noite da entrega do Prêmio Shell para os melhores da Música Popular Brasileira. Segundo a crítica especializada, um prêmio justo e merecido para quem, em muitos anos de carreira artística somente recebeu dois Discos de Ouro e em 1981, o mesmo ano em que a classe artística se reuniu para homenagear Luiz Gonzaga em um show promovido pelo Cebrade. Em 1985 Luiz Gonzaga foi premiado com o ''Nipper de Ouro'' pelo conjunto de sua obra.

“Gonzaga é nosso primeiro artista pop. Com sua música, emendou pela primeira vez as pontas desse país, Nordeste e Sudeste”, informou o cineasta Breno Silveira. “Ele era o nosso Elvis Presley. Antes dele, ninguém por aqui ainda tinha pensado em criar um personagem para fazer música, com conceitos definidos de figurino e tudo mais. Ele inventou isso”, diz o líder da banda Cordel do Fogo Encantado, Lirinha. Para Lenine, Gonzagão foi o precursor do artista vestido, com música e com luz num ginásio. Ele e o letrista Humberto Teixeira, “botaram o Nordeste no centro da atenção, no mapa do Brasil”.

“Eu já dancei balancê/Xamego, samba e xerém/Mas o baião tem um quê/Que as outras danças não têm” ("Baião", com Humberto Teixeira)

-------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

11 Novembro 2009

Lobo, o anti-herói dos quadrinhos vira filme

O caçador de recompensas, assassino e valentão, Lobo, um dos personagens mais violentos dos quadrinhos, vai virar astro do cinema. Hollywood começa as filmagens em 2010. Criado de Roger Slifer (roteiro) e Keith Giffen (arte), apareceu nos quadrinhos em 1983 (revista Omega Men). Lobo surgiu como um mero personagem coadjuvante na terceira edição da revista do grupo Omega Men, que diga-se de passagem, não era o grupo mais popular da DC Comics. Mesmo com o escritor Roger Slifer envolvido nessa edição, o mérito pela criação do personagem se deve ao desenhista Keith Giffen, uma das personalidades mais incomuns dentre os profissionais dos quadrinhos americanos. Reza a lenda que Giffen criou o personagem como uma sátira para o Wolverine da editora concorrente, a Marvel Comics. Só que, de sátira, Lobo tornou-se uma bola de neve que só aumentou conforme os anos passavam

O alienígena foi apresentado a bordo de sua moto espacial mas com uma personalidade muito mais civilizada e com um estranho e colorido uniforme. Na edição 20 da revista Omega Men foi revelado que Lobo era o último sobrevivente do planeta distante Velórpia. Esse anti-herói de dois metros de altura e um corpo escomunal de músculo, na verdade é um caçador de recompensa de um planeta distante. Protagonista de aventuras espaciais repletas de humor negro, ele é arrogante, imoral, verdadeiro sociopata que se diverte com rock pesado, bebedeiras e carnificina.
Quando a revista Omega Men foi cancelada, Lobo retornou em Justice League International 18 (1988) reformulado e seu planeta mudou de nome para Czárnia, lar de uma raça pacífica que foi dizimada e só restou Lobo. Nessa fase da Liga, escrita com muito humor por Keith Giffen e J.M.DeMetteis que o personagem ganhou um visual roqueiro e aventuras extremas. E logo conquistou o grande público, graças a seu temperamento explosivo, politicamente incorreto e histórias repletas de violência. A revista da L.E.G.I.Ã.O durou 70 números (fevereiro de 1989 a setembro de 1994). Foi nesse período que anti-heróis como Wolverine, Justiceiro e o próprio Lobo ascenderam. E ele já brigou e colaborou com Superman, Batman, Guy Garner (um dos lanterna verde)entre outros.
CAMINHOS - Sua primeira minissérie data de 1990 com arte de Simon Bisley. Humor negro e violência desenfreadas foram doses que abriram caminhos para outras minisséries e edições especiais até o lançamento mensal em 1993 que durou 64 números. De tanta exposição e banalização das historias o publico foi desinteressando pelo personagem . Para salvar a pele do personagem junto ao público leitor a DC Comics criou em 2000 uma história em que Lobo rejuvenesceu e se transformou em Lobinho, um dos membros da Justiça Jovem, um grupo de heróis adolescentes. Os fãs do brutamonte ficaram enfurecidos porque o personagem rejuvenescido não bebia, nem fumava e não matava, completamente descaracterizado de sua origem. Os editores logo publicaram o personagem com idade adulta e ao estilo das histórias antigas. No Brasil o personagem estreou em Liga da Justiça 19 da Editora Abril (1990). A partir daí esteve regularmente em nossas bancas e por diversas editoras.
Lobo, cujo nome, em dialeto khúndio, significa "aquele que devora suas entranhas e se diverte com isso", é o último remanescente de seu povo. A razão disso: ele matou todos os habitantes de seu planeta. Czárnia era um verdadeiro paraíso, pois não conhecia a guerra e nem sentimentos como a raiva. Seus habitantes beiravam a imortalidade. Além de terem o poder de regenerar membros decepados (um czarniano conseguia replicar cada célula do corpo), eles podiam criar clones de si mesmos, instantaneamente. Quando Lobo nasceu, sua maldade era tão assustadora que a parteira enlouqueceu. Na escola, Lobo não foi apenas um garoto briguento, ele transformou-se num verdadeiro "assassino escolar". Seus pais, desgraçados e envergonhados, tornaram-se eremitas.
EXPERIÊNCIAS - Quando completou dezoito anos Lobo entraria para a história de Czárnia . Entediado, passou a fazer algumas experiência bizarras com a biologia local. Por mais que sua inteligência fosse subestimada, criou uma raça de escorpiões voadores minúsculos que, ao perfurar a pele das vítimas, envenenava o sangue e as fazia agonizar até uma terrível morte. Lobo era imune a essas criaturas. Criaturas que, graças a sua genialidade, infestou o planeta matando os cerca de cinco bilhões de habitantes de Czárnia, o que deixou apena ele e Dona E. Tribb (sua professora da escola) vivos em todo o planeta. A sobrevivência de Dona E. Tribb não durou muito. em um futuro não muito distante, ele encontrou a tal professora e acabou quebrando o pescoço dela, se tornando o último czarniano existente.
Com isso ele descobriu o êxtase com a morte. Sua diversão principal é matar. Não existe nada no mundo que Lobo goste mais. Ele é um verdadeiro mestre nessa arte e quando aceita um contrato, duas coisas são consideradas como cláusulas principais pelo czarniano: se a morte será rápida ou lenta. Auto-suficiente ele possui seu próprio código de ética. Quando dá sua palavra a alguém, persiste nela até o fim. Para o czarniano não importa qual é o lado certo ou o errado, ele mesmo exerce as funções de juiz, júri e carrasco.
Por ser uma das criaturas mais poderosas do universo, Lobo pode triturar rochas sólidas, tirar um cofre de aço do seu caminho com um chute e levantar um poste de duas toneladas para usá-lo como porrete. Ele consegue correr a velocidades espantosas, dar saltos capazes de fazê-lo voar (literalmente), e o mais incrível de tudo: parece nunca se cansar. Com o planeta praticamente vazio, Lobo sentiu tédio e tratou de deixar a moribunda Czárnia. Partiu para o espaço e tornou-se assassino profissional para passar o tempo. Suas histórias conquistaram uma boa parte do público, justamente por serem recheadas de sarcasmo e humor negro.
---------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

10 Novembro 2009

O Chinês Americano

Prêmio Michael l. Printz de excelência em literatura para jovens adultos da American Library Association (troféu até então inédito para os quadrinhos), finalista do National Book Award e indicado ao Eisner de Melhor álbum Original. Esses foram os prêmios do álbum O Chinês Americano que a Cia. das Letras está acertando nessa investida com a Quadrinhos na Cia.
Trata-se do primeiro álbum de quadrinhos a ser indicado ao respeitado Nacional Book Award, um dos mais prestigiosos prêmios literários do mundo . O autor, o californiano Gene Luen Yang, narra três histórias paralelas. Primeiro uma antiga lenda chinesa que ganha uma nova roupagem. Depois a de um imigrante chinês que tenta se adaptar a uma nova escola. E para finalizar a de um estudante americano que todo ano é constrangido pela visita de um primo chinês.

Luen Yang tem total domínio da arte de contar uma história. Aceitação e diferença são as palavras-chave que dão o argumento à obra. E ele desenvolve as histórias com bom humor e um traço leve com o uso de muitas cores. Com sutileza o autor consegue falar sobre preconceito, amizade, bondade e pela busca de se encontrar, de forjar a própria identidade, de ser fiel ao que se é.
Assim ele narra a trajetória do jovem imigrante chinês vivendo nos Estados Unidos, que tenta se adaptar à nova realidade escolar. Rejeitado pelos colegas ocidentais, se vira como pode em meio a provocações, ao isolamento e à ignorância generalizada sobre a cultura de seu país.

A lenda do Rei Macaco incluída aqui serve como o alicerce, pois diz a lenda que ao ser renegado pelos deuses chineses, o Rei Macaco resolve trair suas raízes se transformando em um homem e acaba pagando por isso. O jovem chinês que chega a uma nova escola e nela encontra todas as dificuldades de adaptação no que concerne a essas mudanças, tem tudo para também renegar sua própria personalidade e se adequar aos demais. Ele se constrange e vê seu mundo virar quando um primo distante chega e bagunça toda sua estrutura, causando vergonha perante os seus amigos.
Rejeitado pelos colegas ocidentais, ele se vira como pode em meio a provocações, ao isolamento e à ignorância generalizada sobre a cultura de seu país. Porém, a súbita paixão por uma garota da classe obriga a mudar de postura. A obra é uma denúncia sobre o preconceito étnico que as escolas norte-americanas destilam contra imigrantes. Mostra também o outro lado da história: a incapacidade de os jovens se aceitarem como são. O preconceito para com os outros é apenas um dispositivo para mostrar uma outra verdade inquietante: o nosso preconceito acerca de nós mesmos. Um álbum que deve ser lido por todos. Vale a pena.


--------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

09 Novembro 2009

Um escândalo animado

Três dedos — Um escândalo animado, do americano Rich Koslowski, graphic novel eleita como a melhor de 2003 pelo Ignatz (prêmio voltado para autores que publicam por pequenas editoras) é a estréia da Editora Gal nas histórias em quadrinhos no Brasil. A trama acompanha a ascensão, a queda e o misterioso sucesso de Rickey Rat e do diretor Dizzy Walters, inspirados em Mickey Mouse e Walt Disney. O “três dedos” do título faz referência a uma característica comum em personagens animados: a presença de apenas quatro dedos em cada mão. O polegar não é considerado por muitos norte-americanos como um dedo (a publicação lista algumas das possíveis explicações para isso). Para manter a fluência da história, a versão nacional da HQ mantém o conceito.

"É uma comédia negra. Arenosa, miserável e perturbadora... Exatamente como a Hollywood da vida real!'' É assim que o quadrinista Rich Koslowski define Três Dedos: Um Escândalo Animado', "estrelada'' por Walt Disney e Mickey Mouse -ou melhor, por personagens inspirados neles. Trata-se de uma paródia que a todo tempo lembra Walt Disney (transformado no magnata da animação Dizzy Walters) e Mickey Mouse (rebatizado de Rickey Rat). "Parte da diversão em escrever uma paródia é essa. Dançar no limite entre a realidade e a familiaridade para que os leitores possam fazer melhor a conexão'', afirma Koslowski.

Fazendo uma retrospectiva cronológica, Rick Koslowski narra todo o desdobramento do que se tornaria um importante segmento dentro da indústria do entretenimento. "Três Dedos'' é narrada em tom de "mockumentary'' - contração em inglês das palavras "mock'', falso, e "documentary''. Brincando com gêneros, a HQ se trata de um documentário em quadrinhos, com depoimentos de diversos envolvidos – entre animados e humanos – do que aconteceu com Dizzy Walters e seu império. Essa interação entre uma dinâmica típica do cinema e a leitura da HQ, com as páginas dispostas na horizontal, como uma tela widescreen de cinema é a principal contribuição de Três Dedos para os romances gráficos. A obra é um prato farto de referências para amantes da animação, além de um exercício de imaginação e criatividade que instigará a leitura entre os fãs de quadrinhos.

A narrativa parte da premissa de que nosso mundo é compartilhado por humanos e seres animados, estes últimos vivendo à margem da sociedade. Até que o jovem cineasta Dizzy Walters transforma o talentoso ator animado Rickey Rat no maior sucesso de Hollywood e ambos constroem um império milionário. Um terrível escândalo abala a estabilidade multimilionária adquirida pelo cineasta Dizzy Walters em conjunto com o ator Rickey Rat, magnatas do mundo da animação. Cabe a Rich Koslowski esclarecer ao público o que foi este desastre que abalou Hollywood, o que ele realiza através de um quadrinho, munido com imagens e depoimentos exclusivos de celebridades como o coelho Pernalouca, o leitão Engasguinho, Leon Rey, Patonildo e o próprio Rickey.

Dizzy e Rickey não viveram felizes para sempre, desfrutando do sucesso e da fama: Dizzy morreu misteriosamente, e Rickey é hoje um alcoólatra amargurado atormentado por um escândalo que envolve seu nome e a vida de colegas. Alternativa sombria e de humor corrosivo. Para os que imaginam que Rick Koslowski detesta os quadrinhos e desenhos animados da Disney, ele mesmo confessa: "Compro quadrinhos da Disney para minha filha de sete anos e nós os curtimos juntos. Sou definitivamente um fã, não um crítico''. E conclui: "Acho que Três Dedos tem um pouco de Robert Crumb'', concorda ao ser questionado se foi influenciado pelo "pai” do Gato Fritz.

Três Dedos: Um Escândalo Animado tem formato 21 x 26 cm, 144 páginas, capa colorida e miolo preto e branco. Vale a pena conferir.
---------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

06 Novembro 2009

A arte de Almandrade

Pinturas, objetos, desenhos, projetos de instalação e poesias que têm em comum o exercício de concisão. Assim é A Arte de Almandrade exposta na Caixa Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, Centro), através de 30 obras de três décadas de sua trajetória artística.
A proposta artística de Almandrade convida o espectador a pensar sobre a própria natureza da arte. Depois da passar pelo concretismo e arte conceitual nos anos 70, seu trabalho prossegue na busca de uma linguagem singular, limpa, com um vocabulário gráfico sintético.

Apesar de percorrer o figurativo no início da carreira, fincou sua identidade pautada na arte conceitual, nos concretistas, neo-concretistas e minimalistas. Sempre os poucos elementos e o aspecto enxuto que vai direto ao ponto vão imperar em suas criações.
Almandrade é o nome artístico de Antonio Luiz M. Andrade, Artista plástico, poeta, professor de teoria da arte e arquiteto com mestrado em Urbanismo, pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, é considerado pela crítica como um pioneiro da arte contemporânea da Bahia., participou de importantes mostras nacionais e internacionais como Bienal de São Paulo.
Experimentalista assumido, Almandrade vem se comprometendo com a pesquisa de linguagens artísticas desde l972, onde ora se envolve com as artes plásticas, ora com a literatura. Poeta da arte e artista da poesia. Realizou cerca de trinta exposições individuais em várias capitais, autor do livro de poesia “Arquitetura de Algodão”.. É um dos principais divulgadores e questionadores da arte contemporânea no Brasil. Ou melhor, um defensor da arte como instrumento de pensamento e não de entretenimento.
Num retrospectiva das três décadas de produção artística, sob curadoria da museóloga Marijara Queiroz, 30 obras de Almandrade, em formas, cores e poética, recheados com a significação de um teórico dos sentidos (criador do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia, editou a revista Semiótica em 1974), serão alvo de percepções do público baiano.
LEVEZA
Ao longo dos anos o trabalho de Almandrade vem se impondo como um lugar de reflexão, solitário e à margem do cenário cultural baiano. Desde seu abstracionismo geométrico e arte conceitual, até seu mergulho na poesia concreta e no poema/processo, o artista tem sua marca. E de lá para cá ele vem se tornando mais rigoroso da arte conceitual.
Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcam a produção deste artista na segunda metade da década de 70.
Nos anos 80 ele redescobre a cor e seus trabalhos ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência. Um poeta da arte e um artista da poesia. Seja na pintura ou escultura, a arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidades, reinventando novas leituras.
Trabalha com o mínimo de elementos pictóricos, duas ou três cores, dois planos, duas ou três texturas, um traço, etc. e vemos uma pintura, um objeto e uma escultura. A simplicidade que predomina nas composições desperta a imaginação e o raciocínio. Ele traz uma poética do mínimo e da leveza.

O percurso dos séculos
espelha rugas
na geografia da pele
e atrai o silêncio
das notas musicais
os que vão nascer
não vão experimentar
o futuro
vão se render
ao presente.

---------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

05 Novembro 2009

The Umbrella Academy é excepcional

A trama conta a história de um grupo de jovens que nasceu com poderes especiais. Cada criança era denominada com um número. Um é Luther, o líder e mais forte de todos, tornou-se o Spaceboy. Dois é Diego (Kraken) capaz de segurar a respiração por tempo indeterminado. Três, Allison (Rumor) tem, o poder de fazer tornar verdade qualquer coisa que fale. Quatro, Klaus (Seance) pode levitar e falar com os mortos. Cinco, Ben (Horror) têm monstros de outras dimensões embaixo de sua pele. Sete, Vanya não aparentava ter poder algum, exceto ser muito interessada em música. São os membros da Umbrella Academy.

A história foi escrita por Gerard Way, o vocalista da banda My Chemical Romance. E as ilustrações são do brasileiro Gabriel Bá. Publicada originalmente pela norte- americana Dark Horse Comics. O álbum chega ao Brasil pela Editora Devir: The Umbrella Academy – Apocalypse reunindo os seis primeiros volumes da série.

A seqüência The Umbrella Academy: Dallas já está disponível no mercado americano, mas ainda não tem previsão de lançamento entre nós. E o terceiro, ainda inédito lá fora, se chamará The Umbrella Academy: Hotel Oblivion. E já existe um projeto de transformar The Umbrella Academy em filme – 2012!.

O brasileiro Gabriel Bá venceu o prêmio Harvey na categoria melhor artista. Dave Stewart também ganhou um dos prêmios: o de melhor colorista. Em 2008 a Dark recebeu o prêmio Eisner e Harvey nas categorias melhor nova série e melhor série limitada. Ainda em 2008, Bá também venceu o Scream Award como melhor artista de Comic Book pela mesma HQ.

Pois bem, voltando ao álbum lançado pela Devir (Apocalypse Suíte) os sete seres extraordinários são criados e treinados por um alienígena que se passava por um famoso empresário. O tempo passou e cada um dos membros seguiu seu rumo de vida. Agora o reencontro se dá quando acontece uma morte e diversos ataques tanto aos jovens quanto ao planeta. Eles precisam se reunir...

Preciosismo. Roteiro ágil e com referências pop. Desenho excepcional, cores que seguem a trama, perfeita. O álbum publicado pela Devir em formato 16,5cm X 24,0 cm com 192 páginas coloridas em papel couchê 90g/m2. Para ler e reler sempre. Espero as próximas edições com ansiedade.

Conheci Gabriel Ba no 6º FIQ de BH e fiquei impressionado pela serenidade do rapaz. Tranqüilo, ele sabe o que faz, tem consciência do que quer e, acima de tudo, é preparado. Sabe fazer quadrinhos como ninguém, entende toda sua linguagem e engrenagem. É isso Bá, boa sorte em todos os seus empreendimentos!.


------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

04 Novembro 2009

Co!

Bela surpresa a leitura do álbum independente do cartunista Gustavo Duarte – Co!. Seus traços curvilíneos, longos e expressivos, arte em preto-e-branco, são excepcionais.
A narrativa visual é bem envolvente – sem palavras, só desenhos. Criativo as soluções gráficas apresentadas pelo autor que, desde o ano 2000 cria charges e caricaturas no jornal esportivo Lance!, em Bauru, São Paulo.

Vale cada página dessa edição independente (36 páginas com tiragem inicial de 1.500 exemplares) que também foi lançada na San Diego Comic-Con e foi bem aceita pelos editores que a viram. A edição chegou também no 6º FIQ de Belo Horizonte.

Longa vida ao trabalho do Gustavo Duarte, de altíssima qualidade. Confira os desenhos.








































-----------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

03 Novembro 2009

Viver é um sonho ou sonhar é viver?

Sonhar é acordar-se para dentro – Mário Quintana
Tenho em mim todos os sonhos do mundo - Fernando Pessoa
Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade - Walt Disney
Nunca se afaste de seus sonhos. Porque se eles forem, você continuara vivendo, mas terá deixado de existir - Mark Twain
Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos - William Shakespeare
Lutam melhor os que têm belos sonhos - Che Guevara
Sonhos não morrem, apenas adormecem na alma da gente - Chico Xavier
Saímos pelo mundo em busca de nossos sonhos e ideais. Muitas vezes colocamos nos lugares inacessíveis o que está ao alcance das mãos - Paulo Coelho
Somos do tamanho de nossos sonhos - Fernando Pessoa
Se é bom viver, todavia é melhor sonhar, e o melhor de tudo, despertar - Antonio Machado
A possibilidade de realizar um sonho é o que faz que a vida seja interessante - Paulo Coelho
Sonho com o dia em que a justiça correrá como água e a rectidão como um caudaloso rio - Martin Luther King
Sua visão só ficará clara quando você olhar em seu coração. Quem olha fora, sonha. Quem olha dentro, desperta - Carl Gustav Jung
Há sonhos que devem ser ressonhados, projetos que não podem ser esquecidos... - Hilda Hilst
A esperança é o sonho do homem acordado - Aristóteles
A nossa vida é quase toda um sonho, e sonhamos acordados mais vezes do que dormindo - Apparicio Torelly
Alguns homens vêem as coisas como são, e dizem 'Por quê?' Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo Por que não? - Geroge Bernard Shaw
Às vezes a vida, o sofrimento, as injustiças é maior que nós. / Mas se acreditarmos numa luz que mora lá no fundo, dentro da gente, voltamos a sonhar. / Voltamos a saber que nós fomos feitos para inventar o mundo de novo, para mudar e tornar a mudar, carregando alegria - Herbert De Souza (Betinho, sociólogo)
É justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante - Paulo Coelho
É melhor sonhar a vida do que vivê-la, ainda que vivê-la também seja sonhá-la - Marcel Proust
Espalhei meus sonhos aos seus pés. Caminhe devagar, pois você estará pisando neles - William Butler Yeats
Jamais desista daquilo que você realmente quer fazer. A pessoa que tem grandes sonhos é mais forte do que aquela que possui todos os fatos - H. Jackson Brown Jr
Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda - Cecília Meireles
Nada lhe pertence mais que seus sonhos - Friedrich Nietzsche
Não é o desafio que nos deparamos que determina quem somos é o que estamos nos tornando, mas a maneira com que respondemos ao desafio. Somos combatentes, idealistas, mas plenamente conscientes, porque o ter consciência não nos obriga a ter teoria sobre as coisas: só nos obriga a sermos conscientes. Problemas para vencer, liberdade para provar e enquanto acreditarmos no nosso sonho, nada é por acaso - Henfil
Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã - Victor Hugo
O homem vive de razão e sobrevive de sonhos - Miguel De Unamuno
O que é a vida sem um sonho? - Edmond Rostand
O sonho é a tentativa de satisfazer um desejo - Sigmund Freud
O sonho é o alívio das misérias que nós temos quando estamos acordados - Miguel De Cervantes
O sonho sem uma ação, é simplesmente um sonho. A ação, desprovida de um sonho, Não leva a lugar nenhum. Mas o sonho aliado à ação, Poderá mudar o mundo - Fred Polak
Os sonhos nada custam, transformá-los em realidade é que tem preço - Ennis J. Gibbs
Se quiser tornar seus sonhos realidade, é preciso primeiro acordar - Corina Cranford
Sonhos não interpretam tanto a vida quanto a vida interpreta os sonhos - Susan Sontag
Sonhos se tornam realidade. Sem essa possibilidade, a natureza não nos incentivaria a tê-los - John Updike
Tenho em mim todos os sonhos do mundo - Fernando Pessoa
Ter na vida algum motivo para sonhar. Ter um sonho todo azul. Azul da cor do mar - Tim Maia
Todas as coisas que esquecemos nos sonhos gritam por ajuda - Elias Canetti
Um homem sabe quando está ficando velho quando seus sonhos eróticos se tornam reprises - Henry Youngman
Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade - Raul Seixas
Viver de noite me fez senhor do fogo. A vocês eu deixo o sono. O sonho, não. Esse eu mesmo carrego - Paulo Leminski
--------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

29 Outubro 2009

6º Festival Internacional de Quadrinhos (2)

A 6a edição do FIQ (realizado em Belo Horizonte entre os dias 06 a 12 de outubro) fez parte das comemorações do Ano da França no Brasil. Os quadrinhistas Cizo e Frédéric Felder levaram a exposição Supermercado Ferraile, uma paródia de supermercado visando criticar a sociedade de consumo.
O público ficou surpreendido com produtos estranhos nas prateleiras tipo leite de boi, pizza em lata ou mesmo o kit Maria-Chuteira. França, o país homenageado contou com trabalhos de quinze autores franceses e quinze brasileiros. Os artistas franceses tiveram seus trabalhos expostos nos Centros Culturais da Fundação Municipal de Cultura, espalhados pela cidade.

Um ponto negativo no festival foi a pouca divulgação desses centros, localizados na periferia. Toda a propaganda do festival ( cartazes, folders, chamadas no rádio e tevê) foi no Palácio das Artes e Parque Municipal. Quem não era da cidade quase não percebeu as mostras nesses centros. Outro senão foi a desistência, de última hora, do desenhista italiano Tanino Liberatore (autor do pós punk andróide Ranxerox) que teve um imprevisto.
A chuva que caiu na cidade atrapalhou um pouco, mas não deixou perder o brilho do festival. Estudantes de diversos estabelecimentos de ensino da cidade visitaram eufóricos todos os estandes do festival. A população prestigiou o evento. E
as editoras de quadrinhos deveria participar mais. Só a Cia de Letras e a Panini que estiveram presentes.
Os realizadores estão de parabéns. Sei das dificuldades de realizar esses eventos com pouco apoio. Aqui em Salvador já realizamos nos anos 70 e 80 diversas exposições com debates, bate papos e até eleição interativa da população com os desenhos e só contamos com o apoio da mídia. Os empresários e as universidades não se interessavam pelo assunto pois consideravam sub-literatura. Preconceito e falta de informação.
Foi muito bom conhecer de perto os trabalhos de Fábio Moon e Gabriel Bá, Ivan Reis, Adão Iturrusgari, Will Conrad, Eddy Barrows, Rafael Grampá, a arte de Joe Bennett, os quadrinhos chineses (Ji Di, Mu Feng Chun, Nie Chongrui, Song Yang, Yao Fei La, Zhang Lei), os 70 anos do Batman, a mostra mundial de quadrinhos com a famosa biblioteca do estudioso e batalhador Marko Ajdaric, autor de Neorama, um dos mais abrangentes sites de quadrinhos; a Mostra Liniers; Cartum e Futebol; Quadrinhos Alemães (Jens Harder) e a Galeria dos Convidados, com trabalhos de Guy Delisle (FRA), bem Templesmith (AUS), Craig Thompson (EUA), Olivier Tallec (FRA), Juan Dias Canales (ESP) e Teresa Varelos (ESP). Teve ainda, no Parque Municipal, a mostra do personagem Solar, criado por Wellington Srbek.
Uma festa para os olhos e a mente, agora é começar a ler todo o material adquirido nos estandes, dos independentes (uma grande variedade) até os comercializados pelas grandes editoras. Parabéns a todos pelo esforço em reunir tantos artistas de países diversos e uma infinidade de obras relevantes.

-----------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

28 Outubro 2009

6º Festival Internacional de Quadrinhos (1)

No período de 06 a 12 de outubro Belo Horizonte se transformou na capital internacional dos quadrinhos. Nomes consagrados do quadrinho brasileiro e mundial estiveram presentes no 6º Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) que aconteceu no Palácio das Artes e Parque Municipal e fez parte do calendário do Ano da França no Brasil.

No 6º FIQ foram lançados os livros Macanudos 2, de Liniers, MSP 50 com Mauricio de Sousa, Shenzhen de Guy Delisle, Quadrinhos na Educação: da Rejeição à Prática, de Waldomiro Vergueiro, Paulo Ramos e João Marcos, além das revistas Tarja-Preta n.6 (RJ), Macaco (GO), Camino di Rato n.2, de Mario Cau, Bagaça n.1 de Rico, Prego n.1 (ES), Solar de Welligton Srbck (BH), Umbrella Academy de Gabriel Ba (SP), Patre Primordium n.4 de Ana Recaldi, Quadrinhópole n.8 de Leonardo Melo (Curitiba), Garagem Hermética n.5 de Edu Mendes, Subterrâneo Especial n.5 de Marcos Venceslau, Café Especial n.5 de Edu Mendes, Tempestade Cerebral n.7 de Alex Mir, Pixu com a presença de Fabio Moon (SP), Gabrel Bá (SP), Becky Cloonan (ITA) e Vasilis Lolos (GRE), Almanaque Gótico n.2 de Felipe Cazelli, Quase n.12 (ES), Nanquim Descartável n.3 de Daniel Esteves e a publicação baiana Aurora Comics n.0 de Oliver Borges (para acessar o site da publicação: www.auroracomics.com), Entre Quadris (SP), Pictorama, Graffiti 76% Quadrinhos (BH), Bury Your Treasure, de Becky Cloonan, Lapso (SP), Có!, de Gustavo Duarte, entre muitos outros.
Na sexta edição do FIQ houve mesa de debates sobre Animação e Cinema, Humor Gráfico, Quadrinhos Alemães, Mercado Editorial, Educação Bibliotecas e Quadrinhos, série de TV Aline, Batman 70 Anos, Cenas de Ação, Colorização, Scans e Internet: impacto e experiências, Roteiro, Mercado Indie, Quadrinhos na China, Anatomia, Versão em Quadrinhos, bate papo com Mauricio de Sousa, Renato Canini. João Marcos, Ben Templesmith, Jens Harder, Guy Delisle, Craig Thompson, Eddy Barrows, Ivan Brandon, Rafael Albuquerque, José Aguiar, entre outros.
Houve ainda oficinas sobre tirinhas e desenho, construção de um roteiro, do texto às imagens, como apresentar o seu projeto de quadrinhos para uma editora, como contar uma história em quadrinhos, etc. No cine Humberto Mouro (Palácio das Artes) foram exibidos curtas como Dossiê Rê Bordosa, de César Cabral; O Anão que Virou Gente, de Marão; Mariposa, de Zhi Yi Zhanq; O desafio à Morte, de Juan Pablo Zaramelli; Bob, de Jean-Pierre Poirel, etc. O FIQ promoveu também almoço especial nos quatro restaurantes populares de BH e o cardápio oferecido teve inspirações francesas (Ratatouille, Cassoulket de Bonnac, e Bouef Bourguignon).
Três personalidades foram homenageadas neste festival: Ciça Fittipaldi (ilustrou livros infanto-juvenis, professora de Ilustração e Design Editorial e pesquisadora das visualidades e das narrativas orais indígenas e afro-brasileiras), Renato Canini (um dos melhores desenhistas do personagem Zé Carioca, deu ao papagaio uma identidade brasileira) e William Salvador (cineasta, quadrinista e colaborador do FIQ, falecido ano passado).
________________________________________
Nesta quarta-feira, dia 28, a partir das 17h, estarei no Auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Barris) ministrando uma palestra sobre "Bahia, um estado d´alma", encerrando o debate e análise Conversando com a sua História. O evento é promovido pela Fundação Pedro Calmon.
-----------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

27 Outubro 2009

Conhecendo Beagá (2)

Quem vai a Beagá deve reservar seu hotel com antecedência ou vai ficar sem lugar. A cidade recebe muitos viajantes a negócios ou mesmo turistas. Ficamos no Hotel Ambassahy, simples, confortável, bem localizado no centro.

A capital mineira tem bares com seus petiscos típicos, uma rede de restaurantes com uma gastronomia capaz de agradar a todos os paladares. Tem ainda o Mercado Central, o pólo de moda do Barro Preto, a Feira de Arte e Artesanato da Avenida Afonso Pena que atrai, todo domingo, milhares de consumidores. Assim é BH que mistura modernidade com hábitos de cidade do interior. Em sua volta , belas cidades históricas, montanhas e cachoeiras. Quem visita, guarda uma lembrança para sempre na memória. Esqueça o estresse, respire fundo, e comece a visitar todas as ruas da cidade a pé. O tutu de feijão com torresmo ajuda a restaurar energia para subir e descer ladeiras. A tranquilidade reina absoluta pelas bucólicas ruas onde centenas de bares e restaurantes estão espalhados pelas suas ladeiras de pedra.
Vamos conhecer um pouco da cidade.
Na região da Pompulha a arquitetura de Oscar Niemeyer que circunda toda a lagoa da Pampulha é maravilhosa. Alí estão o Museu de Arte, a igreja de São Francisco de Assis e a Casa do Baile, todos projetados na década de 40, quando Juscelino Kubitscheck era prefeito de Belo Horizonte e Niemeyer começava sua carreira.
A Igreja São Francisco de Assis, em linhas curvas, em tons azuis, é totalmente revestida por azulejos e painéis de Cândido Portinari, que retratam a Via Sacra e a imagem de São Francisco. Considerada uma das grandes obras de Niemeyer e Portinari, a Igrejinha da Pompulha é emoldurada pela Lagoa e pelos belos jardins de Burle Marx.
Já a Casa do Baile abriga o Centro de Referência em Urbanismo, Arquitetura e Design, com eventos e exposições sobre o tema. O Museu de Arte da Pompulha foi o primeiro projeto de Niemeyer, influenciado por Le Corbusier.
Tem ainda o Museu de Ciências Morfológicas UFMG, o Parque Ecológico da Pompulha, Memorial da Imigração Japonesa, Museu de História Natural e Jardim Botânico. A Igreja São José (Centro) tem a forma de uma perfeita cruz latina..
Os botequins é outra tradição entre os mineiros. Eles estão em toda esquina. O bar do Antônio serve petiscos deliciosos, o Marilton´s (Santa Tereza) tem música ao vivo, e do Vila Cristina (Santo Antônio) tem a maior carta de cachaça da capital (são mais de 600 rótulos), o Haus Munchin é especializado em cervejas, entre outros. Quem gosta de pratos exóticos, o Amigo do Rei (único restaurante iraniano da América do Sul) é o preferido. Comida francesa está no Taste Vin, comida japonesa é no Udon, e a pizzaria Tavola tem boa massa.

No circuito cultural vale dar uma conferida no Museu Giramundo com um arquivo de marionetes. O Centro de Artesanato Mineiro (no Palácio das Artes) comemora 40 anos com exposição dos mestres da madeira. Vai dos cenários rurais e suas esculturas primitivas aos santuários mais sofisticados, numa viagem por caminhos que estão sempre a nos surpreender e emocionar.
Já o Museu de Artes e Oficios (na Praça da Estação) mostra mais de 2 mil peças dos séculos 18 ao 20, com acervo de objetos utilizados no início das mais variadas profissões, onde se pode entender toda a riqueza e a evolução do trabalho. Inaugurado em 2005, é o primeiro e único museu da América Latina dedicado integralmente ao tema.
A Feira de Arte
e Artesanato da Afonso Pena é um dos principais atrativos turísticos da cidade. A riqueza e diversidade dos trabalhos expostos é um sucesso, atraindo pessoas de todo o país; Acontece todos os domingos e reúne cerca de três mil expositores. A Feira de Flores e Plantas Naturais é programa tradicional nas sextas-feiras na Avenida Bernardo Monteiro com mais de 50 expositores oferecendo flores e plantas vindas diretamente do produtor.
O Mercado Central é a síntese de Minas, reunindo toda a produção do interior, seus hábitos e cultura.
Por seu cuidado com o paisagismo, Belo Horizonte já foi chamada de Cidade Jardim. Uma boa mostra do estilo arquitetônico e paisagístico da cidade está na Praça da Liberdade. Que mistura alguns estilos, em meio a belíssimos jardins
No Palácio das Artes está exposta o trabalho Tramas e Arte: Interfaces. Trata-se do Projeto Fred que leva sonhos, movimentos e interação para a vida de muitas famílias carentes da Região Metropolitana de BH. As atividades promovem geração de renda e contribuem para o resgate da auto-estima de seus alunos.
Se o povo mineiro não tem o mar para contemplar, ele tem, serras e montanhas e o verde intenso para admirar.
.........................................................................
Nesta quarta-feira, dia 28, a partir das 17h, estarei no Auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Barris) ministrando uma palestra sobre "Bahia, um estado d´alma", encerrando o debate e análise Conversando com a sua História. O evento é promovido pela Fundação Pedro Calmon.
------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

26 Outubro 2009

Conhecendo Beagá (1)

Com intuito de conhecer de perto o 6º Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) que aconteceu de 06 a 12 de outubro, no Palácio das Artes e Parque Municipal, aproveitei meus dias de férias e fui com o amigo Odemar Alves para Beagá. Chegamos no domingo pela manhã, dia 04 de outubro e já entramos no clima da Feira Hippie, em pleno centro da cidade. Uma olhada aqui, outra ali e conhecemos a arte popular do mineiro. Criativo, poético, original. Tudo transformado, desde uma simples caixa de fósforo até uma lata velha.

Em seguida fomos conhecer o Parque Municipal, respirar o verde, recuperar a energia de tanto bate perna. Porque andamos muito. É isso, conhecer outra gente e se misturar entre eles. O jornalista Walterson Sardenberg, recordista em milhagem, escreveu certa vez: “Viajantes se misturam. Turistas misturam tudo”. Já o cineasta italiano Bernardo Bertolucci (em O Céu que nos Protege) disse que turistas querem sempre voltar para casa, enquanto viajantes podem nem voltar.
E lá vamos nós ao Mercado Central. Odemar comparou ao nosso Mercado Modelo onde as pessoas compravam e beliscavam petiscos ao sabor das cervejas geladas. E haja paletada. Frutas cristalinas, verduras, peixes, uma variedade enorme de queijo, venda de raízes, sementes para os apaixonados do verde. Odemar foi fundo e andou procurando panelas de pedra-sabão. Soube que na cidade de Ouro Preto havia muito mais. E fomos passear, no dia seguinte, nessa antiga localidade. À noite do domingo ficamos sabendo da morte de Mercedes Sosa, essa guerreira latino americana que cantou e encantou sua região.
Segunda-feira, dia 05, foi a vez de conhecer Ouro Preto, sua tradição e cultura. Encravada nas serras, subimos e descemos ladeiras, andamos de montão como diz o povo de lá. Haja fôlego. A cidade tem ótimo clima e é uma diversão para quem gosta de andar, queimar calorias. As casas antigas, todas bem conservadas, o povo muito hospitaleiro e a comida caseira da região é uma delícia. Estranho que tenha andado tanto pela cidade e não vi uma livraria, só lojas de objetos antigos, artesanato, etc. Depois fomos para o distrito de Cachoeiro do Campo para comprar as “benditas” panelas de pedra sabão, tão desejadas pelo artesão e gastrônomo Odemar Alves. De volta a Belô, o descanso merecido, mas antes desfrutamos do doce de leite na palha com ameixa e goiaba em tablete, delícias de Araxás. Maravilha é pouco para comentar tais sabores....

________________________________________
Nesta quarta-feira, dia 28, a partir das 17h, estarei no Auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Barris) ministrando uma palestra sobre "Bahia, um estado d´alma", encerrando o debate e análise Conversando com a sua História. O evento é promovido pela Fundação Pedro Calmon.
----------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

23 Outubro 2009

Zéfiro colecionou muitas definições

Artista clandestino, desenhista lascivo, sacana naïf, lenda. Carlos Zéfiro colecionou muitas definições durante o período em que alimentou os sonhos eróticos de milhares de adolescentes, entre as décadas de 50 e 70. Para uns, os desenhos de traços simplórios de Zéfiro eram nada mais que perversão e projeções de uma mente doentia. Para outros, arte underground, "cult" total. Essa é a opinião, por exemplo, da cantora Marisa Monte, que ilustrou o encarte do CD "Barulhinho Bom" com desenhos de Zéfiro (que foram proibidos nos Estados Unidos). Contudo, poucas pessoas admiram tanto ou se dedicaram a conhecer a obra do artista como o pesquisador luso-amazonense Joaquim Marinho, colecionador voraz dos trabalhos de Zéfiro. A arte de Carlos Zéfiro, esse "fantasma com nome e sabor parnasiano", na definição de Marinho, escandalizava pais extremados e satisfazia seus filhos pelo simples fato de representar o sexo da forma menos convencional, sem limites ou meias palavras. Resumindo: eram sacanagem na forma mais pura.

Para Marinho, as histórias de Zéfiro foram a primeira informação sexual dos leitores, pois, além de custarem pouco, eram vendidas na banca da esquina. "Elas tiveram uma influência brutal na formação sexual dessa geração", analisa o pesquisador. "Com a rebordosa de 64, proibiram e apreenderam as revistas porque acharam que eram uma forma de aniquilar a juventude, uma perversão."
Na opinião do jornalista Sérgio Augusto, que também já andou dissecando a obra de Zéfiro anos atrás, o artista é, sem dúvida, o inventor do "gibi pornô underground". "As revistinhas eram compradas sorrateiramente, como todos os pecados. Tinham aspecto tão modesto quanto as primeiras e também clandestinas edições dos contos de Dalton Trevisan, de quem, aliás, Zéfiro sempre me pareceu uma espécie de primo espiritual", afirma Sérgio Augusto. Na análise do jornalista, a "grosseria" da pornografia de Zéfiro, que despertava o mais profundo ódio nas feministas, trata-se nada mais que coerência ao espírito das histórias em quadrinhos, por natureza "uma arte sem punhos rendados".
"A rigor, a única diferença entre uma história de Zéfiro e uma fotonovela é que na dele os personagens consumam aquilo que apenas passa pela cabeça dos protagonistas da fotonovela", observa Augusto. "Zéfiro é, no mínimo, menos hipócrita". Carlos Zéfiro interrompeu a produção de histórias em 1968, temendo a perseguição do regime militar. Na época, ele ainda enfrentava a concorrência das revistas pornográficas dinamarquesas, cujas fotos faziam os desenho de Zéfiro parecer um conto de fadas.
LINGUAGEM - Eminentemente didáticas e representando o pensamento médio do brasileiro da época (talvez aí uma das explicações do seu incrível sucesso), eram portadoras de um linguajar próprio que influenciou pelo menos três gerações, além de ensinar importamentos e posições sexuais que o adolescente, sem nenhuma informação, jamais poderia imaginar. E, com todas as deficiências e preconceitos, preparava-o para enfrentar situações semelhantes na vida real. As revistinhas eram motivo para intermináveis masturbações, não raro vinculadas a um certo complexo de culpa. Sobre os masturbadores pairavam todos os tipos de ameaças, indo do insólito nascimento de pêlos nas mãos prazerosas, até tuberculose, miolo mole e morte. Por isso, depois de algum tempo, o pecador costumava rasgar os exemplares e poucos chegavam a formar uma bíblia.
Para melhor compreender o fenômeno, é fundamental transportar à época em que esses quadrinhos foram produzidos, com governos autoritários e conservadores, bem como forte influência da Igreja Católica no comportamento da juventude. Naqueles tempos, onde a pornografia era proibida por lei e tudo tinha sabor de descoberta, representações visuais e explícitas do sexo eram praticamente inexistentes no Brasil, fazendo com que os adolescentes aliviassem suas tensões com compêndios de medicina, imagens de tribos indígenas ou quando muito com alguns romances mais picantes de Jorge Amado. As "casas de luz vermelha" eram verdadeiras instituições, onde o garoto era levado pelo pai para "ter sua primeira vez", no que era auxiliado pela prostituta, profissional e expert que lhe daria todo o suporte e conhecimentos básicos para não fazer feio na lua-de-mel, já que a noiva do cliente era "moça de família" e nunca transaria antes do casamento. Embora a "moral" e os "bons costumes" já fossem verdadeiras piadas, as pessoas ainda fingiam levá-los a sério, e em meio a este cenário deveras bizarro, a obra zefiriana surtiu como uma bomba atômica.
CLANDESTINA - No início dos anos 50, período em que, de maneira repentina e misteriosa, um novo tipo de publicação começou a ser editada: os catecismos – gibis de 32 páginas em formato pocket, com histórias sacanas recheadas de sexo explícito eram impressas de modo rudimentar e em papel da pior qualidade. Confeccionados no Rio de Janeiro e escoados pelo Brasil inteiro a partir de São Paulo, esses quadrinhos eram encontrados de forma clandestina nos mais diversos pontos de venda, tais como padarias, botequins e bilheterias de pequenos cinemas. Contudo, o local onde mais abundavam era nos jornaleiros, responsáveis por um verdadeiro ritual na venda destas relíquias: o leitor deveria comprar um jornal ou uma revista "séria", que por sua vez serviria apenas para esconder entre suas páginas a mercadoria ilegal.

A origem do termo é nebulosa, mas segundo a lenda era muito comum os jovens camuflarem essas HQs também dentro de livros religiosos, daí o nome de catecismo. Assim, convencionou-se que uma coleção de 12 exemplares constituía um "testamento", enquanto 24 deles formavam uma "Bíblia". Para desespero dos pais, padres e professores, em pouco tempo os catecismos se tornaram uma febre entre o público masculino, rodando de mão em mão e dando início à vida sexual de toda uma geração.
CHARME - Vários foram os artistas que se dedicaram a estas publicações, mas devido à peculiaridade de seu trabalho e ao fato de ser o mais prolífico de todos, Zéfiro foi o único que se destacou, angariando uma legião de fãs e imitadores. Como desenhista, era medíocre: faltava-lhe conhecimento de anatomia, as imagens eram visivelmente decalcadas de outras fontes e, de um quadrinho para o outro, os personagens costumavam sofrer mudanças físicas inexplicáveis. Todavia, estes desenhos toscos tinham um charme especial e eram cheios de estilo, bastando uma rápida passada de olhos para reconhecer o autor, que supria as deficiências de seu traço com textos envolventes e ótimos roteiros.
Apesar de terem atravessado com êxito a década de 60, os catecismos fraquejaram nos anos 70, quando começaram a pintar por aqui as primeiras fotonovelas pornográficas, contrabandeadas diretamente da Europa. Muito mais baratas e com cenas reais de sexo, em pouco tempo elas aniquilaram o concorrente desenhado, mas o estrago já estava feito: as pessoas não eram mais as mesmas e muitos antigos leitores, no embalo da cena underground americana e influenciados pelos gibis de sexo que escondiam da mãe, passaram a fazer seus próprios quadrinhos, desta vez marcados por um forte cunho político.
BÍBLIA - Para que não sabe, cada exemplar da revistinha era conhecido como catecismo. A coleção de 12 catecismos encadernados formavam um testamento. A primeira coleção recebia a denominação de velho e uma segunda de novo testamento. E, finalmente, quem possuía 24 histórias encadernadas num mesmo volume dispunha de uma invejável bíblia. Entre os vários desenhistas das revistinhas de sacana , pelo menos um se destacou dos demais pela qualidade das estórias, pela e,patia com a mentalidade do leitor, a moralidade vigente e, sem dúvida, pela originalidade: Carlos Zéfiro.
As revistinhas de Zéfiro marcaram várias gerações e começou a sair do campo proibitivo e a ganhar status na área da sociologia. Duas obras regataram Zéfiro do mundo da subliteratura: O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, uma análise de Otacílio d´Assunção, e A Arte Sacana de Carlos Zéfiro, edição organizada por Joaquim Marinho com textos de Roberto da Matta, Sérgio Augusto e Domingos Damasi.
DESVENDADO - A verdadeira identidade do desenhista e escritor dos famosos Catecismos, as HQs eróticas que fizeram jorrar o esperma dos adolescentes brasileiros dos anos 60 e 70, foi um enigma por três décadas, até ser desvendado em uma reportagem da versão nacional da Playboy, em novembro de 1991. Os catecismos brasileiros devem muito a outro produto supostamente também feito no México: as Bíblias Tijuaninas ou, como são muito mais conhecidas, as Tijuana Bibles. Provavelmente essas HQs eróticas não eram mexicanas coisa nenhuma, o apelido pegou devido ao aviso que elas traziam na capa, "printed in Tijuana" fazendo referência a uma cidade industrial do noroeste do México, na fronteira com os EUA. O mais certo é que esse aviso era uma forma de tentar driblar as leis puritanas em vigor nos Estados Unidos, mas a suposta origem alienígena só fazia aumentar o mistério sobre aquele legítimo produto marca diabo.
Seja como for, mexicanas ou americanas, as Tijuana Bibles apareceram em solo ianque no final dos anos 20, atingiram o auge durante o tempo da Grande Depressão dos anos 30 e 40, e sumiram na década de 50 (ou seja, a decadência veio 10 anos antes do surgimento de Zéfiro no Brasil). Nos EUA, a decadência das Tijuana Bibles coincidiu com o início do processo de Revolução Sexual, em meados dos anos 50, com o marco que representou a criação da revista Playboy. Já os catecismos de Zéfiro começaram a rarear nos anos que antecederam a abertura política no Brasil, entre o fim dos anos 70 e início da década seguinte, quando os militares voltaram aos quartéis, permitiram o surgimento de um presidente civil e abriram espaço para eleições diretas.
-----------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

22 Outubro 2009

Carlos Zéfiro, um mito do quadrinho erótico brasileiro (4)

Dos anos 50 até a década de 1960 circularam clandestinamente, por todo o Brasil, os chamados catecismos, pequenas revistas de 32 páginas que cabiam no bolso e contavam histórias de sacanagem. O principal autor desse gênero, e também o melhor, assinava como Carlos Zéfiro e durante mais de trinta anos sua identidade foi mantida em mais absoluto segredo. As cobiçadas histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por "revistinhas" ou "catecismos", fizeram a cabeça e as fantasias sexuais dos adolescentes dos anos 50 e 60. Os "catecismos" eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito, e impresso em diferentes gráficas em diferentes Estados, gerando, inclusive, diversos imitadores.

O pacato funcionário do Departamento Nacional de Imigração, de nome Alcides Caminha, realizava, nas horas vagas, diversos desenhos quando um colega lhe apareceu com duas revistinhas italianas e, sabendo do talento do amigo para o desenho, lhe pediu que ampliasse os desenhos. Alcides tomou gosto pela coisa, e a partir daí passou a criar suas próprias histórias, utilizando-se diversas vezes do artifício de copiar desenhos e posições de outras revistas e fotonovelas eróticas. Temendo perder o emprego - e, depois de aposentado, sua humilde pensão - caso se envolvesse em escândalos (em função da antiga Lei 7.967, que regia o funcionalismo público), Alcides adotou o nome fictício de Carlos Zéfiro, e passou a produzir inúmeras historinhas na clandestinidade.

Alcides também tinha dotes musicais: amigo de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, compôs quatro sambas com o último, entre eles o clássico "A Flor e o Espinho". Mas foi mesmo com sua identidade secreta que Caminha conheceu o sucesso, mesmo que sem retorno financeiro. Ele iluminou o imaginário libidinoso do contido e conservador Brasil das décadas de 50 a 70. Um artista de desenhos toscos e sem técnica que foi durante anos a fio tachado de pornográfico, e manteve-se na clandestinidade até os setenta anos, quando sua identidade foi finalmente revelada.
Durante quase toda a década de 60 essa era praticamente a única literatura visual erótico-pornográfica disponível, já que ainda não havia revistas de mulher nua (a não ser a Playboy americana importada) nem vídeos-pornô. A decadência dos catecismos ocorreu porque começaram a aparecer revistas de fotonovelas suecas e dinamarquesas coloridas e o interesse do público se desviou. Outro motivo era a paranóia gerada pela ditadura militar brasileira, então no seu auge. Hélio Brandão chegou a ser preso em meados da década de 70 (durante a Copa do Mundo) e passou alguns dias na cadeia, mas nunca entregou a verdadeira identidade de Zéfiro. Depois disso, resolveu parar com a editora clandestina, pois estava tendo mais dor de cabeça do que qualquer outra coisa. As vendas tinham caído, era difícil arranjar os esquemas de impressão e distribuição devido à vigilância e paranóia que se intensificavam, e simplesmente pararam.
Inspirados nos notórios Tijuana Bibles publicados nos EUA nas décadas de 30 e 40, esses gibis quase artesanais eram distribuídos através de uma ampla rede clandestina que cobria todo o país e fizeram enorme sucesso. Naqueles tempos, não havia revistas eróticas vendidas livremente como hoje. Todas eram clandestinas. Elas eram vendidas por baixo do pano, de mão em mão e também nas bancas normais, só que às escondidas. Para comprar os catecismos era necessário ser da confiança do jornaleiro.
Carlos Zéfiro (o mestre dos quadrinhos pornôs brasileiros) soube como ninguém retratar o sexo como ele o é na vida real, sem falsos pudores, sem hipocrisia, com tesão, com poesia, não respeitando nenhum tabu e desvendando-nos todas as fantasias. Ele dizia-se honrado por fazer parte da história do Brasil. Mas não se importa muito. Afinal, "tudo na vida é muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo".
Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas que chegou a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas que terminou inconclusa. Em 1992 recebeu o prêmio HQMix, pela importância de sua obra. Após sua morte teve um trabalho publicado como homenagem póstuma em 1997 na capa e no encarte do cd "Barulhinho Bom" da cantora Marisa Monte.
Utilizando uma linguagem chula, Zéfiro permeou todo o imaginário popular. Por suas páginas, desfilaram as grandes musas da garotada: viúvas sedentas, desquitadas carentes, padres devassos, freiras pecaminosas, refletindo a realidade provinciana e reprimida do nosso velho Brasil. “Acho que ele foi o único artista de quadrinhos que possuiu um substrato popular. Seu estilo era genial. E inconfundível. Sua narração era muito bem conduzida, de uma forma que jamais vi novamente, mesmo nas revistas internacionais”, declarou o desenhista Luis Gê. Octacílio D´Assumpção, autor de “O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro” declarou que Zéfiro desconhecia a dimensão de seu trabalho: “Ele nunca teve a consciência de sua importância. Sempre foi muito simples!”.
----------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

21 Outubro 2009

Carlos Zéfiro, um mito do quadrinho erótico brasileiro (3)

O homem que se escondeu durante trinta anos por trás do pseudônimo de Carlos Zéfiro era Alcides Aguiar Caminha. Alcides era funcionário público (e compositor nas horas vagas, sendo co-autor de A Flor e o Espinho, de parceria com Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito). Ele desenhava os catecismos como um biscate para complementar o orçamento. Começou meio de brincadeira. Estimulado pelo amigo Hélio Brandão (também já falecido), dono de um sebo na Praça Tiradentes (Rio de Janeiro), Alcides produziu os primeiros catecismos, no final dos anos 50. Hélio se encarregava de providenciar a impressão e distribuição clandestinas dos catecismos, que chegaram a te mais de 2 mil edições diferentes (sendo cerca de 800 produzidas por Carlos Zéfiro).

O mistério sobre a identidade de Zéfiro durou muitos anos, pois o segredo foi muito bem guardado. O medo maior de Alcides era que, se fosse descoberto, poderia ser demitido por justa causa do serviço público. Somente em 1991 ele topou revelar sua identidade, e mesmo assim por uma circunstância estranha. Sabendo que um outro colega seu, o desenhista Eduardo Barbosa, estava dando uma entrevista para a revista Playboy se dizendo o verdadeiro Zéfiro, Alcides decidiu "se entregar" e desmascarar a farsa. Na realidade, Eduardo Barbosa desenhou vários catecismos, mas ele não era Zéfiro. Essa revelação coincidiu com a I Bienal de Quadrinhos, em novembro de 1991, quando foi realizada uma homenagem a Alcides e sua identidade veio a público. Nesse pouco tempo de vida que lhe restava, Alcides teve a justa homenagem e reconhecimento por seu trabalho. Alcides morreu em 3 de julho de 1992, de derrame, um dia após de ter sido homenageado com banda de música e tudo numa solenidade onde recebeu um troféu HQ-MIX.
Outro autor que se destacou nesse período assinava Chang, mas não era tão conhecido mas nem é mais lembrado. Muitos desenhistas de quadrinhos profissionais também disfarçaram seus traços e produziram catecismos, publicados no mesmo esquema por outras "editoras" clandestinas. Os melhores eram os produzidos por Carlos Zéfiro que, apesar das deficiências do traço, escrevi as melhores histórias. A história de um catecismo padrão geralmente começava, nas primeiras páginas, o personagem conhecendo uma moça, seduzindo-a mais ou menos até a página 15, e daí até a página 32 era sacanagem pura.
O curioso é que Zéfiro não era desenhista, mas sabia manipular os materiais de desenho, e era capaz de fazer uma história de quadrinhos decalcando, em papel vegetal , posições de revistas de fotonovelas e de revistas publicadas pela Editormex (onde baseou o seu estilo) e fotos eróticas fornecidas por Hélio. Por isso, a irregularidade entre os desenhos de uma mesma história é muito grande, pois quando não havia referências para decalcar os desenhos ficavam toscos. Ainda asim, comunicavam muito e eram uma verdadeira febre entre adolescentes e adultos daquela época.
CLANDESTINO
"De fato, vendido de modo clandestino, produzido de forma artesanal, desenhado com técnicas bisonhas e relatando histórias que tinham (e ainda têm) um enorme apelo, os livrinhos de Zéfiro faziam a ponte perfeita entre as conversas na roda de amigos e aquilo que se suspeitava que ocorria nas alcovas. Quer dizer: os livros de sacanagem apresentavam um pouco essa possibilidade de ter o sexo e a sexualidade como algo destacado e individualizado, alguma coisa que poderia ser vista quando se desejava e que era guardada numa gaveta e não na igreja, prostíbulo ou quarto de dormir como era o caso do sexo da vida real. Neste sentido, é também claro que parte do sucesso desta literatura estava precisamente no seu desenho igualmente ambíguo que, aliado a uma reprodução gráfica deficiente, criava uma impressão estranha, exótica. Uma impressão, enfim, de desfamiliarização que era precisamente o máximo que esse gênero de narrativa poderia esperar!", escreveu Roberto DaMatta em “Para uma teoria da sacanagem: uma reflexão sobre a obra de Carlos Zéfiro” (A Arte sacana de Carlos Zéfiro. Marco Zero, 1983).
"Um importante elemento nessas narrativas é seu traço simples, descritivo, limitado a um mínimo de recursos plásticos, como se estivesse restrito a apresentar o referente (acontecimentos eróticos) de forma imediata. Em vez de índice de erotismo ingênuo, parece-me que essa simplicidade é uma forma de integrar o leitor no universo desenhado, onde ele se localiza como personagem de aventuras similares ou Autor de desenhos com mesmo teor. Esse componente erótico se fez de forma direta e rápida, que não dispensou rituais de desnudamento, exibição e contemplação (o último passo exigia a inclusão do leitor). Seu universo masculino de leitura não dispensou uma cuidadosa ênfase em aspectos didáticos da sexualidade - como iniciar uma abordagem, quais as etapas de excitação a serem percorridas - visando ao prazer masculino, sem desprezar minimamente seu correspondente feminino" informou Marcos Antonio da Silva no artigo “Outros homens e mulheres” (Prazer e poder do amigo da onça: 1943-1962. Paz e Terra, 1989)
Carlos Zéfiro nunca foi esquecido e volta e meia seu nome vem à tona. Uma lona cultural em Anchieta (subúrbio do Rio de Janeiro/RJ) tem o seu nome. A cantora Marisa Monte, em seu CD Barulhinho Bom, usou desenhos de Zéfiro para ilustrar a capa e o folder do CD. As histórias de Zéfiro têm sido reeditadas em edições fac-similares no mesmo formato original. Na Internet é possível se encontrar muitas histórias de Zéfiro compiladas no site www.carloszefiro.com, mantido sem fins lucrativos por um fã.
--------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

20 Outubro 2009

Carlos Zéfiro, um mito do quadrinho erótico brasileiro (2)

“Zéfiro educou o brasileiro para o sexo. Pré Marta Suplicy, pré Sue Johanson, ele já avisava, sem retórica, apenas com sua caneta dura, direto ao ponto G, que entre quatro parede valia tudo. E que era bom, e que não era pecado, e que ninguém tinha nada a ver com isso. Cada um dava o que lhe aprouvesse. Sem julgamento moral e sem necessidade de casar depois”, escreve Joaquim.

Em texto publicado no livro A Arte Sacana de Carlos Zéfiro, organizado pelo colecionador Joaquim Marinho em 1983, o antropólogo Roberto da Matta chama atenção para a “sacanagem” dos quadrinhos de Zéfiro como uma expressão legítima da nossa sociedade. “Do mesmo modo que a sociedade se expressa pela arte, pela política e pelo esporte, ela também se manifesta pelas formas padronizadas de sua sexualidade. No caso brasileiro, a discussão do sexo sempre ficou situada naquela esfera ambígua da alcova e das rodas dos grupos formados por companheiros do mesmo sexo”, escreve Roberto. “A enorme popularidade de Zéfiro, junto com sua incrível penetração em todas as classes sociais, são dados reveladores de que estamos diante de padrões sexuais dominantes”.
Segundo Matta, a atração que os catecismos de Zéfiro exercem é dada pela capacidade de formular as grandes questões da paixão humana de forma reduzida. “Numa escala pequena e com uma alta dose de irreverência e prazer. Dir-se-ia, brasileiramente, de forma impagavelmente sacana e malandra. Creio que é por ter passado o sexo pela sacanagem que Carlos Zéfiro virou uma espécie de Spartacus do mundo sexual brasileiro. Pois quando a repressão grita desesperada: quem é afinal Zéfiro?. Todos nós respondemos em coro, com aquela convicção formidável: Zéfiro somos todos nós...”.
O cineasta Silvio Tendler estava interessado em fazer um documentário sobre a vida e obra de Carlos Zéfiro. A cantora Marisa Monte estampou na capa do disco Barulhinho Bom o desenho dileto de Zéfiro. E o sociólogo Betinho pediu a familia para usar um desenho na campanha contra a fome. Nos catecismos de Zéfiro o traço rude, linguagem crua e orgasmo garantido. Os vilões não apelam para a violência, apenas brocham.
O jornalista Sérgio Augusto em artigo publicado no livro A Arte Sacana de Carlos Zéfiro informou que os quadrinhos de Zéfiro seriam olhados por outro viés se estivessem acomodados num museu sob a rúbrica de erótica. Por conta do segredo em torno da identidade de Zéfiro, Gilberto Freire, Aldemir Martins e alguns medalhões das letras e das artes plásticas chegaram ser cotados como o verdadeiro autor dos quadrinhos pornográficos que “educaram” esse imaginário sexual do Brasil em meados do século XX.
À TONA
Quando o verdadeiro Zéfiro veio à tona, ficou se sabendo que seu maior receio era uma lei que rege o funcionalismo público e que prevê suspensão do pagamento da aposentadoria ao ex-funcionário que foi objeto de escândalo. Mas Caminha não conviveu com esse fantasma por muito tempo. Poucos meses depois da entrevista ao jornalista Juca Kfouri, Zéfiro faleceu, em julho de 1994, aos 71 anos.
Apesar do burburinho que cercou a entrevista publicada na revista Playboy por Juca Kfouri que fez o mito Carlos Zéfiro sair do anonimato, a revelação não ajudou a resgatar do ostracismo os “catecismos” de Zéfiro (nome que as revistinhas recebiam pelo seu formato de bolso, semelhante ao das publicações de iniciação católica). Desde o final dos anos 80, quando Zéfiro deu o ponto final à sua produção por conta de um problema de vista, seus quadrinhos praticamente sumiram das bancas e passaram a ser disputados por colecionadores.
Mesmo assim, os catecismos sobreviveram, em menor escala, pois reimpressões piratas continuaram a circular. Até a década de 80 (já quando houve a abertura política) era possível se conseguir comprar as reedições piratas em feiras populares. Em meados da década de 80 houve um revival de Carlos Zéfiro, que voltou à mídia quando sua obra foi dissecada em livros como O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, escrito por Ota (assinando com seu verdadeiro nome Otacílio d'Assunção) e publicado em 1984 pela Record, que teve 4 edições, porém atualmente está fora de catálogo.
Além do livro escrito por Ota, outros livros similares foram publicados (compilando histórias de Zéfiro e seus congêneres) no mesmo período pela Editora Marco Zero, sob a coordenação do colecionador Joaquim Marinho, bem como uma revista Zéfiro que durou uma única edição, lançada pela Codecri.

-------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

19 Outubro 2009

Carlos Zéfiro, um mito do quadrinho erótico brasileiro (1)

Dependendo da sua idade e grau de interesse por histórias em quadrinhos, é bem provável que você nunca tenha ouvido falar em Carlos Zéfiro. Entretanto, são enormes as chances de seu pai ou seu avô conhecerem a obra deste lendário artista brasileiro, e mais do que isso, de terem se masturbado pela primeira vez enquanto liam algum de seus gibis. Zéfiro indiscutivelmente foi o mestre supremo das HQs pornográficas tupiniquins, mas por vezes chega a ser difícil para jovens acostumados às liberdades do século XXI entenderem o porquê de toda a importância que lhe é atribuída.

Durante mais de quatro décadas ele foi uma das lendas mais intrigantes no mundo dos quadrinhos brasileiros. Em 1991 a revista Playboy fez o mito sair do anonimato. Carlos Zéfiro era o pseudônimo de Alcides de Aguiar Caminha, um discreto funcionário público carioca cujo currículo, além das cerca de 800 historinhas pornográficas escritas entre o final dos anos 40 e os anos 80, também ostentava alguns dos maiores clássicos do samba brasileiro – a maior parte dos quais composto em parceia com Nelson Cavaquinho.


Alcides Aguiar Caminha (1921-1992) era o nome do carioca que se escondia sob o pseudônimo de Zéfiro para publicar as revistinhas que fizeram a alegria dos adolescentes das décadas de 1950 e 1960. Somente um ano antes de sua morte é que foi revelada sua verdadeira identidade. Numa entrevista, ele disse que se escondia devido à Lei Federal nº 7.967, já extinta, que regia o funcionalismo público. “Eu perderia o emprego se me envolvesse em escândalos. Fazia este trabalho clandestinamente”, disse ele. O pacato funcionário do Departamento Nacional de Imigração, no Ministério do Trabalho, era também o autor das picantes histórias em quadrinhos com close em atos sexuais. “Na obra dele podia tudo: irmão com irmã, padre com beata, homossexuais. Acho que o que mais atrai é a simplicidade e a falta de preconceito. Era transgressor

na época e continua sendo”, diz Adda Di Guimarães da editora A Cena Muda, mesmo nome da banca carioca de revistas antigas.

Para o chargista Chico Caruso, 55 anos, “os desenhos eram eficientes, pois passavam erotismo com poucos recursos”. Chico lia as edições emprestadas por colegas de rua, em São Paulo. “Fazia a gente até perder a respiração. Era emocionante.” O desenhista Miguel Paiva, 55 anos, chegou a escrever um argumento de filme baseado em Zéfiro, que entregou ao cineasta Sílvio Tendler. “Fui um grande consumidor. Essas revistinhas tinham enorme rotatividade entre os garotos. A gente se masturbava com Zéfiro e fotonovelas italianas”, relembra ele. Mas por que eram chamadas de catecismo? Em entrevista dada no ano de sua morte, Caminha disse: “Nasceu em São Paulo, mas até hoje eu não sei por que os paulistas deram esse nome.”

CATECISMO

As célebres revistinhas recebiam o nome de “catecismos” pelo seu formato de bolso, semelhante ao das publicações de iniciação católica. Desde o final dos anos 80, quando Zéfiro deu o ponto final à sua produção por conta de um problema de vista, seus quadrinhos praticamente sumiram das bancas e passaram a ser disputados por saudosistas e colecionadores. Esse fato chamou a atenção da empresária Adda Guimarães, proprietária da banca A Cena Muda, no Rio de Janeiro especializada em edições raras. Desde março de 2005 os catecismos estão sendo republicados quinzenalmente em edições de até três mil exemplares. Todos no formato de bolso e com 32 páginas, o mesmo das edições feitas por Zéfiro. Serão lançados os 862 catecismos cuja autoria foi comprovada. As revistas têm projeto gráfico do designer Felipe Taborda, e apresentação do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos.

Os catecismos eram vendidos clandestinamente em locais como barbearias e bancas de jornal. O formato fino das revistinhas facilitava a ocultação, sendo escondido em livros, cadernos e principalmente em outras revistas que eram compradas exclusivamente com este propósito, para a felicidade dos jornaleiros que sempre lucravam em dobro. As histórias de Carlos Zéfiro, na maioria das vezes, apresentavam mulheres e homens fogosos e viris. De vez em quando aparecia um jumento aqui, um corcunda ali, mas estes eram exceção à regra. Curiosamente, sua historinha mais vendida, a hilária "Aventura de João Cavalo" trazia como protagonista um nordestino atarracado e feioso que, digamos, possuía um dote peculiar que compensava sua falta de beleza e justificava tal denominação.

As revistinhas de Carlos Zéfiro eram um sucesso entre os adolescentes cheio de espinhas e tesão, encontrando público também entre os homens de outras faixas etárias. E coitado de quem desse mole de ser flagrado portando uma dessas obscenidades por aí: consideradas como uma total imoralidade pelas tradicionais famílias católicas da época, os catecismos também sofriam a fúria impiedosa das feministas, que se consideravam reduzidas à condição de reles prostitutas em suas histórias. Com todo esse arsenal moral apontado para sua cabeça, Alcides achou melhor manter sua identidade em segredo, mesmo depois de ter interrompido seus trabalhos em 1968, temendo a perseguição do regime militar, além de enfrentar dura concorrência das famosas revistinhas dinamarquesas e suecas, que traziam fotonovelas de sacanagem a cores, com closes de genitálias que não eram páreo para sua humilde "sacanarte".
-----------------------------------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

02 Outubro 2009

Poesia, poesia, poesia para melhorar o dia-a-dia

Tempestade

Tempestade
é o que sinto ao me aproximar de você
quando sinto seu cheiro espalhando no ar
e sua pele a me acariciar.

Tempestade
é quando vejo esse seu pingar
esse balanço de arrepiar
que faz minha pele eriçar.

Tempestade
É sentir seus lábios a me tocar
e o gosto doce desse amar
e seu corpo todo a me dominar.

Tempestade, tempestade, tempestade
sinto como ar.




Estações

Sou seu homem de longas estações
serei verão quando exigires calor
serei inverno quando pedires cobertor
serei primavera quando desejares fragrâncias
serei outono quando quiseres instâncias.

Quero o seu corpo suavemente
no leito ou na natureza crua
amo não só no ímpeto da carne
pois seu nome é meu ato de amor
é o esparmo de que padece o meu sexo
é o vazio quando estás distante
pois estas na minha vida, na minha memória.

Quando de volta a sua loucura com brandura
sua língua que me falava sem som
a descobrir o sabor do sal da minha pele
e com o meu suor arrastou ainda o meu cheiro
sua loucura e a semente mais saudável do meu corpo.

Amo com fervor as grandes estações humanas
amo com o impulso da vida selvagem
essa fome que me leva a deslizar pelo seu corpo quente
e me subornas para que eu me apazigue
mas lhe resgato dos vendavais com paixão
e lhe assusto quando faço da cama o princípio e o fim
você reclama do pecado de viver assim
pecado é a sua boca, o seu jeito, o seu pelo, o seu sexo
a sua testa franzida quando vais gritar de gozo.




Dias

Tem dias que estou melancólico,
chovendo por dentro, chorando por fora.
Tem dias que estou eufórico,
sentindo arrepios e cheirando amora.
Tem dias que estou um arrebento,
virando pelo avesso e curtindo todos os elementos.
Tem dias que me sinto desconhecido,
sofisticado de um lado e do outro sem sentido.
Tem dias que estou muito mais que sereno,
olhando o por do sol no mar de arrebento.


Chuva


Chove em meu interior
Tenho que aprender a acionar meus ímas
No instante desse clima que me faz chover
E a cada segundo, lá no fundo
Emerge uma civilização líquida
Atlântida refeita me espreita
Tudo tão sem por querer
Acho que a vida é assim
Movimento, transformação
Pássaros voando, árvores crescendo
Animais nascendo, rios correndo,
Tudo passando, nada voltando
O tempo todo, uma grande equação
Não pare, não pense, não ouça e nem olhe
Viva a cada segundo essa doce ilusão.




Insight

Há uma linguagem que destoa
Rasga, mela, desidrata e ecoa

Há um corte que sangra e cospe
Esparrama pelo chão em morte.

Há um fragmento que desencadeia
A matéria, a preguiça, tudo esguicha.

Há um corpo que rola, esfola
Espatifando em mil pedaços no espaço.

Há um fogo que chamusca e devora
Meu pensamento lento e sem demora.


Há um apagar de lugar, escuridão
Um silêncio profundo, negação.






A partir de segunda-feira (dia 05) estarei de férias. Serão 15 dias. Volto no dia 19 de outubro quando estarei comentando os quadrinhos de Carlos Zéfiro, Lobo, Chinês Americano e tantos outros temas de interesse geral. Vou fazer uma visita a Bienal Internacional de Quadrinhos em Belo Horizonte e depois me refugiar em Barra de Jacuípe com diversos livros para devorar. Me aguarde, volto com sede de amar...letras, palavras, imagens, e toda esse zum zum zum em nossa volta nas voltas que o mundo dá. Até lá
---------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

01 Outubro 2009

Ranxerox, o pós-punk andróide, vai estar entre nós este mês

O italiano Tanino Liberatore vai participar do próximo Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que será realizado entre 06 e 11 de outubro, em Belo Horizonte (estarei lá). O encontro trará ainda outros artistas. Da Espanha, Juan Díaz Canales. Dos Estados Unidos, Ben Templesmith. Do Canadá, Guy Delisle. Da Alemanha, Jens Harder. A coordenação do FIQ confirmou outros nomes: o desenhista chinês Benjamin, o editor de quadrinhos chineses na França, Patrick Abry, e Eddie Berganza. Brasileiros que atuam no exterior - como Gabriel Bá, Fábio Moon e Ivan Reis - também irão participar do FIQ, que é realizado a cada dois anos. O homenageado desta sexta edição será o brasileiro Renato Canini. Ele criou personagens como Kactus Kid e foi o mais conhecido desenhista brasileiro de Zé Carioca. Nosso foco hoje é para o trabalho de Liberatore

A década era de 80. O italiano Paolo Eleuteri Serpieri mostrou um furacão sexual perdido em mundo pós-apocalítico (Druuna), já o britânico Alan Moore relatou estupro (Watchmen) e aleijou uma personagem (A Piada Mortal). Outro inglês, Grant Morrison insinuou relação homossexual (Asilo Arkhan), mas o hardcore maior ficou com Ranxerox que trazia as aventuras violentas e cheias de sacanagem de um andróide punk e sua companheira adolescente Lubna, em um futuro devastado. Stefano Tamburini e Tanino Liberatore anteciparam o gênero de violência extremada nos quadrinhos dos anos 80 e que predominaria no cinema dos anos 90 influenciando cineastas como Quentin Tarantino (Pulp Fiction) e Oliver Stone (Assassinos por Natureza). Esses italianos levaram às últimas conseqüências sintomas de uma sociedade doente e se revelou profético quando observamos os massacres que ocorrem com freqüência nos Estados Unidos. Há uma profunda crítica a valores sociais e morais nos excessos de Ranxerox. Isso está bem mais claro, hoje, como bem observou o estudioso de quadrinhos, Gonçalo Junior.

PARCERIA - O roteirista Tamburini e o desenhista Liberatore iniciaram parceria em 1977 ao editar uma revista underground Cannibale. Foi aí que eles lançaram um andróide chamado Rank Xerox, o mesmo nome da gigantesca corporação cujas máquinas fotocopiadoras eram uma obsessão de Tamburini. Este era responsável não apenas pelos roteiros, mas também pelo desenho, que antes de ser arte-finalizado era retocado pelos desenhistas mais competentes da revista. As histórias eram em preto & branco, curtas - raramente ultrapassavam as quatro páginas. A empresa homônima descobriu o personagem, e não gostou de ser sua marca sendo associada a um robô pedófilo e boçal. Sob ameaça de processo, Tamburini efetuou uma ligeira modificação - Rank Xerox virou Ranxerox.

Com o término da revista Cannibale, o grupo se envolveu numa outra publicação ainda mais radical: Frigidaire. Ranx continuava sujo, tosco, podre e doentio, e as histórias tornaram-se mais longas. Tamburini largou a arte, encarregando esta função a Liberatore. O desenhista, por sua vez, deixou o preto & branco e inseriu cores nas ilustrações da série. Com traço caricato e realista, Liberatore impregnou o universo do anti-herói com uma identidade visual inconfundível.
Quem desejar folhear as páginas onde foram publicadas o anti-herói vai encontrar sequências ininterruptas de ultraviolência, sexo bizarro e perversidades em geral. O cenário é uma Roma futurista e apocalíptica. Decadência, sordidez, indiferença é o que o leitor vai encontrar no relacionamento humano. E em meio a este verdadeiro caos, dois personagens vivenciam aventuras completamente anárquicas e amorais: Ranxerox, o violento brutamontes que batiza a série, e sua namoradinha Lubna, uma junkie de apenas 12 anos com cara de criança e jeito de dominatrix. Quem já leu o romance “Crash” (mais tarde levado para o cinema por Cronenberg) sabe dessas narrativas trágicas, bizarras de relações entre morte, acidentes de carro, mutilações e prazer sexual. Tudo com muito sarcasmo. As aventuras do pós-punk fizeram sucesso nas revistas como a norte-americana Heavy Metal, a espanhola El Víbora, a francesa L'Echo des Savanes e a brasileira Animal.
Tamburini faleceu, vítima de overdose, aos 31 anos de idade. Liberatore sobreviveu aos caos. Nascido na Itália, estudou Artes Plásticas e mudou-se para Roma, onde cursou Arquitetura. Nos anos 80, publicou trabalhos nas revistas americanas, européias e japonesas. Seus alcançou setores como a televisão, o cinema e até mesmo a música: são de sua autoria a capa do disco de "The Man from Utopia", de Frank Zappa; os figurinos do filme "Asterix e Obelix - Missão Cleópatra", trabalho pelo qual ganhou um César; e inúmeras vinhetas televisivas para emissoras do mundo todo. Hoje em dia, mora na França.
------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

30 Setembro 2009

Pornografia deixa a alcova para passear à luz do dia (3)

LONGA CRISE - "O único ciúme que existe é o sexual", disse a francesa Catherine Millet na sua palestra, em que foi entrevistada pela psicanalista brasileira Maria Rita Kehl. Definindo-se como "uma exploradora desse pequeno território que sou eu mesma", Millet falou sem constrangimento sobre seu sofrimento durante uma longa crise de ciúmes dos casos extraconjugais de seu marido, relatada em seu livro mais recente, "A outra vida de Catherine M.". Catherine tem com o marido uma relação aberta, e já havia relatado suas aventuras sexuais em "A vida sexual de Catherine M.". Apesar da própria liberdade sexual, porém, há alguns anos, ao se deparar com anotações do marido e cartas das amantes, ela se descobriu ciumenta. “Eu sofria com o ciúme e também com a descoberta desse aspecto desconhecido de mim mesma”, contou.

Ciúme que se combinava a uma fantasia masoquista de traição que era recorrente em suas masturbações, disse, mas que foi avassaladora quando se apresentou como realidade. “Só ao perceber, na análise, que no fundo eu estava gostando de sofrer por ciúmes é que a crise começou a se dissipar”.
A Revista da Cultura traz uma entrevista com Catherine Millet. Ela ficou exposta como uma mulher independente, intelectual e aparentemente bem resolvida na vida conjugal. Mas, talvez essa imagem que alguns poderiam ter de Catherine não fosse tão tranquila assim. No ano passado, ela voltou às livrarias com um novo trabalho Jour de Souffrance (Dia de Sofrimento). Desta vez, surpreendeu seu público ao contar como foi afetada por um incontrolável e violento ciúme que sentiu das relações extraconjugais do seu companheiro: o escritor e fotógrafo Jacques Henric. Eis trechos da entrevista:
Seu livro mostra que mesmo uma moral libertária e o fato de assumir uma sexualidade muito livre não impede que se caia na armadilha do ciúme. Segundo suas palavras, você viveu o ciúme como uma pulsão primária e devastadora. Como foi essa experiência?
Infelizmente, penso que se pode ter uma filosofia de vida e convicções que um dia entram em contradição com movimentos do inconsciente. É algo ainda mais primitivo no fundo da psique humana, e que pode ser da ordem do ciúme. Seguidamente me perguntam se penso que me enganei, se questiono a filosofia libertária, e minha resposta é negativa. Se vejo pessoas ao meu redor que seguem esse modo de vida e que escapam do ciúme, eu lhes direi que ela têm muita sorte e tanto melhor. Eu continuo convencida de que o amor e a sexualidade são coisas distintas, e que nessas condições é melhor preservar no seio do casal uma certa liberdade sexual. Não questiono isso. Uma das razões que me fizeram sofrer quando me descobri ciumenta é que ainda era suficientemente consciente para me dar conta de que estava em contradição com meus princípios. Eu me dava conta, meu companheiro também, ele era o primeiro a me dizer: “Como é que você, com a vida que leva, pode ser ciumenta assim?”. Descobri nessa época que o ciúme é um dos sentimentos que controlamos mais dificilmente. Por isso que digo que é primitivo. Por vezes temos a impressão de sermos levados ao nível do animal que demarca seu território.
Você acredita que possa haver um ciúme … e nocivo?
O ciúme é uma pimenta sexual que pode agir de diferentes formas. Há, por exemplo, o caso desses amigos libertinos (James Joyce e Georges Bataille), que têm prazer em ver suas mulheres com outros homens. Mas pode ser também o desejo de vencer o desafio de ver a tensão daquela pessoa que você ama atraída por outro, e nesse momento você tem vontade de reagir e de atrair novamente a atenção dela. Mas se isso toma uma forma patológica, aí é algo terrível. É um dos sentimentos mais horríveis que se pode experimentar.
Foi o seu caso?
Eu ainda tinha a capacidade de falar com Jacques, de refletir sobre, fiz análise, o que ajudou me livrar disso. Mas se você é realmente prisioneiro desse sentimento, acaba nas páginas policias dos jornais. Mata-se por ciúme.
Você prega uma democratização da sexualidade para que cada um posso revelar sua verdadeira natureza sem sofrer socialmente. Que tipo de democratização seria essa e em que estágio ela está hoje?
Há uma imagem do libertino, herdeira do Marquês de Sade, de pertencer a uma elite. Os personagens de Sade são aristocratas que se isolam do resto do mundo e que submetem aos seus desejos outras pessoas, que se tornam objetos. Ainda hoje há a ideia de que um certo modo de vida sexual seria reservada a um tipo de elite ao mesmo tempo sexual e intelectual, e que essa elite distinta do resto da população humana pode se permitir transgressões proibidas aos outros. Não aprecio essa ideia de uma elite para a qual seria reservada a possibilidade de transgredir certos tabus. Eu me dei conta disso depois da publicação de A Vida Sexual de Catherine M., porque, curiosamente, vi libertinos reagirem de forma negativa ao meu livro. Era curioso, porque, afinal, eu fazia parte do círculo deles. Mas compreendi que de uma certa forma eu traía um pouco essa confraria de libertinos. Eu não considerava a transgressão de tabus como um valor em si, enquanto que para essas pessoas se trata de um valor. Eu milito para que todo o mundo possa dispor dessa liberdade sexual, sem pertencer a nenhuma elite ou ter essa satisfação narcísea de dizer: “Eu fui capaz de transgredir um tabu”.
E os movimentos feministas hoje?
Eu me sinto mais à vontade com jovens de hoje que tentam reinventar o feminismo, se apropriar de formas de expressão que permitem às mulheres exprimir suas visões da sexualidade, do que com mulheres que nos anos 1970 pensavam que todos os esquemas sexuais eram construídos pelos homens e que era necessário rejeitar isso em bloco. Eu me sinto mais próxima das mulheres que não estão nesse feminismo rígido, mas que estão no estado no qual as mulheres se apropriam das “ferramentas simbólicas”. Elas filmam, fotografam, escrevem e falam de sua própria visão da sexualidade, em vez de rejeitar tudo.
A literatura libertina não é algo novo. Já no século 18 imprimiu sua marca, tendo o Marquês de Sade como principal expoente. A que você credita o enorme sucesso, nesse início de século 21, de seu livro A Vida Sexual…?
Penso que os costumes na sociedade evoluíram bastante. Mesmo se ainda há associações que pedem a censura de obras licenciosas ou que condenam certos comportamentos, de uma forma geral o conjunto da população em nossas sociedades é muito mais aberto. Notei com o sucesso de A Vida Sexual… que mesmo se as pessoas não partilham do modo de vida e da filosofia libertária, estão prontas a aceitar que outros o façam. Há essa mínima tolerância. Muitas pessoas me disseram: “Jamais ousaria fazer o que você fez, mas compreendo muito bem que seja a sua escolha”. Isso prova que há uma abertura de espírito, uma abertura aos outros bem maior do que havia antes. Além disso, eu tinha 20 anos em 1968, pertenço a uma geração que acreditou nessa utopia da liberação sexual, que a sociedade evoluiria de uma forma em que os corpos seriam trocados facilmente. Compreendemos que não era tão simples assim. Mas havia um pouco esse sonho.
Existe para o ser humano prazer fora da obscenidade? A pergunta é uma formulação sua.
(Silêncio). Acho que sim. Para mim, a obscenidade é um força erótica. Falar durante o ato sexual, falar palavras obscenas, olhar imagens obscenas, imaginar situações obscenas, são recursos que excitam muito minha libido. Mas também me ocorre ter muito prazer sem passar por essas representações obscenas. E todo o mundo não tem o espírito feito da mesma forma. Penso que quando há uma relação de desejo muito forte, pode-se abster de representações obscenas desse tipo. Por onde passa o desejo é algo muito sutil. Meus dois livros interrogam sobre isso, mas de forma alguma esgotei o tema. Veja os fetichistas, um fetichista do pé, do sapato, como se vê em Le Journal d’une femme de chambre (de Octave Mirbeau, 1900). Um par de sapatos, para você, para o comum dos mortais, não é uma imagem obscena. Talvez que essa imagem de sapatos vá suscitar em um fetichistas um desejo louco pela mulher que calçá-los, algo que para você é algo misterioso. Os caminhos do desejo, de uma pessoa a outra, são tão inapreensíveis, tão difíceis de entender, não posso dar uma resposta categórica a essa questão.

-----------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

29 Setembro 2009

Pornografia deixa a alcova para passear à luz do dia (2)

Depois de vender mais de um milhão de exemplares pelo planeta, com tradução em 45 idiomas, a obra chocou os leitores principalmente por causa da preferência de Catherine pelo sexo grupal, mais ainda pelo fato de a autora ser também a fundadora da respeitada revista francesa "Art Press". Em meio a tudo isso, ela viveu o casamento com o escritor Jacques Henric, que não participava das experiências de sexo em grupo, e está com a escritora até hoje. Sem pudor algum, a escritora falava abertamente sobre os seus relacionamentos extraconjugais e expôs exatamente como eram as suas relações sexuais. Preferia não observar os rostos dos homens, tampouco saber os seus nomes.
Catherine dizia seu corpo era divido em dois. O físico servia apenas para se explorar o prazer, a prática do sexo em qualquer lugar, seja no cemitério ou até no escritório da revista em que trabalhava. E o amoroso era reservado apenas para o marido, com quem vive há cerca de 30 anos. Entretanto, o mais surpreendente da sua própria vida não são apenas as experiências sexuais, mas sim a sua crise avassaladora de ciúmes que viveu quando descobriu a infidelidade do marido. Como qualquer mulher, a romancista descobriu o gosto amargo da traição e conta no seu mais recente relato autobiográfico "A outra vida de Catherine M" o que sentia quando o espionava: seja lendo suas cartas ou e-mails.
O título original é "Jour de Souffrance", uma expressão francesa com dois significados: “dia de sofrimento” e ainda “janela que se pode abrir para a propriedade do vizinho, deixando passar a luz, sob a condição de que seja guarnecida de uma vidraça fixa e opaca”. Mais fiel a sua vida impossível. O lançamento da tradução desta obra foi durante 7ª edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), realizada em julho.
Como ela mesma revela em entrevistas, a sua filosofia libertária em relação ao corpo e ao sexo não a impediu de sentir o ciúmes, e por conta disso, afinal a sua vida sempre foi um livro aberto, ela se sentiu na obrigação de relatar também os sentimentos de uma mulher ciumenta.
CIÚME SEXUAL
Convidada para participar da sétima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), a escritora e diretora da revista francesa Art Press Catherine Millet, 51, chocou os leitores parisienses ao revelar no polêmico "A Vida Sexual de Catherine M." (Ediouro, 2001) detalhes da sua intensa vida sexual.
Traduzida para 45 idiomas e com mais de 1 milhão de cópias vendidas em todo o mundo, a autobiografia mostra como após perder a virgindade aos 18 anos, a respeitada crítica de arte passou a manter relações sexuais com desconhecidos em lugares inusitados, como na redação da sua revista, à beira de estradas e em bancos públicos, mesmo sendo casada com o romancista Jacques Henric há 20 anos.
Ao contrário da imagem de mulher liberal (e libertina, para alguns) que a autora transmitia, Millet surpreendeu a todos ao declarar que foi tomada por um ciúme incontrolável ao descobrir que seu marido também mantinha encontros extraconjugais. Enquanto vivia uma crise no casamento, a autora decidiu escrever "A Outra Vida de Catherine M." (Ediouro, 2009), no qual discute este sentimento que é indomável para alguns e presente em relações afetivas diversas, além de descrever as armadilhas do casamento aberto. "Foi muito mais difícil escrever "A Outra Vida de Catherine M." do que "A Vida Sexual...", porque sou muito mais pudica com meus sentimentos do que com meu corpo. Mas faço parte daquele grupo de autores que, para escrever, devem estar muito libertos daquilo que desejam contar. O tempo verbal que utilizo é sempre o imperfeito", disse a autora em uma entrevista.
----------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

28 Setembro 2009

Pornografia deixa a alcova para passear à luz do dia (1)

A crítica e curadora francesa Catherine Millet, diretora da revista Art Press, especialista em Salvador Dali e Yves Klein viu o polêmico relato de seu passado libertino se transformar no grande sucesso editorial da França em 2001. Suas orgias por bosques parisiense foram traduzidas para 24 idiomas. No Brasil, “A Vida Sexual de Catherine M” foi lançado pela Ediouro e figurou na lista dos dez livros mais vendidos. O livro se transformou num fenômeno literário mundial, traduzido para 45 línguas, vendeu mais de 1,2 milhão de exemplares e transformou sua autora numa celebridade. Nele, uma mulher de 50 anos conta como se entregava a homens que nunca vira antes, nos locais mais inesperados, como um bosque de Paris, um estacionamento subterrâneo, um cemitério, uma estação de trem e mesmo no escritório da revista Art Press, fundada e dirigida pela própria Millet, crítica de arte e especialista em Salvador Dalí.

A vida real colocou Millet diante de um problema que consistia em conciliar a vida de mulher totalmente livre com um casamento duradouro. Ela é casada há muitos anos com o escritor e fotógrafo Jacques Henric, autor de Lendas de Catherine M, e viveu um casamento totalmente aberto. Na obra Catherine fala da própria sexualidade com uma espécie de objetividade indiferente, sem um grão de culpa, nem de romantismo, nem de paixão. Fala do que a excita como se descrevesse o que lhe dá sono.

No seu depoimento assumidamente autobiográfico, desde a primeira adolescência, nutria em suas fantasias masturbatórias o desejo de se entregar a muito homens de uma só vez. Perdida a virgindade, aos 18 anos, dedicou-se a pôr a fantasia em prática. Clubes privados em Paris, parques mais ou menos retirados da cidade, em todos os lugares ela serviu a astros do cinema, poderosos homens de negócios e a trabalhadores humildes. Suas orgias na maioria das vezes era com homens dos quais nunca conheceria o rosto.
Mais que uma narrativa picante, porém, o livro ode ser visto como o registro de uma profunda mudança de hábitos sexuais que estaria em curso na sociedade contemporânea. Daí, talvez, venha boa parte de sua enorme força. O relato das orgias de Catherine M não seria apenas uma confissão isolada, mas a crônica de novos costumes, ainda ocultos.
Trata-se da nova idade da pornografia da qual Catherine é uma expoente: agora, a pornografia quer deixar a alcova, já não se contenta com sua existência clandestina. Mas quer passear à luz do dia. Daí a adequação do estilo sem nenhuma culpa que caracteriza a autora. Trata-se de um discurso de afirmação, não de arrependimento.
O próprio marido de Catherine Millet, o romancista e também crítico de arte Jacques Henric poucos dias após o lançamento do livro da mulher, publicou um outro, com fotos dela. São cerca de 30 nus de Catherine clicados por Henric a partir dos anos 70. O título: Lendas de Catherine M. Sete anos após o sucesso mundial de “A Vida Sexual de Catherine M”, ela conta em outro livro, “Dia de Sofrimento”, como o ciúme penetrou em seu casamento.
A diretora da Art Press se mantém no comando da revista desde a sua fundação, e considera que seu trabalho como crítica de arte é o que a torna de fato uma figura relevante. Mas é inegável que foi o livro sobre sua vida sexual que a tornou conhecida mundialmente. "A Vida Sexual de Catherine M." foi traduzido para 45 línguas, vendeu mais de 1 milhão de exemplares e fez com que sua autora passasse três anos viajando pelo mundo para falar sobre ele. Que a repercussão do livro foi tremenda ela não nega, como já publicado pela imprensa inúmeras vezes, mas assume que não era, de maneira nenhuma, esperada.
Millet diz que começou a escrever o livro como forma de explicar como ela e seus amigos haviam praticado uma ideologia de liberdade sexual, assunto muito abordado e discutido na própria Art Press em artigos sobre psicanálise ou sobre escritores voltados para a literatura erótica, como Georges Bataille. Para ela, nada dessa bagagem intelectual realmente explicava suas experiências individuais. Era necessário devolver complexidade ao tema da liberdade sexual; as teorias desenvolvidas a esse respeito, muitas delas feitas por homens, transformaram algo tão polêmico em umas poucas idéias simplistas.
-----------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

25 Setembro 2009

Tempero da vida (5)

A comida no cinema

Muitos críticos comparam o filme grego “O Tempero da Vida” com o mexicano “Como Água Para Chocolate” por causa, talvez, do efeito transformador da comida sobre as pessoas. A comida como alimento da alma, da vida e do aprendizado da história de cada um. Além de usar a comida como desculpa para falar de temas mais complexos e filosofar sobre a vida, as duas produções também têm em comum os altos valores de produção, resultando num filme bem acabado com o intuito de conquistar as audiências internacionais. “Como Água...” conseguiu ganhar o Oscar de filme estrangeiro. Já “O Tempero” era o representante da Grécia na premiação, mas nem conseguiu ser indicado.

Sucesso na Grécia, o longa O Tempero da Vida estreou no final de 2003, e lida com as conturbadas relações entre turcos e gregos, mas ao invés de apontar as diferenças, através da cozinha mostra as semelhanças das duas culturas. O diretor e roteirista Tassos Boulmetis se baseou em experiências pessoais para escrever o roteiro que se desenvolve como um grande flashback, no qual o professor de física relembra a sua infância e adolescência. No estilo de "A Festa de Babete" - que utiliza a gastronomia como metáfora - "O Tempero da Vida" usa a comida e seus temperos, como um modo de mostrar as pessoas, as simplicidades da vida. O filme é uma experiência sensorial que compara a comida, os temperos aos prazeres e momentos e fases da vida. Pimenta, sal, canela, cada coisa com seu sabor e sua medida, afinal, tanto a comida quanto a vida precisam de um pouquinho de pimenta para ter gosto.


Você tem fome de quê?!

O prazer é algo que está sempre permeando a vida do homem, seja lá de que maneira ele venha. Tem gente que foca todo seu prazer no sexo, outros a voltam para uma outra atividade, como ouvir uma música, praticar esportes, dançar… E há ainda os que voltam seu prazer todinho para a comida É essa a idéia central de “Estômago” (Brasil / Itália 2007).

O filme conta a história da ascensão e queda de Raimundo Nonato (João Miguel), um cozinheiro com dotes muito especiais. Trata de dois temas universais: a comida e o poder. Mais especificamente, a comida como meio de adquirir poder. E pode ser definido como “uma fábula nada infantil sobre poder, sexo e culinária”. A trama toda fica passeando entre os prazeres que a comida desperta nas pessoas, além de despertar uma certa ojeriza pela maneira que vemos alguns pratos serem preparados. Estômago é isso, sem trocadilho, um filme pra mexer com o nosso estômago, em todos os sentidos.

Em sua estréia mundial no Festival do Rio 2007, o filme consagrou-se como grande vencedor, tendo recebido quatro prêmios: Melhor Filme pelo Público, Melhor Diretor, Melhor Ator e Prêmio Especial do Júri. Em sua estréia européia, no Festival Internacional de Rotterdam, na Holanda, recebeu o prêmio Lions Award e foi o segundo colocado, entre 200 longas, na preferência do público. Teve participação especial no Festival de Berlim 2008, com direito a jantar inspirado nos pratos do filme, e venceu o Festival Internacional de Punta Del Este, no Uruguai, com os prêmios de Melhor Filme e Menção Especial de Melhor Ator. A fita marca a estréia de Marcos Jorge na direção de longas-metragens, depois de uma bem-sucedida carreira como diretor de curtas-metragens, filmes publicitários e artista-plástico especializado em vídeo-instalações. O filme foi inspirado no conto “Presos pelo Estômago”, de Lusa Silvestre, que assina, junto com Marcos Jorge, o argumento do filme.
-----------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

24 Setembro 2009

Tempero da vida (4)

No Brasil, o conjunto feijão-com-arroz é a alimentação cotidiana, em todo o território nacional. E a a feijoada é o prato que revela muito sobre a sociedade brasileira. Mas, se todas as culturas atribuem significados ao comer, nem todas dão à culinária, a mesma importância. A culinária francesa, a italiana, a chinesa e a japonesa são classificadas como as mais afamadas e conhecidas, em oposição a outras tais como a inglesa, a alemã e a escandinava, desprestigiadas e mesmo alvo de anedotas. As cozinhas orientais trazem um grau de ritualização muito grande.

Dentre todas, a francesa é considerada a melhor cozinha. Independente do consumo, a França é o ponto de referência em culinária, de famosos cozinheiros (os Chefs) a novas modas alimentares (a Nouvelle Cuisine, por exemplo). Trata-se de uma identidade construída numa determinada primazia, reconhecida dentro e fora de suas fronteiras. Este processo de criar uma "arte" transforma o ato alimentar em profundidade, distanciando-o cada vez mais da simples manutenção do organismo. Um marco neste processo é o livro de Brillat-Savarin, A Fisiologia do Gosto, escrito em inícios do século XIX. Considerado um "tratado de gastronomia", segundo Roland Barthes, ele exprime "a grande aventura do desejo". É de Brillat-Savarin os dizeres: "O Universo nada significa sem a vida, e tudo o que vive come. Os animais se repastam; o homem come; somente o homem de espírito sabe comer".

As cozinhas locais, regionais, nacionais e internacionais são produtos da miscigenação cultural, fazendo com que as culinárias revelem vestígios das trocas culturais. Hoje os estudos sobre a comida e a alimentação invadem as ciências humanas, a partir da premissa que a formação do gosto alimentar não se dá, exclusivamente, pelo seu aspecto nutricional, biológico. O alimento constitui uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social. Os alimentos não são somente alimentos. Alimentar-se é um ato nutricional, comer é um ato social, pois constitui atitudes, ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações.

Nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. A historicidade da sensibilidade gastronômica explica e é explicada pelas manifestações culturais e sociais, como espelho de uma época e que marcaram uma época. Nesse sentido, o que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come. Enfim, este é lugar da alimentação na História. Do exposto, verifica-se que no cruzamento do biológico com o histórico e cultural, do social e do político, da economia e das tecnologias, emergem os marcos que permitem fazer através da comida uma reflexão sobre o próprio significado e evolução da sociedade.

O historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo escreveu sobre comidas e bebidas populares do ponto de vista do “paladar”. Na perspectiva de Cascudo, o paladar é determinado por padrões, regras e proibições culturais. Mais que isso, segundo ele, o paladar é um elemento poderoso e permanente na delimitação das preferências alimentares humanas, e está profundamente enraizado em normas culturais. Diz Cascudo: “A escolha de nossos alimentos diários está intimamente ligada a um complexo cultural inflexível. O nosso menu está sujeito a fronteiras intransponíveis, riscadas pelo costume de milênios”. Assim, o paladar não pode ser facilmente modificado por políticas públicas fundadas no argumento médico de que determinados alimentos oferecem um maior valor nutritivo.
Para Cascudo, “é indispensável ter em conta o fator supremo e decisivo do paladar. Para o povo, não há argumento probante, técnico, convincente, contra o paladar...”. Modificações do paladar, argumenta, dependerão da mesma fonte de sua formação: o tempo. Qualquer sociedade ou cultura humana elabora alguma forma de distinção entre a fome e o paladar. É importante, no entanto, focalizar a natureza da relação entre essas categorias. No caso dos escritos de Cascudo, e particularmente das categorias neles expressas, o paladar desempenha uma função dominante, enquanto a fome, uma função subordinada. Em tal perspectiva, são as regras culturais e as trocas sociais que definem a natureza humana, e não as necessidades biológicas.

---------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

23 Setembro 2009

Tempero da vida (3)

Onívoro, o homem come de tudo: de formigas a baleias, de alimentos vivos a apodrecidos. Pode-se pensar que comer algo "vivo ou podre" seja algo inadmissível, existente apenas em lugares distantes, "exóticos" e/ou em povos ditos "primitivos". Porém, é bom lembrar que as ostras são comidas vivas (com limão, para o ácido dissolvê-las) assim como alguns queijos muito apreciados, tais como o gorgonzola e o roquefort, são consumidos já embolorados.

Porém, se o homem come de tudo, ele não come tudo. Há uma escolha, uma seleção do que é considerado "comida" e, dentro desta grande classificação, quais as permitidas e as proibidas e em que situação isto se aplica. Para o antropólogo Claude Fischler "a variedade de escolhas alimentares humanas procede, sem dúvida, em grande parte da variedade de sistemas culturais: se nós não consumimos tudo o que é biologicamente ingerível, é por que tudo o que é biologicamente ingerível não é culturalmente comestível".

Assim, o que é "comida" em uma cultura, não o é em outra, fato derivado não de seu valor (ou não) nutritivo ou perigo a saúde. Alguns exemplos são muito conhecidos: o cachorro não é, entre nós, comida, ou seja, não é considerado "comestível". Porém, entre alguns grupos orientais, é considerado uma iguaria fina. Da mesma forma com que os caracóis são consumidos sem problemas na França, as formigas o são em certas tribos amazônicas.

E, se o haggis escocês (prato onde são cozidos, dentro de um estômago de carneiro, pulmões de vaca, seus intestinos, pâncreas, fígado e coração, com cebolas, gordura, rim de boi e aveia cozida) pode ser repugnante para alguns, podemos lembrar a "buchada de bode", o "rabo de jacaré" e os "ovos de touro", consumidos no interior de diversas regiões do Brasil.

Mais que alimentar-se conforme o meio a que pertence, o homem se alimenta de acordo com a sociedade a que pertence e, ainda mais precisamente, ao grupo, estabelecendo distinções e marcando fronteiras precisas. Não apenas é escolhido o que se come, mas também o como (vivo, cru, assado, cozido, apodrecido, etc), e qual a técnica utilizada (cozido, assado, etc.), assim como as técnicas de preservação do alimento (defumado, salgado, congelado).

Outro aspecto envolve o quando se come e o quê. Tanto na alimentação do cotidiano (cada cultura define o que é considerado adequado para cada uma das refeições do dia, assim como quantas e quais são estas refeições e como se distribuem ao longo do dia) como nas que marcam momentos especiais, prescrevendo o que, em determinada situação, pode ou não ser consumido.

BALANCEADA - “Somos aquilo que comemos”. A frase, espécie de sentença moral recorrente na fala de médicos e nutricionistas é reveladora da vinculação cada vez maior entre alimentação e saúde presente na nossa sociedade. A preocupação com o corpo, o esforço para se evitar doenças através daquilo que seria uma “alimentação balanceada” ou mesmo o prazer à mesa sendo posto em segundo plano em nome de uma suposta “qualidade de vida”. Tudo isso descreve a forma como atualmente se configura a nossa relação com a comida: o aspecto nutricional tem preponderado na nossa alimentação. O comportamento em relação à comida revela a cultura em que cada um está inserido.

Todas as sociedades proíbem certas classes de alimentos e recomendam outras. A criação de regras, de prescrições e proibições, seja para a comida, mas também em relação a outras atividades – ao casamento, ao parentesco, à política, etc – faz parte da chamada natureza humana. Por conta disso é que muitos antropólogos têm se dedicado à antropologia da comida ou da alimentação.

Se a ciência, através dos tabus e proibições criados pela nutrição, é que tem, predominantemente, ditado as regras e os valores em relação à comida na nossa sociedade, não se pode esquecer das barreiras de outras ordens (religiosas, ideológicas, folclóricas) presentes à mesa. Há interdição da carne de porco entre os judeus.

----------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

22 Setembro 2009

Tempero da vida (2)

TABUS - Para o antropólogo norte-americano Marvin Harris, os tabus religiosos em relação à alimentação seriam regras culturais criadas a partir de problemas de adaptação ecológica. Ao explicar a origem do tabu da carne de porco no judaísmo no livro Vacas, porcos, guerras e bruxas: os enigmas da cultura, Harris afirma que a criação de suínos seria uma atividade incompatível com o nomadismo dos pastores judeus que habitavam os desertos nos tempos bíblicos: os porcos se alimentam diariamente, ao contrário dos animais ruminantes prescritos pelo Velho Testamento. A proibição seria, assim, uma forma de se impedir o consumo de uma carne cuja criação era inviável economicamente para o grupo.

“As cozinhas locais, regionais são produtos da miscigenação cultural, fazendo com que as culinárias revelem vestígios das trocas culturais. Hoje os estudos sobre a comida e a alimentação invadem as ciências humanas, a partir da premissa que a formação do gosto alimentar não se dá, exclusivamente, pelo seu aspecto nutricional, biológico. O alimento constitui uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social. Os alimentos não são somente alimentos. Alimentar-se é um ato nutricional, comer é um ato social, pois se constitui de atitudes, ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações”, escreveu o professor Carlos Roberto Antunes dos Santos na abertura do livro Brasil Bom de Boca.

A sensibilidade gastronômica é explicada pelas manifestações culturais e sociais, como espelho de uma época e que marcaram uma época. Sendo a cozinha um microcosmo da sociedade e uma fonte inesgotável de história, é importante que algumas das suas produções sejam consideradas como patrimônio gustativo da sociedade. Desta forma, constata-se que a culinária brasileira demonstra agora a sua vitalidade, pois diz muito sobre a educação, a civilidade e a cultura dos indivíduos.

Os significados antropológicos e históricos da alimentação permitem captar traços da dinâmica de uma tríade - memória, tradição e identidade -, fazendo com que a comida seja constitutiva da identidade de um grupo, que se mantém viva nas tradições e na memória. Na cozinha prevalece a arte de elaborar os alimentos e de lhes dar sabor e sentido. Há na cozinha a intimidade familiar, os investimentos afetivos, simbólicos, estéticos e econômicos.

CULTURAL - No primeiro estágio as sociedades primitivas sobreviviam da caça, pesca e colheita natural, ou seja, do que pescavam, caçavam e das raízes e frutos que colhiam naturalmente, sem plantações e esforços para produzir. Depois surge o segundo estágio, que é praticamente a produção de alimentos onde ocorre uma domesticalização de plantas e animais, passando o homem a ser um produtor e não caçador de alimentos. A agricultura e agropecuária tomaram formas bem expressivas na alimentação de uma sociedade, e esta procurava viver em regiões férteis. O terceiro estágio é o da Revolução Urbana e Revolução Industrial, em que há a grande concentração de pessoas nos centros urbanos, ocorrendo assim, a necessidade de produção em grandes escalas de alimentos e inserção da produção industrial. A comida é uma expressão cultural distinta que envolve aspectos relacionais e interação social no ato de ingestão de alguns alimentos.

Na Espanha, o mastigar a semente de girassol é um atividade social. No Paraguai, o momento sociocultural mais expressivo é a hora do Tererê, palavra que vem do guarani (Tê = chá, Rerê = circulo, roda). O momento em que a roda dos amigos e famílias estão juntos conversando e tomando um chá gelado enquanto conversam. No sul do Brasil, o Chimarrão é outro fator cultural. O chimarrão é tomado numa roda de amigos em momento de relaxamento, descanso e prosa entre amigos. Na Itália, uma refeição é um momento de profunda comunhão familiar. Uma refeição na Itália dura até mais de 3 horas, pois este momento é reservado para estarem juntos, e o comer é um fator social. É um grande prazer participar de uma verdadeira e típica refeição italiana. Na cultura árabe, o momento das refeições é a hora de confraternização da família. As donas de casa gastam muito tempo no preparo da alimentação, fazendo com que a refeição seja o mais saborosa possível.
------------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

21 Setembro 2009

Tempero da vida (1)

A comida é o verdadeiro tempero da vida. Cada prato ou alimento revela alguns ingredientes importantes da personalidade da pessoa. “Para viver mais, é preciso comer menos”. A frase é do médico e escritor Drauzio Varella acrescentando que uma dieta pobre em calorias retarda o envelhecimento e prolonga a vida humana. Dessa forma, comer é mais que ingerir um alimento, significa também as relações pessoais, sociais e culturais que estão envolvidas naquele ato. “A comida é tão importante e identificadora de uma sociedade, de um grupo, de um país, como é o idioma, a língua falada, funcionando como um dos mais importantes canais de comunicação”, informa o antropólogo Raul Lody em seu livro Brasil Bom de Boca (Editora Senac, 2008).


Comer é mais que ingerir um alimento, significa também as relações pessoais, sociais e culturais que estão envolvidas naquele ato. A cultura alimentar está diretamente ligada com a manifestação desta pessoa na sociedade. Alimento é um dos requerimentos básicos para a existência de um povo, e a aquisição desta comida desempenha um papel importante na formação de qualquer cultura. Os métodos de procurar e processar estes alimentos estão intimamente ligados à expressão cultural e social de um povo.

A alimentação brasileira é mais voltada para o prazer de comer, do que para o valor nutritivo do alimento. Come-se por prazer e não pelo que aquele alimento representa nutricionalmente. Não se dá ênfase ao valor nutricional do alimento, mas ao gosto e prazer da alimentação. Em síntese a comida brasileira, a comida do povo, se concentra em massas, gorduras, açúcares e carne. Na cultura alimentar brasileira não há lugar de destaque para as frutas e hortaliças. O prazer alimentar está centrado nesta mistura de massas, gorduras, doces e carnes. É necessário uma mudança na cultura alimentar, uma educação nos valores e hábitos alimentares do povo brasileiro.

MUDANÇA - Toda mudança implica transformação mais ou menos súbita e profunda de certo sistema de equilíbrio, uma fase, pois, de ruptura, até a instauração de novo equilíbrio. O poder manipulador de hábitos é outro aspecto importante, onde certos hábitos são transmitidos. Certos interesses comerciais de um produto se transformam em poder absoluto quando ocorre indução e coerção à aquisição do mesmo produto. O abalo dos modelos tradicionais de autoridade e poder decorrem na medida em que uma proposta de mudança é feita.

Se quisermos introduzir uma mudança, precisamos mudar os equilíbrios já estacionários no hábito, num sentido escolhido. Quando há um hábito estacionário já formado, a existência de forças que resistem à mudança são maiores que as forças orientadas para a mudança. Se quisermos introduzir uma mudança, é necessário diminuir as resistências a estas mudanças e aumentar as idéias e pressões em favor da mudança. A quebra de um hábito será dado mediante uma evolução nas informações transmitidas para que as pessoas façam uma tomada de decisão. Para que isto ocorra, é necessário o descobrimento de uma nova direção, a fixação de objetivo estimulante e a construção de programa coerente para atingi-la.

RÁPIDA - Na cultura ocidental, a ênfase não é no momento social da alimentação, mas se come porque é necessário ao corpo. Tudo é “fast food” (comida rápida), na visão de que não se deve perder tempo no preparo da comida, tudo deve ser preparado rápido e sem perda de tempo, pois na verdade a vida lá fora corre depressa, e você tem que comer rapidamente também. Não há um fator de interação social no processo de alimentar, se come para manter o corpo e a saúde. Não há laços de amizade e comunhão neste momento. “Fast food”, é o termo e a mentalidade da vida urbana, retirando das pessoas o valor nutritivo, a saúde integral, e as relações familiares e de amor envolvidos no momento de uma alimentação. Quando a mãe alimenta o seu bebê, ela não dá somente leite e nutrientes, dá também amor e afeto. Em todas as etapas da vida, deverá sempre haver este complemento de amor, carinho e confraternização nas refeições. “Fast food” é o corte da vida social intensa.

As práticas alimentares estão profundamente ligadas aos gostos que variam pouco, pois eles remetem a imagens inconscientes, a aprendizados e a lembranças de infância. Assim como há carnes “burguesas” como o carneiro e a vitela e carnes “populares” como o porco, coelho e salsichas frescas (na França). Há também uma hierarquia dos legumes frescos, indo dos mais sofisticados (as endívias) aos mais camponeses (os aipos) e aos mais operários (batata). O modo de preparo culinário é também revelador dos gostos de classe. Comer é então um modo de marcar sua vinculação a uma classe social particular.
----------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

18 Setembro 2009

Boilet lança o nouvelle manga

A mistura das culturas ocidental e oriental marca a obra do premiado francês Frédéric Boilet. Cansado da velha fórmula de HQ européia, em cores, 46 páginas de formato grande, o autor adotou o modelo dos orientais que, desde os anos 40 fazem mangás de uma forma mais livre, priorizando a história, a narrativa do dia a dia, podendo ultrapassar as 46 páginas limites. Boilet é dono de um traço refinado, longe de estereótipos dos quadrinhos japoneses, e cria suas histórias a partir de uma fusão entre o lápis, o nanquim e a fotografia.

“O olhar flui melhor de um quadro ao outro, o que dá um aspecto cinematográfico à obra”, explicou Boilet que cria suas HQ a partir de filmagens. Enquanto o cinema faz desenhos conhecidos storyboards para depois gerar imagens em movimento, Boilet faz justamente o contrário: constrói seus esboços a partir de uma câmara filmadora para então criar suas tirinhas.

Contando histórias cotidianas, o mangá se aproxima do cinema francês dos anos 60. Essa semelhança levou Boilet a criar o movimento Nouvelle Manga. O traço realista em preto-e-branco reflete sua proposta. Assim como o nouvelle vague, o nouvelle manga prioriza a narrativa dos relacionamentos tal como eles são no dia a dia: com naturalidade, sem retoques ou truques. “A nouvelle manga oriental se diferencia da GQ européia porque transmite sensações, faz o leitor salivar, envolvendo-o na história”, disse Boilet.
Para ele, as HQs eróticas ma Europa atraem um público predominantemente masculino por se limitar a retratar mulheres nuas em diversas posições, sem nenhuma ou pouca preocupação com a trama. Mas no Japão, metade do público é masculino, e a outra metade feminino, justamente por construir uma narrativa do cotidiano.
Boilet queria escrever sobre um francês que vai pela primeira vez ao Japão sem falar japonês. Ele passou seis semanas em solo nipônico e contou o que viveu em Love Hotel (1993). Algum tempo depois, fez outra “viagem antropológica! E passou um ano e meio em Tóquio e outros seis meses em Quioto. Dessa vez, Boilet escreveu sobre um francês que estava se adaptando à cultura oriental. Essa é a trama de Tóquio é meu Jardim (1999) e acabou se casando com a musa inspiradora dessa HQ. Os laços com o Japão se estruturaram e, no ano seguinte, ele se mudou definitivamente para Tóquio. Mais tarde lança O Espinafre de Yukiko, ganhador do prêmio de Angoulême em 2004.
Em entrevista Boilet afirmou que estava com vontade de sair pelo mundo fazendo quadrinhos-reportagem. “O Japão era o lugar certo para começar. Pela dificuldade de acesso, por não falar a língua e não conhecer praticamente nada do país, me coloquei o desafio: se conseguir fazer quadrinhos lá vou conseguir fazer em qualquer lugar do mundo!” Sobre sua obra, o autor diz que “Meu interesse sempre foi falar do cotidiano, de todos os elementos de uma relação entre um homem e uma mulher. Sedução, primeiro encontro, separação. Não há sentido em contar uma história de amor que termina quando a luz do quarto é apagada.” E mais, sobre a cultura japonesa relata que “por não viverem numa sociedade judaica nem cristã, os japoneses não ensinam suas crianças para que se sintam culpadas com relação ao desejo sexual. O sexo é considerado um jogo. No lugar da culpa, o que eles têm é uma noção de vergonha. Se alguém te olha com olhar desaprovador, aí você sabe que aquilo é ruim. Mas, no quarto, quando os dois estão com as portas fechadas, não existe essa pressão.”
-----------------------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

17 Setembro 2009

Arte de borracharia

De 1900 a meados dos anos 60 artistas como George Petty, Earl Moran, Zoê Mozert, Gil Elvgren, Peter Dribén e Alberto Vasgas se dedicaram a pintar mulheres em trajes sumários e provocantes, num estilo hiper-realista, quase fotográfico. Os críticos de arte esnobavam esse tipo de trabalho, discriminavam com a resposta que era “comercial”. Acusação babal uma vez que obras de arte de um Cézanne ou Renois também são comercializadas. Mas quem responde a essa discriminação são os pesquisadores Vharles G. Martignette e Louis K. Meisel. Em 1966 eles lançaram pela editora Taschen, o livro The Great American Pin Up. São 380 páginas com reproduções em cores de exemplares do gênero.


São as pin ups como os americanos se referem ao que seria essa “arte de borracharia”. Isso porque no começo significava apenas um desenho de mulher na parede da oficina. Ela representava o tipo de mulher que muitas garotas americanas gostariam de ser e, sem dúvida, que os homens gostariam que elas fossem. E nas primeiras seis décadas do século XX não havia suporte gráfico que não os usasse: cartões postais, calendários, baralhos, revistas, cartazes de cinema ou teatro, espelhos, anúncios publicitários, capas de livros e discos.

Num universo dominado pelos valores masculinos, as pin-ups (e outras representações artísticas femininas, como as femme fatales ou as vamps) usaram da sexualidade, a principal arma ao seu dispor, para se contrapor ao poder patriarcal e controlar os homens. Esse fenômeno começou com o aumento da influência da burguesia, o surgimento das modernas técnicas de reprodução na imprensa e a invenção da fotografia. Fatores que possibilitaram a popularização da sensualidade feminina como um produto de consumo.

No decorrer do século 20, o fenômeno evoluiu em diferentes manifestações nas artes. Uma delas misturou sensualidade e bom-humor e criou retratos de garotas com seios volumosos, cinturas finas, pernas longas e torneadas e rostos sensuais. Esses retratos, por terem sido feitos originalmente para serem pendurados nas paredes, e por extensão as garotas que serviram de modelos para eles passaram a ser chamados de pin-ups.


Em fins dos anos 60 os borracheiros deixaram de pendurar as pin ups em suas oficinas, preferindo a página central da revista Playboy (a edição de julho da revista Playboy traz a Mulher Melancia em um ensaio fotográfico que homenageia as pin-ups que marcaram época, como Marilyn Monroe e Betty Page). Mas, além do desprestígio crítico, dos preconceitos da época, e da campanha feminista contra o que consideravam uma “exploração machista” do corpo da mulher (apesar de algumas delas como Mabel Rollins Harris, Pearl Frush, Joyce Ballatyne e Zaê Mozert fazerem sucesso pintando garotas).

Para que vocês apreciem o trabalho desses artistas, observem que a pin up é sensual, glamourosa e moleca, mas nunca ofensivo.
-----------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

16 Setembro 2009

Invenção da baianidade (3)

A cultura baiana não é homogênea. Basta observar a cultura do litoral extremo sul, da região cacaueira, bem diferente da região do rio São Francisco. Ou mesmo do sertão e do oeste. E a culinária com sabores diversos em cada região, o sotaque difere tanto de um lugar a outro. São várias particularidades que diferem uma região da outra, até mesmo nas músicas escutadas nas ruas (em alto volume como se fosse trio elétrico) tem ritmos variáveis. Portanto, falar sobre uma cultura baiana merece um estudo mais aprofundado. Mas, para a maioria dos brasileiros, a Bahia está intimamente ligada à cidade de Salvador que muitas vezes é chamada a Cidade da Bahia.

O conceito de baianidade também conhecido como identidade baiana, idéia de Bahia ou o que faz ser baiano, tornou-se tão frequente que mereceu um verbete no Aurélio, dicionário da língua portuguesa no Brasil: “1. Maneiras, atitudes, sentimento, próprios de baiano. 2. Amor intenso à Bahia, à sua gente, aos seus costumes”. O sociólogo baiano Milton Moura definiu a baianidade como um ethos baseado em três pilares: a familiaridade, a sensualidade e a religiosidade. Assim os conceitos da baianidade (alegria, familiaridade, cordialidade, hospitalidade, sensualidade, religiosidade, primazia) são atributos a todos baianos e passam a ser a marca registrada da Bahia. Mas o baiano também é depreciado – o de ser burro, e do mito de preguiçoso.
Existe a idéia de Bahia como o discurso construído em torno da articulação específica entre povo, tradição e cultura, ideologicamente definidos. A idéia de nação emerge, segundo o pensador Homi Bhabha (A questão do ´outro´: diferença, discriminação e o discurso do colonialismo, 1992), através de narrativas e de discursos, como uma entidade ambígua. O nacionalismo é, por natureza, ambivalente. Um domínio onde interesses privados assumem sentidos públicos. Assim a `cultura baiana´ é um aparelho de interpretação e definição de uma realidade social cruel que foi transformada em festiva. Objeto discursivo construído como argamassa ideológica para a construção do consenso político. As contradições e desigualdades raciais, alto índice de analfabetos permanecem sem resposta no plano das relações sociais concretas.
DISCURSO - “O samba nasceu lá na Bahia”, diz uma canção famosa. A Bahia é considerada como o Estado principal da musicalidade brasileira. A importância creditada à música e aos músicos na construção do discurso de baianidade de baianidade é notável porque são estes a quem é atribuído o papel de representantes oficiais, em,baixadores, porta-vozes da Bahia.

Quando Salvador foi fundada, em 1549, a idéia principal do projeto era torná-la não apenas uma cidade fortaleza, mas o mais importante símbolo do império português nas Américas. Por conta da sua história sócio-política, as Bahia se transformou num território multifacetado.
Do século 16 ao século 18, Salvador e o Recôncavo baiano tiveram uma hegemonia sobre todas as outras regiões. Na capital e no seu entorno, estava o cultivo na cana de açúcar, a rede de engenhos para produzir o açúcar e as vias de transporte e, consequentemente, comunicação com o resto do mundo.
A partir do século 19 a Chapada Diamantina ganha notoriedade com a sua exploração de minério. Depois chega o sul cacaueiro e, por fim ganha proeminência nesta geografia estadual o extremo sul, tendo o turismo como principal atividade econômica e o oeste. A chegada das rodovias, que passaram a ser o ponto de ligação entre as diversas regiões do Estado, ao mesmo tempo que aproximou algumas de Salvador, caso do norte, afastou outras – o oeste e o extremo sul.
O oeste está mais próximo de Brasília e Goiania. O extremo sul a proximidade é maior com o Espírito Santo e com Minas Gerais. Isso fez com que o desenho econômico, cultural e social da Bahia tenha se modificado. A combinação entre a extensão do seu território e uma ênfase na capital as outras regiões baianas se aproximaram culturalmente de estados com os quais faz fronteiras.
TERCIÁRIO - A Bahia que pensávamos conhecer (como lembrou bem o economista Armando Avena) e cuja liderança econômica estava solidamente centrada o setor industrial (gerava 48% do PIB, tendo a indústria de transformação 35% desse percentual) era uma ficção. A verdadeira Bahia é um Estado terciário, fortemente vinculado ao setor de serviços, que gera 60% do Produto Interno Bruto, enquanto a indústria de transformação detém apenas 16% do produto. Essa é a Bahia que está a merecer uma ampla discussão sobre suas prioridades, planos e projetos sobre seu futuro.
CORONELISMO - A Bahia é o terceiro Estado brasileiro com o maior número de parlamentares donos de emissoras de rádio e televisão. O que se convencionou chamar de “coronelismo eletrônico”, ou seja, utilização pelo político de uma concessão estatal para usar veículo de comunicação para influenciar a opinião pública. Apenas Minas Gerais (16) e São Paulo (11) estão à frente da Bahia. Paraná e Piauí, como nove, vão na sequência. Na Bahia, 65 emissoras (radio e TV) estão nas mãos de políticos no exercício de cargo elegível
Perguntas que não ofendem:
Por que os intelectuais silenciam sobre:
O traçado da Ferrovia Oeste Leste?
A localização mais conveniente do Porto Sul?
As perspectivas da agricultura familiar?
A ampliação do Porto de Salvador?
As políticas para reduzir o desemprego, o combate à miséria?

-------------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

15 Setembro 2009

Invenção da baianidade (2)

No terceiro capítulo do livro A Invenção da Baianidade (Agnes Mariano. Ed. Annablume) é analisado o que há de comum, de semelhante, o que se mantém como marca da retórica da baianidade, independente do período histórico. Assim o discurso da baianidade constrói uma explicação do mundo e define um código de conduta. O discurso indica valores, princípios, crenças, normas de conduta, habilidades, aponta problemas, arrisca justificativas, soluções, alimenta esperanças.

A evolução do pioneirismo, o lugar onde as coisas aconteceram e acontecem primeiro, retoma a história do Brasil: “Mamãezinha que morreu/Muita vez me ensinou/Que na Bahia/De iaiá/E ioió/Foi que o Brasil nasceu (Barroso, 1931) ou “O Brasil foi descoberto na Bahia e o resto é interior (Gordurinha e Diniz, 1959)”. E assim os compositores passam a várias derivações: terra tradicional, berço do Brasil, a Bahia é Brasil....
E a autora segue com outros argumentos como ser oriundo da Bahia seria um predicativo marcante e não um dado qualquer, o dever de obedecer aos costumes e repetir a tradição é tão vigoroso que quase não é percebido como um dever. Tem ainda a originalidade, superioridade e primazia. A proteção, o prazer, bem estar físico, equilíbrio mental, sensualidade.
Ao longo das canções analisadas a autora segue pistas de sociólogos, antropólogos e historiadores, além de incluir ao longo do texto elemento da história e cultura local. O isolamento de Salvador em relação ao resto do país, provocado por sua estagnação econômica, a estruturação da indústria do turismo do Estado que estimulou e produziu um discurso da baianidade inspirado numa antiga tradição de crônica de costumes sobre as práticas locais, a ascensão social da população negro-mestiça.
E nas canções dos compositores sobre pioneirismo, proveniência, hereditariedade, primazia, proteção relacionados à tradição e bem estar físico e mental desponta a idéia de conciliação, que pode ser entendida como habilidade para o convívio, para a integração. “O espírito de conciliação pode se expressar na defesa da cordialidade, permitindo a convivência entre opostos, da comunhão, isto é, o compartilhamento entre iguais e diferentes, dos direitos, deveres e experiências e da fusão de elementos distintos gerando algo novo, uma opção transformadora – o sincretismo, a miscigenação, a antropofagia. Trata-se, portanto, de uma vigorosa defesa da adaptabilidade”.
“A discussão sobre identidade cultural – definir a si próprio partindo de uma inserção cultural, coletiva, grupal – é um tema importante e polêmico no momento atual. Primeiro, porque pode conduzir a divergências, desencontros e até a guerras, mas também pode introduzir um elemento significativo, com um poderoso potencial de transformação: a união, a habilidade ou capacidade de convívio (…) Se, no plano das identidades regionais, possivelmente são – Bahia – no campo das relações sociais – e Minas Gerais – no âmbito da política – os dois locais emblemáticos desta capacidade de conciliação, quando o olhar externo se debruça sobre o Brasil, busca muitas vezes este aspecto como uma marca nacional. O que talvez seja um sinal de que esta pode ser uma das mais urgentes e fundamentais contribuições brasileiras a um mundo que já pode e precisa ser um, mas que não consegue superar um velho hábito: o de enxergar em diferenças sutis entre nações, tributos ou etnias, barreiras intransponíveis”.
A Invenção da Baianidade é um livro que deve ser lido como se deliciasse uma fruta tipo graviola, caqui ou cajá, saboreando cada parte com prazer. Tem conteúdo, é agradável de ler com diversas referências musicais e literárias, contextualiza a época em que é analisada a questão. Para presentear os amigos. Vale conferir. Boa leitura!
--------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

14 Setembro 2009

Invenção da baianidade (1)

A Invenção da Baianidade, livro da jornalista e mestre em Comunicação da UFBa e doutoranda em Comunicação na USP, Agnes Mariano, é um ótimo lançamento da editora Annablume. A autora mostra a importância “creditada à música e aos músicos na construção do discurso da baianidade, pois a estes é atribuído o papel de representantes oficiais, embaixadores, uma espécie de porta-vozes da baianidade”. O primeiro capítulo foi dedicado à “Boa terra”, às canções que retratam a Bahia pré-capitalista da primeira metade do século. E dentro do contexto histórico, Agnes Mariano descreve o ritmo da cidade de Salvador na primeira metade do século XX, pela água lenta, tranquila e acolhedora Baía de Todos os Santos.

“A Bahia chegou a ser, no século XIX, o maior centro industrial têxtil do país. Foi perdendo força com o passar dos anos, mas no final do século XIX e início do XX, ainda contava com importantes fábricas, sendo sete em Salvador e três no Recôncavo, a maior delas situada no bairro da Boa Viagem, na cidade Baixa. Boa parte da mão-de-obra era formada por mulheres e menores de idade”. E mesmo com o forte impacto provocado na economia baiana, a partir dos anos 50 (Petrobras, CIA, Pólo Petroquímico), “não foi suficiente, até hoje, para mudar significativamente o modo de vida de um grande contingente da população que, em, fins do século XX ainda permanece semi-analfabeta, desqualificada e sobrevivendo de biscastes”.

E no trabalho são apresentados canções que, cada qual ao seu modo, enunciam um modo baiano de ser e viver, através de narrativas, dissertações e descrições de diferentes aspectos, ritos e qualificativos definidos como próprios dos baianos. Sejam canções de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Riachão, Sinhô, Herivelto Martins ou Gastão Viana. E nas canções da primeira metade do século XX, a presença constante das formas de saudar o sagrado. E nessas referências às práticas religiosas são frequentes a peregrinação ao Bonfim, a entrega de presente a Iemanjá, o uso de amuletos, a louvação do nome das divindades e outras liturgias.
Os hábitos alimentares são práticas constantemente citadas pelos compositores. Há uma estreita vinculação entre alimentação e religiosidade africana. “Uma caraterística muito presente nas canções que falam sobre alimentação é a adjetivação dos pratos e vendedores: comenta-se desde as suas qualidades até o modo correto de preparar os quitutes, de servi-los ou vendê-los, onde as características da vendedora são tão importantes quanto as do produto”. Iguarias, entre salgados e doces, os mais citados são o vatapá, o caruru, a moqueca, o acarajé e o mungunzá.
A discutida sedução do baiano não foi esquecida na pesquisa. “Desinibição, improviso, desenvoltura e ritmo marcam a forma como este desempenho físico ´´e descrito, sendo primordialmente creditado às mulheres, assim como, em décadas subsequentes, as mesmas habilidades serão atribuídas aos homens baianos que se dedicam aos instrumentos percussivos(...) O poder der seduzir e enfeitiçar através da beleza dos movimentos é um tema exaustivamente explorado pelos compositores. As formas de lidar com ele é que variam: motivo de afeto ou temor, razão para se perder o juízo e até para se pensar em casamento”.
Dentro do “modo baiano de ser” - aparência e forma de vestir – o jeito, enquanto uma disposição de espírito, coragem, virilidade são atributos acumulados com a cultura local e se dá através de vários recursos. E como afirma o autor, “em geral, a argumentação está construída sobre um somatório de qualidades”.
O segundo capítulo a Bahia se descobre cada vez mais negra. Salvador cresce, se complexifica e o discurso da baianidade também. O foco agora nas canções é a prática de origem africana e entre os compositores estão Carlinhos Brown, Luís Caldas, Ederaldo Gentil, Gerônimo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Moraes Moreira e Daniela Mercury. Nas canções dos anos 70, 80 e 90 a festa é um assunto quase onipresente. “A festa, o Carnaval e um estado de espírito comumente relacionado a ele assumem ares de elementos centrais na definição de uma ´identidade baiana´ e, agora, nomeia-e explicitamente essa tal ´baianidade´: ´Eu vou atrás do trio elétrico, vou/Dançar ao negro toque do agogô/Curtindo minha baianidade nagô´(Evany, 1991) (…) `Sagrado e profano/O baiano é Carnaval`(Moreira e Armandinho, 1988).
E é nessa capital que o autor detalha com preciosismo a força da religiosidade nas canções da segunda metade do século XX, os ritos de adesão, o sincretismo, emblemas – músicos, bairros e organizações, o bairro do Curuzu onde o Ilê Aiye foi fundado (1974), o Pelourinho com o Olodum (1979), o Candeal com a Timbalada (1993). E assim, nas composições diversas referências ao “jeito baiano” são temas creditados à Bahia como o charme, a disposição pacífica, a hospitalidade,. O despojamento, a altivez. A pobreza e seus derivados (ignorância, sujeira) e o autoritarismo e seus correlatos (clientelismo e submissão). “Onde a gente não tem pra comer/Mas de fome não morre”(Gil, 1965) ou “Baiano burro nasce, cresce/E nunca pára no sinal/E quem pára e espera o verde/É que é chamado de boçal” (Veloso e T.Costa, 1987). Assim nesse discurso da baianidade, várias facetas de uma mesma questão, “pois a tensão e a ambiguidade são inevitáveis”.

------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

11 Setembro 2009

Poesia, poesia, poesia para melhorar o dia-a dia

(Oito poemas para o final de semana)

Tanto

Há tanto para amar, tanto admirar
um rio se diluindo no mar
ou as areias do deserto a contemplar.

Há tanto para sonhar, tanto para realizar
olhar as ondas de areia ou os cardumes de pedras
tudo fruto de terra dentro do agreste mar.

Há tanto para fazer, tanto conhecer
o aflorar do amor adolescente em minha vida
e o rio passando sem pretender ficar.

Não sei se fico ou se vou
de onde vim e aonde vou chegar
só sei o que quero, amar, amar, amar, amar
vivendo nas margens do rio para no deserto fecundar.




Língua


Foi aquela língua solene que cantou louvores
preencheu de rios, abriu os caminhos,
ousou quebrar o livre instante
parou o tempo e instaurou tempestade.

O proibido, o não consentido, o que era carnal
escreveu sobre o meu corpo, letras de puro gosto
enquanto a língua delineava as curvas do perigo
o desejo ampliava a paixão, amor, ternura, tesão.

E as mãos negras espalmadas sobre a minha pele branca
floresceu numa união de corpos preto e branco.
O verde é o que vejo agora sobre o peito nu de esperança
escrevendo o seu nome na pele como pergaminho.

Leio em sua língua, seus contornos
desespero do meu nome que não ousa dizer
murmurando mil vezes contra o vento
como se fosse um mantra suave de prazer.

Há tempo que não me olhas e sentes
muitas vezes vi você ir embora, covardia
e o perfume de sua saliva impregnada em meus segredos
e os dedos sobre minha pele trocando nossos cheiros.

Você estava em uma foto antiga, proibida
e eu tinha um verbo incompleto, incerto.
Verbos impossíveis de tocar ou congregar
quando tocam o céu com a língua.

Quero soletrar minuciosamente o seu nome
em vários tons, várias cores e sabores
para tocar fundo as suas fogueiras
e acender as chamas de todas as maneiras.

Escreve com pena, tinta e saliva
sobre a minha pele úmida
sua marca, seu selo, seu desvelo
para estampar nosso amor sem desprezo.


Anoitecer

O dia se deita diante de mim
e me acorda fazendo assim, assim.
O calor do sol me esquenta mais e mais
e vejo meu caminho na gravura da favela
quem é ela, quem é ela?
Meus olhos cansados não querem se abrir,
as retinas pesadas se fecham enfim,
e volto a me encobrir com o dia
para anoitecer em meu interior,
será sonho ou puro amor?

Chave

Como uma chave na fechadura
um prazer que dura,
sim, na sua boca,
na sua pele,
na onda dos seus cabelos,
nos seus pelos.

Fugindo pela língua, pelos lábios,
esse seu expressar calmo,
que voa direto aos meus sentidos,
causando a chama que arde tremula.
E a minha vida de masculinidade
se mescla com a sua feminilidade.



Oriente

Se você não sabe de onde vem
Nunca saberá pra onde vai.

Se você não sabe o eu quer
Nunca saberá o que fazer.

Se você não gosta de ninguém
Nunca poderá amar você.

Isso é apenas um dilema
Uma teoria, um teorema
Que você poderá desvendar
Com auxílio de alguém ou algo lá
Mas você nunca poderá fazer sozinho
Pois sua vida depende do equilíbrio
Da cuíca, da foice ou um caminho
Qualquer pedra no meio do seu ninho.

Mas o que você precisa saber
Estudar, trabalhar e conhecer
Ver o mundo e saber de seus valores
Suas vivências sensíveis como as cores
Ritmos e gostos de uma pele bronzeada
Seja branco, preto ou amarelada
O que importa e o brilho do saber.
Seja você!


Tradução

Desfamiliarização
É buscar um sentido social
Para me aproximar de você
E sentir um olhar de irônica tristeza
Na bela e feroz delicadeza
Desse amor que é só certeza
Mesmo exilado, tímido e solitário
Somos separados pela semelhança
Mas nada disso falta esperança
Pois no contrário da lembrança
A ausência revela a essência
E hoje paciência, tormenta, existência
Para esperar sua imagem nítida,
Próxima, reluzente, quente
E sentir seu calor.
E nessa aventura de energia, sentimento de urgência,
Dúvida e contradição
Reinvento sua pintura íntima como tradução
Sei que o terreno é minado, e busco não ser tachado
De mera recordação.

Jogo

O mundo de hoje virou um jogo
um jogo de pião da criançada
nesse jogo tudo está interligado.
Resolver contradições não passam
para abrandar essa parábola
a existência aqui é estagnada
e a lógica é pra lá de binária.

Para conhecer a realidade,
pula o rio e nos largamos na correnteza,
aprendendo a ser um com o todo,
ou ficamos na margem desse rio
ou seguimos a correnteza, com certeza.

É difícil suportar as mudanças,
desse mundo exterior,
é melhor começar no interior,
para depois exigir todas as cobranças.

O homem brinca apenas se for humano,
e é inteiramente humano se brincar
quando começamos finalmente a ser humano
nada disso eu posso afirmar.

Só sei que criança joga fora seu brinquedo
quando começa a crescer, mas tudo flui,
tudo nasce, cresce e morre
e a vida continua no alvorecer.

No mundo moderno do trabalho,
cada ação serve a uma outra ação
que por sua vez serve a uma terceira,
e assim infinitamente.

Enquanto estamos presos nesse processo,
sem pensar, sem viver, sem respirar
vamos vivendo satisfatoriamente
sem sentir, sem amar e sem gozar.

Mas pode acontecer um aborrecimento
e tudo pára, tudo pesa, tudo rui,
a angústia toma conta do que não fui
e me faz acordar desse pesadelo.


Canto

Ah esse poema que teima
em não me obedecer,
escorre no papel com tinta e mel
num canto quente de força
de feridas e dissabores.

Esse canto não é de acalanto,
é canto carregado de amargura,
de mágoas e medos, fomes e desejos.

Esse canto que não quer parar
de escorrer na folha em branco,
quer cicatrizar sua pele de banto
e resguardar sua essência de pranto.
------------------------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

10 Setembro 2009

Há 40 anos sem Theodor Adorno

Há 40 anos morria um dos criadores do termo “indústria cultural”. Filósofo alemão de origem judaica, Theodor Wiesengrund Adorno (11/setembro/1903-06/agosto/1969) é um dos nomes mais conhecidos da chamada Escola de Frankfurt, que contribui para o renascimento intelectual da Alemanha após a II Guerra Mundial. E projetou-se como um dos críticos mais ácidos dos modernos meios de comunicação de massa. Ao exilar-se nos Estados Unidos, entre 1938 e 1946, percebeu que a mídia não se voltava apenas para suprir as horas de lazer ou dar informações aos seus ouvintes ou espectadores, mas fazia parte do que ele chamou de industria cultural. Um imenso maquinismo composto por milhares de aparelhos de transmissão e difusão que visava produzir e reproduzir um clima conformista e dócil na multidão passiva.

Adorno era um dos "apocalípticos" em quem Umberto Eco estava pensando quando escreveu seu "Apocalípticos e Integrados". Uma obra central da trajetória de Adorno, a "Dialética do Esclarecimento", foi escrita (em parceria com Max Horkheimer) durante o auge do horror nazista, entre 1941 e 1944. Ter isso em mente ajuda a entender e aceitar a radicalidade das idéias de Adorno, e mesmo sua aparente sisudez.

Foi no seu exílio americano durante a Segunda Guerra Mundial que, junto com Max Horkheimer, Theodor Adorno redigiu a obra Dialética do Iluminismo (1947), uma aproximação crítica e ideológica aos mecanismos de funcionamento da civilização moderna ocidental. Com esta obra, Adorno fundou a Teoria Crítica da Sociedade (também identificada com a Escola de Frankfurt, assim chamada por causa do Instituto de Investigação Social daquela cidade, no qual Adorno e Horkheimer voltaram a fazer pesquisas e lecionar, a partir de 1949). Sob a influência da teoria marxista e dos modernos conhecimentos de psicologia social e cultural, o autor interroga-se por que razão foi tão difícil o pensamento racional, que marcou o Iluminismo do século 18, contribuir para os objetivos de liberdade e autodeterminação do ser humano. Adorno afirma que os dirigentes da economia e da sociedade podem corromper os ideais libertadores da época do Iluminismo para manipularem ideologicamente as pessoas e reprimi-las socialmente. Seria essa a causa, por exemplo, do extermínio dos judeus praticado pelos nazistas. As suas obras do pós-guerra (A Personalidade Autoritária, 1950, e Dialética Negativa, 1966) tiveram uma influência decisiva na formulação teórica do movimento estudantil dos anos 60, apesar de na época ser recente sua participação no ativismo político.

A sua polêmica teórico-científica com o filósofo Karl Popper, revelando profundas implicações políticas, representou uma dura prova para a sociologia alemã. Na história das idéias, tal polêmica ficou conhecida como Discussão do Positivismo na Sociologia Alemã (1971). Para recordar este importante pensador, que também foi músico, crítico musical e compositor, sua cidade natal, Frankfurt, instituiu em 1977 o Prêmio Theodor W. Adorno, concedido a personalidades que se destacam na filosofia e na arte.

INDÚSTRIA CULTURAL

Com o termo “indústria cultural”, o filósofo alemão Theodor Adorno se propõe a explicar a arte consumida pelas massas, uma mercadoria que não é mais produzida pelo trabalho artesanal, mas conforme o modelo da manufatura e da grande indústria. Seu diagnóstico se contrapõe ao do Walter Benjamin (1892-1940). Este confiava no potencial criativo desencadeado pela cooperação e o defendia na expectativa da “politização da arte”. Na perspectiva de Adorno, na indústria cultural, as massas não são o elemento ativo, mas pura passividade. Têm-se assim não apenas uma nova forma de despolitização da sociedade, mas um instrumento de domínio e integração social.

Mas voltando ao ano de 1944, os filósofos Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Adorno (1903-1969), da conhecida Escola de Frankfurt, avançam com o conceito de “indústria cultural” para se referirem à mercantilização da cultura, fruto do desenvolvimento dos media, da tecnologia e da capacidade de reprodução e seriação. Pela primeira vez, a produção dos bens culturais é estudada no contexto global da industrialização da cultura como mercadoria. Esses teóricos partem de uma concepção de “cultura superior”, como a pintura, o teatro ou a literatura, ligada ao sagrado – obras de arte únicas, não reprodutíveis, com “aura” –, para afirmarem que a indústria cultural é o símbolo do anti-iluminismo. Esta visão apocalíptica, que iria influenciar radicalmente os estudos sobre comunicação e cultura de massas, foi descrita no célebre livro “Dialéctica do Iluminismo”, publicado em 1947.

Foi a sociedade americana entre os anos 30 e 40, onde Adorno e Horkheimer estavam exilados, o objeto principal de estudo que serviu de base à emergência do conceito de indústria cultural. Ambos tinham uma vincada cultura clássica e encontraram nos Estados Unidos um ambiente cultural muito diferente, onde o cinema e o jazz se encontravam no auge. É a partir desta vivência que ambos começam a olhar para o cinema, a rádio, a literatura e a música como um negócio e não uma arte, opondo-se ao tipo de conhecimento emergente da investigação norte-americana.

Se a cultura de consumo segue uma estratégia de venda com o objetivo de distrair um público massivo, menos esclarecido, o nível de qualidade da oferta é reduzida, provocando apatia e empobrecimento estético. E é este o ponto de viragem para Adorno e Horkheimer: a verdadeira arte vai sendo substituída por uma série de efeitos e padrões de forma a unificar os gostos: “desde o começo do filme já se sabe como ele termina, quem é recompensado, e, ao escutar a música ligeira, o ouvido treinado é perfeitamente capaz, desde os primeiros compassos, de adivinhar o desenvolvimento do tema (…)”

As mercadorias culturais são valorizadas pela perspectiva do lucro e não pelo seu próprio conteúdo. A “técnica” na indústria cultural refere-se à organização da cultura em si, permanecendo externa à técnica artística, ou seja, é um “parasita”. É desta técnica parasita extra-artística que resulta o pastiche (Gemisch), uma cultura de imitação, em que se conjuga a indústria com os resíduos individualistas. Adorno alude à “aura” de Benjamin, referindo que ela não desaparece, mas é conservada como que petrificada.

Em 1963, numa conferência radiofônica, Adorno faz um resumo sobre os pensamentos expostos no livro “Dialéctica do Esclarecimento”, escrito 20 anos antes. A razão pela qual Adorno e Horkheimer substituíram “cultura de massas” por “indústria cultural” é explícita: este último conceito diferencia-se de forma extrema do primeiro, pois “cultura de massas” pode ser entendida por outros (erradamente) como “uma cultura que emerge espontaneamente das próprias massas, de uma forma contemporânea de arte popular”. A indústria cultural não é de todo espontânea, dado que “promove uma união forçada das esferas de arte superior e inferior, que permaneceram separadas durante milênios”.

Que valor representa a cultura de massa para Adorno, já que a distingue de indústria cultural. A cultura de massa é, no fundo, sinônimo de indústria cultural. O primeiro termo foi substituído apenas para não ser interpretado de um ponto de vista positivo, como uma “verdadeira” cultura popular. A expressão “indústria cultural” tem um propósito político, quase para reforçar os argumentos destes.
--------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

09 Setembro 2009

Presidentes do Brasil (12)

O mineiro conciliador e conservador Tancredo Neves adoeceu logo depois da vitória no Colégio Eleitoral e morreu. Não governou nem um dia. Toma posse o vice, um representante da retrógrada oligarquia do Maranhão, José Sarney para governar quatro anos (1985-1990). Ele queria cinco, e para isso faz a maior distribuição de concessões de rádios e tevês. Inaugurou e consolidou uma relação com o Congresso que está viva até hoje, o “é dando que se recebe” turbinando o processo de corrupção do Brasil. Sarney estava longe de ser o candidato dos sonhos dos brasileiros e poderia ter passado despercebido ao longo de quatro mandatos, não tivesse Tancredo Neves morrido sem chegar a assumir a Presidência. Formado em direito, Sarney foi o último presidente a não ser eleito pelo voto direto e não influiu na sucessão. Com vários planos econômicos (Cruzado, Bresser, Verão) não conseguiu segurar a epidemia inflacionária. Sarney deixou o descontrole da inflação como a grande herança de seu governo. Isso sem falar no “trem da alegria”.

A primeira eleição da Constituição Cidadã de 1988 elege o desconhecido governador das Alagoas, Fernando Collor de Mello (1990-1992). Ele juntou um discurso oposicionista com a moralidade administrativa e conseguiu mobilizar a multidão. Ao chegar no poder congelou as contas bancárias para conter a inflação. Não adiantou. Com a economia enfraquecida, uma turbulência política começou a inviabilizar o governo: acusações de corrupção ficaram cada vez mais intenso. Em vez de mandar apurar, Collor reagia atacando a oposição, o Congresso e a mídia com diversas manifestações, passeatas e protestos, a OAB e a ABI deram entrada no Congresso a um pedido de impeachment do presidente. Para tentar fugir da perda dos direitos políticos, Collor renuncia à Presidência da República.

Foi o mais negro capítulo da história política do Brasil. Assim, com o apoio das elites, o jovem alagoano vence as eleições e o palácio do governo começava a se tornar o centro de uma vasta rede de corrupção e negociatas, na qual projetos só andam se movidos a propina (e ainda continua hoje). Multidões saem às ruas e o presidente sofre impeachment, mas se livra da prisão. Meses depois ele e a esposa estavam numa ilha do Taiti. Mais tarde o casal se muda para Miami, onde o ex-presidente nega ter a Ferrari de US$120 mil e a casa com torneiras folheadas a ouro que estaria construindo... A suposta quadrilha durante a era Collor em Brasília não seria a única a saquear os cofres da nação.

Assume um obscuro político de Minas Gerais: Itamar Franco (1992-1994). Começava a República do Pão de Queijo e o professor e sociólogo Fernando Henrique Cardoso se destaca ao liderar o Plano Real, uma nova fórmula articulada para não permitir que a inflação contaminasse a nova moeda, o Real, e brecar o círculo vicioso do aumento de preços e salários. O plano demonstrava que conseguia conter a inflação já em 1994, no último ano do governo Itamar. Fernando Henrique capitalizou o sucesso inicial e se lançou candidato à Presidência da República.

O governo Itamar entrou para a história menos por seus feitos políticos e façanhas econômicas do que pelas atitudes polêmicas de seu protagonista. Quando ele decidiu proporcionar a milhões de brasileiros a possibilidade de realizar o sonho de adquirir um carro (a Volkswagem voltou a produzir o velho Fusca) a iniciativa lançou as bases de uma nova geração de carros “populares”. O despenteado Itamar acertou errando – ou deu certo sem saber bem por quê.

E para enfrentar o líder popular Luiz Inácio,o professor da USP, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), líder da esquerda intelectual, avançou para o centro (aliou-se a direita representada pelo PFL, hoje Democratas), e montou no cavalo do Plano Real, que o levou para a Presidência da República. Ao assumir o poder FHC não só já não pertencia ao PMDB como fazia questão de deixar claro que abrira mão de várias de suas antigas convicções (“esqueçam tudo que eu escrevi”). Escândalo público e financeiro comprometeram a transparência de seu governo e, embora não envolveu pessoalmente o presidente, rivalizam, pelo menos nos números com a roubalheira dos anos de lama da era Collor.

O controle da inflação proporcionou uma melhoria no poder de compra da população. Para segurar a inflação, o governo autorizou a importação de alguns produtos, e com mais dinheiro a população entendeu que era o liberou geral. O déficit da balança comercial aumentou, obrigando o governo aumentar os juros para atrair capitais especulativos. O arrojo no crédito provocou quebradeira em muitas empresas e o índice de desemprego foi parar nas alturas. Os tucanos mudaram a Constituição e instituíram a reeleição. FHC é reeleito, mas aí vieram as crises internacionais. O remédio foi aumentar as taxas de juros e veio a consequente diminuição do crescimento e aumento do desemprego. A oposição acusou FHC de entregar o Brasil ao capital estrangeiro e provocar uma desnacionalização das empresas brasileiras. A esquerda acusava os tucanos de neoliberalismo. O capitalismo global passou por crises maiores ou menores que comprometeram a estabilidade do segundo período de FHC, atrofiando o crescimento, insuflando a volta da inflação, o aumento da divida pública e a queda da popularidade do presidente e de seus aliados. O governo iniciou um processo de privatização de e,presas estatais, e pôs à venda as empresas de telefonia e comunicações, eletricidade e promoveu a abertura do capital da Petrobras e da Companhia Vale do Rio Doce. Denuncias de propina, de favorecimento de grupos econômicos não faltaram, e incentivaram o slogan: “Fora, FHC!”.

O metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) foi o primeiro trabalhador a assumir a Presidência da República, depois de três derrotas para seus adversários, Collor e Fernando Henrique Cardoso. Lula chegou ao poder apoiado no Partido dos Trabalhadores, que ajudou a fundar, e na esperança de milhares de pessoas de que iria por em praticas as linhas mestras do partido, ou seja, melhoria das condições de vida dos trabalhadores e miseráveis. E o que foi plantado no governo de FHC brotou e cresceu nos dois mandatos de Lula. De retirante nordestino a maior líder sindical da história do país, graças a sua dedicação e tenacidade, eleito o primeiro operário presidente. Assim a sequencia de presidentes da elite (industrial, fazendeiro ou intelectual) foi interrompido. E mesmo com a arrecadação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), o imposto sobre o cheque, os recursos eram destinados para fazer o superávit e pagar a dívida interna. A inflação foi contida, caindo nos anos seguintes. As commodities como soja, carne, minério de ferro, celulose e outras subiram de preço e puxaram o crescimento do PIB, ainda de que de maneira humilde: 1% em 2003; 3,7% em 2006 e 5,3% em 2007.



Para ler:

O Livro dos Políticos, de Heródoto Barbeiro e Bruna Cantele. Ediouro. 2008

História do Brasil – Os 500 anos do país. Folha de S.Paulo. 1997

Viagem pela História do Brasil, de Jorge Caldeira e outros. Cia das Letras. 1997


--------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

08 Setembro 2009

Presidentes do Brasil (11)

De 1979 a 1985 outro general, João Batista Figueiredo foi o escolhido para governar o país. De uma truculência quase caricatural, dono de frases que seriam hilárias se, antes, não soassem absurdas na boca de um presidente militar, Figueiredo foi um retrato fiel das incongruências do Brasil. Se antes, no governo Médice a economia ia bem e o povo mal, no governo Figueiredo tanto a economia quanto o povo foram tremendamente mal. O modelo concentrador de renda e o arrocho salarial fizeram bem a algumas empresas e empresários que lucraram com a inflação e a manipulação de taxas de correção monetária. O novo presidente-general marcou o fim do período militar no Brasil.. Os ventos da abertura sopravam de forma mais consistente. A Lei da Anistia permitiu a volta dos banidos, a liberdade de presos políticos, mas que também anistiou os militares que usaram a força e a tortura para fechar o regime. O regime acabou com o bipartidarismo e a oposição se dividiu.

Em seu governo, em 1982, realizaram-se as primeiras eleições diretas para governador de estado desde 1965. Como presidente, discursou de forma marcante na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, criticando os altos juros impostos pelos países desenvolvidos. Sua gestão ficou inicialmente marcada pela grave crise econômica que assolou o Brasil e o mundo, com as altas taxas de juros internacionais, pelo segundo choque do petróleo em 1979, altos índices recessivos e inflacionários e com a dívida externa crescente no Brasil, além de um aumento na instabilidade social.

Aconteceu em 1981, uma grande seca no nordeste do Brasil, acontecendo saques a armazéns pelos flagelados, e foram criadas frentes de trabalho para gerar renda para as vítimas da seca. Também foi autor do maior programa de habitação da história do Brasil, construindo quase 3 milhões de casas populares - mais do que a soma de toda a história do BNH (Banco Nacional de Habitação, que posteriormente foi incorporado à caixa econômica) implantada pelo então Ministro do Interior Mario Andreazza. Contudo, durante o seu governo ocorreram uma série de atentados terroristas atribuídos a direita, como bombas em bancas de jornais e explosões em organismos que defendiam os direitos humanos. O mais célebre atentado foi o que aconteceu no Riocentro. No local era realizado um show musical popular com a participação de milhares de jovens. Não se sabe se por acidente ou imperícia, uma bomba de alto poder explodiu dentro do carro de agentes do governo, matando um sargento e ferindo gravemente um capitão, ambos do exército. O governo negou conhecimento da operação no Riocentro, mas a partir desse acidente, os atentados cessaram. Foi um dos fatos que mais desmoralizaram a ditadura militar instaurada em 1964, e marcou o início de seu declínio. Em decorrência da não-punição dos autores do atentado, o general Golbery do Couto e Silva, que tinha sido um de seus braços direitos e é considerado por alguns como o cérebro da política de gradual e controlada abertura política, afastou-se de seu governo. Figueiredo atribuia os atentados aos "Bolsões radicais porém sinceros", ou seja, militares da linha-dura que não queriam que a abertura política de Figueiredo fosse em frente por medo de revanchismo caso as oposições chegassem ao poder.

Em 1985, deixou a cargo do PDS a escolha do candidato da situação, não interferindo na escolha de Paulo Maluf, candidato que não apoiava. Foi sucedido na presidência por José Sarney (seu antigo desafeto de partido), vice de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo Congresso Nacional que, embora fosse candidato da oposição, havia recebido apoio até do ex-presidente Ernesto Geisel, com quem se encontrara três vezes. Figueiredo não quis entregar a faixa presidencial a Sarney na cerimônia de posse em 15 de março de 1985, pois o considerava um "impostor", vice de um presidente que nunca havia assumido. Em setembro de 1981 Figueiredo sofre um infarto e seu vice, o mineiro Aureliano Chaves, assume a presidência.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

04 Setembro 2009

Presidentes do Brasil (10)

Em outubro de 1969, o novo presidente, outro gaúcho, General Emílio Garrastazu Médice (1964-1974) assumiu com poderes amplos, apoio militar e dos setores conservadores da sociedade Foi instalado a censura ampla, geral e irrestrita, atingindo em cheio a produção cultural do Brasil e a imprensa. Médice deu início àquela que talvez tenha sido o período mais repressivo da história do Brasil. As denúncias de torturas contra presos políticos correram o mundo durante o ano de 1970 e provocaram um grave embaraço para o governo brasileiro que preferiu atribuí-las a uma campanha da esquerda comunista contra o Brasil. O governo militar declarou guerra aos movimentos armados e partiram para um vale-tudo com mortes, prisões, torturas, sequestros, exílios. A desarticulação do movimento sindical, o crescimento industrial e as condições externas impulsionaram a economia brasileira em 1970. Com isso o governo conquistou o apoio da classe média, ansiosa pelo poder de consumo. Glórias da seleção canarinho de futebol. Tricampeã do mundo. Médice inaugurou a Transamazônica.


Durante seu governo houve um brutal processo de concentração de renda e o crescimento desmedido da dívida externa e do fosso social que separava ricos de pobres. O país ia bem, e o povo, de mal a pior. Os militares que se diziam patriotas trataram muitos símbolos pátrios com as costumeiras truculência. Graças a isso o Brasil de 1970 tinha poetas e cantores no exílio, professores banidos e políticos cassados. Além de desfiles militares e propaganda ufanistas, a ditadura pouco tinha a apresentar ao país. Para louvar a pátria restava o futebol. Como a seleção brasileiro iria disputar a Copa de 70 no México, os generais aproveitaram para transformar o evento numa vítima do país que sonhavam. Substituíram o técnico João Saldanha (militante comunista) e que o novo técnico convocasse o atacante Dário, centroavante de estilo abrutalhado e ídolo do presidente. A comissão técnica era só de militares. “Ninguém segura este país”, dizia o departamento de propaganda do governo. Data da época deste governo a famosa campanha publicitária cujo slogan era: "Brasil, ame-o ou deixe-o" inspirada no dístico conservador americano "Love it or leave it". É inaugurada a ponte Rio-Niterói. Médice deixou o governo antes da crise econômica que se abateu sobre o mundo e atingiu em cheio o Brasil. O sucessor do presidente Médice foi escolhido também por uma eleição nos quartéis, no qual votaram apenas os oficiais superiores das três armas. Em 1974, o vencedor foi o general Enesto Geisel.


Outro general, desta vez outro gaúcho Ernesto Geisel (1974-1979) assumiu a presidência com a missão de iniciar o processo de abertura no país e de levar de volta os militares para os quartéis. Com o fim do milagre brasileiro e o sonho de consumo da classe média, sobrou para o general pegar uma pedreira pela frente, com o aumento do preço do petróleo no mercado mundial, o início da recessão, alta da inflação, perda do poder aquisitivo do salário e a vitoria da oposição em vários estados da federação. Geisel manteve as rédeas do poder graças ao Pacote de Abril, enfiado goela abaixo do Congresso que impunha um mandato de cinco anos para o presidente, entre outras coisas. Tortura e mortes à sombra da falta de liberdade de imprensa. Mais tarde, com o fim da censura nos meios de comunicação abriu uma enxurrada de críticas ao governo. A crise que se abateu sobre o país deixou claro que o regime tinha se esgotado. Mesmo com todas as crises políticas e econômicas, Geisel não apenas seria o único general-presidente a fazer seu sucessor (depois de vencer a quebra-de-braço com o general Silvio Frota, da linha dura) como conseguiria cumprir a promessa de concretizar sua “abertura lenta e gradual”. No dia 1º de janeiro de 1979, extinguiu o AI-5. Em março João Figueiredo tomou posse.
--------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

03 Setembro 2009

Presidentes do Brasil (9)

De 1961 a 1964 o vice João Goulart volta ao poder. Em seu governo é inaugurado o campus da Universidade de Brasília e criada a Eletrobrás. Ao se tomar presidente com seus plenos poderes restaurados não trouxe tranquilidade para Jango. Ele assumia a chefia de um país cada vez mais polarizado, volátil e inquieto. Constantemente fustigado pela esquerda (que queria reformas imediatas) e pela direita (que temia qualquer avanço social), Jango foi pego entre dois fogos. Após anos de democracia, a sociedade civil estava dividida mas organizada. Para uns, jango era visto como “frouxo” e para outros, como um “incendiário”. A economia continuava com uma taxa inflacionária elevada e, com San Tiago Dantas como ministro da Fazenda e Celso Furtado no Planejamento, lançou-se o Plano Trienal, um conjunto de medidas que deveriam solucionar os problemas estruturais do país. Entre as medidas, previa-se o controle do déficit público e, ao mesmo tempo, a manutenção da política desenvolvimentista com captação de recursos externos para a realização das chamadas reformas de base, que eram medidas econômicas e sociais de caráter nacionalista que previam uma maior intervenção do Estado na economia.


Nomeado chefe do Estado-Maior do Exército pelo então presidente da República João Goulart em 1963, Castelo Branco foi um dos líderes militares do Golpe de Estado de 1º de abril de 1964, que depôs João Goulart. Como na sua posse a Constituição de 1946 continuava em vigor, Castelo Branco foi eleito para terminar o mandato de cinco anos iniciado por Jânio Quadros em 31 de janeiro de 1961. Assim, Castelo Branco deveria governar até 31 de janeiro de 1966. Porém, posteriormente, seu mandato foi prorrogado e foram suspensas as eleições presidenciais previstas para 3 de outubro de 1965. Seu mandato foi prorrogado e Castelo Branco governou até 15 de março de 1967, sendo substituído pelo general Costa e Silva que fora eleito pelo Congresso Nacional em 3 de outubro de 1966.

Durante seu mandato, Castelo Branco aboliu todos os partidos políticos através do Ato Institucional número 2. Foram criados a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que se tornaram os únicos partidos políticos brasileiros até 1979. Ele promoveu reformas econômicas e tributárias e foi sucedido pelo seu ministro de Guerra, marechal Costa e Silva. Castelo Branco e seus copartidários tinham como plano fazer a Revolução de 1964, como foi chamado o golpe militar, para afastar por um curto período o "perigo comunista" representado por João Goulart, para, depois, restabelecer a democracia. Contudo, seu sucessor Costa e Silva tinha um pensamento contrário, pertencendo à chamada "linha dura", sendo, portanto, quem consolidou de fato a ditadura militar no Brasil.

Pela primeira vez os militares subiram ao poder pela primeira vez através de um golpe de Estado e referendado pelo Congresso Nacional. O general cearense Humberto Castelo Branco governou de 1964 a 1967. Sob a bandeira de combater a corrupção e acabar com a ameaça comunista, os militares se prepararam para ficar no poder por muito tempo. E iniciou uma retaliação contra as lideranças políticas da oposição e da esquerda. Baixou o Ato Institucional nº2 que acabou com todos os partidos, criando apenas dois: a Arna (apoiava o governo) e o MDB (oposição). O ato suspendeu as eleições diretas para a Presidência da República e estabelecia que a escolha seria feita pelo Congresso Nacional.

O general, gaúcho, Artur da Costa e Silva (1967-1969) é empossado. Ele dirigia o país de forma cambaleante, o que estimulou a ação de intelectuais, festivais de música e de teatro que criticava o governo, imprensa com tablóides de oposição ao regime, passeatas de estudantes e professores nas ruas, inicio da luta armada da extrema esquerda para estabelecer um governo revolucionário. O regime baixou o Ato Institucional 5 que fechou de vez as possibilidades políticas e endureceu o regime. Houve um confronto armado entre o governo e setores da oposição. Costa e Silva não resistiu à pressão e teve uma trombose cerebral, sendo substituído por uma junta militar. O regime se consolidou pela força.

_____________________________________________________________
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

02 Setembro 2009

Presidentes do Brasil (8)

Getúlio Vargas (1951-1954) volta ao poder “nos braços do povo”. Porém, dessa vez, não sairia mais do palácio do governo – pelo menos, não vivo. O país com o qual Vargas deparou era muito diferente daquele que comandara cinco anos antes. O país se debatia entre o nacionalismo, o entreguismo e o estatismo. Firmando a imagem do “Pai dos Pobres”” e pressionado pelos sindicatos, ele começa a afastar-se dos Estados Unidos, cria a Petrobras, faz uma lei sobre remessa de lucros para o exterior. Mas o escândalo que derrubou Vargas foi a tentativa de tramar o assassinato do mais ruidoso e radical de seus opositores: o jornalista Carlos Lacerda. Cria o Programa Nacional de Petróleo e da Petrobras. No Brasil, ganhava vida as chanchadas, filme de comédia e música que tinham nascido no anos 40. Era o auge do rádio. Ele ditava moda, criava ídolos, transmitia emoções, registrava a história.


Café Filho, advogado nascido no RGN. Com o suicídio de Vargas, em 1954, assumiu a Presidência, Café Filho, exercendo o cargo até novembro de 1955. Nesta ocasião, ante os indícios cada vez mais evidentes de que não defenderia a posse do candidato eleito à Presidência, Juscelino Kubitscheck, foi afastado (a princípio temporariamente e depois definitivamente) da Presidência por um movimento político-militar liderado pelo general Teixeira Lott, culminado no Movimento de 11 de Novembro.


O populismo desenvolvido na Era Vargas ganhou novos adeptos no período da República liberal pós-1946. O simpático, bem-humorado, sorridente e falante médico Juscelino Kubitschek (1956-1961) assume a presidência com a bandeira do desenvolvimentismo. Sua meta era mudar a capital federal do litoral para o centro-oeste. “Brasília, a capital da esperança”. O novo impulso estava baseado no incentivo à indústria de transformação, e para isso era essencial atrair empresas estrangeiras que fabricassem produtos com tecnologia importada e incentivar novas fábricas de capital nacional. A indústria automobilística foi o motor desse novo impulso e do mergulho do Brasil no mundo dos investimentos capitalistas internacionais. A urbanização, a ascensão da classe média e as mudanças nas relações do trabalho formariam o mercado comprador dos novos produtos. Era o país entrando na era do consumismo. Em seu mandato presidencial, Juscelino lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento, também chamado de Plano de Metas, que tinha o célebre lema "Cinquenta anos em cinco". O plano tinha 31 metas distribuídas em seis grandes grupos: energia, transportes, alimentação, indústria de base, educação e — a meta principal — Brasília. Visava estimular a diversificação e o crescimento da economia, baseado na expansão industrial e na integração dos povos de todas as regiões com a nova capital localizada no centro do território brasileiro.

O líder populista de São Paulo, Jânio Quadros se colocou com o discurso de varrer a corrupção do país. “O homem do tostão contra o milhão” que iria “sanear” a nação. E ele assume a presidência em 1961. Foi eleito presidente em 3 de outubro de 1960 pela extinta UDN (União Democrata Nacional), para o mandato de 1961 a 1966, com 5,6 milhões de votos - a maior votação até então obtida no Brasil - vencendo o marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos. Porém não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro. Os eleitos formaram a chapa conhecida como chapa Jan-Jan. Qual a razão do sucesso de Jânio Quadros? Castilho Cabral, presidente do antigo Movimento Popular Jânio Quadros, sempre se perguntava por que esse moço desajeitado conseguiu realizar, em menos de quinze anos, uma carreira política inteira - de vereador a Presidente da República - que não tem paralelo na história do Brasil.

Jânio não alcançou o poder na crista de uma revolução armada, como Getúlio Vargas. Não era rico, não fazia parte de algum clã, não tinha padrinhos, não era dono de jornal, não tinha dinheiro, não era ligado a grupo econômico, não servia aos Estados Unidos nem à Rússia, não era bonito, nem simpático. O que era, então, Jânio Quadros? Jânio representava a promessa de revolução pela qual o povo ansiava. Embora Jânio fosse considerado um conservador - era declaradamente anticomunista - seu programa de governo foi um programa revolucionário. Propunha a modificação de fórmulas antiquadas, uma abertura a novos horizontes, que conduziria o Brasil a uma nova fase de progresso, sem inflação, em plena democracia. Assumiu a presidência (pela primeira vez a posse se realizava em Brasília) no dia 31 de janeiro de 1961. Embora tenha feito um governo curtíssimo - que só durou sete meses - pôde, nesse período, traçar novos rumos à política externa e e orientar, de maneira singular, os negócios internos. A posição ímpar de Cuba nas Américas após a vitória de Fidel Castro e a descoberta da África, um novo continente, mereceu sua atenção. Um mestre inato da arte da comunicação, Jânio, no intuito de se manter diariamente na "ribalta", utilizava factóides como a proibição do biquíni nos concursos de miss, a proibição das rinhas de galo, a proibição de lança-perfume em bailes de carnaval, e a tentativa de regulamentar o carteado. Ao condecorar Che Guevara muita gente não gostou e ele alegou “forças ocultas” que agiam contra ele, não o deixando governar, e num blefe, apresentou sua renúncia. O Congresso, para surpresa sua, acatou o pedido.

_________________________________________

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

01 Setembro 2009

Presidentes do Brasil (7)

O carioca (e paulista por adoção e opção) Washington Luís Pereira de Souza (1926-1030) foi o último presidente da República Velha. Grande administrador, conciliador, modernizou a Força Pública, atual Polícia Militar, criou as feiras-livres de alimentos, reformou o Museu do Ipiranga, construiu e inaugurou o Monumento da Independência. Restabeleceu a imigração européia, interrompida pela Primeira Guerra, para as lavouras de café. Criou um tribunal rural para dirimir conflitos entre colonos e fazendeiros. Criou colônias agrícolas, criou várias faculdades de farmácia e odontologia no interior do estado, modernizou o Arquivo do Estado de São Paulo. Uma das marcas da sua administração era o slogan “governar é abrir estradas”. Fez o Rio-Petrópolis, que mais tarde receberia seu nome e seria a primeira rodovia asfaltada do Brasil. Terminou a rodovia São Paulo-Rio, iniciado no seu mandato como governador de São Paulo. A quebra da Bolsa de Nova York, em 1929 e a tentativa do presidente de fazer do paulista Júlio Prestes seu sucessor tornaram reais essas duas terríveis ameaças. E uma revolução acabaria derrubando o governo.


Getúlio Vargas deu um golpe de Estado no mais puro estilo latino americano e ficou no poder 15 anos (1930-1945). No seu governo, o Brasil teve duas Constituições (a de 1934, com características liberais, e a de 1937, batizada de Polaca, por sua inspiração polonesa e fascista). O “pai dos pobres”, como gostava de ser chamado, instituiu medidas simpáticas à população: fixou o salário mínimo (1940) e a legislação do trabalho (instituição da carteira profissional, jornada diária de oito horas de trabalho, salário mínimo, regulamentação do trabalho feminino, e de menores nos estabelecimentos comerciais e industriais). A época era de ditadores: ascensão de nazistas, franquismo e do salazarismo. Surgia um Estado forte, paternalista, centralizador e nacionalista. Acabava-se o federalismo da “república dos fazendeiros”. A intervenção do Estado na economia crescia: os sindicatos e as relações trabalhistas passaram a ser controladas pelo governo. Empresas estrangeiras era obrigadas a ter dois terços de empregados brasileiros e a pagar um tributo de 8% sobre os lucros enviados ao exterior. Vargas se sentia forte o bastante para tentar perpetuar-se no poder.

Assume o poder o marechal mato-grossense Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) que mandou fechar os cassinos e proibiu o jogo de azar no Brasil. O início do seu governo coincidiu com o da Guerra Fria, o que levou ao alinhamento com os Estados Unidos. Em consequência, o Brasil rompeu relações com a União Soviética e fechou mais uma vez o Partido Comunista. Uma nova Constituição foi promulgada em 1946. Começaram a ser construídos a usina hidrelétrica de Paulo Afoso, na Bahia, e a rodovia Presidente Dutra, ligando o Rio a São Paulo (a via Dutra). Foi criado a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e em 1949, a Escola Superior de Guerra. O governo Dutra foi marcado por uma política econômica liberal, com rápido esgotamento das reservas cambiais acumuladas durante a guerra e uma severa política de arrocho salarial. Afastou o país do bloco socialista do leste europeu. Em 1947, colocou o Partido Comunista Brasileiro na ilegalidade, sob a alegação de que o PCB servia aos interesses da União Soviética - com a qual o Brasil rompeu relações diplomáticas em 1948. Definitivamente deve-se a Dutra boa parte da influência dos Estados Unidos sobre o Brasil nas décadas seguintes. Dutra era uma figura caricata, sobre a qual surgiram muitas piadas. Uma delas contava que, ao ser cumprimentado por Truman, que dissera “How do you do, Dutra?”, o marechal de imediato respondeu: “How tr you tru, Truman?”.

De caráter desenvolvimentista, Eurico Dutra reuniu sugestões de vários ministérios e deu prioridade a quatro áreas: Saúde, Alimentação, Transporte e Energia (cujas iniciais formam a sigla SALTE). Os recursos para a execução do Plano SALTE seriam provenientes da Receita Federal e de empréstimos externos. Entretanto, a resistência da coalizão conservadora e a ortodoxia da equipe econômica acabaram por inviabilizar o plano, que praticamente não saiu do papel. O governo de Dutra iniciou a ligação rodoviária do Rio de Janeiro a São Paulo pela estrada que hoje é conhecida como Rodovia Presidente Dutra, uma das mais importantes do país. Foi durante sua gestão na Presidência da República que surgiram o Conselho Nacional de Economia, as Comissões de Planejamento Regional e o Tribunal Federal de Recursos. Em seu governo foi elaborado o Estatuto do Petróleo, a partir do qual tiveram início a construção das primeiras refinarias e a aquisição dos primeiros navios petroleiros. A administração Dutra pôs em funcionamento a Hidrelétrica de Paulo Afonso.

Durante seu governo foram extintos os territórios federais de Ponta Porã e Iguaçu. Uma de suas medidas mais polêmicas foi certamente a proibição do jogo no Brasil, em 30 de abril de 1946. Em 18 de setembro de 1950, foi inaugurada a TV Tupi, a primeira emissora de televisão do Brasil. Entre 24 de junho e 16 de julho daquele ano, o Brasil sediou a Copa do Mundo, em cuja partida final a equipe do Uruguai derrotou o Brasil dentro do Estádio do Maracanã e levantou o título de campeão mundial de futebol.

-------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

31 Agosto 2009

Presidentes do Brasil (6)

O paraibano jurista Epitácio Pessoa (1919-1922) governou o país numa época de transformações. Ele estava na França como senador participando com uma enorme delegação (com todas despesas pagas pelo contribuinte brasileiro) da Conferência de Paz. E ao retornar ao país com o seu “navio da alegria” descobriu que era o novo presidente do Brasil. Foi o primeiro nordestino a comandar a nação – e revelou-se muito mais ousado e autoritário do que seus aliados poderiam supor. Em 1922, acontecia a incomparável Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Surgiram as sufragistas, reivindicando o direito ao voto feminino – que só seria conseguido em 1932. Os chargistas trabalhavam como nunca. Levou a cabo algumas obras contra a seca no Nordeste. Foram construídos duzentos e cinco açudes, duzentos e vinte poços e quinhentos quilômetros de vias férreas locais. Isso, no entanto, não bastou para satisfazer a insustentável situação de penúria da população local. Cuidou também da economia cafeeira, conseguindo manter em nível compensador os preços do principal produto de exportação brasileiro à época.


No início de seu governo, compreendendo que a prosperidade decorrente dos negócios efetuados durante a guerra tinha bases acidentais e transitórias, empreendeu uma severa política financeira, chegando mesmo a vetar leis de aumento de soldo às Forças Armadas. Seu governo foi marcado por intensa agitação política. No campo artístico, destacou-se a Semana de Arte Moderna, ocorrida em São Paulo, que buscava instituir novo modo de fazer arte no Brasil. Pretendiam fugir das concepções puramente europeias e criar um movimento tipicamente nacional. O radicalismo da fase inicial do movimento chocou inúmeros setores conservadores, que se viram ridicularizados pelos novos artistas. Lideravam o movimento: Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, entre outros.

No governo de Epitácio Pessoa, as comemorações do centenário de nossa Independência foram marcadas pela realização de uma grande Exposição Internacional, visitando nessa ocasião o Brasil o presidente da república portuguesa, Antônio José de Almeida. Pouco antes, havia sido recebido o rei dos belgas, Alberto I. Em relação à família imperial brasileira, teve Epitácio Pessoa um gesto simpático, revogando a lei de banimento. No campo político, válido é assinalar a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1922. Trouxe grande repercussão o novo partido, já que deu nova orientação e organização ao movimento operário. Os trabalhadores, influenciados pelos ideais da Revolução Russa de 1917, abandonaram progressivamente o anarquismo em favor ao socialismo. As oligarquias, naturalmente, não viam com bons olhos a organização proletária, buscando dificultar ao máximo sua atuação. O final de sua administração foi muito conturbado. A campanha do futuro presidente Artur Bernardes foi desenvolvida em meio a permanente ameaça revolucionária. Os estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco não concordavam com a candidatura oficial de Artur Bernardes e lançaram a candidatura de Nilo Peçanha, caracterizando uma segunda crise na política das oligarquias.

O advogado mineiro Artur da Silva Bernardes (1922-1926) toma posse como presidente da República. O estado de sítio era constante. Restrições dos direitos individuais, limitação do habeas-corpus, censura à imprensa, crimes políticos que não prescreviam. A Coluna Prestes durante três anos percorreu o país de alto a baixo. É feita a reforma da Constituição de 1891. Costa e silva não resistiu à pressão e teve uma trombose cerebral, sendo substituído por uma junta militar. O regime se consolidou pela força. O descontentamento com sua vitória e com o governo de seu antecessor, Epitácio Pessoa, foram algumas das causas do chamado Levante do Forte de Copacabana, primeira ação do movimento tenentista. Bernardes teve que fazer frente à coluna Prestes, movimento tenentista que percorreu o país pregando mudanças políticas e sociais e que jamais foi derrotado pelo governo. Além da oposição por parte da baixa oficialidade militar (incentivados pela revolução comunista), ele ainda confrontou uma guerra civil no Rio Grande do Sul, onde Borges de Medeiros tentava se eleger presidente do estado pela quinta vez consecutiva, e também o movimento operário, que se fortalecia novamente.


Em 1923 e 1924 ocorreram novas ações tenentistas no Rio Grande do Sul e em São Paulo, respectivamente. Tudo isso levou Bernardes a decretar quase que ininterruptamente o estado de sítio. Artur Bernardes foi o pioneiro da siderurgia em Minas Gerais e sempre se bateu pela ideologia nacionalista e de defesa dos recursos naturais do Brasil. Sob seu governo, o Brasil se retirou da Liga das Nações em 1926. Bernardes promoveu a única reforma da Constituição de 1891, reforma que foi promulgada em setembro de 1926 e que alterava principalmente as condições para se estabelecer o estado de sítio no Brasil. Após deixar o governo, foi eleito senador em 1929. Foi contrário à ascensão de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada ao governo de Minas Gerais mas não pode evitá-la. Bernardes participou da chamada Revolução de 1930, que deslocou a oligarquia paulista do domínio federal; no entanto, a seguir participou da Revolução Constitucionalista de 1932. Fracassado esse último movimento, Artur Bernardes foi obrigado a retirar-se para o exílio em Portugal.

---------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

28 Agosto 2009

Presidentes do Brasil (5)

O governo do mineiro Venceslau Brás Pereira Gomes (1914-1918) coincidiu com a Primeira Guerra Mundial. Ele adotou uma política financeira de austeridade diante da crise das importações: as importações mundiais diminuíam e as nossas só aumentavam. Em seu governo foi aprovado o Código Civil (1916) e teve fim a luta do Contestado. Mas o verdadeiro flagelo do período foi a gripe espanhola que matou mais de 600 mil só no Brasil. Candidato único, logo de início teve de combater a Guerra do Contestado (crise herdada do governo anterior) e, após debelar a revolta, mediou a disputa de terras entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, tendo sido um dos fatores a dar origem ao conflito. Venceslau Bras definiu em 1916 os atuais limites entre Paraná e Santa Catarina. Enfrentou também diversas manifestações militares, entre elas a Revolta dos Sargentos (1915), que envolvia suboficiais e sargentos.

Promulgou o primeiro Código Civil brasileiro, que entrou em vigor em 1 de janeiro de 1916 e que foi a primeira lei a grafar o nome Brasil com a letra S. O torpedeamento de navios brasileiros, em 26 de outubro de 1917, por submarinos alemães, levou o Brasil a entrar na Primeira Guerra Mundial. Os navios brasileiros à procura de submarinos alemães travaram a Sangrenta Batalha do Toninhos, confundindo essa espécie de boto como seus inimigos, mataram dezenas deles. Devido às dificuldades em importar produtos manufaturados da Europa durante o seu mandato, causadas pela guerra, Venceslau Brás incentivou a industrialização nacional, porém de forma inadequada, já que o país ainda era essencialmente agrícola, e o governo necessitava de armamentos bélicos que requeriam uma indústria mais sofisticada que a do Brasil de 1914. Durante o quatriênio de Hermes, porém, Brás se revelou o mesmo ausente, passando a maior parte do tempo em sua fazenda, em Itajuba (MG). Em seu governo, revelou-se o tipo político mineiro: reticente e ardiloso, afastou-se do senador Pinheiro Machado. Com a ajuda de um empréstimo, tentou equilibrar as finanças do país.

Outro mineiro Delfim Moreira da Costa Ribeiro (1918-1919) teve mandato curto, só de oito meses, que ficou conhecido como regência republicana. Vice-presidente de um Rodrigues Alves eleito pela segunda vez, assumiu no lugar do presidente eleito, que morreria pouco depois, de gripe espanhola (mais tarde é homenageado dando seu nome à cidade de Presidente Alves, e considerado hoje o presidente que mais se preocupou com a população da República Velha). Delfim, na verdade, não estava em condições de governar, pois sofria de um tipo de arteriosclerose precoce. Durante o período de regência, quem governou de fato foi seu ministro de Viação, Afrânio de Melo Franco. No seu governo, o Brasil se fez representar na Conferência de Paz em Paris, pelo senador Epitácio Pessoa, eleito presidente em 13 de maio, em disputa com Rui Barbosa. Logo após a volta do novo presidente do exterior, Delfim Moreira passou-lhe o cargo, voltando à vice-presidência.

Seu curto mandato (que ficou conhecido como regência republicana) foi um período assinalado por vários problemas sociais, especialmente um grande número greves gerais. Delfim Moreira sofreu durante sua presidência de uma doença que o deixava totalmente desconcentrado e desligado de suas tarefas, sendo que, na prática, quem tomava as decisões era o ministro Afrânio de Melo Franco. Reformou a administração do território do Acre, republicou o Código civil brasileiro com várias correções ao texto original de 1916. Decretou intervenção no estado de Goiás.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

27 Agosto 2009

Presidentes do Brasil (4)

O conselheiro mineiro Afonso Augusto Moreira Pena (1906-1909) assume a presidência. Seu governo opôs resistência à continuidade da política de valorização do café. A implementação da política de valorização do café se revelou um enorme sucesso e ajudou a quitar os compromissos externos e ainda obter imenso lucro. Disponibilizou recursos necessários para que Cândido Rondon realizasse a ligação no telégrafo do Rio de Janeiro à Amazônia. Foi, talvez, o único mulato presidente do Brasil. Durante seu governo, foi editado um decreto instituindo o uso da faixa presidencial no Brasil, sendo ele mesmo o primeiro presidente a usá-la e o primeiro a passá-la a seu sucessor. Desde então, todos os presidentes a recebem na ocasião da posse. Pena promoveu a criação de parques industriais, incentivou a construção de linhas férreas, modernizou os portos de Recife, Vitória e Rio Grande so Sul. Promoveu a conquistado Oeste, a cargo de Rondon, e organizou a Exposição Nacional de 1908, para mostrar que o Rio de Janeiro se civilizara.

Morre o presidente Afonso Pena e assume seu vice, o carioca Nilo Procópio Peçanha (1909-1910).Peçanha procurou montar um ministério de conciliação e fazer um governo moderado e pacifista. Ele manteve o país sob relativo controle até o fim de seu mandato, em novembro de 1910. Deu prosseguimento à política fiscal e financeira de Afonso Pena, continuou a incentivar a construção de estradas de ferro (para escoar o café) e de frigoríficos. Ele deu ênfase à construção de ferrovias e em questões sociais (Serviço de Proteção aos Índios, Escola de Aprendizes Artífices).

O gaúcho Hermes Rodrigues da Fonseca (1910-1914) foi o primeiro militar eleito à presidência em pleito direto. Era sobrinho do marechal Deodoro. Sua eleição foi resultado da falta de acordo entre as lideranças paulistas e mineiras, e da emergência no cenário político da aliança do Rio Grande do Sul com os militares, rompendo assim a “política do café-com-leite”. Logo no início da sua gestão eclodiu a Revolta da Chibata, um levante de marinheiros que se opunham ao regime de castigos físicos em vigor na Marinha. Estoura também o Conflito de Juazeiro cuja figura central foi o padre Cícero, líder religioso venerado por camponeses do sertão do Cariri.

Depois de conseguido o objetivo, o fim da aplicação da Chibata na Marinha, e concedida a anistia a todos os mais de dois mil marinheiros amotinados, o governo traiu sua palavra e começou um processo de expulsão de marinheiros. O primeiro motim, já controlado, foi seguido de um levante no batalhão de fuzileiros navais sem causa aparente. O Marechal Hermes ordenou o bombardeio aos portos e colocou o país em estado de sítio. Mais de 1200 marinheiros foram expulsos e centenas foram presos e mortos. Apesar de ser bastante popular quando eleito, sua imagem ficou bastante abalada depois da revolta. Logo outra revolta veio conturbar o seu governo, a Guerra do Contestado, que não chegou a ser debelada até o fim de seu governo. Hermes da Fonseca foi um dos dois únicos militares a chegar na Presidência de forma direta e eleitoral. O outro foi Eurico Gaspar Dutra. Em 1912, já tido como “uma nulidade”, Hermes se casou com a caricaturista Nair de Teffé. A “linda donzela, cujos dotes de espírito lhe inspiraram tão violenta paixão”, fez com que o presidente se esquecesse de governar. O país caía nas mãos ardilosas do senador Pinheiro Machado.
------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)

26 Agosto 2009

Presidentes do Brasil (3)

O advogado paulista Manoel Ferraz de Campo Sales (1898-1902) assumiu a presidência de um país falido. O excesso de gastos por causa das despesas militares (Revolta da Armada, a Revolução Federalista e a campanha de Canudos) tinha esvaziado os cofres. Sua política dos estados fortaleceu as oligarquias regionais, o que lhe permitiu a aprovação pelo Congresso do seu projeto de saneamento das finanças públicas. O governo assumiu o controle direto do Banco da República do Brasil que, em fins de 1905, passaria por nova fase jurídica, recuperando o nome de Banco do Brasil. Seu governo instituiu o casamento civil, a promulgação dos Códigos Penal e Comercial, e a abolição da exigência de passaporte em tempo de paz. Campos Sales foi o primeiro presidente brasileiro a viajar ao exterior. Recebeu o apelido de Campos Selos, por causa do imposto do selo, sendo vaiado ao deixar a presidência por causa de sua política de ajuste financeiro que fora mal compreendida pela população brasileira.

Foi um dos presidentes mais impopulares da história do Brasil. Afinal, a agricultura, a indústria e o povo foram prejudicados no seu governo. Ele criou a chamada “política dos governadores” que perduraria até a Revolução de 30. Ao ignorar os partidos para apoiar os governadores estaduais, criou a “degola política”, institucionalizou a fraude eleitoral e converteu a federação em feudos eleitorais. Criou a política de “café com leite” - a aliança entre São Paulo e Minas Gerais, que passaram a se alternar no poder.

Assume o poder o carioca Francisco de Paula Rodrigues Alves (1902-1906) enfrentando a onda de epidemias e doenças na Capital Federal. Conselheiro nos tempos do império, abolicionista, jornalista e chefe de redação do jornal “16 de Junho”, juiz de direito, ele remodelou, embelezou e saneou o Rio de Janeiro. O porto foi ampliado, os velhos quarteirões de cortiços demolidos e os moradores transferidos para a periferia, para se poder abrir ruas e construir novas avenidas. A vacina obrigatória gerou uma série de manifestações populares. Rodrigues Alves foi o último paulista a tomar posse como presidente do Brasil. Foi eleito duas vezes, cumpriu integralmente o primeiro mandato (1902 a 1906), mas faleceu antes de assumir o segundo mandato (que deveria se estender de 1918 a 1922).

Seu governo foi destacado pela campanha de vacina obrigatória (que ocasionou a Revolta da Vacina), promovida pelo médico sanitarista e ministro da Saúde Osvaldo Cruz, e pela reforma urbana da cidade do Rio de Janeiro, realizada sob os planos do prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Pereira Passos, que incluiu, além do remodelamento da cidade, a melhoria de estradas de ferro e a construção do Teatro Municipal. Ocorreu também em seu governo a chamada revolta da Escola Militar. Houve também o Convênio de Taubaté, que foi a primeira política de valorização do café. Esse convenio reuniu São Paulo,Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os três estados decidiram que o governo federal compraria e estocaria as sacas de café para evitar a queda de preço. Também determinaram um imposto de três francos por saca exportada. Sua administração financeira foi muito bem sucedida. O presidente dispunha de muito dinheiro, já que seu governo coincidiu com o auge do ciclo da borracha no Brasil, cabendo ao país 97% da produção mundial. Em 1903, Rodrigues Alves comprou a região do Acre da Bolívia, pelo Tratado de Petrópolis - processo conduzido pelo então diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior (barão do Rio Branco). Em seu primeiro mandato, o vice-presidente eleito foi Francisco Silviano de Almeida Brandão, que faleceu; quem assumiu a vice-presidência foi Afonso Pena. Deixou a presidência com grande prestígio, sendo chamado "o grande presidente". Após Rodrigues Alves, nenhum paulista governou o Brasil, exceto por alguns dias apenas Ranieri Mazzilli e Ulisses Guimarães.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela)