12 julho 2016

A natureza humana pela ótica de Calvin (3)



As aventuras de Calvin & Haroldo falam a todos nós, remetendo a experiências comuns a nossas
vidas. Quem nunca achou a escola uma prisão? Quem nunca teve uma professora ou professor que só queria ver de longe, de preferência bem longe? Quantas vezes sentimos que nem nossos pais nos entendem, e quantos de nós não gostariam de ter um amigo absolutamente fiel e companheiro, mas igualmente capaz de ser nossa consciência como Haroldo?

No quadrinho, o sagaz garoto de 6 anos e seu tigre de pelúcia -- que ganha vida na imaginação do menino -- entabulam diálogos divertidos e surreais. Em suas conversas inteligentes e bem-humoradas, debatem o jeito de ser dos humanos, enquanto expõem particularidades do mundo infantil e contradições do mundo adulto.

Bill Watterson, eternamente oposto aos estragos que o capitalismo e o merchandising provocam em qualquer criação original, proibiu expressamente a sua editora de vender os direitos para lançar no mercado uma panóplia de artigos baseados na série. Por este motivo, Watterson passou vários anos em guerra aberta com a Universal Press e existem mesmo algumas tiras que fazem referência a esse conflito de forma muito pouco dissimulada. No final, Watterson levou a melhor e não permitiu o lançamento de qualquer merchandising exceto alguns artigos únicos de edição limitada como postais e posteres originais.

Apesar desta proibição, hoje em dia não é nada difícil encontrar T-shirts estampadas, porta-chaves ou
autocolantes para carros pirateados, com imagens de Calvin a dizer e a fazer coisas que nunca disse nem fez nos quadrinhos. A proibição imposta por Bill Watterson ao merchandising da série significa também que nunca irá haver uma série de desenhos animados, como aconteceu com Garfield e Charlie Brown. Poucos ilustradores conseguiram captar tão bem a imaginação de um garoto, e ainda assim desenvolver críticas à sociedade de forma tão sutil. E sem nunca se vender ao sistema, já que jamais liberou os direitos dos personagens para bonecos, camisetas e toda essa porcariada que gera muito dinheiro.

A obra foi multipremiada. Seu autor recebeu os principais prêmios dos quadrinhos, como o Harvey Award (oito edições), o prêmio Eisner (duas edições) e Reuben Award (duas edições), todos nos Estados Unidos, e o Angoulême International Comics Festival, na França, entre muitos outros.

Calvin era - e continuava sendo até pouco tempo atrás - a tira favorita de dez entre dez leitores de tiras. Em 1995, no entanto, Watterson declarou estar “cansado de acordar todos os dias pensando no que Calvin iria fazer” e anunciou sua aposentadoria da tira - muitos viram na atitude do quadrinhista uma resposta às pressões para comercializar os direitos do personagem em produtos de licensing, algo que ele sempre se recusou a fazer, mas o autor, avesso a entrevistas, nada confirmou. Quando Watterson anunciou o fim da tira, Calvin era publicado em 2,5 mil jornais apenas nos Estados Unidos e em centenas de outras publicações de mais 13 países, entre eles o Brasil. O autor recebia, com o personagem, cerca de US$ 1 milhão. Ainda hoje, as tiras de Calvin são republicadas por diversos jornais (inclusive brasileiros) e podem ser vistas e até mesmo adquiridas, em quadros, via Internet (www.calvinandhobbes.com).


Os cartunistas de antigamente se consideravam homens de jornal, simplesmente. Seu trabalho era ajudar o periódico a vender sempre mais, sem se preocupar com qualidade. Assim, repor um desenhista era muito mais fácil. A tira continuava, mas seu criador não tinha seu lugar garantido. A situação mudou e hoje em dia até mesmo os syndicates acham que apenas o autor pode dar à tira sua forma ideal. Por isso, atualmente, os quadrinhos são levados mais a sério do que em anos anteriores, tanto pelo público como pelos seus criadores e empresários do ramo de comunicação.

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