07 junho 2016

Tese de doutorado analisa semanário baiano A Coisa (1897-1904) - 5


Este estudo se prende ao modo com que o periódico A Coisa desperta e intui na população, significações políticas e de valores culturais, inserindo em sua capa e no interior de suas páginas, imagens que demarcam de forma caricatural as representações dadas aos corpos de personagens ora anônimas, ora identificáveis pela sociedade leitora de sua época. A técnica responsável pelo talho e pelas marcas gravadas, seja na madeira, na pedra ou no metal, revela nuances e deixa indícios do que seus autores pretendiam com as imagens que produziam e publicavam, ao matizar e evidenciar as múltiplas tonalidades das peles. 

Mas, eis que surge uma questão crucial para um estudo sobre matizes a ser investigado nas páginas de jornais impressos em preto e branco: Como alcançar essa ideia da cor e da sua gradação a partir de uma imagem monocromática? Em um primeiro instante, isso se faz possível a partir das observações atentas das imagens, seja nos traços dos desenhos ou nas massas de cor, realizadas pelos usos possibilitados pelas técnicas de clichês em xilogravura e litogravura. Com um olhar atento e treinado, se percebe na imagem a ausência do preenchimento da cor preta, para representar uma personagem branca, ou o preenchimento com esta mesma cor para a representação de um corpo negro.

Mas, como buscar o meio tom? Como representar os diferentes matizes e gradações de tons de pele de brancos e negros? No segundo momento, é possível alcançarmos as ideias acerca dos matizes a partir da leitura e compreensão dos textos que norteiam as imagens ou acompanham as páginas do jornal. São os textos, em muitos momentos, a nos falar mais sobre a imagem dos negros que as próprias imagens visuais, que n’A Coisa trazem mais representações plásticas de corpos brancos em comparação ao número de evidências visuais dos corpos negros.

O aprimoramento das técnicas de reprodução de imagens em impressos permitiu aos gravuristas o desenvolvimento de várias soluções para que se alcançasse o meio tom, seja pelo chanfrado, na forma mais clara, mais escura ou esmaecida, seja pelo uso de linhas e outros grafismos que sugerem diferentes texturas e consequentemente diferentes tons para as superfícies representadas. Outro aspecto que auxilia na busca pelo matiz é o reconhecimento e a discussão em torno das questões raciais vigentes no período da Primeira República.

Conscientes dos discursos sobre raças, os gravuristas, artistas, desenhistas e anatomistas, atentos aos detalhes do corpo, evidenciavam em seus traços os fenótipos dos corpos a que representavam, e desse modo construíam aproximações tipificadas ou não dos índios, dos negros e dos brancos. A leitura das imagens não se encerra apenas na observação exclusiva das imagens.

Para o entendimento das representações dos matizes é necessário que se faça leituras das imagens aliadas aos seus contextos de produção e circulação, suas disposições nas páginas do jornal em sua integração com os textos que as circundam e com os demais assuntos tratados na mesma publicação. Assim, texto e imagem, ao serem interpelados, falam sobre os tipos de corpos e as peles negras produzidos nesses impressos; sobre os traços e formas concebidos, os lugares ocupados e o destaque nas páginas; as motivações para que fossem produzidas as imagens; quem as realizava, e em quê ou em quem se inspirava para produzi-las; que tipo de tensões essas imagens representavam e traziam para o contexto social e a imprensa no período de sua veiculação.

Embora publicada na Bahia do princípio do século XX, nos desperta atenção o fato da imagem nos remeter ao imaginário norte-americano do blackface e de todo o conteúdo racial e tenso impresso por essa prática segregacionista da política estadunidense durante a era Jim Grow (876-1965) e dos Black Codes (1800-1866), que restringiam o convívio entre negros e brancos e determinavam espaços delimitados para cada um desses grupos de modo que eles não se misturassem. Segundo a colunista e filósofa da revista Carta Capital, Djamila Ribeiro, “o black face surgiu por volta de 1830, durante a era dos shows dos menestréis, quando homens brancos se pintavam de preto de forma bem caricata e se apresentavam para grupos formados por aristocratas brancos com o intuito de ridicularizar pessoas negras” (CARTA CAPITAL, 2015).

O trabalho aprofunda indo ao final do século XVIII onde filósofos europeus começaram a desenvolver teorias que classificaram os seres humanos em quatro posições hierárquicas, favorecendo os brancos europeus na primeira posição no grau de evolução, seguidos por asiáticos, ameríndios e negros.  Busca no filósofo anglo-irlandês Edmund Burke (1729-1795) que lançou ensaio sobre a cor preta e/ou o negro estaria relacionada ao medo, ao terror e a fealdade. Outro filósofo, o prussiano Immanuel Kant deu sequência as suas ideias, oferecendo teorizações, inclusive, favoráveis à escravização, entendida como uma ação socialmente natural. 


Já o filósofo francês Joseph Arthur de Gobineau, publicou o seu livro Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, no qual, o negro é compreendido enquanto um ser animalesco e involuído, e, portanto, destinado a ser dominado pelas raças evoluídas. As teorias sobre o racialismo são finalmente fortalecidas com a publicação do livro A origem das espécies, do naturalista britânico Charles Robert Darwin, em 1859. No livro, Darwin defende a superioridade das espécies por meio da seleção natural. Na época o estudo de Darwin foi utilizado por terceiros para justificar o imperialismo e o colonialismo.

O fato de negros de diversos países, e africanos de África começarem a escrever pesquisas sobre o povo negro, transformou a forma de se narrar a história sobre o colonialismo, introduzindo as histórias anteriores a ele e mudando a utilização de termos considerados pejorativos, tais como escravo (escravizado), raças (raça), negro (negros). Os resultados dos estudos de africanistas e os criadores da ideologia do pan-africanismo Edward Burghardt Du Bois, Marcus Mussiah Garvey e Stuart Hall, provocam mudanças contínuas na forma dos negros escreverem, e de quem escreve sobre os negros.

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