16 junho 2016

Mitos de um orixá, ritos de uma estrela: Oyá Bethânia


Para Caetano Veloso ela é uma sacerdotisa. O jornalista e produtor cultural Nelson Mota diz que ela é Iansã viva. Já o jornalista Ronaldo Bôscoli ela é Esfinge baiana. “Um orixá” na opinião do escritor Jorge Amado. E para a cantora e compositor Adriana Calcanhoto, “ela tem o fogo sagrado”.

O antropólogo Marlon Marcos Vieira Passos, amparado pelos recursos teóricos de várias disciplinas humanas, interpreta com acuidade a obra de Maria Bethânia no livro lançado pela Editora Pinaúna intitulado Mitos de um orixá, ritos de uma estrela: Oyá Bethânia.

“A presente obra, segundo o antropólogo e professor Claudio Luiz Pereira no prefácio, parece ser a plena representação do tipo de esforço que move Marlon Marcos, como antropólogo e como poeta. Aqui, ele articula algumas de suas muitas paixões: música e religião, mito e rito, corpo e verbo, gesto e poesia”. Já a jornalista e doutoranda em antropologia, Cleidiana Ramos na orelha do livro informa que “essa análise primorosa é resultado da sua habilidade antropológica para perceber profundidade científica em algo que a maioria de nós não conseguiria enxergar. O seu esforço e acerto de análise sobre as várias nuances do intrincado jogo que opera os mitos a partir da música de Maria Bethânia é fascinante. Com apoio na bibliografia clássica e moderna, Marlon nos conduz às trilhas que desvendam como o orixá que se tornou a senhora dos ventos, raios e tempestades marca o fogo – outro elemento que domina – o talento de sua filha”.


Dividido em cinco capítulos, o primeiro “Oyá-Iansã: O Vento da Transformação” ele analisa o orixá Oyá à luz de algumas etnografias das religiões afro-brasileiras. O segundo capítulo narra a trajetória de vida e obra de Bethânia. Desde seu nascimento, em Santo Amaro da Purificação, até a sua consagração como estrela da canção brasileira.

Mito e rito são analisados numa leitura psicológica, histórica, literária de sócio antropológica. No quarto capítulo ele apresenta o encontro simbólico entre uma estrela da MPB e um orixá iorubano. Trata-se da confluência entre Oyá e Bethânia que a artista vive nas cenas que compõem a sua vida. O último capítulo, Corpo no Espaço/Corpo no Tempo/Corpo no Palco: O espetáculo em Maria Bethânia ele analisa o corpo de Bethânia como instrumento de tradução de muitas teias de significados culturais a partir do seu nascimento no Recôncavo baiano. Fez ainda uma interpretação da importância da mídia e apresenta letras de músicas referentes a Oyá. Razão e fé estão incluídas nessa força de luz que é Bethânia que levou o barracão do candomblé para o centro do palco.


Ao longo de mais de 50 anos de carreira, Bethânia acumulou um rico e diversificado acervo de sucessos. São autênticas pérolas do nosso cancioneiro, responsáveis por tornar marcantes diferentes momentos da trajetória da grande diva da música popular brasileira. Desde meados da década de 1960, quando surgiu na cena nacional, até os dias atuais, a cantora, criteriosamente, assumiu total controle sobre o seu repertório.

Em algum disco, ou show, ela pode até ter incluído uma ou outra canção que, a princípio, não tenha merecido a aprovação da crítica. Bastou, porém, ouvi-la interpretar, para que o conceito se modificasse. Já os fãs — esses não —, de imediato, se deixaram arrebatar, ouvindo-a soltar a voz poderosa, usada para cantar o romantismo, as coisas do Brasil e temas de conteúdo político-social. “O traço dramático da cantora, de voz grave, de gestos fortes, de temperamento explosivo e, às vezes, de extasiante
doçura, sempre a acompanhou e a definiu artisticamente”, escreveu Marlon (pag 127). Orixá, devoção católica popular do Recôncavo, do samba de roda, das canções épicas e enaltecedoras da Bahia, na cadeia de ancestralidade. Este é o mundo musical de Bethânia que convive com o moderno sem se desvincular do tradicional. A obra de Marlon Marcos é fundamental para conhecer mais profundamente a intérprete. Vale conferir!

O livro pode ser encontrado na livraria Pérola Negra, nos Barris. Tel: 3336-6997

No dia 18, sábado, vai ter missa em Santo Amaro da Purificação em homenagem a Maria Behânia que completa 70 anos

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