01 junho 2016

Tese de doutorado analisa semanário baiano A Coisa (1897-1904) - 1



Eleger como objeto de estudos o semanário baiano A Coisa, lançado em 1897, já é, em si, um desafio instigante para o pesquisador, que se depara com uma modalidade de manifestação comunicativa condensadora de múltiplas informações, cuja interpretação aciona necessariamente o conhecimento de um conjunto de dados e fatos contemporâneos ao momento específico em que se instaura a imprensa humorística no país. Tulio Henrique Pereira enfrentou o desafio de forma competente e perspicaz no recorte feito de um objeto com poucos estudos a respeito, mas o estudioso não se limitou à explicitação dessas correlações discursivas, pois enriquece sua análise com observações pertinentes e ilustrações importantes. Mostra que, na sua construção interna, o desenho de humor é bivocal, porque é carnavalesca, no sentido de Bakhtem. Ele informa e opina sobre o seu tema por meio da representação de um mundo às avessas, aguçando, pelo própria inversão de valores sociais.

Todo o processo de pesquisa que culminou com a escrita da tese de doutorado intitulada Que Coisa é essa, YôYô? (Cor e raça na imprensa ilustrada da
Bahia – 1897-1904) defendida na Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais, através do Instituto de História, se baseia a respeito das identidades e o apagamento de pessoas negras nas pinturas da cidade, principalmente o semanário A Coisa que surgiu em 1897 e encerrou em 1904. “Ao longo dos seis anos de sua publicação A Coisa fez circular um conjunto com mais de 2431 imagens visuais e textuais sobre o negro”, informa Tulio.

Doutorando em História no Programa de História e Cultura da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com Mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), e graduação em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Desenvolve pesquisa acadêmica em temas relacionados à Identidade; Identidades Étnicas; História da Pele e do Corpo Negro no Brasil; Iconografia; Literatura do Séc. XIX; Arte-Cultura; Memória e Representação. É, também, autor de literatura.

A Coisa


No dia 30 de agosto de 1897 começou a circular em Salvador o jornal A Coisa. Periódico de circulação semanal que se denomina crítico, satírico, humorístico e ilustrado, de pequeno formato. Manteve-se em circulação até outubro de 1904, contabilizando oito anos de registro, mas apenas seis de circulação efetiva.

Segundo o pesquisador, as lutas por independência e liberdade de imprensa provocaram cisões e enfatizaram as diferenças políticas das correntes ideológicas entre liberais e conservadores. O Nordeste, especialmente a Bahia e Pernambuco teriam sido cenários das primeiras manifestações dessa imprensa ilustrada autêntica ou autônoma. A Coisa faz parte do segundo momento no qual a nova imprensa tentou novo fôlego, tensionada pela luta abolicionista e o advento da Primeira República.

De 1865 até 1911 foram lançados 34 títulos de periódicos dentro da capital baiana, denominados ilustrados r críticos. Após o lançamento d´A Coisa (1897-1904) surgiram na capital da Bahia, 15 títulos de periódicos autodenominado ilustrador e críticos, 19 números a menos e com duração de vida mais curta em comparação ao periódico que antecedeu ao lançamento d ´A Coisa.

Acredita o estudioso que o decréscimo de jornais lançados em Salvador com a chegada da década de 1900 está relacionado com a mudança de governo e as reformas urbanísticas, e os olhos voltados para o progresso que o Rio de Janeiro, capital da República, e São Paulo representavam, muitos homes de letras se mudara da Bahia para essas regiões. Mas quais as tipografias e a imprensa já havia se estabelecido profissionalmente e de forma numérica.

Com a instalação da Corte Imperial na cidade do Rio de Janeiro e, posteriormente, do centro administrativo da República, Salvador perderá imediatamente socioeconômico e também deixava de ser o expoente cultural do Brasil. A imprensa baiana do século XIX, e do Brasil como um todo, foi marcado pelo uso do anonimato de muitos dos seus colaboradores. Muitos das vezes, o pseudônimo servia como marxa de identificação de um estilo. 

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