06 junho 2016

Tese de doutorado analisa semanário baiano A Coisa (1897-1904) - 4



A partir da técnica da litografia e da xilogravura, foi possível criar e reproduzir imagens diárias nos
jornais do Império e da República. É proposta deste estudo a realização de um relato historiográfico derivado de uma análise teórica interdisciplinar para o qual se selecionaram documentos visuais impressos no jornal A Coisa do Salvador, na Bahia. O periódico semanal, editado na capital e também distribuído no interior baiano do final da década de 1897 até início da década de 1904, é rico por suas ilustrações e pelo conteúdo satírico, humorístico e crítico assinado por seus redatores. As imagens contidas no impresso A Coisa chamam atenção por seu conteúdo carregado de tensões inerentes ao período da Primeira República no Brasil, tais como as questões relacionadas à cor da pele, aos fenótipos do corpo, à raça, aos gêneros e à hierarquização e valor social da população compreendida como negra.

O impresso, no conjunto dos seus textos e imagens, caracteriza-se como a base principal do corpus documental desta pesquisa, na qual também se propõe o diálogo com outros impressos de territórios e temporalidades que evidenciam o processo histórico que demarca a ideia de nação e construção de um corpo e uma identidade para os negros no Brasil. A observação e análise das imagens selecionadas no periódico, permite identificar seus modos de produção, a orientação de uma realidade em função do seu público consumidor, sua autoria e os objetivos para os quais foram criadas. 

Propõe-se, portanto, analisar criticamente as representações dadas ao corpo e à pele negros, a fim de problematizar as memórias destes corpos e suas significações socioculturais. E, desse modo, questionar, por meio de uma metodologia voltada para a descrição e análise de imagens conjugadas aos textos, a possível contribuição dessas representações visuais do corpo na formação de um ideário de identidade unificada e da alteridade social dos negros em deferência às memórias atribuídas à população tomada como branca no contexto sócio histórico da época.  

No dia 10 de setembro de 1904 a Bahia publicou uma nova edição do semanário A Coisa, depois de uma difícil temporada de irregularidades e o hiato de suas edições. Vinte e um dias depois desta publicação baiana, o Congresso Nacional do Brasil aprovaria a Lei da Vacina obrigatória contra a varíola, e trinta e um dias depois, em 10 de novembro do corrente ano, seria deflagrada na cidade do Rio de Janeiro, a Revolta da Vacina. O país e a Bahia estão às voltas com as questões epidêmicas.

A capa do impresso traz a manchete: “’A Coisa’ vacinada” com a ilustração de uma dama no interior de um ambiente de luxo, sentada em um sofá canapé, vestida com um longo vestido armado e acinturado, e com generoso decote nas costas. A dama possui pulseiras no braço esquerdo e presilhas a prender o seu cabelo ondulado e claro com um coque. Ela segura com a mão esquerda, de forma delicada seus óculos Lornhons enquanto conversa com um senhor de barba hirsuta e calvo, vestido com terno escuro, camisa clara e gravata borboleta. Acreditamos estarem em um consultório médico.

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