26 agosto 2011

Território da alma humana (3)

As histórias em quadrinhos apresentam-se como mídia financeiramente acessível, democrática e abrangente em matéria de popularidade, e preparam o cérebro humano para a apropriação de uma ampla oferta de bens culturais. A distinção entre alta e baixa cultura é uma página virada, que não deixa lugar nem para apocalípticos, nem paraintegrados. No livro Apocalípticos e Integrados, Umberto Eco (1979) relaciona as diversas “peças de acusação” e também as de “defesa” para em seguida fazer uma reflexão sobre o tema. Em nenhum momento, Eco toma partido de apocalípticos ou integrados, mas oferece uma análise livre de preconceitos, que, no fim, sugere alternativas para o que chama de uma utilização valorativa dos meios de comunicação de massa.


Confrontando as diversas características “pró” e “contra”, Eco afirma ser possível perceber que os níveis culturais são complementares, o que significa que podemos chegar aos biscoitos finos de Oswald de Andrade pela cultura de massas. Ele chama a atenção para a raiz aristocrática da crítica à cultura de massas, como nostalgia de uma época em que os valores da cultura eram privilégio de uma classe, mas que agora se difundiram junto a massas que não tinham acesso aos bens de cultura. A cultura de massas se desenvolveu diante da crise de um modelo cultural anterior. E, se hoje o excesso de informações sobre o presente pode distorcer o que os conservadores chamam de “consciência histórica”, antes não havia nem isso para a maioria, o que impossibilitava sua inserção na sociedade. A tão criticada homogeneização dos gostos também pode ter servido para eliminar algumas diferenças de castas, ao mesmo tempo que permitiu uma produção cultural que barateasse os custos.


Enfim, diante de “prós” e “contras”, Umberto Eco sugere que a problemática de apologistas e integrados foi mal formulada. Para Eco não se deve perguntar se a cultura de massas é boa o ruim, mas como se pode veicular valores culturais em seus meios de difusão. Estes valores seriam definidos e veiculados por uma comunidade de cultura, formada por intérpretes das sociedades em que vivem, constituindo-se em grupos de pressão sobre o mercado. Esta seria uma relação dialética e não paterno elitista, na medida em que uns interpretariam as exigências e instâncias dos outros. Fica clara a ideia que Umberto Eco faz de sua pólis. A discussão em torno de seu texto permanece atual, embora, hoje, não haja mais espaço para a divisão entre apocalípticos e integrados, já que a paisagem tecnológica se sobrepõe ao real, praticamente nos obrigando a refletir em cima dela. A sociedade já está impregnada pela estetização (até mesmo virtual), pela culturalização da realidade. As superfícies já se transformaram em interfaces de um universo tecnocultural. E os limites se converteram em passagens.

Os estudos de Richard Hoggart, Raymond Williams e Stuart Hall articularam-se contra as concepções elitistas de cul

tura. A subdivisão entre cultura de elite, cultura de massas e cultura popular torna-se muito mais frágil, com a legitimação dos saberes que todos os membros da civilização produzem, enfatizando também o domínio político que direciona a própria produção cultural. Esses estudiosos redirecionaram a teoria da Comunicação, por meio da inserção do povo como elemento fundamental da cultura. Para eles, e muitos outros, a cultura é emanada das vivê

ncias, das relações inter pessoais e das histórias de vida, ou seja, do modo de vida social. Entre os teóricos latinos que resgataram o

conceito de mediação (desenvolvido pelo soviético Lev Vygotsky nos anos 1930), definido como o estabelecimento da relação inter-pessoal que perpetua e renova a cultura, por meio da linguagem estão Jesus Martin Barbero, Nestor Garcia Canclini e Guilhermo Orozco Gomes.


Estudiosos como Nestor Garcia Canclini, nos recentes aportes dos Estudos Culturais, elencam as histórias em quadrinhos como bens culturais de vital importância para a Cultura. Através desta reconciliação, foi possível a uma comunidade internacional de pesquisadores da pedagogia neo piagetiana inserir, finalmente, as histórias em quadrinhos nas práticas pedagógicas. Mesmo assim, ainda há o conceito da história em quadrinhos como literatura intermediária, precursora da leitura de obras bibliográficas ditas “superiores”, como livros, jornais e revistas. Aparentemente, existe uma associação estranha entre o valor de um bem cultural e sua reprodutibilidade técnica, que prejudica o estabelecimento de políticas culturais voltadas para a indústria cultural. Para Nestor Garcia Canclini,


Sem dúvida, é necessário expandir o apoio à literatura e às artes não industrializadas, mas no final do século XX não parece convincente dizer que estamos promovendo o desenvolvimento e a integração cultural quando carecemos de políticas públicas para os meios de comunicação de massa, através dos quais 90% dos habitantes do continente (americano) se entretêm e se informam (CANCLINI, 1997, p. 211).


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