12 agosto 2011

Riso, o elixir da longa vida (2)

A Idade Média, dominada pela Igreja, foi uma época de tristeza. De maneira oposta, o Renascimento, foi o grande momento da liberação do riso. A Contra Reforma não viu com bons olhos o humor. Vários teólogos pensavam que o homem deveria evitar o riso por causa de sua condição pecaminosa. O clero era instruído a não provocar o riso durante os serviços. Há um tempo de chorar e um tempo de rir, diz a Bíblia, e os escritores moralistas repetiram o veredicto: “Agora é o tempo de chorar e no céu será o tempo de rir”. O cristão deveria apenas esperar até a redenção dos pecados na Jerusalém sagrada, onde encontraria o único riso natural. Esse pessimismo agostiniano fez com que os religiosos condenassem o riso.

Os filósofos Hegel (1770/1831) que não queria rir, Schopenhauer (1788/1860) pessimista e rabugento, e Nietzsche (1844/1900) ao contrário, decretou o riso escancarado. Assim gargalhou Zaratustra e com o crepúsculo dos ídolos nascia o popular “quem ri por último ri melhor”. O historiador Georges Minois relata na sua “História do Riso e do Escárnio” que há um divórcio entre as folias modernas e o riso – o sujeito agora se perde totalmente no grupo -, ao contrário de antigamente, quando a farra era associada ao riso em razão do seu caráter excepcional, que permitia estabelecer um deslocamento da norma. A festa tecno (raves) seria apenas uma busca fetichista do sagrado. “Não é irônico ver multidões laicas viverem a festa tecno como uma verdadeira missa?” é a pergunta que nos deixa para uma reflexão.


Delimitada pela segunda Revolução Industrial, que alterou radicalmente o cenário científico tecnológico, alargando, para limites imprevistos, as fronteiras do mundo capitalista a partir da década de 1870, a Bele Époque foi assim designada o século da luz e da velocidade, século da síntese e da rapidez, mas também século da anedota. É bom lembrar que o humor constitui uma forma de representação privilegiada da história das sociedades, particularmente naquela época – de tantas novidades, de tantos contrastes e tantos estranhamentos, ocorridos num ritmo, até então, imprevisível.


Contraste, estranhamento e ruptura são os elementos centrais dos três mais importantes ensaios sobre a natureza do humor e do cômico escritos no início do século XX: o de Henri Bergson (1899), o de Sigmundo Freud (1905) e o de Luigi Pirandello (1908). Os três autores mostraram, cada um à sua maneira, que o riso não tem essência e sim uma história, tornando todas as definições tão triviais quanto as que encontramos nos dicionários e enciclopédias.

A teoria do humor de Bergson, característica daquele fin-de-siécle modernista, afirmava que a comicidade nascia, em quaisquer situações, do contraste ou da antítese entre os elementos mecânicos e os elementos vivos. Com ele o riso ganha uma função social, pois rimos para restabelecer os elementos vivos que compõem a própria sociedade.


Freud dedicou um livro inteiro ao tema, em 1905 – O chiste e suas relações com o inconsciente, no qual centrou sua análise nos aspectos marginais ou não legitimados do tema, observando a comicidade difusa na conversação cotidiana, no chiste, na piada ou na palavra espirituosa. O riso funciona como um liberador das emoções reprimidas.


Para Piradello o cômico nasce de uma percepção do contrário, como no famoso exemplo de uma velha já decrépita que se cobre de maquiagem, veste-se como uma moça e pinta os cabelos. Ao perceber que aquela senhora velha é o oposto do que uma respeitável velha senhora deveria ser., produz-se o riso, que nasce da ruptura das expectativas, mas sobretudo do sentimento de superioridade. A percepção do contrário, porém, pode transformar-se num “sentimento contrário” - quando aquele que ri procura entender as razões pelas quais a velha se mascara na ilusão de reconquistar a juventude perdida. Assim, a representação humorística é uma epifania da emoção. Ela se dilui na vida cotidiana e só de vez em quando brilha e ilumina, como um intervalo de riso e de alegria na rotina dos rituais repetitivos e diários ( SALIBA, Elias Thomé. Raízes do Riso. São Paulo: Cia das Letras, 2002, p.29)


“O riso moderno existe para mascarar a perda do sentido. É mais indispensável que nunca”, esta é uma das conclusões a que chega Minois em seu livro. Para outros, o riso é um elixir de longa vida. Afinal, neste milênio marcado pelo estresse, desigualdades sociais e idas rotineiras ao divã do analista, o humor comparece e se afirma como uma variável. Bom humor é necessário. Já para o sociólogo Gilles Lipovetski o riso perdeu sua força. No seu livro “A Era do Vazio” ele atesta: “Um novo estilo descontraído e inofensivo, sem negação nem mensagem, apareceu. Ele caracteriza o homem da moda, do texto jornalístico, dos jogos radiofônicos, televisivos, do bar...”. Para ele não há mais festa do espírito no riso, a esculhambação dionísica deu lugar ao “cool”.

Referências:

ÁLVAREZ JUNCO, Manuel. El Diseño de lo Incorrecto: la Configuracion del Humor Gráfico. Buenos Aires: Icrj Diseño, 2009.

FREUD, S. “Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente”, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol.8. Rio de Janeiro: Imago, 1988

MORIN, Violette. “Les Dessin Humorístique”, in L´Analyse des Images. Revista Communications, nº15. França, 1970.

ROMUALDO, Edson Carlos. Charge Jornalística: intertextualidade e polifonia – um estudo de charges da Folha de S.Paulo. Maringá: Eduem, 2000.

FONSECA, Joaquim da. Caricatura. A Imagem Gráfica do Humor. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999

REVISTA UPS. Humor na Mídia, nº88. Dezembro/janeiro/fevereiro 2010-2011. São Paulo: USP, 2010.

SALIBA, Elias Thomé. Raízes do Riso. A representação humorística na história brasileira: da Belle Époque aos primeiros tempos do Rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002

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