08 agosto 2011

Carregando nas tintas

A utilização de ilustrações que empregam distorções anatômicas para retratar uma pessoa (normalmente vinculada a uma esfera de poder, político ou religioso) remota a mais de um milênio antes da era cristã. Mas é com a difusão proporcionada pelas mídias impressas que os desenhos caricaturais se desenvolvem.


Povos de diferentes origens e culturas aperfeiçoaram, com o passar do tempo, maneiras de perpetuar suas histórias e mitos, suas conquistas e seus costumes por meio de signos pictóricos (ao lado da comunicação gestual e oral), algumas vezes pintados ou desenhados formando uma sequência, aos quais eram atribuídos significados específicos, que se referiam a fatos reais (a caça, a colheita ou conflitos com outros grupos) ou às crenças e mitos dessas sociedades primitivas. Precursoras da palavra escrita, as imagens tinham por função descrever um dado momento da história de um povo, fixando-o para as gerações futuras.


A palavra caricatura deriva do verbo italiano caricare (carregar, sobrecarregar, com exagero), e aparece usada pela primeira vez por A. Mosini quando este se referiu a Diverse Figure, uma coleção lançada em 1646 como uma série de gravuras chamadas de ritratini carichi (retratos carregados), realizados a partir de desenhos originais dos irmãos Agostini e Annibale Carracci, satirizando tipos humanos das ruas de Bolonha. O celebre escultor e arquiteto Giovanni Lorenzo Bernini, um habilidoso pioneiro de caricatura tal como seu contemporâneo Annibale Carracci, foi quem provavelmente introduziu a palavra “caricaturare” na França quando ali esteve em 1665.


Apesar de a caricatura não constituir uma forma narrativa, dela derivam a charge, o cartum e a história em quadrinhos. Desde seu aparecimento, nas mídias impressas (jornais, folhetos e revistas) a partir do século XVIII, os quadrinhos buscam entreter seu público e, ao mesmo tempo, ser porta vozes de ideias criticas ou que pregam o conformismo em relação às normas sociais estabelecidas.

Conforme constata os estudiosos John & Selma Appel, “a caricatura depende do exagero para funcionar, é útil para traduzir as realidades verdadeiras ou percebidas nas personagens exteriores. Como a charge, que é uma arte ou ofício (dependendo do executor), baseada em ilustrações principalmente cômicas ou burlescas. Ambas de linhagem pictórica, raramente são objetivas, desapaixonadas ou honestas em seus temas. Chargistas e caricaturistas não se dirigem a relatos confiáveis de um retrato honesto da realidade, principalmente num mundo multi étnico e multi racional. Ainda, pode-se inferir de seu trabalho as forças que alimentam a agressividade dos estereótipos e como variam de era para era. Como erigiram opiniões sociais disfarçadas e interditas, noções e prejulgamento ao nível de símbolo ou declaração”(APPEL, 1994, p.16 e 17).


Narrativa gráfica de grande apelo popular, a HQ buscou no humor gráfico elementos para estabelecer um diálogo com o leitor sustentado pela longa comicidade, presente nos desenhos hiperbólico e não realistas e nos diálogos carregados de gírias e chistes. A crítica política e a difusão de valores e da propaganda ideológica são realizados ora de forma ostensiva ora de maneira sutil.


Um momento histórico em que houve emprego em larga escala das narrativas gráficas com fins políticos e ideológicos foi durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). de acordo com Murray (2000, p.141), a Segunda Guerra Mundial “foi um ponto marcante para o relacionamento entre a política norte americana e a cultura popular (midiática)”. Para Murray (2000, p.142), “os super-heróis foram um produto de seu tempo, extremamente adequados para complementar os mitos políticos dos anos 1940” (APPEL, 1994, pp16-17).


A caricatura, escreveu R.W. Emerson, geralmente reflete a história mais real de um período.

Referências bibliográficas:


MURRAY, C. Propaganda: super hero comics and propaganda in world war two. In: MAGNUSSEN, A; CHRISTIANSEN, H. (Ed.). Comics and culture: analytical and theoretical approaches to comics. Copenhagen: Museum Tusculanum Press, University of Copenhagen, 2000.


APPEL, John & Selma. Comics da Imigração na América. São Paulo: Editora Perspectiva, 1994.

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