16 agosto 2011

Humor gráfico na Bahia (2)

Na Bahia o desenho de humor é desprezado como forma artística. Os humoristas não são considerados sérios. Ainda que se empenhem, de lança em riste. Quixotes modernos contra as forças do poder, são considerados garotos divertidos. Mas eles continuam trabalhando e ferindo, fazendo ver, falando com milhares de pessoas de cada vez, fazendo rir e refletir. Para um povo acostumado à imagem e à comunicação rápida, uma população que lê pouco, o desenho de humor é informação. Afinal, o humor é uma forma de retratar a realidade social. Uma linguagem crítica, mesmo quando parece descompromissada.


Em nossa terra alguns artistas usaram o desenho para comentários sobre a política, a moda e a vida social. O principal elemento desses desenhos, quase sempre contendo duras críticas sociais, era a caricatura. Nos jornais humorísticos da época, quase sempre com o formato tabloide, eram contadas histórias através de desenhos, impressas apenas num dos lados e, geralmente numeradas – o que era útil para o caso de ser uma série vital para um colecionador do século XIX. Os desenhistas H. Odilon, J.Cardoso, Gavarni e Fortunato Soares dos Santos eram os mais destacados.


São de autoria de H.Odilon as charges políticas de Bahia Ilustrada do nº01 ao nº26, em 1867. A partir do nº27, J.Cardoso começa a trabalhar como chargista, ao lado de H. Odilon. Quanto a Gavarnio, ilustrou o jornal O Faísca, de 1885 a maio de 1886, enquanto Fortunato Soares dos Santos, aluno de desenho de Cañisares, na antiga Academia de Belas Artes, é responsável pelas charges políticas dos periódicos O Faísca, em 1886, e A Malagueta nos anos de 1897 e 1898. Em 22 de outubro de 1885 começou a circular o periódico ilustrado e humorístico O Faísca, de Alexandre Fernandes, que durou até o número 79, em 1887. O desenhista Gavarni publicou a partir do número quatro desse jornal (18886) uma história com desenhos em sequencia: Entrevista de S.M. com os índios corôados. Trata-se do encontro do branco com os índios guaranys. As legendas de fina ironia e profundo sarcasmo. Gavarni elaborou narrativas por meio de sequência de imagens acompanhando discurso verbal.


A partir do número 56 os desenhos sequenciados foram feitos por Fortunato. E desta vez as personagens lembram recortes em negrito, contrastando com os desenhos claros. No número 68 desse humorístico (Ano II, 1887), numa pequena historieta, um garoto anunciava numa tabuleta: Attenção!!! No próximo As Aventuras de Caipira, typo muito conhecido em sua casa delle. E no Faisca nº69 as duas páginas centrais aparecia a HQ do Zé Caipira com seis cenas sequenciadas. A narrativa é povoada por figuras colhidas em gestos espontâneos e momentâneo, que é tanto atributo das personagens em movimento quanto é qualidade de recurso gráfico do autor. As personagens em movimento, detidas numa fração de tempo, tal como no instantâneo fotográfico, são surpreendidas nas expressões da face e do corpo.

A historieta prossegue nos números 70, 71, 72 e 74. Os números 75, 76 e 77 não apresentam historietas. No número 78, uma historieta de Zé Caipira saindo do hospital em sete cenas sequenciadas que conta como Zé fugiu do hospital, assustado com a morte do companheiro numa operação. A narrativa quadrinizada continua no número 79 do jornal onde, em sete cenas, mostra a sua ida ao Rio Vermelho num pequeno bonde, sua queda até a decisão: “O meio mais seguro é ir a pé”.


Fortunato continuou a desenhar no humorístico A Malagueta (jornal de caricaturas) que teve seu primeiro número editado em 15 de dezembro de 1897 e terminou em 23 de dezembro de 1898. No segundo número, de 31 de dezembro de 1897, Fortunato publica a historieta Scenas de Natal na Bahia, satirizando a missa do galo e outros momentos natalinos comemorados na Bahia. Nessa época todas as histórias em imagens sequenciadas traziam textos sem balões. Esses desenhistas exerceram grande influência em muitos artistas da época, ajudando a estabelecer a Bahia como um dos centros criativos do humorismo.


As publicações ilustradas criaram um vasto repertório iconográfico, até hoje carente de melhores avaliações, cuja difusão levou vantagem sobre as outras formas de expressão visual da época. Essas publicações foram mais pródigas do que as “belas artes” na elaboração e divulgação das imagens do cotidiano do país e da vida corrente. É bom lembrar que desde o dia28 de julho de 1831 já circulava em Salvador, O Pereira, jornal humorístico que durou até abril de 1832, com 26 números. Reapareceu em 1835 a 1836. A partir daí surgiram O Pereirinha, A ronda dos Capadócios, O Diabo a Quatro, O Diabo Coxo, O Mequetrefe, A Mutuca, O Patusco entre outros. No período de 1880 a 1900 a Bahia já publicava mais de 50 periódicos humorísticos de pequeno formato e curta duração. Entre eles estão O Satanaz, A troça, O Neto do Diabo, O Papagaio, Foia dos Rocêro e D. Ratão. Satíricos, audaciosos, irreverentes. Assim eram os jornais de outrora.

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1 Comentários:

At 10:36 PM, Anonymous Anônimo said...

olá, gutemberg, como vai?

gostaria de saber onde conseguiu localizar as imagens e informações sobre o jornal O Faísca.

obrigada

 

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