04 agosto 2011

O número 1 dos quadrinhos brasileiros (4)

Em um Brasil em profunda transformação política, econômica e social, repleto de lutas pela abolição dos escravos e pela proclamação da República, Ângelo Agostini produziu uma arte que se recusava a ficar parada, estática. Avançando no tempo e no espaço, o artista criou uma narrativa sequencial com cortes gráficos que futuramente apareceriam nas histórias em quadrinhos.


O mesmo pode-se dizer de suas caricaturas, pois elas não foram apenas um retrato de uma época, mas um olhar crítico de uma sociedade que crescia em todos os sentidos. Ou seja, o pai de Nhô Quim e de Caipora nos deixou como legado aventuras e caricaturas que revelam um tempo histórico significativo, de um país que se tornará nação, porém, com fortes desejos de ser uma República. A obra de Cardoso (2002) é uma justa homenagem ao primeiro heroi dos quadrinhos de aventuras. Assim, o Brasil, até nos quadrinhos tem um passado que faz parte de sua identidade.


Para Waldomiro Vergueiro, Agostini foi o grande precursor das narrativas gráficas sequenciais no Brasil, e sua arte pode ser comparada, às vezes com vantagem, à de outros que, como ele, viveram no século XIX. Apesar de Agostini não fazer uso dos balões, seus quadrinhos demonstravam um domínio soberbo da técnica de contar graficamente uma história (p.44).


No dia 2 de fevereiro de 1898, surge o precursor das revistas para criança no Brasil: o Jornal da Infância, edição graficamente pobre que durou até o dia 5 de junho do mesmo ano. Foram 20 edições. (CRUZ, 1991). No dia 11 de outubro de 1905 a editora O Malho lançava a revista Tico Tico, que viria a ser o marco inicial das publicações dedicadas às crianças no Brasil.

Além de publicar os quadrinhos norte-americanos Buster Brown (Chiquinho), Gato Félix, Bécassine (Chiquita), Mickey Mouse (O Ratinho Curioso), a revista lançou muitos personagens genuinamente brasileiros como Chico Farófia e Tinoco o caçador de feras (Théo), Reco Reco, Bolão e Azeitona (Luis Sá), Pandareco, Para-choque, Cachimbau (Max Yantok), Jujuba, Carrapicho e Lamparina (J.Carlos), Macaco e Faustina (Alfredo Storni), Bolinha e BolonhaPernambuco o Marujo (Belmonte) etc. (Nino Borges),


Mas para muitos pesquisadores o desencadeador dos comics no Brasil foi o Suplemento Juvenil do jornal carioca A Nação, a partir de 1934. Ao mesmo tempo o editor Adolfo Aizen abriu espaço para novos desenhistas. Para concorrer com o Suplemento, Roberto Marinho, de O Globo, fechou contrato de exclusividade com a King Features Syndicate e lançou o suplemento Globo Juvenil, em 1937, e a revista Gibi, de 1939.


Mais tarde surgiram as revistas O Globo Juvenil Mensal, Mirim, Lobinho e Gury, e os suplementos se multiplicaram pelos jornais do País. Em São Paulo, o jornal A Gazeta, que havia tentado a criação de um suplemento chamado A Gazeta Infantil, teve mais sorte quando lançou A Gazetinha, primeiro semanal, a partir de 1933. A Gazetinha, porém, nunca teve a mesma força do Suplemento Juvenil (GOIDANICH, 1990, p.14).


Referências:


CAGNIN, Antônio Luiz. As histórias em quadrinhos de Angelo Agostini. Phenix, revista da história dos quadrinhos. São Paulo: CLUQ.Clube dos Quadrinjos. Nº0, 1996, p.05 a 24.

CARDOSO, Athos Eichler. As Aventuras de Nhô Quim & Caipora. Os primeiros quadrinhos brasileiros. 1869-1883. Brasília: Senado Federal, 2002.

CHICO, Paulo. Angelo Agostini e os primeiros traços dos quadrinhos na imprensa brasileira. Jornal da ABI. Edição Especial. A Cronologia dos Quadrinhos nº348, novembro de 2003, p.03.

CRUZ, Gutemberg. O número 1 dos quadrinhos. Salvador: A Tarde, Caderno 2, p.1, de 21 de Julho de 2002.

________________. Viagem ao mundo dos quadrinhos brasileiros. Salvador: A Tarde. Suplemento Lazer & Informação. 15 de Dezembro de 1991, p 1, 2 e 3.

GOIDANICH, Hiron Cardoso. Enciclopédia dos quadrinhos. Porto Alegre: L&PM, 1990.

LAGO, Pedro Corrêa do. Caricaturistas Brasileiros 1836-1999. Rio de Janeiro: GMT Editores Ltda, 1999.

LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1963.

LOBATO, Monteiro. Ideias de Jeca Tatu. São Paulo: Edição Monteiro Lobato & Cia, 1922,p.3-21

TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. O Traço como Texto: a História da Charge no Rio de Janeiro de 1860 a 1930”, in Coleção Papeis Avulsos, nº38. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 2001.

VERGUEIRO, Waldomiro. O humor gráfico no Brasil pela obra de três artistas: Ângelo Agostini, J.Carlos e Henfil. Revistausp. Nº88. Humor na Mídia. São Paulo: USP, dezembro/janeiro/fevereiro 2010-2011, p.38 a 49.

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