31 julho 2007

Cidadão do mundo: Guimarães Rosa (1)



Em 2006 o Museu da Língua Portuguesa homenageia, na Estação da Luz em São Paulo, comemorou os 50 anos de uma das maiores obras da literatura brasileira: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Quem visitou o local conheceu a história do amor incomum de Riobaldo e Diadorim. Se leu o livro, se deliciar com as vivências que o museu preparou. Concebida por Bia Lessa, a mostra fez um passeio pelas veredas de Guimarães Rosa. Foram sete caminhos, cada um correspondente a um personagem ou a um aspecto importante do livro. Este ano, no dia 19 de novembro, Rosa partia. Faz 40 anos. Mas ele, na verdade (e como dizia) não morreu, ficou encantado.

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens."

Mineiro, brasileiro, cidadão do mundo. O escritor João Guimarães Rosa sempre mostrou paixão pela (re) criação de palavras. O poder de encantamento desse grande escritor mineiro está no seu poder de criar mundos e linguagens, pois ele vê a linguagem como um mundo, e o mundo como um campo onde se cruzam e recruzam linguagens a interpretá-lo.

O tempo é que é a matéria do entendimento

A partir do sertão (aquele particular, o mineiro, e de suas adjacências, o baiano e goiano), atravessado por imagens e valores simbólico, por personagens e acontecimentos insólitos, Rosa misturou símbolos das mitologias bíblicas, egípcias, das cosmogonias antigas, do ocultismo, da cabala, dos cultos esotéricos e obteve o desenho e a linguagem de um sertão fabuloso, inteiramente imaginário, só dele.

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.

Suas narrativas inspiram-se na fala das populações da região que ele percorreu como médico e viajante. A fala sertaneja aparece recoberta por neologismos, palavras novas eu ele inventara. Da relação entre a linguagem do escritor erudito, criando palavras, renovando expressões, e a fala dos personagens do sertão, Guimarães Rosa conseguiu criar um estilo todo pessoal, uma terceira margem da expressão. Para ele, esse universo da linguagem era o território daquele encantamento a que a vida das pessoas se dirigia, onde elas podiam vislumbrar a perenidade dos gestos e de seu sentido.

"...Mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou..."

Um dos aspectos mais criativos da escrita de Guimarães Rosa é o da relação entre a linguagem do escritor erudito, criando palavras, renovando expressões, e a fala dos personagens do sertão. Ele conseguiu criar um estilo todo pessoal, uma “terceira margem”, da expressão, entre aqueles dois pólos: a escrita citadina e a fala sertaneja.

“Ser forte é parar quieto, permanecer”.

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