01 agosto 2007

Cidadão do mundo: Guimarães Rosa (2)

Numa longa entrevista concedida a Gunter Lorenz, Guimarães Rosa afirma que “literatura deve ser vida”. Para ele, “quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única ponta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas. Daí resulta que tenha de limpa-lo, e como é a expressão da vida, seu eixo responsável por ele, pelo que devo constantemente cuidar dele”.

Esta é a percepção do escritor sobre as relações entre vida, linguagem e literatura. E como analisou a baiana Evelina Hoisel em seu livro “Grande Sertão: Veredas. Uma escritura biográfica” (Academia de Letras da Bahia, 2006), “esclarece o seu ideal de uma linguagem perfeita – pronta para o infinito – delimitando um dos aspectos de sua metafísica. Por outro lado, revela que é a partir de uma depuração da linguagem cotidiana que se atinge esse ideal. Define a função social do escritor: limpar as palavras das cinzas do cotidiano, para que elas possam ser novamente vida. Assume, perante seu interlocutor, a sua responsabilidade para com o idioma: cuidar dele, recriá-lo. Explicita os níveis de relação entre vida, linguagem e literatura e configurando o caráter biográfico da escritura literária”.

O fazendeiro Riobaldo recebe um visitante da cidade, e lhe conta a história da sua vida. Foi chefe de jagunços, tomou parte numa das grandes guerras, bandos armados que percorriam o sertão. Entre vinganças, traições, e pacto com o Diabo, descobre apaixonado por Diadorim, companheiro de lutas e o grande segredo se revela. Assim é Grande Serão: Veredas. Sob o aparente pretexto de informar a seu visitante (instruído e culto que vem conhecer a região), sobre a sua geografia física e social, Riobaldo se põe a mapear a cartografia física do sertão, com precisão e minúcia de quem conhece o objeto de sua narração, como também a delinear sua cartografia interior, mapeando as diversas zonas e territórios de sua subjetividade. Sujeito e objeto se encontram através dos signos retidos na memória. A travessia pelo sertão/mundo da experiência pessoal e coletiva desse barranqueiro do São Francisco é cheia de dor, tristeza, sofrimento, mas ele sobrepõe a vida, o esplendor, as águas claras do rio Urucaia, o passarim mais bonito de rio-abaixo e rio-acima, o suiriri, nhorinhá (flor amarela do chão), a justiça de Jeca Ramiro, a prudência de Medeiro Vaz e muitos outros personagens. E tudo resplandece pela luz que emana dos olhos verdes de Diadorim, pois “sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias!”

Guimarães Rosa foi o autor de frases desconcertantes, mas que o consagraram na memória de seus leitores. Entre elas está a de que as pessoas não morrem, ficam encantadas; ou a de que sua vida era um conto contado por ele mesmo. O mesmo aconteceu com seu narrador Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas. “Viver é muito perigoso...”, “Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”, “Diadorim é a minha neblina...” são frases eu foram além das fronteiras do grande romance e hoje podem ser citados até por quem nunca o leu.

No campo seco, a crepitar em brasas,

dançam as últimas chamas da queimada,

tão quente, que o sol pende no ocaso,

bicado

pelos sanhaços das nuvens,

para cair, redondo e pesado,

como uma tangerina temporã madura... ("Alaranjado", Guimarães Rosa)

As narrativas de Rosa inspiram-se claramente na fala das populações daquela região que ele, aliás, percorreu como médico r como viajante, levando sempre atento, cadernos nos quais anotava o que via em, sobretudo, o que ouvia. Transpôs diversos tipos populares que conheceu em suas andanças pelo sertão para seus livros sob a forma de personagens ou através da recriação inventiva de suas falas peculiares. Mas a fala sertaneja aparece recoberta por neologismos, palavras novas que Rosa inventou, algumas vezes só modificando um fonema ou outro nas palavras como encontradas nos dicionários. Criou também uma acentuação toda sua, nem de todo distante das normas ortográficas vigentes, nem de todo obediente.

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