10 julho 2007

Sonho navarriano

Desde o início, a trajetória do cineasta Edgard Navarro tem sido marcada pela ousadia com que trata os temas polêmicos que aborda. Suas primeiras incursões do período em que o Super 8 estava em voga, inscrevendo-se nesta fase a trilogia freudiana, na qual mesclam-se irreverência, escatologia, agressividade e humor: “Alice no País das Mil Novilhas” (o oral), “O Rei do Cagaço” (anal) e “Exposed” (fálico). Trata-se de uma explosão de signos pródiga e eloquente, em que anuncia, já então, o estilo irrequieto que tantas críticas e prêmios irá merecer.

No final da década de 80 ele lança o seu média-metragem “O Superoutro”, arrebatando os principais prêmios do Festival de Gramado. Em novembro de 2006 o primeiro longa-metragem de Navarro arrebata seis candangos (filme, diretor, ator coadjuvante, atriz, atriz coadjuvante e roteiro) e o prêmio da crítica no 38º Festival de Brasília, o mais importante do país. “Eu me lembro” entrou para a história da cinematografia brasileira. O filme de atmosfera nostálgica faz uma radiografia da Bahia dos anos 50 e acompanha as profundas transformações no país e no mundo e seus ecos na provinciana capital da Bahia.

Em suas reminiscência, Navarro buscou inspiração na obra de Fellini mas imprimiu sua identidade numa trama que se desenrola em duas décadas com as angústias, dores e delícias de sua geração. Na história de Guiga (alter ego de Navarro), filho caçula de uma família de classe média de Salvador dos anos 50, até o fim do período universitário dos anos 70, vem os novos desafios que se apresentam para esse jovem. Os questionamentos e inquietações desse jovem são observados com uma autenticidade rara pelo olhar sensível do cineasta. “A luz é a matéria-prima do cinema, e a nossa vontade é transformar toda a dor do mundo em luz”, revelou ele nas entrevista à imprensa. “Eu me lembro é, antes de tudo, uma sucessão de páginas do álbum da minha vida, da vida de alguém que nasceu e cresceu em Salvador. E isso fica muito claro no filme”.

Expondo suas vísceras, seus dilemas e tormentos, Edgar Navarro flui nessa arte dos sonhos que é o cinema, nessa luz que ilumina as salas escuras. E ao mergulhar de cabeça nesse retrato dolorido dos anos 50 aos 70, da fase mais perversa da vida brasileira, a ditadura, ele mostra seu talento. Afinal, ter consciência naquela época era ser perigoso, perseguido, mutilado. E Navarro mostra todo aquele delírio de uma geração conturbada. Um filme de vida de uma pessoa nobre, sensível, estimulante e, acima de tudo, ético.

Navarro sempre nos surpreende. Pela densidade de suas obras, de um fôlego que não deixa baixar a bola do começo ao fim. Ele sempre se debate nas fronteiras entre arte e vida. Excita estranheza e naturalidade, faces de um mesmo rosto. As fagulhas da contracultura convivem, com ou/e sem conflitos, com a consciência de linguagem. Foi essa sua inquietude que o levou a se aventurar no começo, desafinando o coro dos contentes. Em cada fotograma um desafio e um desejo. Não fazia filme para comemorar a vida, mas para estar vivo. Segundo por segundo, inspiração por expiração. E ele conseguiu, apesar de todos os percalços.

Em sua linguagem fílmica, que confirma e ao mesmo tempo vai além, aprimora e continua gerando fruto original, surpreendente. E a cada momento as texturas de suas imagens em movimento não rompem o transe expressa muito do seu princípio criativo e irrequieto, perturbador, reflexivo, provocativo. Edgar Navarro siga em frente com esta sua arte exemplar que todos nós estamos lhe apoiando nessa sua trajetória. Rotulado de maldito, você sempre foi do bem, como escreveu o colega jornalista Emiliano José, “os benditos na terra dos sonhos”. E que seus sonhos tornem-se luz.

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