30 julho 2012

Quinze anos sem o cineasta Siri

Há 15 anos, no dia 30 de julho de 1997, o cineasta Agnaldo Siri Azevedo encerra sua participação no filme da vida. O texto a seguir é do meu livro Gente da Bahia, volume dois: Documentarista. Agnaldo Antonio Azevedo, ou simplesmente Siri, como gostava de ser chamado, nasceu em Salvador, no bairro do Tororó, em 1931. O apelido de Siri ganhou devido a uma enorme semelhança com um então famoso jogador do Vitória. Bom de bola, o jovem Agnaldo Azevedo não hesitou em adotar definitivamente o apelido. No início dos anos 60 ele ganhava a vida como representante farmacêutico, vendendo remédios. Seus primeiros passos no cinema estão muito ligados a sua primeira experiência numa moviola, na montagem do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. Seu amigo Glauber Rocha o intimou a participar do projeto de Deus e o Diabo, porque via nele o tino comercial necessário para assumir a produção do filme. Encerrada a fase de gravação, viajou com Glauber Rocha para o Rio de Janeiro, onde viu, pela primeira vez, uma moviola em ação. Ali, frente ao processo de montagem, assistindo como nascia “outro filme”, sem intervenção de câmeras e lentes, Siri descobriu que já estava apaixonado pelo cinema. Não demorou para que a Bahia perdesse um competente representante farmacêutico.

Siri participou, como diretor de produção ou assistente de direção, de alguns dos mais importantes longas metragens do cinema brasileiro. Com Glauber Rocha, trabalhou em Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, clássicos do Cinema Novo. Também deixou sua marca em Tenda dos Milagres (assistente de direção), de Nélson Pereira dos Santos. Terminada a chamada fase de Glauber, Siri passou a dirigir seus próprios filmes, sempre no estilo documentário, com os quais foi premiado nos mais importantes festivais de cinema do País e até do exterior. Os amigos revelaram que as inspirações de Siri vinham de acontecimentos reais ou estalos repentinos. Anos atrás, lendo no jornal a notícia de que a Barragem de Itaparica iria inundar várias cidades, inclusive Rodelas, situada às margens do Rio São Francisco, Siri sentiu-se imediatamente motivado a transformar o feito em cinema. A idéia deu vida às imagens de Adeus Rodelas, com flagrantes da água invadindo a cidade e de lágrimas de seus moradores, que renderam ao cineasta alguns prêmios internacionais. Outro exemplo de suas sacadas foi a chegada de várias filarmônicas do interior à capital baiana, no início da década de 70. De espectador encantado para idealizador de mais um filme, foi um passo. Siri decidiu visitar cada uma das cidades representadas pelas orquestras, para ver de perto o dia-a-dia dos seus músicos. Em 1973, nasceu a fita As Filarmônicas, que no ano seguinte rendeu mais um prêmio.

Artista da luz, da imagem em movimento, Siri gostava de dar títulos compridos às suas obras. Os títulos de seus filmes revelam o olhar de quem fazia cinema com uma visão poetizante. Dança Negra; Creio em Ti, Meu São Jorge dos Ilhéus; A Zabiapunga de Cairu. Festança de Outrora; A Noite da Dança do Xirê e da Seresta; Memória de Deus e do Diabo em Monte Santo e Cocorobó; Por que Só Tatauí?; A Chuva que Vem do Chão; Não Houve Tempo Sequer para as Lágrimas. Além dos títulos, os temas de sua predileção foram ligados à lírica da cultura popular, aos artistas plásticos e aos poetas Boca do Inferno; A Volta do Boca do Inferno; As Phylarmônicas; Memória do Carnaval de 1978 - Uma Decoração do Artista Juarez Paraíso; A Noite do Folclore; Calasans Neto, o Mestre da Vida e das Artes, muitos filmes e vidas, e um imenso roteiro de participação como produtor, montador, roteirista ao lado dos melhores de nossa arte cinematográfica.

O mais premiado cineasta da Bahia guarda na sua filmografia cerca de 25 documentários e meia dúzia de vídeos. Seu último filme, Capeta Carybé, mostra a integração entre o artista plástico baiano Carybé e a cidade do Salvador. Com ele, Siri já havia conquistado dois prêmios no Festival de Brasília, prêmio do público no Festival de Curitiba e o de melhor documentário no Festival do Ceará. Concorreu também, entre os favoritos no Rio Cine Festival e foi selecionado para a mostra oficial do Festival de Gramado. O cineasta que saiu por aí filmando a gente e as coisas da Bahia, de Xique-Xique a Cocorobó, do Carnaval às filarmônicas, de Carybé a Calasans Neto, foi um forte referencial para todos os cineastas da Bahia. Siri - segundo contam os que trabalharam com ele - tinha a peculiaridade de “filmar montando”. Desperdiçava muito pouca película, gravando apenas a sequência de imagens que já tinha na cabeça.

Documentarista convicto, dono de uma técnica que fez escola e influenciou as últimas gerações do cinema baiano, Siri pela primeira vez se aventuraria no mundo da criação ficcional e logo com um projeto dos mais ousados, até para quem já milita no ramo. O Homem de Vidro, baseada na obra do contista baiano Altamirando Camacã. Não deu tempo. Em parceria com Chico Drummond, ele tinha um projeto de fazer vários outros trabalhos inspirados em pintores baianos. Já havia, inclusive, pautado Sante Scaldaferri, Floriano Teixeira e Tatti Moreno. No dia 30 de julho de 1997, no Hospital Jorge Valente, após entrar em coma, acometido de convulsões provocadas por um tumor no cérebro, o cineasta Agnaldo Siri Azevedo encerra sua participação no filme da vida. Acostumado a muitas vitórias e prêmios, deixou todos meio atordoados com a notícia. Mas, no imaginário de amigos, aparentes e admiradores da sua obra, não fica o sofrimento dos seus últimos dias. Fica o espírito jovem e o vigor incessável (mesmo com orçamentos curtos, falta de reconhecimento e tantos outros obstáculos que nunca fizeram desistir da sua paixão, do seu ofício), que fizeram dele o mais prolífico cineasta baiano, documentarista admirado em todo o Brasil. Fica na memória a obra de um cineasta inspirado, pouco conhecido das massas e que, na opinião praticamente unânime de seus companheiros de estrada, sempre soube valorizar a beleza e a poesia das imagens.
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