01 julho 2011

Sociedade inglesa visto por William Hogarth

No século XVIII retratar a pobreza não era um caminho rentável para o artista na Inglaterra. Mesmo com os ecos da Revolução Francesa, os britânicos tremiam só em pensar em revolução e proletariado. Iniciada a Idade da Razão e da Ciência, não era mais possível ignorar a pobreza e os pobres. Se não podiam ser ignorados, precisavam se tornar digeríveis. Entra nesse cenário os artistas gráficos, os caricaturistas que idealizaram o que anteriormente era motivo de desconfiança e asco. O cômico, o ridicularizado e, por outro lado, o idealizado, escancararam à sociedade britânica daquele século o que já não podia deixar de ser visto.

Dos gravuristas que retrataram Londres no período vitoriano, sem dúvida William Hogarth foi o mais prolífico, o mais produtivo (para não dizer viril), e o mais voltado para a arte em favor da sociedade. Já no século 18, entendia a força da arte como impulsionadora das transformações sociais. Hogarth foi pintor, gravurista, sátiro, crítico social, cartunista, pioneiro da arte sequencial, hoje mais conhecida como quadrinhos (na época, literatura de estampa). Assim, em 1798, Thomas Rowlandson criou o Dr. Sintaxe


Suas ilustrações sequenciadas oferecem comentário bem-humorado sobre as convenções políticas e sociais de sua época. As excursões do Dr. Sintaxe eram sátiras sobre uma série contemporânea das aventuras pitorescas de várias partes da Inglaterra, com ênfase na ilustração da paisagem e versos poéticos.


William Hogarth (1697-1764) foi o primeiro grande pintor originário da Inglaterra, e sua obra retrata com inteligência e técnica brilhante a sociedade inglesa da época: o primeiro a pintar os temas de Shakespeare. Excelente retratista, também ficou conhecido por suas pinturas históricas. Hogarth foi o fundador da famosa escola inglesa de pintura pois, até então, a Inglaterra não tinha demonstrado grandes nomes no estilo rococó. Pintor de considerável habilidade, voltou-se para a produção de desenhos moralistas como complemento dos seus rendimentos. Suas gravuras retratavam uma Londres repleta de perversidades e excessos por parte do povo. Ele tinha características muito pessoais e específicas mas as suas preferencias caíam nas pinturas de cunho moralizante tiradas de sátiras, como a extremamente bem humorada série Marriage à la Mode. Começou como gravurista em prata por volta de 1713, conquistou sua reputação em 1720 e a partir daí iniciou as suas caricaturas a preto e branco. William Hogarth popularizou a caricatura na década de 1730, as suas caricaturas eram fortes sátiras morais e sociais.

Sofrendo com a pirataria das suas gravuras mais populares, conseguiu em 1735 a aprovação de uma lei sobre direitos de autor, conhecida por Lei de Hogarth, e oficialmente como Engravers' Copyright Act. Criou logo a seguir a Academia de Saint Martin's Lane, uma escola para jovens gravadores. Em 1743 terminou as seis pinturas intituladas Marriage à la Mode, e em 1745 seguiram-se as gravuras baseadas nestas pinturas. As seis pinturas intituladas Marriage à la Mode foram o primeiro trabalho satírico e moralista de Hogarth, tomando os escalões superiores da sociedade como objecto de análise. Tinham a intenção de retratar os costumes e a moral que regia a sociedade do século XVIII a qual ele definiu como uma nova espécie cômica na história da pintura. Esta serie foi considerada o seu trabalho de maior qualidade, explora as terríveis consequências de um casamento arranjado, analisa tanto a ridícula e perigosa natureza da aristocracia, como a da aspirante classe mercantil.


Para o estudioso Joaquim da Fonseca, em sua obra Caricatura. A Imagem Gráfica do Humor, nenhum outro artista da época incorporou a visão da sátira social tão completamente como Hogarth: “Hogarth foi o primeiro artista para quem o termo ´cartunista´ pode ser aplicada legitimamente. Ele foi o primeiro a desenhar cenas humorísticas sem o recurso da caricatura pessoal ou deformidades físicas. Os fundos dos cenários e os detalhes eram suficientes para trazer humor para suas composições. Os efeitos que obtinha eram primeiramente dramáticos, antes de serem gráficos. Seus desenhos, principalmente pela narrativa em sequência, podem ser reconhecidos como precursores diretos da história em quadrinhos (FONSECA, 1999, p.59).


A sátira de Hogarth ao casamento por dinheiro, os detalhes sobre a vida das classes abastadas, a sua mestria na apresentação de cenas complexas encontram provavelmente a sua mais alta expressão nesta série, considerada o seu trabalho de maior qualidade. A este período pertencem também muitos de retratos de Hogarth.


Dois dos seus famosos sucessores foram James Gillray (1757-1815) e Thomas Rowlandson (1756-1827). Gillray mudou a natureza do desenho e alargou a sua atração. Enquanto Hogarth era moralista, Gillray voltou a sua atenção para os campos político e social, atacando o sistema com informação e mordacidade. Ninguém era poupado à sua caneta: a família real, políticos, proeminentes figuras da sociedade e instituições.

----------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

0 Comentários:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home