28 julho 2011

Henrique Fleiuss e o advento da caricatura política (1)

O artista alemão Henrique Fleiuss (1823-1882) chegou ao Brasil aos 35 anos de idade. Gozando da proteção imperial ele fundou, no Rio de Janeiro em 1860 o primeiro periódico ilustrado humorístico que teve uma existência duradoura: a Semana Illustrada (1860-1876), cuja vida prolongou-se por quase 16 anos, quando foi superada pela novidade e qualidade superior da Revista Illustrada, lançada por seu rival de maior talento, Ângelo Agostini, em 1876.


E para despertar a curiosidade do público leitor, Fleiuss produziu o primeiro cartaz-anúncio ilustrado de que se tem notícia no Brasil (Ernesto da Cunha de Araujo Vianna, “Das artes gráficas no Brasil em geral e na cidade do Rio de Janeiro em particular”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 78 (132) p.579, 1015). O apelo publicitário surtiu o efeito desejado. Ao ser lançado, o semanário tornou-se um sucesso de venda. Pioneiro da imprensa ilustrada no Brasil, inclusive das histórias em quadrinhos, Henrique Fleiuss desenhou e litografou a Semana Illustrada até o número dez. Daí em diante passou a contar com a colaboração de diversos artistas.


Iniciando um estilo de publicação até então inexistente no Brasil, Fleiuss criou não apenas o formato que todas as revistas semelhantes seguiriam, como também inovou ao introduzir um personagem central que comentava as notícias na capa da revista: o Dr. Semana. Sempre acompanhado por um menino negro (Moleque) com quem contracenava, o Dr Semana logo caiu no gosto popular. O desenho de Fleiuss visava ao melhor resultado na litografia e o máximo que se permitia em termos de caricatura era exagerar o tamanho da cabeça com relação ao corpo. Na verdade, preferia retratar com bastante precisão os traços das celebridades da época, sem deformá-los, e alcançava a qualidade fotográfica que o público esperava então num jornal ilustrado. Apesar de não ser o primeiro a efetivamente publicar esse tipo de trabalho no Brasil, Henrique Fleiuss o fez com uma boa regularidade ímpar, num veículo de bom alcance e com periodicidade inconteste.


Formado em Belas Artes na Alemanha, Fleiuss cria uma topografia que Pedro II transforma em Imperial Instituto Artístico, inspirando assim essas relações promíscuas, às vezes ambíguas, em todo caso sempre perigosas, entre intelectuais e o poder público. O curioso é que seu ofício – o traço como sátira política – se caracteriza, essencialmente, pela permanente crítica e sistemática oposição a todo poder constituído. Essas relações de amizade e apoio à Monarquia, de resto, custarão caro ao alemão, que será alvo, por todo esse período, de ácidas críticas dos demais chargistas, sobretudo do principal deles, o italiano Ângelo Agostini.

O pesquisador Octavio Aragão nos 170 anos da caricatura no Brasil escreveu: “Informado a respeito dos últimos sucessos europeus em termos de ilustrações, no afã de alcançar popularidade, Fleiuss não hesitava em adaptar e até copiar caricaturas estrangeiras, para horror de seus colegas, Ângelo Agostino deu-se ao trabalho de desenhar uma página dupla – As Apoquentações do Dr. Semana – satirizando a falta de originalidade do colega, publicando-a na Vida Fluminenses. Agostini subtitulou a saga do Dr. Semana, como Desenho Para Crianças, Por Angelo (Que Não Copiou de Nenhum Jornal Allemão) fazendo alusão direta ao gosto de Fleiuss pelas criações de Wilhelm Busch, autor dos personagens Max und Moritzz (Juca e Chico)” (ARAGÃO, 170 anos da Caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: Jornal da ABI, Outubro de 2007, p.4).


Em seu trabalho de pesquisa intitulado “O traço como texto”, Luiz Guilherme Sodré Teixeira informa que o Dr Semana é anterior ao Max und Moritz, publicado em 1865 por Wilhelm Busch e ao Yellow Kid, de Richard Outcault em 1895. “Entretanto, tal como os de Fleiuss, esses personagens são escassamente citados, precariamente reconhecidos, quando não solenemente ignorados pelos estudiosos do gênero, que reproduzem as mesmas datas e personagens pelas culturas hegemônicas” (p.2). E diz mais:


“Se um personagem como o Dr. Semana não é original, não deixa de surpreender a figura do Moleque, bem apessoado e capaz de ironizar a política da Corte. Monaquista convicto e amigo pessoal de Pedro II, Fleiuss produzia uma charge ´de adesão`, francamente favorável ao imperador, sendo, por isso, alvo da sátira de chargistas como J. Mill no Bazar Volante, Bordalo Pinheiro em O Mosquito e, sobretudo, Agostini, em Arlequim e Vida Fluminense. Contudo, essa posição politicamente conservadora não o impede de colocar em 1864 o Moleque discursando no Parlamento, nem de `alforriá-lo´ em 1866. Atitude surpreendente, pois nessa década, a Abolição – como ideia ou movimento – mal engatinhava no país” (TEIXEIRA, O traço como texto. Rio, Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001, p. 7 e 8).


E o estudioso escreveu mais: “Entretanto, a ideia mais original de Fleiuss é a representação do índio como símbolo da nacionalidade brasileira, misturando a idealização do país com um ingênuo naturalismo, centrados na ideia da natureza como ´pura´e do índio como intrinsecamente bom – o Paraíso, enfim, como lugar da inocência – cujas origens remontam às teses do bom selvagem de Rouseau, populares entre a elite europeia do século XIX”.

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