19 julho 2011

Folhetim, herdeiro do romantismo (3)

Os romances de folhetim começaram a ser publicados com regularidade em jornais brasileiros, principalmente no Rio de Janeiro, na década de 1830, quase sempre traduzidos do francês. E é José Ramos Tinhorão que conta:

“Um dos introdutores do novo gênero – e a quem, por sinal, se iam dever as traduções de O Conde de Monte Cristo, em 1845, e de Os miseráveis, em 1862 – foi o jornalista conservador Justiniano José da Rocha, autor da novela-histórica. Os assassinos misteriosos ou a paixão dos diamantes, publicada como folhetim no Jornal do Comércio em 1839. Nesse mesmo ano de 1839, aliás o próprio Joaquim Manuel de Macedo, futuro autor de A moreninha, teria começado a escrever, ainda muito moço, aos 19 anos, o seu romance O forasteiro, afinal publicado também como folhetim do jornal Marmota fluminense, a partir de 4 de fevereiro de 1855” (TINHORÃO, 1994, p. 29).

Entre os primeiros escritores brasileiros que produziram crônica/folhetim encontram-se Martins Penna, Gonçalves de Magalhães, José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e João do Rio. A eficácia do folhetim é tamanha que permite a Aluísio de Azevedo viver, por volta de 1870, exclusivamente da escrita de folhetins (HALLEWELL, 1985).

Hoje a telenovela é a tradução atualizada do folhetim. A história em série, fragmentada, o tempo suspenso de uma narrativa estilhaçada em tramas múltiplas, enganchadas no tronco principal, aberta às mudanças, segundo o gosto do “freguês”, tão aberta que o próprio intérprete, tal como na vida, nada sabe do destino de seu personagem. O “freguês” precisa ser amarrado de todo jeito, amarrado por ganchos, chamadas, puxado por um suspense que as antecipações anunciadas na imprensa especializada e até na cotidiana não comprometem, na medida em que a curiosidade é atraída tanto pelo “como” quanto pela expectativa dos diversos reconhecimentos que dinamizam as tramas.

Esse novo produto, a telenovela, utilizando antigos temas (gêmeos, trocas, usurpações de fortuna ou identidade), até sua distribuição em horários diversos, correspondendo a modalidades folhetinescas diferentes (aventura, comicidade, seriedade, realismo), procurou, sempre, de modo a satisfazer o patrocinador. Assim, o que começou como simples narrativa em capítulos publicados em jornais, o folhetim haveria de se metamorfosear noutros gêneros, em função de novos veículos, com espantoso alargamento de público.

A grande narrativa televisiva se insere, por sua vez, nessa enorme corrente de contar histórias que parece consubstancial à vida do homem em sociedade. Não há explicação que dê conta plena do fenômeno. Romance grego, canção de gesta, folhetim, novelão, cordel, tudo são histórias que compõem e ajuda a vida de cada um e de todos.

Sobre romance popular, Edgar Morin escreveu: “No século XIX a corrente mais significativa do romance burguês tende a criar uma relação bovarista entre a obra e o leitor (sobretudo a leitora) enquanto surge e se desenvolve o romance popular. O imaginário popular – o dos contos de serão, narrações de saltimbancos, da tradição oral – se fixa na tipografia a partir do século XVIII. São os romances de venda ambulante, levados de casa em casa pelos mercadores errantes, nos quais se encontram contos de fadas, lendas, narrações maravilhosas do folclore e nos quais se introduzem os temas, beirando o fantástico, do romance negro inglês. Nesse imaginário popular, o extraordinário é mais alimentado que o ordinário, isto é, as correntes de projeção dominam as correntes de identificação, ao contrário do imaginário burguês que se funde nov realismo, isto é, assegura uma identificação mais estreita entre o leitor e o heroi”.

E continua: “No entanto, o imaginário popular vai modificar-se no folhetim da imprensa do século XIX. O impulso do jornal determina o aparecimento de episódios do dia a dia e multiplica a procura do romance. O folhetim se torna um centro de osmose entre a corrente burguesa e a corrente popular: a corrente popular pega personagens da vida quotidiana, mas essas personagens estão empenhadas em aventuras ´romambulescas´, onde, às vezes, até o fantástico a irrompe (Les Mémoires du Diable, de Frédéric Soulié, Le Juif Errant, de Eugène Sue). Uma parte do imagiário burguês se deixa arrebatar pela aventura rocambulesca: romances de Balzac, principalmente a Historie des Treize, a série dos Vautrin, a Recherche de l´Absolu, romances de Hugo como Quatre-Vingt-Treize, e sobretudo Les Misérables. Essas duas correntes se misturam, como se misturam na leitura do jornal os leitores burgueses e agora leitores populares, onde dominam os leitores pequeno burgueses ainda mal libertados das raízes populares, mas já semi encaixados na cultura burguesa. O folhetim cria um gênero romanesco híbrido, no qual se acham lado a lado gente do povo, lojistas, burgueses ricos, aristocratas e príncipes, onde a órfã é a filha ignorada do príncipe, onde o mistério do nascimento opera estranhas permutas sociológicas, onde a opulência se disfarça em miséria e onde a miséria chega a opulência; a vida quotidiana é transformada pelo mistério, as correntes subterrâneas do sonho irrigam as grandes cidades prosaicas, o rebuliço do desconhecido submerge as noites das capitais, aventureiros desenfreados reinam sobre as sombras da cidade, medicantes e vagabundo. Desse estranho casamento do realismo e do onirismo nascem admiráveis epopeias populistas, essas obras primas hoje em dia desconhecidas” (MORIN, 2990, p.58-60).

No capítulo sobre os vasos comunicantes, Morin informa: “Desde o século XIX, o romance folhetim e o conto foram introduzidos no jornal. Mas é no começo do século XX que o imaginário arrebenta sobre as mas media. Forma-se uma imprensa periódica, exclusivamente romanersca (sentimental, aventurosa ou policial). O cinematográfico se transforma em espetáculo e se dedica principalmente aos filmes de ficção. Depois, o rádio se torna o grande veículo das cançõese dos jogos, seguido pela televisão” v(p.98).


Referências:

COSTA, Cristiane. Eu compro essa mulher: romance e consumo nas telenovelas brasileiras e mexicanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

ECO, Umberto. Super Homem de massa. São Paulo: Perspectiva, 1991

HALLEWELL, L. O livro no Brasil. São Paulo: T.A.Queiroz/Edusp, 1985.

MARTIN-BARBERO. J. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998.

MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MORIN, Edgar. Cultura de massa no século XX; neurose. 9a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

TINHORÃO, José Ramos. Os romances em folhetins no Brasil: 1830 à atualidade. São Paulo: Duas Cidades, 1994.

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