05 janeiro 2011

A hora e vez dos quadrinhos baianos (01) (yes, nos temos quadrinhos)

Apesar dos diversos obstáculos, a produção de histórias em quadrinhos na Bahia está cada vez mais amadurecida e ter mais espaço no mercado. Entre nós a “9ª arte” é motivo de muito debate sobre sua credibilidade como meio de comunicação. A falta de disciplinas acadêmicas sobre o assunto, nas nossas instituições de ensino em comunicação social ou mesmo no ensino médio e fundamental, gera um déficit de conhecimento difícil de ser compensado. Com muita dificuldade, principalmente do mercado distribuidor, a HQ na Bahia, principalmente a vertente independente, está amadurecendo, e o mercado interno finalmente desperta para o potencial desta mídia. Temos que lembrar que há muito tempo deixamos de viver em um país que discriminava os quadrinhos. Já se foi o tempo em que se fazia cara feia quando se falava do assunto, “coisa de criança...”. O texto a seguir faz um mapeamento das artes gráficas na Bahia.


1. OLHAR NA CULTURA LOCAL

Sempre tive um olhar sobre locais/materiais que antes eram considerados pouco legitimados, ou mesmo, sem importância na formação dos sujeitos. Sejam eles cordel, quadrinhos, grafitti...não importa, são produtos humanos e devemos considerar. No distante anos 50 os intelectuais costumavam dividir a arte elitista e a popular. Culturas erudita, popular e de massa representam divisões cifradas sobre um tipo de reflexão imaginária que o ser humano sempre realizou sobre si mesmo. Se é imprescindível decifrar arqueologicamente cada um desses campos, para que seja possível entendê-los sistematicamente, torna-se necessário desterritorializá-los. Para percebê-los como trabalhos únicos sobre o mundo, escrituras que sinalizam os diferentes modos que as populações humanas e seus artistas encenaram sua própria história e a história dos outros. Assim, as saturadas divisões entre oralidades/escrita, tradição/modernidade requerem problematização urgente, a fim de remover quaisquer mecanismos de exclusão e legitimação que ainda possam existir em críticas culturais canonizadas por elitismos impertigados e arrogantes.


Os quadrinhos entrelaçam fronteiras entre realidade e ficcionalidade, seduzem o receptor provocando lágrimas, risos, medos, ansiedades e alegrias e servem de suporte na construção de referências imaginárias. Constituem a grande mediação na relação que se estabelece entre produtores, produtos e receptores: todos são capazes de reconhecer história, mensagens, sinais. Essa mídia é entendida como matrizes culturais, arquétipos, modelos, padrões e caracterizam universalidades, repõem tradições, restituem memórias e resgatam, seletivamente, na modernidade, traços de um passado e de um tempo aparentemente perdidos. Vislumbram o futuro e narra o presente.


Como foi demonstrado por Umberto Eco (Apocalípticos e Integrados) e por Ariel Dorfmann (Para Ler o Pato Donald), histórias em quadrinhos reproduzem conceitos e elaborações que permeiam a sociedade onde estão inseridas. Quando a nação norte-americana hesitava em participar de uma guerra que não entendia como sendo sua, ou quando se recolhia de medo sob o choque de serem vitimas pela primeira vez do ataque de uma potência estrangeira em seu próprio solo, foram nos gibis que o público encontrou incentivo e catarse, expurgando os medos e ajudando a forjar uma nova identidade nacional. Foram nos veículos de massa, incluindo também o rádio, o cinema e a televisão, que tais ideias se disseminaram, nem sempre ostensivamente, até que aquelas imagens, signos e códigos passaram a ser parte do repertório nacional.

Histórias em quadrinhos não criaram a realidade, mas a retrataram, reproduzindo o imaginário das sociedades onde estavam inseridas, seus preconceitos e expectativas, bem como esperanças e ideais. E, nesse sentido, justamente por sua efemeridade, pela capacidade de captar com habilidade única o espírito de seu tempo sem os limites impostos pela possibilidade de reflexão ulterior, que os quadrinhos, assim como outras formas de cultura de massa, servem como instrumento único para desvendar os modos de pensar e entender o mundo das gerações que nos antecederam. Como verdadeiras janelas para o passado.


Existem articulações e relações entre variados saberes, conexões entre conhecimentos de diferentes tendências teóricas. O objetivo é o diálogo entre antropólogos, sociólogos, historiadores, filósofos, teóricos da comunicação e da cultura popular e outros, que recusam departamentalização. O resultado é uma trajetória de um produto que continua em aberto como a história da humanidade.

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A partir de hoje vamos publicar, em 23 artigos, a hora e vez dos quadrinhos baianos.
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