09 fevereiro 2019

The Sandman Universe


Obra-prima de Neil Gaiman, Sandman é um marco dos quadrinhos, uma das mais aclamadas HQs de todos os tempos. É também a história que mostrou, como nenhuma outra, o potencial artístico do formato com o seu terror gótico. Sandman traz a história de Sonho, um dos 7 perpétuos. Trata-se de uma épica série que foi de 1989 até 1996. Para comemorar os 30 anos do lançamento desse clássico, Gaiman aprovou The Sandman Universe, nova linha de quadrinhos que não apenas vai dar continuidade ao universo desenvolvido por Gaiman, mas também deve expandir os personagens que já existiam antes disso. Assim, quatro novas publicações serão lançadas pelo selo Vertigo, da DC Comics, em parceria com escritores distintos, supervisionados pelo próprio autor.

 


O projeto começa com uma edição especial e única, chamada apenas de The Sandman Universe, que vai contar o que está acontecendo no reino dos sonhos e atualizar os leitores antigos e novos com os fatos mais recentes, como o desaparecimento de Sonho, o que deixou o caos reinar. Lúcifer, Timothy Hunter e novos moradores do mundo dos sonhos também terão importantes papeis neste desenvolvimento.

 


A primeira edição escrita por Nalo Hopkinson, Kat Howard, Si Spurrier e Dan Watters, com supervisão de Gaiman. A arte da brasileira Bilquis Everly, com capa de Jae Lee. Nos meses seguintes, os quatro escritores serão responsáveis pelas séries que serão originadas do “one-shot”.

 


House of Whispers mostrará uma nova entidade do vudu que acaba indo parar no mundo dos sonhos a partir da casa que dá nome à publicação; Books of Magic será uma sequência dos quadrinhos dos anos 90, do próprio Neil Gaiman, focados no menino bruxo Tim Hunter; The Dreaming seguirá personagens coadjuvantes de Sandman, como Lucien e Matthew, enquanto exploram o mundo dos sonhos sem a presença de seu senhor; enquanto Lucifer mostrará o personagem do título destituído de seu poder, preso em uma cidade pacata de onde ninguém pode sair.

 


“Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó”. Foi essa frase de T.S. Eliot que serviu para embalar o lançamento dessa série e também dar asas à imaginação de Neil Gaiman, um britânico destinado a criar uma das sagas mais revolucionárias e inovadoras dos quadrinhos contemporâneos.

 


Poucas HQs na história do mundo ocidental transcenderam o gênero e romperam barreiras como Sandman conseguiu. Mesclando mitologias modernas e fantasia sombria, além de acrescentar elementos modernos, históricos e míticos, Sandman foi considerada uma das séries mais artisticamente ambiciosas dos quadrinhos. Quando foi concluída, em 1996, já tinha mudado a nona arte para sempre e se tornado um fenômeno de cultura pop, bem como um marco das HQs, tornando difusa a fronteira imaginária entre os quadrinhos de massa e o que consideramos como arte.




07 fevereiro 2019

Lembrando Carmen Miranda




“Taí/Eu fiz tudo pra você gostar de mim/Ó, meu bem/Não faz assim comigo, não/Você tem/Você tem/Que me dar seu coração” (Taí, de Joubert de Carvalho)





Fevereiro é época de festa, alegria, carnaval, e centenário de Carmen Miranda. A pequena notável de quadris redondos, movendo-se ao som de uma batucada sensual e sua brejeirice natural está completando cem anos de nascimento. No dia 09 de fevereiro de 1909 (há 110 anos) na pequena Marco de Canaveses, Portugal nascia Maria do Carmo Miranda da Cunha. Pouco depois de seu nascimento, seu pai emigrou para o Brasil, onde se instalou no Rio de Janeiro. Em 1910, sua mãe seguiu o marido, acompanhada da filha mais velha, Olinda, e de Carmen, que tinha menos de um ano de idade. Carmen nunca voltou à sua terra natal, o que não impediu que a câmara do concelho de Marco de Canaveses desse seu nome ao museu municipal.



“No tabuleiro da baiana tem/Vatapá, caruru, mungunzá, tem umbu/Pra Ioiô/Se eu pedir você me dá/O seu coração, seu amor/De Iaiá” (No tabuleiro da baiana, de Ary Barroso)

 


"Carmem Miranda foi uma das primeiras expressões internacionais do Brasil, sempre com o seu personagem característico travestido de turbante de frutas tropicais, balangandãs, tamancos altíssimos e um jeito de cantar gesticulando e revirando os olhos. Apesar de ter nascido em Portugal, em 1909, veio para o Brasil aos dois anos de idade, e sempre assumiu um lado brasileiro de ser", disse Tânia.



“Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí/Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati/Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão/E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão” (Camisa listrada, de Assis Valente)

 


A artista fez gravações antológicas, amplamente reproduzidas até hoje, mesmo depois de 54 anos de sua morte, como "Taí", de Joubert de Carvalho; "Camisa Listrada", de Valente; "No tabuleiro da baiana" e "Na baixada do sapateiro", de Barroso; "O que é que a baiana tem?", de Dorival Caymmi, dentre outras. Atuou também em 13 filmes, nos Estados Unidos.



“O Que é que a baiana tem?/O Que é que a baiana tem?//Tem torço de seda, tem!/Tem brincos de ouro tem!/Corrente de ouro tem!/Tem pano-da-costa, tem!/Sandália enfeitada, tem!/Tem graça como ninguém/Como ela requebra bem!//Quando você se requebrar/Caia por cima de mim/Caia por cima de mim/Caia por cima de mim//O Que é que a baiana tem?/O Que é que a baiana tem?/O Que é que a baiana tem?/O Que é que a baiana tem?//Tem torço de seda, tem!/Tem brincos de ouro tem!/Corrente de ouro tem!/Tem pano-da-costa, tem!/Sandália enfeitada, tem!/Só vai no Bonfim quem tem/(O Que é que a baiana tem?)/Só vai no Bonfim quem tem/Só vai no Bonfim quem tem//Um rosário de ouro, uma bolota assim/Quem não tem balagandãs não vai no Bonfim/(Oi, não vai no Bonfim)/(Oi, não vai no Bonfim)” (O que é que a baiana tem?, de Dorival Caymmi)

 


Para homenagear o maior ícone pop do Brasil a Sony/BMG lançou em 2009 no centenário de nascimento da artista um CD duplo com os sucessos da artista. E na São Paulo Fashion Week (18 a 23 de fevereiro) os fãs da Pequena Notável puderam conferir a exposição Carmen Miranda para sempre.

 


Carmen Miranda é até hoje a cantora brasileira que mais fez sucesso no exterior. Dona de um estilo absolutamente único e particular, tanto na maneira de cantar como na performance de palco, teve uma vida de mito, cheia de glórias e dramas. Ela morreu em agosto de 1955, mas continuou sendo sempre lembrada por meio de shows e discos de homenagens, filmes, documentários sobre sua vida.

06 fevereiro 2019

40 anos do Olodum


Fundado em 1979, há 40 anos, o Olodum estreou no Carnaval de 1980 e gravou seu primeiro Lp Egito, Madagascar em 1987, que incluía a música Faraó divindade do Egito, até hoje uma referência em seu trabalho. O sucesso da turma do Pelô ultrapassou as fronteiras do país levando o grupo a se apresentar na Europa, Japão e Estados Unidos. A batida forte e marcante do samba reggae, criado na época por Neguinho do Samba, chamou a atenção de astros como Wayne Short, Jimmy Cliff, Herbie Hancock e do cineasta Spike Lee. Paul Simon convidou o grupo para gravar a música The Obvious Child, no disco The Rhythm of the Saints. Com Michael Jackson, gravou o clipe da música They Don´t Really Care About Us.



Fonte inesgotável, onde muitos artistas da axe music costumam beber com freqüência, o Olodum possui ainda um arsenal de sucesso respeitáveis: Avisa Lá (Roque Carvalho) também gravada por Cae e Gil no CD Tropicalia 2, Rosa (Pierre Onassis), Berimbau (Pierre Onassis, Germano Meneghel e Marquinhos Marques), I miss her (Lazaro Negrumy), Deusa do amor (Valter Farias e Adailton Poesia), entre muitas outras



Quando foi criado em 1979, o Olodum era para ser só mais um bloco afro no Carnaval de Salvador. Acabou virando um centro de reflexão sobre a cultura negra e uma atração internacional. A partir de 1984 o diretor de bateria Neguinho o Samba começou a pesquisar novas batidas e ritmos com as crianças eu formavam a banda mirim do Olodum. O resultado foi uma mistura irresistível de reggae, samba, lambada, merengue e toques africanos que ajudou a concretizar a explosão de um mercado regional n Bahia. As bandas conhecidas como Mel, Reflexu´s, Chiclete com Banana e Gerônimo, Sarajane e Luis Caldas venderam quase um milhão de cópias. Todos gravaram músicas de compositores dos blocos afros, ou se inspiraram na nova batida durante as gravações.

 


No Olodum, melodias e letras difíceis são aliadas a um trabalho exclusivamente de percussão. Ao contrário dos afoxés, que saem com atabaques de pele de animal, os blocos afros usam instrumentos de percussão pesados. Neguinho do Samba transformou suas pesquisas com as crianças do Pelourinho para o grupo de adultos. As percussões são divididas para soarem como outros instrumentos. Os repiques som como metais. Os antigos 105 (também instrumentos percussivos) garantem a marcação rítmica. A distribuição entre tons graves e agudos impressionou Paul Simon, que disse: “Nunca ouvi nada igual”.



“Faraó, Divindade do Egito”, de Luciano Gomes dos Santos, compositor de 18 anos na época, foi o grane tema do carnaval baiano de 1987. A banda Mel gravou a música, como também uma adaptação de Ladeira do Plô, de Betão, que acompanhou o Olodum desde 1984. A banda preferiu gravar os versos mais does: “Eu vou e vou e eu vou/subir a ladeira do Pelô (...)/balançando a banda pra lá/balançando a banda pra cá”. A letra completa, na versão do bloco afro, demonstra qual o objetivo do Olodum, filho direto do bloco Ilê Aiyê, defensor da negritude formada em 1974: “Aganjou, allujá, muito axé/canta p povo de origem nagô/o seu corpo na fica mais inerte/que o bloco Olodum já pintou/me leva que eu vou, sou/Olodum Deus dos Deuses/vulcão africano do Pelô”.

 


Se os afoxés – alguns muito antigos, como Filhos de Ghandi, que sai no carnaval baiano há 70 anos têm uma nítida coloração religiosa, o bloco afro Olodum preferiu assumir uma iniciação social e política, a partir da mudança da diretoria, entre 1983 e 1984. Até então, Olodum era um bloco de carnaval. E só. Mas a própria origem dos blocos afros nega esta proposta. Eles surgiram como um protesto contra a discriminação aos negros no chamado carnaval internacional de Salvador. Hoje, no Largo do Pelourinho, o Olodum – palavra que significa rei dos orixás, ou rei dos reis – promove atividades culturais. Aulas de dança, música, palestras e seminários que tentam registrar a história da escravidão, revoltas e origens dos negros na Bahia.

 


E o carnaval é uma história à parte. Olodum já se inspirou na Cuba de Fidel, em 1986, quando o bloco saiu multicolorido, com batas e boinas. Em 1987, o tema foi a possível origem nagô dos antigos egípcios, descoberta por Sheik Arita Diop. No carnaval de 1988, Olodum saiu inspirado em Madagascar, ilha perdida entre a Africa e o Oriente, caldeirão de raças e som.

04 fevereiro 2019

Filhos de Gandhy comemora 70 anos de fundação


O bloco de afoxé Filhos de Gandhy – coletivo masculino fundado em 18 de fevereiro de 1949 com inspiração na ideologia pacifista do ativista indiano Mahtama Gandhi (1869 – 1948) – comemora 70 anos de fundação.





Em 1949 os estivadores do cais de Salvador, praticantes do candomblé, fundam o afoxé Filhos de Gandhy. A idéia de formar o afoxé surgiu durante uma greve nos portos ingleses que deixou a estiva de Salvador sem trabalho por alguns dias. A mensagem do líder indiano Mahatma Gandhi, assassinado em 1948 chegou aos ouvidos dos estivadores. Assim, com 40 homens que tinham fama de feiticeiros e valentões o Filhos de Gandhy saiu pela primeira vez no carnaval de 1949.

 


Os lençóis brancos serviram de turbante e os vidros de alfazema foram utilizados como banho de cheiro. Os colares de contas já estavam colados ao corpo daqueles negros religiosos. O nome de Gandhi foi adotado porque era o precursor da paz no mundo. O grupo já chegou a reunir dez mil homens na avenida. A grande mancha branca no asfalto negro da cidade emociona a todos. O imenso tapete branco leva uma imagem de incrível força e beleza, e se mantêm vivo e fiel a todos os elementos rituais.

 


Os componentes dos Filhos de Gandhy baseiam seu som no ritmo da percussão e em cânticos na língua africana iorubá. Eles se vestem com lençóis e toalhas brancos que simbolizam as vestes indianas.  Além da roupa e do turbante, usam colares azuis e brancos e perfume de alfazema. Quem assiste ao cortejo, acaba ganhando de presente os famosos colares como forma de se desejar a paz.



O Afoxé Filhos de Gandhy reúne mais de 10 mil membros. Entre as celebridades que costumam a participar do seu cortejo carnavalesco estão celebridades como Gilberto Gil e Carlinhos Brown. Gil gravou em 1977 a Patuscada do Gandhy (Arivaldo Fagundes Pereira) projetando-o país afora. Tornou-se uma espécie de padrinho oficial.

 


O Gandhy, nas ruas de Salvador, cultua uma das nações que é a Ijexá, impregnando a avenida com o ritmo peculiar e cadenciado dessa nação, ofertando ao público maçãs, peras, uvas, alimentos que representam a limpeza do corpo, da aura, perfumando as ruas com sua alfazema, transformando a avenida em um imenso tapete branco simbolizando a bandeira da paz. No desfile são utilizadas algumas alegorias que relembram o sentimento de Mahatma Gandhi: o elefante, símbolo da força que teve para não curvar-se diante do poder inglês; o camelo, símbolo da resistência que manteve fiel aos ideais de liberdade mesmo quando preso; a cabra, símbolo da vida porque através do leite pode recuperar as forças e continuar a peregrinação em favor da liberdade do povo indiano.

 


Após alguns anos de quase invisibilidade na mídia, o Afoxé Filhos de Gandhy sem perder o contato com a tradição e de olho no futuro, adotou novas tecnologias tanto administrativas quanto estéticas, visando potencializar a sua imagem diante dos meios de comunicação existentes e um contato maior com formadores de opinião e seus associados. O Afoxé Filhos de Gandhy tem como missão através do entretenimento, pregar a paz e abrigar em seu ambiente, pessoas de todos os credos, condições sociais e raças e ser referência nacional e internacional de uma organização divulgadora dos preceitos de paz

30 janeiro 2019

Pioneiro da caricatura brasileira


Há 140 anos (em dezembro) morria o primeiro caricaturista brasileiro Manuel de Araújo Porto-Alegre.  Gaúcho, ele foi o primeiro artista a publicar uma caricatura no Brasil, em 1837. Entre 1837 e 1839, de volta de sua viagem à Europa, Manuel de Araújo Porto-Alegre produziu uma série de litografias satíricas que eram vendidas em unidades separadas nas ruas do Rio de Janeiro.

 


O aparecimento relativamente tardio da caricatura na nossa história é revelador da demora que a imprensa levou para chegar até nós. Embora no período colonial o Brasil tenha sido privado da imprensa por determinação real, a caricatura já se manifestava de outras formas como expressão do povo nas festas de carnaval, de bumba-meu-boi, na malhação de Judas, e através de bonecos e fantasias que satirizavam pessoas e costumes da época. Foi em 1837 o ano da primeira caricatura brasileira.

 


Pintor, arquiteto, autor dramático, poeta e diplomata, Manoel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), depois Barão de Santo Ângelo, tão logo volta ao Brasil, tratou de divulgar a arte desenvolvida nos seus anos no exterior, publicando em dezembro de 1837 a primeira charge brasileira no Jornal do Commercio, que satiriza Justiniano José da Rocha, político de relevo da época.

 


Com a vinda para o Brasil da família real portuguesa e a abertura dos portos, em 1808, é que estabeleceram aqui as primeiras oficinas gráficas. Começou, a partir daí, o desenvolvimento da impressão de livros e periódicos. Os jornais, no entanto, eram apenas tolerados, e quem se manifestava contra o governo sofria as sanções da censura e da perseguição. Os jornais, até então, não publicava caricaturas. Estas circulavam apenas como estampas avulsas, ainda de forma tosca e sem qualidade. As inovações técnicas, chegadas ao Brasil em meados do Século XIX, permitiram o advento da gravura e, consequentemente da caricatura, na imprensa brasileira, causando considerável impulso, assegurando novas condições à crítica e ampliando sua influência. Nesse sentido, o texto humorístico foi precursor da caricatura, que somente apareceu quando as técnicas da gravação permitiram conjugar as palavras coim a atração visual do desenho e da imagem.



A primeira caricatura brasileira, atribuída a Manoel de Araújo Porto Alegre (1837), apareceu como uma estampa avulsa e foi exibida pelo Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, nº277, de 14 de dezembro de 1837. A caricatura, mais propriamente a charge, tratava de uma crítica às propinas recebidas por um funcionário do governo relativas ao Correio Oficial.

 


O aparecimento da caricatura passou a dar à imprensa recursos de enorme amplitude e a anunciava uma mudança que iria justificar o processo político. Era uma época de grandes mudanças, marcadas pela extinção do tráfico negreiro (lei de 1850), pela Guerra do Paraguai (1864-1870) e pela consolidação do Império.



A profusão de imagens nas mídias emergentes (jornais, cartazes, estampas e espetáculos teatrais) constitui uma revolução visual. São sinais de uma consciência da cidade em transformação. A imprensa ilustrada provoca um impacto no imaginário, nos costumes, na consciência dos fatos do tempo vivido, na percepção da cidade. As evoluções técnicas tipográficas, como a da gravura em bois de bout (“em madeira de topo”), fazem com que texto e imagem possam se associar na mesma página, barateando a produção de jornais, que se sucedem: La Silhouette (1829-1830), La Caricature (1830-1835, que une o romancista Honorpé de Balzac ao editor Charles Philipon), Le Charivari (1832-1872), Le Magasin Pittoresque, entre outros.

29 janeiro 2019

Um ano sem Ângelo Roberto, mestre do desenho


No dia 28 de janeiro de 2018, há um ano, morria o artista plástico Ângelo Roberto. Ele nasceu em 1938 na antiga Palestina, atual Ibicaraí. Quando veio morar com a família em Salvador, participou do programa do professor Adroaldo Ribeiro Costa, Hora da Criança. E descobriu a vocação para desenho. Simplicidade, sensibilidade, harmonia, força, beleza, expressividade plástica, olhar da infância (puro). Tudo isso estão contidos no desenho do mestre baiano Ângelo Roberto. Impossível não parar diante de seus desenhos ternos de traço límpido e preciso.

 


No misterioso traçado quase invisível que compõe o desenho de Ângelo Roberto, há às vezes a impressão de que o artista tem um poder incomum de criar um nobre sentimento entre suas figuras humanas e seus animais. Nos gestos mais sutis das figuras de Ângelo, o sentimento de amor infinito pela liberdade compreende o direito das criaturas de conquistá-la e deixá-la ir e vir, quando quiser. Como a tristeza feita em lágrimas nos olhos das meninas, diante de pássaros engaiolados; ou feita em alegria incontida e fluida no momento de ver outro pássaro alçar vôo e sumir pela janela. Em todos os segmentos que extrai da vida, Ângelo é sublime e sua linguagem não é meramente emocional – é hipnótica. Na avaliação de Ângelo, a marca da sua arte é a linha precisa. “É ela que me fascina, é o ponto de partida de tudo, eu não acredito num pintor que não é desenhista. Atualmente, eu ando querendo fazer pintura, mas estou emaranhado pela linha, e é difícil sair dela“.

 


O desenho, para o artista, “é a alfabetização”, a grande escola de pintores, caricaturistas, os mestres das artes visuais. A peça mais importante do jogo, assim como “o escritor tem que saber soletrar”, o pintor tem que saber desenhar, para ser perfeito em sua arte. Por isso, Ângelo não pensa duas vezes para dizer que desenho é fundamental, “porque sei que todo desenhista pode pintar, mas nem todo pintor desenha”. Assim como nem todo caricaturista sabe desenhar, mas todo desenhista pode ser um bom caricaturista. E Ângelo Roberto é bom em tudo o que se propõe a fazer, porque de desenho ele entende.

 


Ele se dedicou, em vida, a desenhar cavalos. Esses seres peraltas, encantados, quase mitológicos, ternos e cheios de façanhas surgem do imaginário lúdico do artista. E como escreveu o escritor Paulo Martins para o Caderno Cultural d´A Tarde, Paulo Martins, o tema recorrente do conjunto de sua obra sempre foi a infância. “Assim, os desenhos de Ângelo são mais do que meras recordações da infância: ele os concebe, sempre, com os olhos da infância. São desenhos mnemônicos, mas é como se ele enxergasse tudo não com os olhos de hoje, mas com os olhos da criança que foi um dia”.

 


O bico de pena é uma característica forte na arte de Ângelo Roberto, mas a caricatura é algo que “nunca saiu de mim”. Ele já foi caricaturista de diversos jornais baianos como o Jornal da Bahia, A Tarde, Diário da Bahia e Folha da Bahia. Segundo o professor e artista plástico Juarez Paraíso, “Ângelo Roberto é, precipuamente, um artista da linha e do tracejado, das impressionantes tramas de bico-de-pena. O contraste elegido é simples, mas eficaz. O completo domínio artesanal do artista tece uma incrível tessitura gráfica, um incrível trabeculado, estrutura linear composta por traços pacientemente superpostos, com mais ou menos transparência, jamais obstruindo a passagem da luz que emana do papel”.

 


“A volumetria – continua Juarez – é reduzida e controlada com sutileza, e o segredo está no controle da transparência e da natureza da textura visual, na dependência da acumulação e posição espacial do tracejado retilíneo, sendo notável a passagem da luz entre as figuras e o fundo. Mestre do bico-de-pena, Ângelo Roberto já produziu centenas de desenhos de grande beleza plástica (gráfica). Com os atuais, demonstra uma prodigiosa imaginação e memória visual no desafio de um só tema e com o máximo de economia dos recursos materiais. Um sensível e intenso sentimento de harmonia emana da conjugação de linhas, atraindo o movimento do olhar, seduzido pela suavidade do ritmo criado pelo artista. A expressividade plástica sobrepõe-se à simples configuração temática, graças ao desenho despojado e contemplado pelo talento do artista, pela depurada percepção seletiva e notável poder de síntese, próprio dos grandes desenhistas figurativos”.

24 janeiro 2019

Território da alma humana (4)


A imagem gráfica foi um dos primeiros e mais presente elemento para o estabelecimento de diferentes formas de comunicação e registro narrativo da aventura humana. A pintura rupestre, presente até os nossos dias, é um exemplo das primeiras narrativas por sucessão de imagens (MOYA, 1970).



E em outro momento histórico, em que a comunicação já procedia de uma linguagem falada inteligível e codificada, o nascimento dos primeiros alfabetos reteve o caráter da imagem gráfica. Até os nossos dias, algumas culturas vivas preservam estas estruturas primordiais da escrita em alfabetos ideogramáticos, como é o caso da escrita do idioma chinês. A aproximação entre a escrita e a fala, contudo, foi essencial para a apropriação crescente da leitura como atividade cotidiana das populações, encaminhando sua democratização a constituir-se em um direito e patrimônio da humanidade.

 


A difusão das linguagens de matriz visual verbal continuou na Europa, nos séculos XVII e XVIII, como forma universal de comunicação impressa, o humor gráfico dá o próximo passo quando um imigrante italiano radicado no Brasil, Ângelo Agostini, lança a obra As Aventuras de Nhô Quim em 1869, considerada a primeira história em quadrinhos do mundo por certos especialistas (RIANI, 2002, p.38). No entanto, para efeito de internacionalização da linguagem, o primeiro registro mundial fica com Yellow Kid, história em quadrinhos de autoria de Richard Felton Outcault, lançada em 1895 (MOYA, 2003, p.95).



Consolidando-se como linguagem da mídia na imprensa norte-americana do século XIX, a história em quadrinhos concentrou-se em conteúdos humorísticos e esteve inicialmente voltada para o público menos letrado, abordando com comicidade as mazelas do operariado, dos núcleos familiares de classe média e baixa, contemplando também a possibilidade do protagonismo feminino, de minorias sociais e étnicas. A distribuição destas primeiras HQs, denominadas na época comic strips (chamadas no Brasil de “tiras”) foram levadas dos EUA para o mundo por meio dos syndicates, que são até hoje organizações distribuidoras de notícias e material de entretenimento para jornais do mundo.



Além de difundir o trabalho de seus artistas gráficos, a distribuição sindicalizada dos quadrinhos norte-americanos colaborou, juntamente com o cinema, para a internacionalização de diversos elementos da cultura e formas de produção de bens culturais nesse país. A ampliação dos parques gráficos norte-americanos, aliado ao aprimoramento da linguagem das HQs, fez com que estes obtivessem um veículo próprio, uma publicação periódica chamada comic book (conhecido no Brasil como gibi).



O efeito de despertar o gosto pela leitura não se perdeu para as histórias em quadrinhos, segundo os especialistas, mesmo quando outras mídias foram crescidas nas vivências domésticas e comunitárias das pessoas, como o rádio, a televisão, o cinema e, mais recentemente, as mídias digitais e o advento da Internet. Uma das características que resgata as histórias em quadrinhos como componente geracional, ou seja, traço inerente à geração atual, é determinado pelas propriedades hibridizadas de sua linguagem, devido aos elementos semânticos de sua matriz visual verbal. Assim, a geração de jovens que cresceram sob a égide da informática se identifica com a mídia quadrinhística, sentindo-se atraída também pelas possibilidades que cada leitor tem de criar suas próprias narrativas por meio desta linguagem.



Em seu estudo sobre culturas híbridas, Nestor Garcia Canclini abordou dois “gêneros impuros: grafites e quadrinhos”: “São práticas que desde seu nascimento abandonaram o conceito de coleção patrimonial. Lugares de intersecção entre o visual e o literário, o culto e o popular, aproximam o artesanal da produção industrial e da circulação massiva” (CANCLINI, p. 337)



E mostra a sua aliança inovadora, desde o final do século XIX, entre a cultura icônica e a literária. Participam da arte e do jornalismo, são a “literatura” mais lida, o ramo da indústria editorial que produz maiores lucros: “Poderíamos lembrar que as histórias em quadrinhos, ao gerar novas ordens e técnicas narrativas, mediante a combinação original de tempo e imagens em um relato de quadros descontínuos. Contribuíram para mostrar a potencialidade visual da escrita e o dramatismo que pode ser condensado em imagens estáticas. Já se analisou como a fascinação de suas técnicas hibridizadoras levou Bourroughs, Cortazar e outros escritores cultos a empregar sua síntese de vários gêneros, sua ´linguagem heteróclita´ e a atração que suscita em públicos de várias classes, em todos os membros da família” (CANCLINI, p. 339).



Mais adiante Canclini informa: “Se a história em quadrinhos mistura gêneros artísticos prévios, se consegue que interajam personagens representativas da parte mais estável do mundo – o folclore – com figuras literárias e dos meios massivos, se os introduz em épocas diversas, não faz mais que reproduzir o real, ou, melhor, não faz senão reproduzir as teatralizações da publicidade que nos convencem a comprar aquilo de que não precisamos, as ´manifestações´ da religião, as ´procissões´ da política” (CANCLINI, p. 345).




23 janeiro 2019

Território da alma humana (3)


As histórias em quadrinhos apresentam-se como mídia financeiramente acessível, democrática e abrangente em matéria de popularidade, e preparam o cérebro humano para a apropriação de uma ampla oferta de bens culturais. A distinção entre alta e baixa cultura é uma página virada, que não deixa lugar nem para apocalípticos, nem para integrados. No livro Apocalípticos e Integrados, Umberto Eco (1979) relaciona as diversas “peças de acusação” e também as de “defesa” para em seguida fazer uma reflexão sobre o tema. Em nenhum momento, Eco toma partido de apocalípticos ou integrados, mas oferece uma análise livre de preconceitos, que, no fim, sugere alternativas para o que chama de uma utilização valorativa dos meios de comunicação de massa.



Confrontando as diversas características “pró” e “contra”, Eco afirma ser possível perceber que os níveis culturais são complementares, o que significa que podemos chegar aos biscoitos finos de Oswald de Andrade pela cultura de massas. Ele chama a atenção para a raiz aristocrática da crítica à cultura de massas, como nostalgia de uma época em que os valores da cultura eram privilégio de uma classe, mas que agora se difundiram junto a massas que não tinham acesso aos bens de cultura. A cultura de massas se desenvolveu diante da crise de um modelo cultural anterior. E, se hoje o excesso de informações sobre o presente pode distorcer o que os conservadores chamam de “consciência histórica”, antes não havia nem isso para a maioria, o que impossibilitava sua inserção na sociedade. A tão criticada homogeneização dos gostos também pode ter servido para eliminar algumas diferenças de castas, ao mesmo tempo que permitiu uma produção cultural que barateasse os custos.

 


Enfim, diante de “prós” e “contras”, Umberto Eco sugere que a problemática de apologistas e integrados foi mal formulada. Para Eco não se deve perguntar se a cultura de massas é boa o ruim, mas como se pode veicular valores culturais em seus meios de difusão. Estes valores seriam definidos e veiculados por uma comunidade de cultura, formada por intérpretes das sociedades em que vivem, constituindo-se em grupos de pressão sobre o mercado. Esta seria uma relação dialética e não paterno elitista, na medida em que uns interpretariam as exigências e instâncias dos outros. Fica clara a ideia que Umberto Eco faz de sua pólis. A discussão em torno de seu texto permanece atual, embora, hoje, não haja mais espaço para a divisão entre apocalípticos e integrados, já que a paisagem tecnológica se sobrepõe ao real, praticamente nos obrigando a refletir em cima dela. A sociedade já está impregnada pela estetização (até mesmo virtual), pela culturalização da realidade. As superfícies já se transformaram em interfaces de um universo tecnocultural. E os limites se converteram em passagens.



Os estudos de Richard Hoggart, Raymond Williams e Stuart Hall articularam-se contra as concepções elitistas de cultura. A subdivisão entre cultura de elite, cultura de massas e cultura popular torna-se muito mais frágil, com a legitimação dos saberes que todos os membros da civilização produzem, enfatizando também o domínio político que direciona a própria produção cultural. Esses estudiosos redirecionaram a teoria da Comunicação, por meio da inserção do povo como elemento fundamental da cultura. Para eles, e muitos outros, a cultura é emanada das vivências, das relações inter pessoais e das histórias de vida, ou seja, do modo de vida social. Entre os teóricos latinos que resgataram o conceito de mediação (desenvolvido pelo soviético Lev Vygotsky nos anos 1930), definido como o estabelecimento da relação inter-pessoal que perpetua e renova a cultura, por meio da linguagem estão Jesus Martin Barbero, Nestor Garcia Canclini e Guilhermo Orozco Gomes.



Estudiosos como Nestor Garcia Canclini, nos recentes aportes dos Estudos Culturais, elencam as histórias em quadrinhos como bens culturais de vital importância para a Cultura. Através desta reconciliação, foi possível a uma comunidade internacional de pesquisadores da pedagogia neo piagetiana inserir, finalmente, as histórias em quadrinhos nas práticas pedagógicas. Mesmo assim, ainda há o conceito da história em quadrinhos como literatura intermediária, precursora da leitura de obras bibliográficas ditas “superiores”, como livros, jornais e revistas. Aparentemente, existe uma associação estranha entre o valor de um bem cultural e sua reprodutibilidade técnica, que prejudica o estabelecimento de políticas culturais voltadas para a indústria cultural. Para Nestor Garcia Canclini,



Sem dúvida, é necessário expandir o apoio à literatura e às artes não industrializadas, mas no final do século XX não parece convincente dizer que estamos promovendo o desenvolvimento e a integração cultural quando carecemos de políticas públicas para os meios de comunicação de massa, através dos quais 90% dos habitantes do continente (americano) se entretêm e se informam (CANCLINI, 1997, p. 211).


22 janeiro 2019

Território da alma humana (2)


A aparente quietude das HQs esconde a dinamicidade e a riqueza expressiva que saltam de suas páginas coloridas e transforma esse meio de comunicação impresso em um dos produtos culturais mais ágeis dessa indústria do espírito. E essa indústria organiza a cultura de massa para orientar o indivíduo durante o lazer, convertendo este mesmo lazer no tecido da vida pessoal do indivíduo.



O divertimento, inoculado no cerne do lazer, transforma-se ao maior atrativo dos meios de comunicação de massa. As mesmas imagens e palavras, aparentemente inócuas, que encantam crianças e divertem adultos, escondem por trás de suas cores e traços mensagens tremendamente eficazes que nos fazem falar, escrever, amar, vestir e nos portar como os nossos protagonistas preferidos das histórias em quadrinhos.

 


Protegido pela tinta e pelo papel, os personagens das HQs materializam representações que são constantemente retomadas, reatualizadas e normatizadas sob a forma de um simples exercício de leitura. E desse jogo lúdico entre palavra e imagem (aparentemente desvinculado do mundo real), retoma, recria e fundamenta modelos e saberes.



Assim, os quadrinhos convertem-se em possibilidades de naturalização de valores, modelos e paradigmas que são decalcados na memória coletiva sob a forma de representações, que são absorvidas como normas e verdades. Sobre a produção dessas verdades, Michel Foucault é claro quando diz que (...) vivemos em uma sociedade que em grande parte marcha “ao compasso da verdade” – ou seja, que produz e faz circular discursos que funcionam como verdade, que passam por tal e que detêm, por esse motivo, poderes específicos. A produção de discursos “verdadeiros” (e que, além disso, mudam incessantemente) é um dos problemas fundamentais do Ocidente. (FOUCAULT, 1979, p. 231).



Os quadrinhos e demais produções do imaginário reatualizam e revitalizam as narrativas místicas, matrizes de paradigmas seculares, assumindo o lugar dos contos de fadas ou das antigas epopeias heroicas. Esses produtos reintroduzem antigos heróis, seres semidivinos, suas obras, dores, amores e ódios, assim como as ideias de bem e mal em nosso cotidiano, instaurando modelos e criando funções.

 


Em 1924 Harold Gray começa a publicar sua tira Little Orphan Annie, a pequena órfã conhecida por causa dos olhos redondos desenhados sem pupilas, cabelos encaracolados, sempre protegida pelo milionário da indústria bélica “Daddy” Warbucks. Annie vivia sempre acompanhada de um cachorrinho chamado Sandy e representou talvez o máximo de conservadorismo que as histórias em quadrinhos puderam um dia refletir. Sustentada por um magnata da indústria de guerra que enfrentava greves mandando assassinar os seus cabeças (Daddy Warbucks), a menina personificava o apoio à plutocracia como modelo ideal de sociedade.



Nunca cresceu, permanecendo por mais de cinquenta anos congelada no tempo, vagando pelas regiões inóspitas dos Estados Unidos, sendo raptada por bandoleiros - normalmente ligados a etnias diversas ou a classes pouco privilegiadas -, e esperando que seu papai retornasse de uma de suas intermináveis viagens para salvá-la dos perigos, com os quais parecia ter contrato de exclusividade. Talvez por personificar a mentalidade tacanha e retrógrada que dominava (e domina ainda) boa parte da população de seu país, foi um dos grandes sucessos dos quadrinhos, sendo desenhada por seu autor até a morte deste, em 1968, e depois tendo sua continuação por outras mãos. Virou até musical na Broadway e produção cinematográfica. A série provocou críticas severas em sua época, teóricos da área são unânimes em suas afirmações:



“A órfã das pupilas sem luz, sempre perseguida e sempre triunfante, é o pretexto para celebrar as pretensões, os privilégios, os abusos de certa porção da sociedade americana: a necessidade de ganhar muito, o gosto pelas obras de caridade, ou seja, o dinheiro, como fim e como meio”. (BUONO, 2007, p. 7). “As histórias eram parábolas, contos moralistas, cheios de alegorias caracterizações” (MOYA, 1993, p. 55)



“Gray, que sempre desenhou Aninha com olhos brancos, foi acentuando na sua série suas convicções políticas de direita extremada, colocando muitas vezes como ´vilões´ sindicalistas, grevistas ou operários simpatizantes do comunismo (GOIDA, 1990, p. 25). “As tiras de Little Orphan Annie são um exemplo da introdução da ideologia de direita nos comics: paternalismo, glorificação do mundo patronal, etc”. (GUBERN , 1979, p. 90). Apesar disso, Aninha, pela forma sentimental e esperançosa com que enfrentava perigos e situações difíceis, conquistou leitores no mundo inteiro.




21 janeiro 2019

Território da alma humana (1)


Depois de embalar duas grandes guerras, o século XX conheceu uma nova onda de colonização. Não mais horizontal ou geográfica, mas verticalmente, penetrando os territórios da alma humana. A industrialização do espírito, segundo Edgar Morin (2009, p.13), por meio do avanço tecnológico, se voltou para a organização do interior do homem, soterrando-o sob camadas de mercadorias culturais.

 


“...as palavras e imagens saíam aos borbotões dos teletipos, das rotativas, das películas, das fitas magnéticas, das antenas de rádio e de televisão; tudo que roda, navega, voa transporta jornais e revistas; não há uma molécula de ar que não vibre com as mensagens que um aparelho ou um gesto tornem logo audíveis e visíveis (…) Através delas, opera-se esse progresso ininterrupto da técnica, não mais unicamente votado à organização exterior, mas penetrando no domínio interior do homem e aí derramando mercadorias culturais. Não há dúvida de que o livro, o jornal eram mercadorias, mas a cultura e a vida privada nunca haviam entrado a tal ponto no circuito comercial e industrial, nunca os murmúrios do mundo – antigamente suspiros de fantasmas, cochichos de fadas, anões e duendes, palavras de gênios e de deuses, hoje em dia músicas, palavras, filmes levados através de ondas – não haviam sido ao mesmo tempo fabricadas industrialmente e vendidas comercialmente. Essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo os ectoplasmas da humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma” (MORIN, 2009, p.13-14)



E desde a infância, o cidadão médio dessa sociedade de massa é inserido em uma sede de informações que mescla os mais diversos conteúdos, que são cuidadosamente elaborados para integrar diferentes categorias de consumidores aos meios de comunicação. E esse caráter emigra da imprensa para os outros meios. A maior parte das mercadorias que alimenta essa sociedade de massa associa palavras rápidas e sucintas a imagens suntuosas, fascinantes e dinâmicas.

 


As invenções técnicas foram necessárias para que a cultura industrial se tornasse possível. O crescimento de todo sistema industrial exigiu o máximo consumo para um público variado. E essa variedade é, ao mesmo tempo, sistematizada, homogeneizada. Asim a diversidade dos conteúdos foi homogeneizada. A maioria dos filmes, por exemplo, sincretiza temas múltiplos no seio dos grandes gêneros: num filme de aventura haverá amor e comicidade e num filme de amor haverá aventura e comicidade, assim como num filme cômico, haverá amor e aventura. Essa linguagem homogeneizada exprime esses temas.



O radio tende ao sincretismo variando a série de canções e programas, mas o conjunto é homogeneizado no estilo da apresentação radiofônica. A grande imprensa, a revista ilustrada tendem ao sincretismo se esforçando por satisfazer toda gama de interesse.



Informa Morin: “No começo do século XX, as barreiras das classes sociais, das idades, do nível de educação delimitavam as zonas respectivas de cultura. A imprensa de opinião se diferençava grandemente da imprensa de informação, a imprensa burguesa da imprensa popular, a imprensa séria da imprensa fácil. A literatura popular era solidamente estruturada segundo os modelos melodramáticos ou rocambulescos. A literatura infantil era rosa ou verde, romances para crianças quietas ou para imaginações viajantes. O cinema nascente era um espetáculo estrangeiro. Essas barreiras não estão abolidas. Novas estratificações foram formadas: uma imprensa feminina e uma imprensa infantil se desenvolvem depois de cinquenta anos e criam para si públicos específicos” (p.37). E conclui: “A cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua totalidade” (p.47).

 


Para concluir esse espírito do tempo onde a cultura de massa é um embrião de religião da salvação terrestre, mas falta-lhe a promessa da imortalidade, o sagrado e o divino, para realizar-se como religião, Morin assim afirma: “A contradição – a vitalidade e a fraqueza – da cultura de massa é a de desenvolver processos religiosos sobre o que há de mais profano, processos mitológicos sobre o que há de mais empírico. E inversamente: processos empíricos e profanos sobre a ideia-mãe das religiões modernas: a salvação individual”.



Assim a união entre o imaginário e o real é muito mais íntima do que nos mitos religiosos ou feéricos. O imaginário não se projeta no céu, fixa-se na terra. Os deuses (e os demônios) estão entre nós, são de nossa origem, são como nós mortais. Só não há resposta para as contradições da existência, estas estão em movimento, e esse movimento pode criar respostas, também em movimento.


18 janeiro 2019

Nélson Maleiro, um percussionista de peso


Ele inovou a estética do Carnaval baiano com seus instrumentos percussivos. Foi o primeiro negro a protagonizar uma propaganda comercial ao vivo na TV Itapoan. Um agitador cultural Há 110 anos nascia Nelson Maleiro.



Músico, carnavalesco, precursor dos instrumentos de percussão, artesão, desportista, animador cultural e compositor. Nascido em 20 de janeiro de 1909, em Saubara, então distrito de Santo Amaro da Purificação, Nélson Cruz, aos dez anos de idade foi trazido a Salvador por uma família amiga de seus pais para trabalhar como embalador na loja Bahia Elétrica, na Baixa dos Sapateiros. Mais tarde, tendo grande habilidade, dedicou-se a fabricar malas. O sucesso foi tanto nessa atividade que toda a Bahia passou a reverenciá-lo como Nélson Maleiro. A partir daí o artista passou a ser mais conhecido e participou com mais afinco dos eventos culturais da comunidade.

 


A arte sempre foi uma força que se apoderou daquele homem robusto que certamente ultrapassava a 100 quilos. Depois do fabrico de malas que lhe valeu o cognome, colocou a sua inteligência a serviço das alegorias que tanto marcaram o carnaval da Bahia. Os carnavais baianos sofreram grande influência de Nélson Maleiro, pois era integrante do bloco Mercadores de Bagdá e depois, em 1959, com uma ala dissidente dos Mercadores, fundou o bloco Cavalheiros de Bagdá, que em 1960 saiu às ruas pela primeira vez no carnaval, sendo vencedor com sua criação de O Gigante de Bagdá.



Dentro dos Cavalheiros de Bagdá fez várias criações que se tornaram inesquecíveis como a baleia jogando água no povo, dragão que expelia fogo, tubarão, King-Kong, e tantas outras. O sucesso do gigante nos Cavalheiros de Bagdá foi tanto que, durante 20 anos, foi destaque no carnaval. Como artista, foi ainda convocado a emprestar o seu talento ao clube carnavalesco Os Internacionais. Durante nove anos, confeccionou os carros alegóricos do referido bloco tais como pandeiro cigano, barco, lâmpada maravilhosa de Aladim, pirâmides do Egito e outros.

 


Nélson Maleiro foi o precursor dos instrumentos de percussão na Bahia. Ele fabricava, consertava e tocava instrumentos de percussão como tamborim com e sem ferragem, bongô, timbau, atabaque, tumbadora, bateria completa, pandeiro, agogô entre outros. Como percussionista e inovador, apresentava-se tocando bumbo com duas baquetas. Emprestou esse talento artístico a inúmeros blocos carnavalescos de sua época como Vai Levando, Barroquinha Zero Hora, Ritmistas do Samba, Nega Maluca, com abastecimento dos instrumentos de percussão. O Carnaval da Bahia ficou mais percussivo com os instrumentos do artista. Graças a ele, não era mais necessário comprar o atabaque ou o timbau fora, Maleiro fazia aqui mesmo. O grande sucesso alcançado pelos grupos de percussão atualmente tem muito a ver com Maleiro, pelo grande artista que foi, levando alta dose de criatividade e tudo de que participava com suas invenções. Na medida em que confeccionava os instrumentos, sabia tocá-los muito bem. Assim, ao se falar do carnaval e da musicalidade baiana, não se pode esquecer Nélson Maleiro, o gigante de Bagdá. Sua participação na vida cultural não foi só no carnaval. Criou na década de 40 a Orquestra de Jazz Vera Cruz que abrilhantava os bailes da época, onde tocava sax tenor e barítono. Fundou o Clube de Regatas Vera Cruz, participou de várias competições no Dique do Tororó, com um barco de sua própria fabricação.



No projeto A Hora da Criança, do professor Adroaldo Ribeiro Costa, tece participação nas peças de teatro Narizinho e Monetinho, realizadas no teatro do antigo Instituto Normal da Bahia, integrando a orquestra quer acompanhava peças, tocando maracas. Na tradicional Festa dos Santos Reis, Maleiro se fez presente por vários anos, como integrante dos ternos Arigofe, Estrela do Oriente e Terno do Sol, onde sagrou-se campeão por diversas vezes, tocando sax e barítono. Nesses festejos ele se preparava com extremo rigor e se entregava de corpo e alma. Era um apaixonado pelas tradições da terra. Na Lavagem do Bonfim, tradicional festa religiosa do verão baiano, sua presença era sempre esperada por todos que lá compareciam, pois sempre criativo trazia sia bicicleta sui generis de seis lugares, sobre a qual levava alguma alegoria como pote ou caixa d´água, enriquecida de algumas inscrições pertencentes à festa, tipo “a água que lava o bem lava o mal”, “a água que lava tudo só não lava a língua dessa gente”. Foi também homem de televisão, participando do programa Escada para o Sucesso, produzido pela TV Itapuã, canal 5 onde o Gigante, "gongava" os calouros que desafinavam. Como compositor fez a música Pescaria de Tubarão para os Cavalheiros de Bagdá.

 


Nélson Maleiro teve cinco filhos, 14 netos e dois bisnetos. Sendo católico, frequentava a Igreja do Bonfim no dia do seu aniversário e, nos outros dias. Visitava o Mosteiro de São Bento. Era a forma de demonstrar a sua fé. Homem altruísta. Sempre atendia a todos que o procurava, ajudava aos necessitados, seja de uma forma material ou espiritual. Costumava, às sextas-feiras distribuir esmolas ao imenso número de pedintes que se portavam em frente à sua lojinha, que era a sua morada e o seu local de trabalho – Rua Dr. J.J.Seabra, loja 28. Ele faleceu em 1982 e deixou uma imensa saudade em todos os cantos da Bahia.



Admiradores e vizinhos do artista, na rua da Barroquinha,. Ivan Lima e Ivete Lima iniciaram há anos, um movimento visando o reconhecimento público dessa importante figura. Com o apoio do professor e ex-vereador Germano Tabacoff, aprovaram a Lei nº9.215/96 que denominou de Nélson Maleiro, uma rua situada no Jardim São Cristóvão, na Liberdade. Trata-se da Associação dos Amigos de Nélson Maleiro (de caráter social e beneficente) para preservar a memória desse irrequieto artista popular, um dos difusores da moderna linguagem percussiva, que hoje lança nomes baianos no cenário mundial, como Carlinhos Brown. Em 1996 o Ilê Ayê saiu às ruas com o tema Pérolas Negras do Saber, fazendo uma homenagem ao carnavalesco. E em dezembro do mesmo ano, uma rua no Parque São Cristóvão passou a se chamar Rua Nélson Maleiro. É a lembrança do povo baiano a um de seus filhos querido. (Fonte: Gente da Bahia, volume 2, escrito por Gutemberg Cruz e publicado pela Editora P&A em 1998)

17 janeiro 2019

Um ano sem Luis Augusto, o criador de Fala Menino!


O criador da série em quadrinhos Fala, Menino!, o artista gráfico baiano baiano Luis Augusto, morreu no dia 20 de janeiro de 2018, aos 46 anos, em Salvador. O desenhista sofreu um infarto.

 


Seus quadrinhos abordam uma turminha muito especial. Lucas é mudo, mas sempre consegue passar o seu recado. Caio é cadeirante e sabe lidar muito bem com a trajetória da vida. Rafael é deficiente visual que gosta de filosofar sobre tudo o que ainda não viu, mas enxerga o mundo de uma perspectiva lúcida. Mateus é autista e consegue entender o que está em sua volta. Leandro, o melhor amigo de Lucas, é um garoto judeu super ativo e cheio de imaginação.

 


Os personagens possuem necessidades especiais, mas os traços de Luis Augusto não caem no arquétipo da cartilha contra o preconceito. Mesmo com limitações físicas, as crianças não permitem que isso impeçam de realizar as ações típicas da infância como as brincadeiras, as paqueras, os sonhos. Tudo isso com uma dose de humor e otimismo. Uma turminha que tem que lidar com os dilemas da infância, dialogando com o mundo dos adultos de um jeito muito especial.

 


Os desenhos de Luis Augusto Gouveia foram premiados pela UNICEF, inclusive no Prêmio Ibero Americano de Comunicação pelos Direitos da Infância. Além da tira publicada no jornal A Tarde, vários livros foram editados e uma série de desenhos animados de 15 capítulos (de 45 segundos cada) que ficou no ar na programação das emissoras baianas.

 


DIFERENÇAS - Ao colocar luz sobre a infância e juventude da garotada, Luis Augusto desmistifica e dá dignidade ao personagem. Em termos de inclusão e exclusão, Augusto mostra como as crianças ouvem o som do mundo, sente os perfumes, o calor do toque, do abraço amigo e sugere a inclusão, onde todos se tratam de igual para igual. Se seus personagens possuem limitação visual e/ou auditiva, são crianças felizes e com capacidade de sentir o mundo. O objetivo é falar sobre diferenças e deficiências. As crianças não nascem com preconceito, mas vão adquirindo no decorrer da vida, então o artista trabalhar na infância para ter uma sociedade melhor. “O Fala Menino! nos conta de diferenças físicas ou sociais,de superação de limites, de inclusão, de responsabilidade social com a naturalidade doce e subversiva das lições que apenas a infância sabe dar”, revelou o autor em seu blog: http://blogfalamenino.blogspot.com

 


Assim é o trabalho criativo de Luis Augusto, discute o relacionamento do mundo adulto com a infância apresentando a diversidade do universo infantil e contribuindo para que a criança tenha voz atuante na sociedade. Reflexivo, contemplativo e incisivo.“Com a honestidade da perspectiva infantil, falar da criança como o ser inteligente e crítico que é, capaz de discutir o comportamento adulto. E junto com o Lucas, discutir o relacionamento do mundo adulto com a infância, talvez o único momento da vida em que somos quem nascemos para ser, sem tantas máscaras sociais, sem tantos preconceitos”, diz o autor. O Fala Menino! nos conta de diferenças físicas ou sociais, de superação de limites, de inclusão, de responsabilidade social com a naturalidade das lições que apenas a infância sabe dar.

 


O que chama atenção nos quadrinhos de Luis Augusto é sua perspectiva nova em termos de linguagem, conteúdo e forma. Refletir e expressar o seu tempo é essencial para o desenhista. Ter consciência de sua época. Como expressar seu mundo, de que formas dispõem para a execução e que posições tomar frente à realidade do momento. Essas são perguntas que muitos desenhistas se fazem a todo instante, uns mais outros menos. Uma obra de arte significa sempre uma tomada de posição do artista perante a vida. Aqueles que procuram uma arte de consumo fácil, de puro ócio, dificilmente seu trabalho resistirá ao passar do tempo. O de Luis Augusto vai atravessar gerações, porque além de falar ao coração, chega junto na consciência, o que é essencial. Promove dignidade e emancipação das pessoas especiais.