13 agosto 2013

Há cinco anos Dorival Caymmi se despediu da vida



No dia 16 de agosto de 2008 – há cinco anos – morria Dorival Caymmi (1914-2008), aos 94 anos, no apartamento da família, em Copacabana, Rio de Janeiro. De frente para o mar, onde morrer lhe parecia doce, ele se despediu da vida. Apelidado de Buda Nagô por Gilberto Gil, Caymmi era não apenas um ícone da MPB, mas símbolo absoluto do bem-viver e responsável pela definição do próprio conceito de baianidade. “Contra fel, moléstia, crime, use Dorival Caymmi”, canta Chico Buarque, em “Paratodos”.

Sua obra é dividida em duas vertentes: as canções praieiras e os sambas canções. A primeira refere-se a uma Bahia pré-industrial e idealizada nas obras O Mar, O Vento. A segunda, carioca e urbana, põe em relevo os sambas canções em cujas harmonias se viu um prenúncio da bossa nova nas obras Marina, Só Louco, Nem Eu.

Alguns estudiosos acrescentam uma terceira vertente, definida pelo predomínio de canções com forte acento afro religioso. Foi ele quem consagrou o número mágico de 365 igrejas.  Dedicou versos especiais a Iemanjá, Xangô e Iansã e sintetizou em versos as festas de Dois de Fevereiro, Santa Bárbara e Conceição da Praia. Em 1972, já uma personalidade da MPB, compôs Oração à Mãe Menininha, homenagem à ialorixá do  Terreiro do Gantois, em suas palavras, a Oxum mais bonita, e estrela mais linda e o sol mais brilhante.

O parceiro e amigo Jorge Amado – que viu vários personagens ganharem ainda mais vida nas canções de Caymmi – chama atenção para a singularidade de sua obra, só possível pelo amor e a vivência na terra. “Qualquer um pode fazer seu samba ou sua canção sobre palavras bem sonantes da língua nagô, baseada em melodia de macumba. Mas só ele faz o samba e canção baianos, só suas músicas são baianas, são elas também alma e corpo do povo negro e mestiço, da macumba, do cais, dos saveiros da Bahia”.

Regida pelo balançar da rede, pelo bater das ondas, pelo movimento dos barcos ou pelo chacolhar dos balangandãs, a cadência de Caymmi é toda particular e, por isso, universal. Foi gravado pelos maiores intérpretes da MPB, de Elis Regina a Gal Costa, de João Gilberto a Gil e Caetano. De Marilda Santana a Jussara Silveira. Mas nenhuma dessas gravações se compara ao próprio Caymmi se interpretando.

Ao longo de uma carreira ele cantou a vida do povo simples das ruas, dos pescadores e sua lida diária com o mar. Tem dezenas de canções entre os clássicos da MPB. Nasceu em Salvador, em 1914, mas aos 24 anos já estava no Rio de Janeiro. E recebeu do compositor Braguinha a tarefa de compor uma música para Carmem Miranda, que preparava o filme Banana da Terra. Surgiu, então, “O Que É que a Baiana Tem(INTERROGAÇÃO). O compositor tinha, então, temáticas ligadas diretamente à Bahia e assim foi até o final dos anos 1940.

A  influência carioca, pouco relatada e praticamente ignorada, aparece nos sambas canções como Marina, Sábado em Copacabana e Não Tem Solução. A fase urbana de Caymmi foi sempre ofuscada pelas canções com temática essencialmente baiana. O bairro de Itapuã ganhou um busto do compositor na Praça Caymmi, eternizada por Vinicius de Moraes. Em mais de 70 anos de carreira, Dorival Caymmi foi um dos compositores mais gravados do Brasil. O número de versões de suas músicas é incalculável.

Sua obra é recheada de obras primas. Ele é um artífice da imagem da Bahia. Influenciou gerações de
músicos desde o início de sua carreira (1930). Ao longo de 70 anos de carreira, foram pouco mais de cem canções, número que alguns consideram pequeno para um compositor longevo. Mas sua obra se caracteriza pela qualidade, não pela quantidade. Através da batida do seu violão (aparentemente primitiva, mas espontaneamente inspirada nas harmonias de compositores eruditos como Ravel, Debussy, Bach e Mussorgski ) e do seu canto confidente, o homem praieiro, a herança africana, os personagens baianos, as mulheres sestrosas e até um sentimento de carioquismo crisparam os limites culturais e dionisíaco de um Brasil que fazia a transição entre o rural e o urbano. Sua música é um grande exemplo de confluência entre o simples e o sofisticado a partir de elementos naturais como o vento, o mar, a morena e a terra. Uma confluência trazida em canções praieiras, sambas, sambas canções e toadas tão autorais (ele foi um dos primeiros compositores do país a gravar suas próprias canções), o que o transformaram no melhor intérprete de si mesmo.

Dorival Caymmi foi um dos tradutores da Bahia e, por que não dizer, do Brasil. À maneira de Gilberto Freire e Sérgio Buarque no âmbito da sociologia, pode-se afirmar que ele foi um dos Intérpretes do Brasil nas artes, considerando que além de compositor (música e letra), ele também foi músico (violonista), cantor e pintor. 
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