19 agosto 2013

É dengo que esse samba tem (2)



Com o diz o letrista Aldir Blanc, “o Dorival foi quem inventou o gênero `samba Caymmi`(...). Perguntar se existe estilo de samba é como duvidar da existência do vatapá”. “Se “com qualquer dez mil-réis e uma nega” se faz um vatapá, com que ingredientes se faz, então, o samba Caymmi? Aldir Blanc dá o recado:

“um bocadinho mais de sensualidade, uma pitada generosa de preguiça da boa, sorrisos morenos de Dora, das Rosas e da Marina (no Brasil, as louras também são morenas), roupa branca em pele escura, brisa de mar, a ousadia das jangadas, ciúmes, dengos, uma vasta dose de sacanagem, rir como quem reza em 365 igrejas (..). Sensualidade, preguiça, mulheres, dengo e religiosidade estão nos sambas de Caymmi”.

“O samba de Caymmi - escreveu Bosco – é `sacudido`, `rebolado´, buliçoso; deixa a gente mole e, quando se samba, todo mundo bole. Através da qualidade feminina do dengo, tornada um princípio estético, pode-se entender um aspecto decisivo da singularidade do samba de Caymmi”. E Francisco diz mais:

“Simples, coloquiais, apimentados, dengosos, rebolados, os sambas de Caymmi possuem aquela que seja talvez a virtude maior da canção popular: provocam a vontade de ouvi-los e reouvi-los, de decorá-los (o que se faz sem se dar conta) e cantá-los e cantá-los e cantá-los. São canções que parecem anônima, parecem ter surgido espontaneamente das igrejas, dos sobrados, das ladeiras, do dendê, do vatapá, do requebrado das baianas”.

O encantamento da obra de Caymmi vem da representação de uma Bahia alegre, sensual, solar, mestiça, erótica, bela, em suma, feliz. “Não sou de dores nem queixas”, diria Caymmi, já do alto de seus noventa anos.

A baiana que Caymmi descreve em "Lá vem a baiana" é a mulher sensual, atirada, que samba e que ameaça o "eu narrador" da canção com o jogo da sedução, com suas promessas e perigos. A letra mostra o quanto a baiana pode ser irresistível ao mesmo tempo em que ele próprio ambiguamente resiste à sedução, como sugere a letra da canção. O narrador sabe que se dançar com a baiana, ele cairá sob seu domínio e irá sofrer - como se caísse no canto da sereia e ficasse aprisionado ali para sempre.

Em outra interpretação, Caymmi confere à baiana, à mulher, uma liberdade de ação que estava à frente da moral da época, bem mais conservadora. É claro que é preciso relativizar tal liberdade já que o tema é circunscrito à situação específica da conquista. Considerando o moralismo da sociedade brasileira dos anos 40, é um avanço, ainda que na MPB da chamada Época de Ouro não fossem tão incomuns letras mais arrojadas e erotizadas, como em Noel Rosa, por exemplo, ou ainda nas marchinhas de carnaval. Os últimos versos são onomatopaicos, são murmúrios sem palavras, que pela entonação do canto e do ritmo comunicam fortemente ao público uma sugestão ao erotismo.

Dorival Caymmi, através de letra e música, atuou como um "antropólogo", jornalista, um cronista à maneira de um Rubem Braga, Antônio Maria (os dois fizeram uma representação do Rio de sua época, sendo respectivamente, capixaba e pernambucano) e Orestes Barbosa.

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