04 julho 2013

Sabor do prazer ou saber da idade responsável



Mesmo sendo generalização, há dois ideais que se opõem sobre o velho e o novo mundo. Enquanto na Europa reacende a cultura de milênios, nos Estados Unidos predomina a juventude. O cinema, por exemplo, surgiu na França, mas venceu nos Estados Unidos. A descoberta de voar, Santos Dummont foi pioneiro quando sobrevoou Paris, mas os norte americanos consideram a invenção sua. O mesmo nas histórias em quadrinhos, o Nhô Quim brasileiro surgiu bem antes do Yellow Kid. Não basta criar, é preciso capitalizar. E foi por isso que a cultura norte americana prevaleceu, após a Segunda Guerra Mundial.

Eles investiram pesado na cultura de massas, na adolescência. Ou seja, a calça que se chamou Lee nos anos 1910 e hoje voltou a ser conhecida como jeans, a Coca Cola, o MacDonald´s, Studio Disney e muito mais do ideal de sermos, todos, felizes e saudáveis como teens (Salvador parece que incorporou esse ideal de felicidade em meio a tragédia).

Enquanto os filmes (e quadrinhos) europeu somos tratados como maiores de idade, responsáveis, racionais, reflexivos e que muitos pensam que esse tipo de cinema de arte é um tédio, de tornar enfadonho o que seduz, de substituir pipocas por neurônios, Hollywood infantiliza tudo. Acelera a arte feito videoclip, tudo muito depressa para que a juventude não tenha tempo de refletir. É tudo muito rápido, balas passando, herói voando, uma correria para a salvação, e que o bem é o Ocidente e o mal é simplesmente o   nessa globalização satisfaz.
Oriente. Se oriente rapaz (já cantava há décadas Gilberto Gil), nem tudo

O american way of life como modo de vida juvenil, da eterna juventude, de mulheres magras, homens halterofilista, todos belíssimos, brancos e louros, tudo maravilha. Essa cultura que expandiu a duração da adolescência (adultos tentando ser adolescentes, ainda que tardios) enfraqueceu o valor do sacrifício pessoal. Tirou as justificativas para a subserviência. Mas todo sonho que nos desvia da real cai por terra entre as torres do orgulho e da dominação infantil. A garotada hoje nos EUA sai atirando em todo mundo, querendo dar uma de herói, de resolver a justiça com as próprias mãos.

O ícone Disney nos ajuda a entender o século XX que passou, mas só agora começa a punir de forma
tão severa quanto retardatária, do estilingue contra o tanque. A guerra das estrelas caindo sobre os campos de papoula. Toda essa indústria da fantasia kitsch produziu uma fantasia melancólica no adulto temeroso que agora lamenta não poder confiar na beleza americana que era tida como beleza do mundo. A realidade agora cega. Isso lembra o Brasil de hoje que esperou tanto da esquerda quando foi censurada, e hoje ao subir ao poder, essa mesma esquerda agora censura...

O Meio é a Mensagem, clássico de Marshall McLuhan é uma citação de Sukarno, o primeiro presidente da Indonésia. De tanto ver filmes de Hollywood, o público do Terceiro Mundo passou a desejar conforto igual ao da sociedade norte americana. E, ao sentirem que os próprios norte americanos apoiaram as elites locais, que boqueavam essa popularização do prazer, voltaram-se   
contra os EUA.

Com a transformação da juventude numa espécie de virtude em si mesma e, nesse sentido, com a desvalorização do patrimônio das gerações do passado, desapareceram também os recursos subjetivos de superação - ou mesmo de subversão e de crítica - aos valores do mundo de ontem. Posto que se faz tabula rasa da experiência passada, não é mais possível conhecer essa experiência para a ela se opor verdadeiramente. Parece que nos tornamos, assim, prisioneiros dos artifícios mercadológicos que colocam o novo e o diferente nas vitrines como mercadorias disponíveis para serem adquiridas - não conquistadas.

A juventude transformou-se em um estado que se almeja que seja eterno. Assim sendo, é possível que
estejamos vivendo hoje a experiência mais historicamente conservadora e acrítica dos valores de todos os tempos anteriores, uma vez que ser jovem, em resumo, constitui-se hoje no trabalho permanente de modular-se como um objeto de consumo numa economia de mercado que se alimenta da crença segundo a qual somos, e somos felizes, se somos o novo. Não como uma escolha, mas como um novo imperativo: a juventude. A esta busca, o capitalismo de mercado nos sugere: seja jovem e pertença a este mundo!

Como escreveu a psicanalista Maria Rita Kehl, o sentido da vida se esvazia com a desvalorização da experiência no mundo contemporâneo, os adolescentes parecem viver num mundo cujas regras são feitas por eles e para eles, já que os próprios pais e educadores estão comprometidos com uma leveza e uma “nonchalance” jovem. “Eu sou o que vivi. Descarto o passado, em nome de uma eterna juventude, produz-se um vazio difícil de suportar”.


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