09 janeiro 2013

Bando de Lucas invade quadrinhos novamente!

Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira foi o primeiro álbum publicado em 2010. A publicação recebeu o Prêmio Ângelo Agostini em três categorias, e uma merecida indicação ao Troféu HQMIX. Agora chega às livrarias o novo álbum Sant’Anna da Feira, Terra de Lucas. Patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult), através de recursos do Fundo de Cultura, com 180 páginas e é resultado de treze anos de trabalho, divididos entre pesquisa histórica, e iconográfica, revelados através do roteiro de Marcos Franco e belíssimas ilustrações de Hélcio Rogério.

Lucas da Feira foi um escravo rebelde que se notabilizou como líder de um afamado bando de salteadores da Bahia provincial na primeira metade do século XIX. A trajetória de vida de Lucas da Feira é delineada na obra, embasada por uma acurada pesquisa em fontes documentais, memória oral, romances, cordéis e no estudo da cultura material dos locais onde o escravo, possivelmente, teria percorrido.

O álbum é um convite a se embrenhar pelas caatingas do agreste baiano escravista na região de Feira de Santana, localizada numa encruzilhada de caminhos e sede de uma vigorosa feira que alimentava as demandas do interior da Província e da capital no século XIX. A expressão 'Terra de Lucas' é uma expressão comumente atribuída à Feira de Santana, normalmente carregada de uma conotação pejorativa, cujo simbolismo está correlacionado à rebeldia escrava personificada em Lucas Evangelista, o 'Lucas da Feira', que viveu e atormentou aquela região da Província da Bahia na primeira metade do século XIX.

A narrativa mostra o menino Lucas, escravo rebelde que foge da humilhação do cativeiro, até a construção do homem, bandido temido pelo poder local. Nesses recortes narrativos do passado o leitor toma conhecimento das façanhas da personagem como resistência negra, sua força e personalidade até o mito, a prisão e o enforcamento do herói. Toda a construção da personagem foi baseada em elementos do imaginário popular, histórias da oralidade e versões forjadas pela historia oficial. Essa última pode edificar ou dignificar seus heróis e demonizar e silenciar os personagens do ovo. O olhar sobe Lucas nessa HQ é pela resistência no auge da escravidão no Brasil, ou seja, mesmo acorrentado, silenciado, invisibilizado, o povo não permaneceu passivo.

A busca pela liberdade permeia toda a obra. E nossa historiografia não costuma mostra essa faceta. O mundo impessoal dos negócios da escravidão onde as pessoas eram submetidas a transações comerciais reduzidas a meros instrumentos de trabalho, é cheio de ações complexas e delicadas. O narrador pode evidenciar o lado de uma ideologia de concessão senhorial ou apresentar o quotidiano do lado escravo e a sua luta por justiça e o direito à liberdade.

Nesse aspecto, esses escravos eram homens e mulheres com ideias próprias que lutaram e conseguiram pequenos ou grandes vitorias. Interessa aqui, portanto, compreender a partir da trajetória de Lucas como ele construiu estratégias para a conquista da liberdade na região de Feira de Santana, na segunda metade do século XIX. Esta investigação buscou pensar o problema num contexto mais amplo ao buscar observar graus de todos os sentimentos e nuances da personalidade de Lucas, inserindo-as ma micropolítica tecida no dia a dia a partir da relação senhor/escravizado. Numa sociedade onde uma classe dominante sempre é mais visível, vale resgatar e legitimar as lutas desses escravos invisíveis.

A historia oficial ofuscou a figuras de negros em nossa história. Uma prova disso é a guerreira de Itaparica, Maria Felipa. Os autores procuraram dar mais credibilidade ao trabalho apresentando as variedades do português popular e expressões africanas na cultura oral brasileira. No final do álbum, o apêndice com palavras utilizadas pelos personagens e um glossário, relação de termos e expressões regionais ou pouco comuns, com o sentido em que são usados nessa obra. Um belo trabalho que deve ser lido e relido por todos.

A dupla Marcos Franco e Helcio Rogério estão de parabéns. Há closes espetaculares, enquadramentos cinematográficos, realismo histórico na narrativa quanto na ilustração. Um álbum que deveria estar em todas as nossas escolas para o conhecimento de todos – quem foi Lucas da Feira? Por que nossas historiografia oficial esconde esses fatos? A conquista de sua liberdade pela altivez dos seus atos fere a história oficial? O que está por traz disso tudo? Precisamos espalhar para todos o significado do percusso desse personagem e e muitos outros que estão no subsolo da história. É preciso resgatar todos eles a visibilidade dos dias atuais para a reflexão.

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2 comentários:

Anônimo disse...

Belo trabalho. Parabéns ao Marcos e ao Hélcio.

Silvio Ribeiro

Gutemberg disse...

Essa dupla é imbatível nos quadrinhos baianos. Longa vida!