07 janeiro 2013

Batatinha, o diplomata do samba (1)

A cabeleira totalmente branca contrastando com a pele negra, o cantor e compositor Batatinha (1924-1997) – ou o cidadão Oscar da Penha – conservou a mesma simplicidade quando era office boy do Diário de Notícias. Foram mais de 70 anos bem vividos. Ele foi gráfico e funcionário público. Nasceu em Salvador no dia 05 de agosto de 1924. Desde garoto que cantava nas ruas, nas festas, gafieiras. Foi cantando todo o repertório do compositor Vassourinha que deu origem a veia do sambista, do cantor e do intérprete Batatinha (apelido dado pelo radialista Antonio Maria na década de 1940 baseado na gíria “batata”, que quer dizer gente boa).

Ao participar do Campeonato do Samba, da Rádio Sociedade da Bahia com sua música “O Inventor do Trabalho”, sagrou-se campeão. Com o conjunto vocal Ases do Ritmo ele começou a compor e nunca mais parou. Foram muitos anos de batalha para conseguir gravar suas músicas. Compositor que lançou a capoeira na música brasileira, “Bossa e Capoeira”, teve parceria com Jairo Simões, Ederaldo Gentil, Edil Pacheco, Lula Carvalho, Jota Luna, além de músicas gravadas por Maria Bethânia, Caetano Veloso e muitos outros.

Sofrer também é merecimento/cada um tem seu momento/quando a hora é da razão/alguém vai sambar comigo/e o nome eu não digo/guardo tudo no coração” (Hora da Razão, de Batatinha e J.Luna)

Com mais de 70 anos de idade, ele conservou a vitalidade e alegria de viver, que raramente transparece em seus versos, muito mais voltado para o outro lado da trama humana: o sofrimento, a dor (pelo menos nas músicas que fizeram mais sucesso). Na sabedoria de quem viveu desde cedo no samba, o curtido Batatinha transmite em suas letras lições de vida: a arte de dar a volta por cima, de saber sorrir na tristeza, celebrando o estoicismo, a face mais oculta do povo brasileiro. Autor de sucessos como Diplomacia, Toalha da Saudade, O Circo, Hora da Razão e Imitação da Vida. Simples, alegre e bom de samba. Assim foi Batatinha, definido por Riachão como “uma cabeça cheia de cabelos brancos e cada fio uma nota musical”.

O compositor e letrista José Carlos Capinam assim se expressou sobre a obra de Batatinha: “Seus ritmos são movimentos que aprendeu no convívio com as formas do samba de rua, sambas de roda, além daqueles das canções que parecem nascer da percepção da pulsação mais tranquilo do universo”. O cantor e compositor Edil Pacheco comentou que “Batatinha foi o primeiro na introdução de sons e elementos da capoeira na MPB. Um exemplo disso é a música Bossa e Capoeira, gravada pelo Inema Trio, nos anos 60. Batatinha era a expressão do povo da Bahia, encarnado o mito do samba”.

É a toalha da saudade/pra minha infelicidade/não vai ornamentar/e pra não sofrer desilusão/nem passar decepção/eu vou sambar” (Toalha da Saudade, de Batatinha)

O poeta e jornalista Jehová de Carvalho na apresentação do disco Toalha da Saudade (1976), escreveu: “Mostro-lhes o mundo de um baiano simples, puro, sem compromissos artesanais, sem ânsia de assimilação do comportamento artístico de outros compositores de sua origem e de tempo. O mundo que ele mesmo recria, em sua experiencia quotidiana. Dai o respeito com que recebemos o que desse mesmo mundo Batatinha devolve aos brasileiros em forma de samba”.

Em 1960, Jamelão gravou “Jajá da Gamboa”, introduzindo Batatinha no sul do Brasil. Em 1973, aos 49 anos, gravou Samba da Bahia, o primeiro disco, dividido com Panela e Riachão. Gostava de comparar a sua situação com a de outro grande do samba, Cartola, achando vantajoso o fato de ter chegado ao disco naquela idade, ao contrário do carioca, que gravou com 60 anos. Nesse ano o compositor homenageou Paulinho da Viola com a música “Ministro do Samba”.

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