23 novembro 2012

Percussão, a alma da música baiana (3)

A Bahia comparece como o lugar por excelência da tradição, da ancestralidade, da familiaridade (MOURA, 2001). E o cenário Carnaval se constitui num ambiente ideal no campo da música, seja através do lundu, do samba, do maxixe, do tango brasileiro, da marcha, do samba reggae ou qualquer outro gênero sincrético composto para a festa, para a construção identitária da Bahia. E a cidade do Salvador se especializou em vender sua própria imagem, embalada perlo fazer musical que tem o Carnaval como uma grande vitrine dessa representação.

O surgimento da axé music no final dos anos 80 trouxe consigo inúmeras mudanças de ordem comportamental, econômica,social e artística, mudando por vezes o foco artístico cultural do Centro Sul para o Nordeste (Gonzagão fez isso nos anos 1940 com o baião). A axé music se torna, então, a representante do Carnaval contemporâneo de Salvador, já sendo denominado por revistas especializadas como pop axé. O próprio Carnaval, enquanto ambiente de negociações, apresenta em seu repertório tanto temáticas consideradas ícones da negritude, quanto a presença de sonoridades ligadas ao mundo do local pelo global (HALL, 20034) também se apresenta no que podemos denominar de Carnaval contemporâneo.

O movimento da axé music foi proporcionado por experimentações de sonoridades e instrumentos heteróclitos e pela fragmentação do processo produtivo da indústria fonográfica, terceirizando as etapas de gravação, fabricação e distribuição do produto (DIAS, 2000, p.17), ambientado no Carnaval.

A partir de 1987, quando uma nova sonoridade passou a invadir os lares através das ondas sonoras das FM locais. Estas, que até então se limitavam a reproduzir o modelo do eixo sul, passam a veicular as produções musicais locais gravadas no estudio WR, tornando-se um marco para o mercado da música produzida na Bahia, particularmente em Salvador. As gerações anteriores saiam de suas cidades para “tentar a sorte” no eixo Rio-São Paulo (Assis Valente, Dorival Caymmi, João Gilberto, Gil, Caetano, Gal, Tom Zé e muitos outros).

Goli Guerreiro em A Trama dos Tambores/2000 percebe a axe music oriunda do encontro da musica dos blocos de trios com o dos blocos afro. É um hibridismo musical, caracterizado por sonoridades harmônicas e percussivas.

FORÇA, IMPROVISO

Batidas, sonoridades, alma, força, improviso. A percussão é tudo isso, ela é a base da música baiana
O próprio ritmo maior da folia momesca mostra as diferenças de como as batidas se encaixam de acordo com o estilo. Para a axé music, a percussão tem que ser de festa, tem que ser forte, com profundidade, agudo, alegre como é o povo baiano.

Leonardo Reis - Pertence a uma família onde a música é uma herança religiosa. Seu irmão, Orlando Costa ensinou os primeiros passos. Tem nos timbales um dos seus instrumentos de mais destaque, fruto de estudo e pesquisa em Cuba com o mestre Chagito. Seu timbre percussivo está presente nos discos e shows de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Marisa Monte, Ana Carolina, Ivete Sangalo e Banda Eva.

Jorge Sacramento - O professor Jorge é assistente da cadeira de Percussão da UFBA, é percussionista/assistente da Orquestra Sinfônica da Bahia e coordena vários projetos de extensão na EMUS/UFBA. É Mestre e Doutorando em Educação Musical pela Universidade Federal da Bahia. Já gravou discos de vários artistas: Andréa Daltro, Joatan Nascimento, Juvino Alves, Lindemberg Cardoso, Paulo Lima e Wellington Gomes são alguns deles. Sacramento também é timpanista oficial das novenas da Conceição da Praia e do Senhor do Bomfim.

Bira Reis - Músico de percussão e sopro, arte-educador, professor, artista plástico e pesquisador, Ubirajara de Andrade Reis - o Bira, faz trabalhos e pesquisas direcionadas à cultura popular universal e étnica. Como educador, o mestre Bira realizou atividades com instituições como o Projeto Axé; Ilê axé opô afonjá; Ilê oxumaré; Oimba; comunidade do bairro de Arenoso e Praia Grande. Como músico, arranjador e compositor, o mestre Bira participou de vários eventos, entre eles o Fórum Mundial Social – Índia, quando integrou o grupo do músico italiano Aldo Brize; fez shows com a cantora Virgínia Rodrigues no festival de música Del Ciel, na Itália; foi regente do Afoxé e faz a direção musical da lavagem do Sacre Coeur, em Paris; foi responsável pela criação e direção musical da trilha sonora da Exposição 100 anos de Pierre Verger; fez a criação da trilha sonora da peça Capitães de Areia, de Jorge Amado, entre muitas outras ações.

Orlando Costa - Pesquisador de instrumentos percussivos há 20 anos, Orlando conhece bem os diferentes estilos e origens da percussão. Com o trabalho reconhecido mundialmente, Orlando já acompanhou artistas brasileiros e estrangeiros em turnês internacionais pelo Japão, Israel, Marrocos, Estados Unidos, Canadá, países da Europa e América do Sul. O percussionista também se apresentou com os músicos Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Mariza Monte, Carlinhos Brown, Banda Mel, o americano Jerrel Lamar e Margareth Menezes em importantes festivais como o Montreux Jazz Festival, Arezzo Wave Love, Viva Afro-Brasil, North Sea Jazz, Nice Jazz e o Johnny Walker Festival.

Peu Meurray - Músico, compositor e artista plástico, Peu Meurray tem 20 anos de percussão e já tocou e gravou com grandes estrelas da música nacional e internacional, entre elas, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Margareth Menezes, Saul Barbosa, Simone Moreno, Pepeu Gomes, Daniela Mercury - com quem gravou o DVD Eletrodoméstico em 2003, e os internacionais Lorenzo Jovanotti – com quem seguiu em turnê pela Europa em 2002/2003, e a banda italiana Negrita. À frente do espaço cultural Galpão Cheio de Assunto, Peu transforma pneus velhos retirados do lixo em tambores, caixas de som, além de móveis e objetos de arte. A ideia surgiu depois de presenciar a poluição que assola o Rio Tietê, em São Paulo. Logo, percebeu que podia transformar sua indignação em um projeto social. Surgiu a ONG Tambores de Pneus, que já conseguiu atingir mais de mil crianças e adolescentes. Na organização são realizadas oficinas culturais com teatro, artes plásticas, dança, música e cidadania. Hoje, o trabalho já é conhecido em Salvador, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Itália e Japão, além de ter sido visitado por artistas como Marisa Monte, Ed Motta, Marcos Suzano, Tony Allen e Jovanotti.

Waltinho Cruz - Sua iniciação na carreira musical começou nos terreiros de Candomblé de Cachoeira e no Alto do Gantois com a Ialorixá Mãe Menininha, assimilando toda a Cultura Africana, o que tornou possível sua chance de tocar nas noites acompanhando vários artistas. Com o intuito de se aperfeiçoar na arte de tocar um instrumento musical, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), aprendendo percussão com diversos mestres brasileiros e estrangeiros de renomes artísticos, a partir daí ingressou na Orquestra Percussiva da UFBA regida pelo Professor e Maestro Walter Shmetak. Paralelo á sua formação acadêmica, surgiu o convite para fazer parte de um grupo musical baiano chamado Scorpions, atualmente conhecido como o fenômeno musical Chiclete com Banana, a partir se sua entrada no grupo Waltinho Cruz dá início a sua carreira profissional na música brasileira. Ao longo de sua carreira, participou de vários projetos relacionados á música tais como a criação juntamente com o músico Carlinhos Brown do Grupo Timbalada, o Grupo Percussivo Levada do Pelô, (com este, realizou uma turnê na Europa resultando na gravação de um CD), recebeu o Prêmio Troféu Caymi de Melhor Instrumentista, assim como inúmeras premiações contempladas do Prêmio Sharp.

Fonte:

CORRÊA, Djalma. A Percussão no Brasil

DIAS, Juliana. Percussão baiana foi da religião para a festa e acabou virando escola. A Tarde. 24/01/2011
FIGUEIREDO, Luciano org. Festas e batuques do Brasil. Rio de Janeiro: Sabin, 2009 (Coleção Revista de História no Bolso.2)

GUERREIRO, Goli. A Trama dos Tambores. São Paulo: Editora 34, 2000
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

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