22 agosto 2012

Nos tempos líquidos o futuro pode morrer de sede (3)

Seguindo o pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre os “Tempos Líquidos” e a insegurança dos dias de hoje. Tudo começou com o longo processo do sonho da segurança pessoal, seguido por uma extensa luta contra o poder arbitrário de reis e príncipes. O primeiro passo foi a luta pelos direitos pessoais (normas impostas a todos). O passo seguinte foi a demanda por direitos políticos, ou seja, por desempenhar um papel significativo na elaboração das leis. Mas o entrelaçamento e a interação dos direitos pessoais e políticos são exercidos pelos poderosos (os ricos, e não os pobres). Assim, o direito de voto (o direito de influenciar a composição dos governantes e a concepção das normas impostas aos governados) só poderia ser exercido por aqueles “que possuem recursos econômicos e culturais suficientes” para “se livrarem da servidão voluntária ou involuntária que corta pela raiz qualquer possível autonomia de escolha e/ou sua delegação”.

Não admira – segundo o sociólogo – que por muito tempo os promotores da solução eleitoral para o dilema de assegurar os direitos de segurança pessoal mediante o exercício dos direitos políticos “desejassem limitar o sufrágio segundo a renda e a escolaridade”. Por mais de um século após a invenção e a aceitação do projeto de representação política, a extensão do sufrágio a todas as pessoas, e não apenas às “de posse”, foi rechaçada com unhas e dentes pelos promotores e advogados desse projeto.

Sem direitos sociais para todos, um grande – e provavelmente crescente – número de pessoas irá considerar seus direitos políticos inúteis e indignos de atenção. Os dois tipos de direitos (políticos e sociais) precisam um do outro para sobreviver, e essa sobrevivência só pode ser sua realização conjunta. Mas há dois mundos segregados e separados. As pessoas da camada superior não pertencem ao lugar que habitam, pois suas preocupações estão em outro lugar. Além de ficarem sozinhos e livres para se dedicarem totalmente a seus passatempos e terem os serviços indispensáveis a seu conforto diário assegurados, eles não têm outros interesses investidos na cidade em que se localizam suas residência. A população da cidade não é sua área de pastagem, a fonte de sua riqueza e, portanto, também uma ala sob sua guarda, cuidado e responsabilidade, como costumava ser para as elites urbanas de outrora, os donas de fabricas ou os mercadores de bens de consumo e de idéias.

Já o mundo em que vive a outra camada de moradores da cidade, a camada inferior, é o exato oposto da primeira. Caracteriza-se por ter sido cortado da rede mundial de comunicação à qual as pessoas da camada superior estão conectadas e à qual estão sintonizadas suas vidas. Os cidadãos urbanos da camada inferior são condenados a permanecerem nos locais e, portanto, se pode e deve esperar que suas atenções e preocupações, juntamente com seus descontentamentos, sonhos e esperanças, se concentrem nos “assuntos locais”. Para eles, é dentro da cidade que habitam, que a batalha pela sobrevivência, e por um lugar decente no mundo, é lançada, travada e por vezes vencida, mas na maioria das vezes perdida.

Um condomínio fechado e o isolamento e distância da cidade. Isolamento daqueles considerados socialmente inferiores. As cercas têm dois lados e elas dividem em dentro e fora um espaço que seria uniforme – mas o que está dentro para as pessoas de um lado da cerca está fora para as do outro lado. Os moradores dos condomínios se cercam “fora!, da vida da cidade, desconcertante, confusa, vagamente ameaçadora, tumultuada e difícil, e “dentro” de um oásis de calma e proteção. A cerca separa o gueto voluntário dos ricos e poderosos dos muitos guetos forçados dos pobres e excluídos.

A incerteza do futuro, a fragilidade da posição social e a insegurança existencial (circunstância da vida no mundo líquido-moderno) tendem a se concentrar nos alvos mais próximos e a se canalizar para as preocupações com a proteção pessoal. São os tipos de preocupações que, por sua vez, se transformam em impulsos segregacionistas/exclusivistas, conduzindo a guerras no espaço urbano. O propósito dos espaços interditados é dividir, segregar e excluir – não construir pontes, passagens acessíveis e locais de encontro, facilitar a comunicação e agregar de outras formas os moradores da cidade.
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