31 maio 2012

Quadrinhos da vida real (04)




    COTIDIANO ASIÁTICO

Foi durante seu trabalho na Ásia que o canadense Guy Delisle deu uma grande guinada em sua carreira ao escrever, e posteriormente desenhar, seus primeiros cadernos de viagem em quadrinhos. Os álbuns Shenzen (2000), Pyongyang (2003) e Crônicas Birmanesas (2007) relatam suas experiências e aventuras de quando morou, respectivamente, na China, na Coreia do Norte e sudeste asiático. Shenzhen é um cativante relato de viagem em história em quadrinhos que traz as observações de Guy Delisle sobre a vida nessa fria cidade do sul da China, situada ao lado de Hong Kong, e isolada do resto do país por cercas elétricas e vigiada por guardas armados. Trabalhando para uma empresa europeia de animação que terceiriza o trabalho para estúdios asiáticos, o autor nos narra sua experiência de vida no trabalho, na relação com as pessoas e também nos mostra os costumes do país.

Shenzhen foi a primeira região da China a ser declarada Zona Econômica Especial, e é um dos locais onde grande parte da população chinesa almeja morar e trabalhar: em poucas décadas, a pequena vila de pescadores se transformou em uma megalópole de 14 milhões de habitantes. Este crescimento acelerado e dirigido, voltado exclusivamente para os negócios, tornou-a uma cidade fria e impessoal, o que é sentido na pele por Delisle. A solidão de expatriado é uma constante na vida do autor, que realiza experimentos e brincadeiras para tornar sua permanência de três meses na cidade um pouco mais suportável. O leitor vai desvendar um pouco de uma China desconhecida, que é observada e relatada com sensibilidade, ironia e humor por Guy Delisle.

Inicialmente, Guy encontrou dificuldades de publicar estes trabalhos, pois a maioria das editoras não queriam apostar nesta mistura de jornalismo com diário de viajante. Até que uma editora de quadrinhos independentes francesa, chamada L’Association, decidiu publicá-lo. Shenzhen passou despercebido pela crítica e pelos leitores, mas a ousadia e qualidade de Pyongyang foram um verdadeiro sucesso e alavancou a carreira do autor.

Casado com Nadège que trabalha como médica e administradora para os Médicos Sem Fronteiras – uma ONG que oferece tratamento médico para pessoas necessitadas nos lugares mais inóspitos do mundo. Ela é a esposa perfeita para um homem que sabe como poucos registrar a vida cotidiana em países onde a liberdade pessoal nem sempre é uma opção viável. Em 2005, o casal e seu filho Louis mudaram-se para Myanmar (antiga Birmânia) onde viveram por 14 meses. Desta nova experiência de vida nasceu o álbum Crônicas Birmanescas. Seus trabalhos já foram traduzidos para muitas línguas, incluindo inglês, espanhol, alemão, italiano, polonês e português. No Brasil, foram lançadas pela Zarabatana Books.

O governo, do ex-presidente americano George W. Bush, considerava a Coreia do Norte como parte do “Eixo do Mal”, ao lado de países, como o Irã e a Síria. Em contrapartida, também é um dos lugares mais pobres do mundo, por causa de uma série de desastre naturais e de sua política ditatorial extremista. Com a abertura do país para investimentos estrangeiros, Guy Delisle viajou para sua capital, Pyongyang, onde trabalhou por dois meses como supervisor de um estúdio de animação francês. A empresa terceirizou a parte braçal e repetitiva dos desenhos animados para a SEK, a produtora estatal de filmes. Guy levou para Pyongyang, além dos itens necessários para entrar no país foram: um exemplar do livro 1984 de George Orwell (que ele considera uma leitura apropriada para enquanto estiver naquele estado totalitário) e alguns CDs do Aphex Twin e de reggae.

O desenho simples e a narrativa direta dão fluência à história, que nos leva aos absurdos do cotidiano na capital norte coreana. Ali, os estrangeiros ficam sob vigilância constante. No caso de Deslile, um guia o acompanha a partir do desembarque. Assim, nunca pode circular sozinho. A atmosfera é sufocante, pois em todos os lugares há o culto à figura de Kim Il-Sung, presidente por mais de 40 anos. Hoje em dia, o chefe de Estado é seu filho, Kim Jong II.

Pyongyang é um diário da viagem em quadrinhos. E como todo diário - ou pelo menos na sua versão estereotipada - possui um misto de experiências, impressões e detalhes. Mas este diário, especialmente, apresenta também um panorama social, sob a ótica estrangeira, é certo, mas respaldado por dados objetivos e observações cotidianas. Por exemplo, Delisle nota, ao longo do tempo, que embora estrangeiros como ele sejam raros nas ruas, eles são praticamente ignorados. Mais que isso, quando não estão acompanhados por um guia, como mandam autoridades oficiais, parecem ser igualmente despercebidos. Junto de sua observação, o autor empenha-se em apontar possíveis causas. Neste caso, ele as encontra no hábito de espionagem difundido na sociedade pelo Estado, como modo de garantir a manutenção do regime comunista. Os norte-coreanos, assim, evitam envolver-se com qualquer possível ameaça à sua integridade cidadã, o que explicaria a atitude omissa em lugares públicos.

Os quadrinhos dão aos relatos reforço particular. A expressividade dos desenhos entoa coerência à obra. Delisle narra a partir do momento em que é recebido no aeroporto por seu guia e um motorista. Recebe de antemão um "livreto com recomendações", onde encontra certas normas de conduta exigidas em território norte-coreano. As restrições vão desde o trânsito urbano - que deve ser invariavelmente acompanhado por um guia - a revistas pornográficas, por sua vez, interditadas.

Hábitos incomuns ao autor geram nele cada vez maior afastamento com o lugar em que está. Hospedado em um dos três hotéis para turistas da cidade, aos poucos ele descobre facetas novas do regime e da sociedade. O que no começo parece ser curiosidade vai se configurando em certo estranhamento. Não há cafés, não há internet; a eletricidade é escassa, as pessoas, reclusas. "Pyongyang: uma cidade fantasma em um país eremita", define Delisle. A graphic-novel, como é chamado o gênero pelo mercado editorial do ramo, no fim das contas, promove uma aproximação maior entre autor e leitor que de ambos com os norte-coreanos. Oferece, inegavelmente, um material significativo sobre um país que tangencia, mas não se insere nas relações internacionais globalizadas. Com a dinâmica própria de uma animação, Delisle faz uma nem sempre sociologicamente comprometida incursão a Pyongyang.

O livro é uma espécie de diário da estadia de Guy em território norte-coreano, onde o canadense foi trabalhar por dois meses como supervisor de um estúdio de animação local. O relato é sincero e usa o bom humor para conseguir entender diferenças culturais gigantescas e a dura realidade de uma ditadura de mão de ferro que há décadas controla o país. As linhas, que misturam a simplicidade e a fidelidade fotográfica, funcionam como cartas de um infiltrado, que a cada dia tenta entender mais sobre o local onde reside temporariamente. Realidade e ficção se misturam, num texto solitário, acompanhado apenas de seu fiel companheiro guia/tradutor, uma figura engraçada e triste de quem

A perspectiva de Delisle é a nossa perspectiva ocidental. Ele não consegue compreender como as pessoas parecem realmente acreditar nos slogans do governo e na “santidade” de Kim Jong-Il. Na descrição de Delisle, há o medo e a opressão constantes, além de toda uma espécie de fanatismo que cerca a figura do líder. Nos diversos lugares visitados, Delisle não encontra mendigos nem deficientes nas ruas. Segundo ele, “todos parecem estar ocupados o tempo todo”. A maneira como uma mulher coreana, técnica de animação, canta as músicas em homenagem a Kim Jong-Il (que não são poucas) lembra o fervor com que certos evangélicos cantam seus hinos.

Apesar de todos estes fatores, a obra apresenta uma visão bastante positiva sobre a população do país, que apesar de sofrer bastante, sobrevive com bastante simplicidade e solidariedade. A narrativa é sempre carregada de um tom irônico e bastante crítico, mesmo quando o assunto são os costumes da população.  Depois de publicar este álbum, o autor nunca mais poderá entrar na Coreia do Norte. Sua narrativa em primeira pessoa, tornando o diálogo com o leitor muito próximo de uma conversa. Dá impressão de que fomos com ele nesta viagem, como que escondidos na bagagem… mas sem o risco de sermos descobertos. Destaque para a incrível visita que Guy faz a um templo budista e aos comentários de seu vizinho Maung Aye, sempre tentando alertá-lo sobre os falsos monges oportunistas. Também fascinou Guy a prisão domiciliar de Aung San Suu Kyi, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991. Os nativos não podem passar nem perto da rua em que mora a ex-líder popular e nem mesmo pronunciam seu nome chamando-a apenas de “A Dama”.

Pela ótica de Deslile, a Coreia do Norte é um grande delírio, a materialização da distopia idealizada por George Orwell. No entanto, Deslile em nenhum momento se despe de seu ponto de vista de rapaz ocidental. Tudo é medido pelos valores importantes à ele. Assim, o fato das pessoas não conhecerem Bob Marley na Coreia do Norte torna-se mais um absurdo desconfortável. Ele não se permite tentar entender o que realmente passa pela cabeça dos poucos coreanos com que entra em contato. O idioma e a própria atitude desses coreanos não ajuda muito. (Curiosamente, é justamente o fato do estúdio estatal coreano apresentar mão de obra barata para a produção das sequências de animação que torna a Coreia uma opção atraente para os estúdios ocidentais. Isto é, Delisle critica o regime, mas não vê nenhum problema em se aproveitar da mão de obra fornecida por esse regime...) Guy Delisle, criado numa cultura onde liberdade e democracia são palavras ligadas a valores fundamentais, julga outra cultura de acordo com seu próprio referencial. O que o leitor precisa questionar os quadrinhos que abordam essa temática do “olhar sobre o outro”.

A obra é apenas a visão de uma pessoa de fora daquela cultura, e não a expressão fiel da realidade. Sabemos que nesses países questões de opressão e brutalidade são corriqueiros, mas não podemos ter uma visão única de que nós, ocidentais, somos os certos e justos e os outros são coitados vítimas de homens maus. As coisas são bem mais complicadas do que isso. Guy Delisle era estrangeiro que passou um tempo em um país e contou sua experiência. Por outro lado, Marjane Satrapi (Persépolis), nasceu e cresceu dentro do universo de relações que descreveu, e portanto apresentou uma outra perspectiva.

Mas Delisle não tem a pretensão de fazer um relato com o rigor de um historiador ou a criticidade de um jornalista. Ele simplesmente coloca no papel tudo o que acontece no seu dia-dia. Nisto consiste muito do interesse que a sua obra desperta no público e, ao mesmo tempo, uma certa fragilidade e superficialidade que seu estilo de narrativa apresenta. O fato de empresas francesas e canadenses realizarem a produção de animações na China ou Coreia devido aos baixíssimos salários dos artistas, por exemplo, não recebe nenhuma menção de Guy. Mas, não é esse o principal problema do autor. O mais complicado é que Delisle produz um trabalho extremamente auto-referenciado que às vezes se torna repetitivo e enfadonho. Diferente do trabalho de Marjane Satrapi, por exemplo, que apesar de auto-biográfico, consegue manter a densidade de uma grande obra literária. Falta a Guy este olhar mais crítico e atento. Menos preso às aparências e à superfície das coisas.

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