30 maio 2012

Quadrinhos da vida real (03)




    TRONDHEIM E BOILET

O francês Lewis Trondheim passeia por inúmeros gêneros e estilos. De simples HQ sem palavras sobre a vida de uma mosca até uma análise das teorias de criação, evolução e fim de mundo. Mais do que uma banda desenhada em registro mudo, trata-se de uma obra que sugere ao leitor novas percepções visuais através dos olhos de uma mosca. Trondheim afirma-se aqui como contador de sequências, acrescentando-lhes o delírio, montando dispositivos próximos do absurdo. Como se o menos fosse mais. E bastasse. Lewis Trondheim nasceu em França, em 1964. Dedicou-se desde cedo à HQ como amador e em 1990 participa na fundação de L’Association. Nesse mesmo ano, Psychanalyse, o seu primeiro álbum, é publicado.

Mais tarde, colabora com importantes editoras, nomeadamente a prestigiada Dargaud. Depois de uma entrada modesta no mundo da história em quadrinhos, Trondheim aperfeiçoa o grafismo e revela-se narrador exímio de um universo muito próprio onde mistura o cinismo e a sátira, sendo já considerado um dos ícones da HQ de autor do nosso século. O que mais caracteriza Trondheim é o seu estilo gráfico: evoluindo ao longo dos álbuns, os seus desenhos, que podem parecer rudimentares ou mesmo desajeitados à primeira vista, são duma espontaneidade e vivacidade raras. Quanto aos cenários de Trondheim, a ironia e a ligeira absurdidade que os contamina não fazem mais que chamar a atenção para os nossos defeitos que fazem de nós seres tão humanos.

O álbum Célébritiz traz a história de um sujeito comum que compra em um brechó um casaco de segunda mão que tem escondida no bolso, uma caixa de pastilhas. Quando o cara experimenta as pastilhas, faz uma descoberta sensacional: Essas pastilhas permitem a uma pessoa se tornar uma celebridade instantânea por um curto período de tempo, retornando, após o final do efeito, a um anonimato tão completo quanto repentino. Mas de onde surgiram essas pastilhas? E, mais importante, como usá-las para poder sair de sua vidinha mediocre? Segue-se a demolição do culto às celebridades. Trondheim faz uma incisiva crítica à maneira como a fama eleva a gênios qualquer figura medíocre e, basicamente, a permite operar fora da regras normais da sociedade. Mas além de uma crítica é também uma história dividida em pequenos "episódios" de umas poucas páginas (foi serializada em algum lugar antes da publicação em álbum), mas com uma trama bem amarrada e recheada de personagens interessantes (destaque para Yuri, o violento, marombado e acéfalo astro russo de filmes de ação). Tudo isso, claro, com o humor desopilante que fez a fama de Trondheim.

A mistura das culturas ocidental e oriental marca a obra do premiado francês Frédéric Boilet. Cansado da velha fórmula de HQ européia, em cores, 46 páginas de formato grande, o autor adotou o modelo dos orientais que, desde os anos 40 fazem mangás de uma forma mais livre, priorizando a história, a narrativa do dia a dia, podendo ultrapassar as 46 páginas limites. Boilet é dono de um traço refinado, longe de estereótipos dos quadrinhos japoneses, e cria suas histórias a partir de uma fusão entre o lápis, o nanquim e a fotografia. “O olhar flui melhor de um quadro ao outro, o que dá um aspecto cinematográfico à obra”, explicou Boilet que cria suas HQ a partir de filmagens. Enquanto o cinema faz desenhos conhecidos storyboards para depois gerar imagens em movimento, Boilet faz justamente o contrário: constrói seus esboços a partir de uma câmara filmadora para então criar suas tirinhas.

Contando histórias cotidianas, o mangá se aproxima do cinema francês dos anos 60. Essa semelhança levou Boilet a criar o movimento Nouvelle Manga. O traço realista em preto-e-branco reflete sua proposta. Assim como o nouvelle vague, o nouvelle manga prioriza a narrativa dos relacionamentos tal como eles são no dia a dia: com naturalidade, sem retoques ou truques. “A nouvelle manga oriental se diferencia da GQ européia porque transmite sensações, faz o leitor salivar, envolvendo-o na história”, disse Boilet. Para ele, as HQs eróticas ma Europa atraem um público predominantemente masculino por se limitar a retratar mulheres nuas em diversas posições, sem nenhuma ou pouca preocupação com a trama. Mas no Japão, metade do público é masculino, e a outra metade feminino, justamente por construir uma narrativa do cotidiano.

Boilet queria escrever sobre um francês que vai pela primeira vez ao Japão sem falar japonês. Ele passou seis semanas em solo nipônico e contou o que viveu em Love Hotel (1993). Algum tempo depois, fez outra “viagem antropológica! E passou um ano e meio em Tóquio e outros seis meses em Quioto. Dessa vez, Boilet escreveu sobre um francês que estava se adaptando à cultura oriental. Essa é a trama de Tóquio é meu Jardim (1999) e acabou se casando com a musa inspiradora dessa HQ. Os laços com o Japão se estruturaram e, no ano seguinte, ele se mudou definitivamente para Tóquio. Mais tarde lança O Espinafre de Yukiko, ganhador do prêmio de Angoulême em 2004.

Em entrevista Boilet afirmou que estava com vontade de sair pelo mundo fazendo quadrinhos-reportagem. “O Japão era o lugar certo para começar. Pela dificuldade de acesso, por não falar a língua e não conhecer praticamente nada do país, me coloquei o desafio: se conseguir fazer quadrinhos lá vou conseguir fazer em qualquer lugar do mundo!” Sobre sua obra, o autor diz que “Meu interesse sempre foi falar do cotidiano, de todos os elementos de uma relação entre um homem e uma mulher. Sedução, primeiro encontro, separação. Não há sentido em contar uma história de amor que termina quando a luz do quarto é apagada.” E mais, sobre a cultura japonesa relata que “por não viverem numa sociedade judaica nem cristã, os japoneses não ensinam suas crianças para que se sintam culpadas com relação ao desejo sexual. O sexo é considerado um jogo. No lugar da culpa, o que eles têm é uma noção de vergonha. Se alguém te olha com olhar desaprovador, aí você sabe que aquilo é ruim. Mas, no quarto, quando os dois estão com as portas fechadas, não existe essa pressão.”

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

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