18 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (10)

Grito de revolta (1)




E o que quer e o que pode um novo ritmo mudar no silencioso mas efervescente anos 50? Transformar. O rock surgiu como o grito de revolta de uma nova geração. O rock’n’roll foi o gênero de música popular que surgiu quando as canções do rhythm’n’blues negro começaram a ser difundidas pelas emissoras de rádio em busca de maior audiência, predominantemente branca, e quando os artistas brancos começaram a regravar canções do rhythm’n’blues negro. O rhythm’n’blues, a country music norte-americana e o boogie-woogie (estilo percussivo e rítmico dos pianistas negros) dos anos de 1940 e 1950 constituem o rock’n’roll dos primeiros tempos.

O próprio nome rock´n´roll tinha uma conotação sexual explícita. A cantora de blues Trixie Smith cantou em uma gravação de 1922 “My man rocks no with one steady roll”, enquanto Ferdinand Morton (1885-1941) se auto-apelidou Jelly Roll (um doce cilíndrico e comprido que na gíria do blues designava o pênis) para apregoar sua destreza sexual.

A juventude de classe média branca, colocando-se como oprimida em relação à sociedade estabelecida de seus pais, assume a cultura negra como bandeira. Da conjunção explosiva de duas correntes sonoras – o rhytm and blues negro e a música dos brancos rurais, o country & western formou o estilo chamado rock’n’roll que irá subverter a partir da década de 50 os hábitos de consumo musical e da própria cultura americana. Um editorial da revista Billboard (1954) condena as canções de rhythm & blues com duplo sentido. O estilo é considerado sexualmente sugestivo e deflagra uma campanha para proibir a proliferação de jukeboxes em “cidades decentes”. A polícia confisca jukeboxes em Memphis, onde um certo Elvis começa a se tornar conhecido.

A idolatria por Elvis, cognominado The Pélvis, atingiu tais proporções no início dos anos 50 que a televisão – veículo até então numa posição marcadamente reacionária diante da nova música – se viu forçada a contratá-lo, em 1956, para o famoso show de Ed Sullivan. Mas Sullivan impôs uma condição: que Elvis só fosse focalizado pelas câmaras da cintura para cima, pois a ginga dos seus quadris era considerada “obscena”. O excesso de sensualidade foi uma das primeiras acusações lançadas contra o rock’n’roll. Seu caráter primitivo de dança, herdado da música fortemente ritmada do negro norte-americano, era enfatizado até na letra de alguns sucessos, como na canção-manifesto de Chuck Berry, “Rock and Roll Music”. Em 1962 o bispo de Nova Iorque proíbe alunos de escolas católicas de dançar o twist, uma das primeiras danças a “liberar” de vez o quadril dos americanos, que até então não tinham ideia do que era um bom rebolado.

No rock’n’roll de Elvis a balança pendeu para o dionisíaco, daí o predomínio da dança. De Bob Dylan aos Beatles restabeleceram o equilíbrio apolíneo/dionisíaco: o ritmo continuou pulsando interiormente, vigoroso como nunca, mas e por isso mesmo tornando desnecessária a expansão física na forma de dança. Bastava ao ouvinte marcar apenas um compasso mental. “Políticos eróticos é o que somos”, dizia Jim Morrison, do conjunto The Doors, processado em 1968 por ter levado ao pé da letra esta sua declaração de princípios, simulando masturbar-se diante de um público juvenil da Flórida. Janis Joplin prometia “compor uma canção que descreva o que é fazer amor com 25 mil pessoas e depois voltar sozinha para casa”. Ela encarava um concerto de rock como “um ato sexual” e dizia: “Eu canto com minha voz, com o corpo, com o sexo – eu canto toda”. Em “Light My Fire” The Doors repete insistentemente “venha, garota, acenda meu fogo”.

Ao descrever sua música, Ray Charles parece também falar de sexo: “Soul é o modo de entrar numa canção e fazer a canção entrar na gente. Fazer dela uma parte de nós mesmos, mas uma parte real, concreta, quase tangível”. Mick Jagger descreve o que ele experimenta durante um concerto: “A gente sente a adrenalina subindo pelo corpo. É uma coisa muito sexual e a energia parece transbordar daqueles públicos imensos e trepidantes de Nova Iorque, Chicago ou da Califórnia”. Quando canta – e Jagger é dos cantores brancos que mais se aproximam do grito do blues – ele executa também uma dança toda sua que já foi chamada de grito do ventre.

Um dos maiores sucessos do grupo Rolling Stones, a música que marcou seu estilo, se chamou (I Can’t Get No) Satisfaction, comentário cáustico sobre a impotência do homem moderno. Em 1965 as rádios dos EUA banem a música Satisfaction. No ano seguinte seria a vez da polícia tentar cancelar um show de James Brown alegando que a dança do cantor é obscena. Nos concertos, Mick Jagger, costumava rebolar com a malícia de um travesti e manipulava o microfone fálico com mil insinuações. Jim Morrison e Janis Joplin também não faziam por menos em suas apresentações públicas e Jimi Hendrix violentava a guitarra num ato de amor e ódio, tocando-a com os dentes, entre as pernas, acariciando-a como se fosse uma mulher.

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