28 maio 2012

Quadrinhos da vida real (01)


No rastro de pioneiros como Will Eisner, Robert Crumb, Moebius, Phillipe Druillet, Jean-Claude Forest que uma nova geração de artistas estendeu os limites dos quadrinhos, obrigando roteiristas, desenhistas e leitores a repensarem seus conceitos do que é uma HQ e do que é possível se fazer através desse meio de expressão artística. Em várias partes do mundo, uma infinidade de autores surgiu com uma maneira nova de se produzir quadrinhos. O americano Art Spiegelman, precursor do gênero, já havia retratado os horrores da Segunda Guerra no formato de HQ em "Maus", baseado em entrevistas com seu pai, um sobrevivente do Holocausto. O primor de sua história de memórias em quadrinhos recebeu o prêmio Pulitzer em 1992. Quem consolidou o gênero de jornalismo em quadrinhos, no entanto, foi Joe Sacco, narrador-personagem de uma série de livros em que retrata sua própria experiência em territórios marcados por guerras. Entre os alternativos estão os brasileiros Lourenço Mutarelli, Allan Sieber e Gilmar Rodrigues, o frances Lewis Trondhein, o canadense Guy Delisle, e muitos outros.

A esses, você pode somar outros incontáveis trabalhos, casos da obra do fotógrafo Didier Lefèvre, dos relatos autobiográficos da iraniana Marjane Satrapi, do movimento nouvelle manga de Frédéric Boilet e as cenas do cotidiano feitas pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Ainda que muito material de qualidade continue inédito no Brasil, alguns dos mais representativos títulos e autores das histórias em quadrinhos alternativos têm ganhado edições nacionais. Charles Burm, Craig Thompson, Dash Shaw, Chris Ware são apenas alguns dos nomes que podem ser facilmente encontrados nas seções reservadas aos quadrinhos nas livrarias brasileiras.

A retratação da realidade assume diferentes formas narrativas no mercado dos quadrinhos, mas apenas uma é jornalística. Na monografia Quadro a quadro: Reflexões sobre o jornalismo em quadrinhos, o jornalista Flávio Pinto Valle Belo separa o joio do trigo no mercado underground ao definir três tipos de quadrinhos da realidade: as narrativas de testemunho, do olhar e as jornalísticas.

Narrativas de testemunho - São relatos autobiográficos com elementos ficcionais, como Gen - Pés Descalços (os efeitos da bomba atômica no Japão), À Sombra das Torres Ausentes (o atentado de 11 de setembro), de Art Spiegelman, e Persépolis, de Marjane Satrapi (a Revolução Islâmica de 1979 aos anos 90).

Narrativas do olhar - Relatos construídos com a experiência do outro. O narrador é destituído de autoridade, e se vê obrigado a adotar uma estratégia textual que o legitime, como em Maus (Prêmio Pulitzer de jornalismo em 1992), que conta a vida sob o nazismo de Vladek Spiegelman, pai do próprio autor, Art Spiegelman; o livro de crônicas O Último Dia no Vietnã, que Will Eisner fez em 2000, e Fax from Sarajevo, de Joe Kubert, que em 1996 relatou a Guerra da Bósnia com base no relato de Ervin Rustemagic, enviado por fax, sua única forma de contato com o mundo ao ficar sitiado pelas tropas sérvias em Sarajevo.

Narrativas jornalísticas - Um olhar de um narrador-repórter sobre a ação do outro. Isso exige estratégias textuais que deem credibilidade ao relato. Só essa categoria seria de fato jornalismo gráfico, um novo formato de linguagem de apresentação de relatos do cotidiano.

Maus, de Art Spiegelman (1991), Palestina, de Joe Sacco (1993), Persépolis, de Marjane Satrapi (2007), O Fotógrafo, de Emmanuel Guibert, Frédéric Lemercier e Didier Lefévre (2003). Todas essas histórias em quadrinhos eram parte memória, parte revisão histórica. Parte narrativa gráfica, parte um híbrido de desenho, fotografia e colagem. Todas com um fundo profundamente humanista e com um pano de fundo de reexame da História.

Vale ressaltar que, apesar do termo jornalismo em quadrinhos ser recente, Ângelo Agostini já fazia reportagens em HQ no século XIX. Em 1869 o artista criou As Aventuras de Nhô Quim, primeira história em quadrinhos seriada com um personagem fixo do Brasil. As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, considerado o marco inicial do quadrinho brasileiro. A história tratava da viagem que o matuto Nho Quim fazia de Minas Gerais até a corte do Rio de Janeiro, um percurso autenticamente nacional As histórias do personagem não poupava crítica aos problemas sociais do país. Nhô Quim foi uma das primeiras armas para atacar a aristocracia da época. Ele era um caipira rico e atrapalhado enviado à Corte pela família. As histórias do personagem não poupavam críticas aos problemas sociais do País e alfinetavam de comerciantes a artistas. A história mostrava o conflito entre a cultura rural e urbana.

Nhô Quim era um anarquista por vocação. Desajustado da vida cortesã, metia-se em confusões com toda espécie de gente: comerciantes, imigrantes, artistas, prostitutas, políticos e autoridades. Ele perdia tudo pelo caminho (chapéu, trem, roupas) e quase foi passado para trás por dois encartolados vigaristas que lhe empurraram falsas ações bancárias.  Esse ítalo-brasileiro foi um crítico feroz, que usou a pena como arma para instigar e mostrar à sociedade seus problemas e falhas, contudo, fez de belíssima e inovadora forma. Essa inovação se faz presente especialmente nos quadrinhos. Ao publicar as aventuras de Nhô Quim e de Zé Caipora, Agostini traz os principais elementos visuais da narrativa quadrinizada, mas incomuns para o século XIX.

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