23 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (13)

Grito de revolta (4)


O movimento glam inspirou um afro-americano chamado George Clinton a criar a banda glam-funk psicodélica Parliament Funkadelic, que por sua vez ampliou os limites criativos surrealistas do hip hop de hoje. Com o tempo o glam foi se transformando em punk rock. E o pivô de transição era uma gangue de jovens músicos urbanos de rua que se vestiam de mulheres. Os New York Dolls que não tocavam seus instrumentos muito bem, mas o som que eles faziam era eficiente e com entusiasmo. De Nova York para a Inglaterra foi um salto e a banda Sex Pistols vomitou uma série de rocks participando de vários escândalos públicos. Uma multidão de bandas punks inglesas surgiu no rastro do Sex Pistols, e milhares de jovens usando roupas rasgadas decoradas com slogans bizarros e ameaçadores, pontiagudos cortes de cabelo moicano, tatuagens e alfinetes de segurança ocuparam as ruas. O punk se transformou em uma identidade global que significou muitas coisas diferentes para muitas pessoas. Podia ser uma moda, ou um estilo musical. Por outro lado, o que o punk moldou foi uma postura Faça Você Mesmo (Do It Yourself - DIY). Em vez de ficar sentado idolatrando astros do rock ou gurus que supriam as pessoas com doses de uma outra viagem grátis.

Ainda em 1971 Lou Reed grava “Walk on the Wild Side” sobre travestis e a barra-pesada em Nova Iorque. Caetano Veloso lança Transa. O título do disco era a gíria da época para sexo. Em 1973 o grupo Secos & Molhados causa polêmica e faz sucesso graças a Ney Matogrosso, figura andrógina totalmente inédita. Foi uma carreira breve e fulminante. É lançado também o Lp “Todos os Olhos”, de Tom Zé, cuja capa polêmica mostra uma bola de gude num lugar nada convencional: no ânus. Na época de plena ditadura militar várias músicas do compositor havia sido censuradas. Seu amigo Décio Pignatari propôs colocar um ânus na capa. Em foco fechado e com uma bola de gude no traseiro, o resultado foi exposto nas vitrines das lojas e a censura nem imaginou do que se tratava.

The Rock Horror Picture Show (1974) mistura glam, sexo e pesadelo nas telas, virando cult movie da noite para o dia. Os Sex Pistols começaram a escandalizar o mundo ocidental com o visual punk direto da butique Sex, ponto de encontro da banda. “Jóia” (1975) disco de Caetano traz na capa o cantor, Dedé Veloso e o filho Moreno, nus. A censura proibiu a capa e fez com que ela fosse trocada. Em 1979 Rita Lee grava “Mania de Você” inaugurando uma fase sensual, que a partir daí incluiria “banho de espuma” e falaria em “de quatro no ato”.

Nos anos 80 o duplo sentido de “Rock das Aranhas”, de Raul Seixas, é vetado pela censura e proibido de tocar no rádio. A banda punk baiana Camisa de Vênus causa controvérsia por causa do nome. Luiz Caldas populariza a lambada com a música “Fricote”. Jello Biafra, líder do grupo punk Dead Kennedys, é acusado de promover e vender material pornográfico para menores, graças à arte do Lp “Frankenchrist” (com vários pênis voadores desenhados). Outra capa de disco é censurada: “Lovesexy” em que Prince aparece pelado, intensificando a campanha para censurar a indústria musical nos EUA. “I Want Your Sex”, de George Michael, encontra resistência nas rádios americanas. O grupo Ultraje a Rigor grava “Sexo!”. Fausto Fawcett inaugura a era das “calcinhas exocet” no hit “Kátia Flávia. Louraça belzebu, Godiva do Irajá”. E Tina Turner exalava estrogênio e progesterona na canção “What’s love got to do with it?” música com sexo, sexo com música. Tem ainda a bela “Sexual Healing” onde Marvin Gaye diz que está quente como um forno e precisa de amor. “Baby, vamos em frente essa noite /Baby, estou pegando fogo  preciso de um pouco de amor  E baby, não consigo esperar muito mais  está ficando cada vez mais forte  e quando me sinto assim  preciso que o sexo me cure  eu quero que o sexo me cure”.

A década de 90 confirma a presença da dominatrix Madonna. Mais do que dançar, cantar e representar, Madonna sabe como poucos vender sua imagem. Em 1992, o ano do sexo seguro, do voyeurismo e da masturbação ela colocou no mercado seu disco “Erótica” com todas as variantes da house music. A cantora embarcava de vez na dance music e emplacou o erotismo da era “safe sex”. Além de falar de sexo com incursões por estilos como o disco e o rap no álbum “Erótica”, a cantora lançou o livro “Sex” com poses provocadas por seus devaneios eróticos, muitas delas com homens e mulheres, usando insólitos objetos como coleiras de cães ou arreios. Madonna levava a pornô-chique para a música. Desde que despontou no cenário musical nos anos 80 a popstar resistiu ao tempo pela sua habilidade de se reinventar e lidar com seus negócios. Sempre escreveu e compôs suas músicas e nunca foi controlada por empresários. Foi a própria Madonna que criou seu personagem. Isso é o que faz a grande diferença e permite a sua longevidade..


Referências:

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Funk em Questão. Bravo. São Paulo: Edição nº90. Março de 2005.

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