08 agosto 2014

TV derruba a relação de ver e entender



“Homo videns. Televisão e pós-pensamento”, obra do professor Giovanni Sartori é de 1997 e lançado
pela Editora da Universidade do Sagrado Coração (Edusc) em 2001. Um livro interessante sobre a geração televisiva. Vou analisar apenas o primeiro capítulo sobre a primazia da imagem. Os dois outros, a opinião teledirigida (sobre desinformação e que a imagem também mente) e a democracia (videoeleições e demo-cracia enfraquecida) vou deixar para o leitor se interessar. Vamos discutir a relação tevê e espectador.

A palavra vem sendo destronada pela imagem. Agora tudo se torna visualizado. E o que vai acontecer com as coisas que não são visíveis. A televisão está mudando a natureza do ser humano. Antes mesmo de saber ler e escrever, o mundo em que vivemos já está se apoiando nos ombros da “geração televisiva”.

Até o fim do século XV, o fato de ler, e ter algo para ler, foi um privilégio de pouquíssimos eruditos.    
A cultura da sociedade ficou amplamente baseada na transmissão oral. E é com a Bíblia impressa por Gutenberg entre 1452 e 1455 que a transmissão escrita da cultura se torna potencialmente acessível a todos. A partir daí o progresso da reprodução mediante a imprensa foi lento mas constante até alcançar seu ponto alto com o advento do jornal impresso todos os dias. E começa os avanços tecnológicos com a invenção do telégrafo, seguido do telefone (desaparece a distância e começa a era das comunicações diretas). Surge o rádio e a voz passou a ser divulgada em todas as casas.

Com a descoberta da televisão, ocorreu uma ruptura neste sistema de comunicação. A televisão – como diz o próprio nome – “ver de longe” – levou à presença de um público de espectadores coisas para ver. E na tevê o fato de ver predomina sobre o falar, no sentido que a voz ao vivo, ou de um locutor, é secundária, pois está em função da imagem e comenta a imagem.

E se o homem se diferencia do animal porque possui uma linguagem capaz de raciocinar a respeito de si próprio, refletir sobre o que diz (não apenas a comunicação, mas também o pensamento e o conhecimento que caracterizam como animal simbólico). O predomínio da visão o aproxima de novo às suas capacidades ancestrais, isto é, ao gênero do qual o homo sapiens é a espécie.

Com a chegada da televisão começa a virada. A natureza da comunicação é deslocada do contexto da
palavra (seja impressa ou transmitida pelo rádio) para o contexto da imagem. A TV derruba a relação entre o ver e o entender. Antes nós tomávamos conhecimento tanto do mundo como também dos seus acontecimentos mediante a narração oral ou escrita. Hoje podemos vê-los com os nossos olhos e a narração (ou a sua explicação) é quase apenas em função das imagens que aparecem no vídeo.

A outra realidade é que nossas crianças ficam olhando a televisão, horas a fio, antes mesmo de aprenderem a ler e a escrever. O resultado disso é que a tevê está criando ser humano que não lê, que revela um alarmante entorpecimento mental. Trancados no próprio quarto olhando os programas da tevê, continua surdo, durante a vida, aos estímulos da leitura e do saber transmitidos pela cultura escrita. O resultado é um adulto caracterizado pela atrofia cultural pelo resto da vida. É bom lembrar que a TV pode fazer bem ou mal, pode ajudar ou também prejudicar, mas é incontestável que ela oferece entretenimento e diversão em demasia. Muitas horas em frente da tevê causa o empobrecimento da capacidade de entender. Porque?

Todo o saber do ser humano, o seu progresso no conhecimento está na sua capacidade de abstração. As palavras que articulam a linguagem humana são símbolos que evocam representações, isto é, evocam na mente configurações, imagens de coisas visíveis. E nosso pensar vem mediante conceitos. Todo o saber do homo sapiens se desenvolve na dimensão de um mundus intelligibilis (de conceitos e de concepções mentais) que não é de modo algum o mundus sensibilis, o mundo percebido pelos nossos sentidos. Assim a televisão investe o progredir do sensível para o inteligível, virando-o em um piscar de olhos para um retorno ao puro e simples ver. Assim, atrofia a nossa capacidade de abstração e com ela toda a nossa capacidade de compreender.
 
O ser humano que lê está em rápida queda, quer se trate do leitor de livros como também do leitor de jornais, em todo o mundo. Enquanto isso a escrita televisiva dos núcleos familiares aumentou consideravelmente, então fora do trabalho não sobra mais nenhum tempo para qualquer outra coisa. A imagem, por si, não oferece quase nenhuma inteligibilidade. A imagem deve ser explicada, e a explicação da imagem que é dada no vídeo é constitutivamente insuficiente. Se no futuro passou a existir uma televisão capaz de explicar melhor, então a discussão a respeito de uma interpretação positiva entre o homo sapiens e homo videns poderá ser reaberta.

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