05 dezembro 2012

Gerônimo, coração de liberdade (2)

No verão seguinte lança um mix que trazia duas composições, “Eu Sou Negão( Macuxi Muita Onda)” e “Jubiabá”. Além disso, ele teve “Dança das Águas” editada no exterior através de um LP internacional editado em 1983 por Alfred Victory, então diretor da Polygram. A antológica Eu Sou Negão, uma declaração de orgulho negro é citação fundamental na história da música baiana, principalmente por ter conseguido, nos anos 1980, abrir caminhos para que o samba reggae dos blocos afros de Salvador chegasse aos meios de comunicação e se transformasse em um fenômeno de popularidade. Foi uma mistura de samba reggae com roquenrol e rap. A música foi sucesso no carnaval baiano de 1986 e sacudiu as paradas de sucesso. Verbalizou porém um sentimento universal no refrão “meu coração é a liberdade” que a cantora Marisa Monte aproveitou no seu segundo disco.

Em 1987, a Continental lançou seu terceiro elepê, Dandá, uma mistura de ritmos e alegorias. O título é um aglomerado de significações que vão do dialeto africano, a expressão utilizada pelas crianças em fase de aprendizado da verbalização. É também uma raiz trazida pelos escravos africanos transfigurada numa “mágica benéfica para iluminar os caminhos das pessoas”. No disco, Gerônimo utiliza a expressão com todos os sentidos possíveis, mas sobretudo para questionar a ambição humana: “Dandá também significa questionar quem tem para ganhar deseja mais do que tem”, explica, correlacionando a expressão ao antigo dito popular “Dandá pra ganhar tentem” (vintem).

“Dandá” é um ijexá de batida lenta e estilizada, assim como “Abecedário”, uma homenagem ao advogado dos pobres, Cosme de Farias. “Jubiabá”, uma soca, resumo da história de Antonio Balduíno, do livro de Jorge Amado. “Lambada da Delícia” foi outro sucesso. E “Abafabanca” é uma música urbana do Nordeste. Para quem não se lembra, abafabanca é um sorvete caseiro, vendido nos cubinhos de gelo e extraído da própria fruta. Só quem podia fazer abafabanca, na época, era os petroleiros, porque também podiam ter geladeira. O poder aquisitivo da população era muito baixo e Gerônimo soube captar como ninguém esta fase nessa canção.

Em 1988 lançou Gerônimo, elepê apresentando ritmos afro baianos e caribenhos em músicas feitas juntamente com outros compositores baianos como Dito, Batatinha, Vevé Calazans e Ildasio Tavares. O crítico Lauro Lisboa Garcia, do jornal O Estado de S.Paulo (1988) comentou:

“Intermediário da intelectualidade de um Gilberto Gil ou Caetano Veloso com a popularidade dos blocos carnavalescos de Salvador, Gerônimo se firma como o representante da nova síntese musical baiana. Poeta e músico por excelência ele é considerado no circuito artístico de lá uma autoridade nos assuntos de música e cultura de conexão 'Africaribahia', muito antes de esse papo bater nos pára-lamas. A despeito da fúria dos xenófobos contra a invasão do reggae no carnaval, a música neobaiana não dobrou os joelhos. Comeu mais rock, reggae, merengue, salsa e com seus derivados temperou mais samba, forró, afoxé. O disco de Gerônimo – acentuado mas radicalmente na latinidad que no baianismo – injeta misso tudo em composições significativas (…) Gerônimo conta uma de muitas histórias possíveis até na épica - “com mil imagens glauberianas, exóticas” - Surpresas Tem o Pelô, Fino cordel. Do bloco Muzenza, a versão mais requintada de Brilho e Beleza - um tributo a Bob Marley, como não poderia deixar de ter. (…) O álbum vale por inteiro. A música neotropicalista gerada no mormaço baiano já perdeu a vergonha da própria cara. Falta a 'modernidade' paulista-carioca tomar a sua e desfazer o equívoco da segregação que destina aos 'regionalistas'. Gerônimo dá o lance em Porto dos Sonhos: 'Meu horizonte tem algo mais/eu tenho capa e espada em qualquer sonho aportarei”.

Em 1989 foi diretor da Fundação Gregório de Mattos, na administração do prefeito Fernando José.

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