14 junho 2012

Quadrinhos da vida real (12)


AMOR DE SERIAL KILLER

Uma mistura de reportagem e história em quadrinhos é o que oferece o jornalista e roteirista Gilmar Rodrigues no livro Loucas de Amor – Mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais. Ele intercala prosa documental – resultado de quatro anos de pesquisa – com história dentro da história, na forma de HQ. Desenhados por Fido Nesti, os quadrinhos retratam os passos de Rodrigues na busca por respostas pelos comportamentos desviantes presentes em várias sociedades (mulheres que se apaixonam por criminosos sexuais). Além dos relatos de Rodrigues, o ilustrador Fido fez uso de fotos, vídeos e cartas como referência.

Em 1998, um dos mais famosos assassinos do país foi preso. Francisco de Assis, o Maníaco do Parque, condenado por estupro e assassinato. Ele seduzia suas vítimas, as atraía para uma clareira no meio de um parque e ali praticava seus crimes. Durante meses ele foi a atração principal dos noticiários, aparecendo em todos os telejornais. Enquanto a opinião pública o execrava pelos crimes que cometeu, um grupo de mulheres lhe enviavam cartas de amor, esperando dele uma demonstração de carinho. Esse episódio despertou a curiosidade do roteirista da Globo Gilmar Rodrigues. Como mulheres aparentemente normais se interessam por homens perigosos, criminosos que fizeram mal justamente a outras mulheres? O jornalista passou a pesquisar outros casos de assassinos Don Juan, e depois de quatro anos de trabalho e mais de 100 entrevistas nasceu o livro Loucas de Amor: mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais, lançado pela Editora Ideias a Granel.

O principal objetivo do livro é responder porque essas mulheres se envolvem com criminosos, o que eles tem que as atrai. Boa parte do livro é ocupado com relatos de casos investigados por Gilmar, nas suas viagens para Itaí, onde há uma penitenciária apenas para tratar de criminosos sexuais. Também são apresentados vários “casos de amor” que envolveram o Maníaco do Parque e o famoso bandido da Luz Vermelha. Todos contados com muita simplicidade que chama a atenção do leitor. O assunto já é interessante por si só, e não é preciso muito para prender o leitor na narrativa. Entre os capítulos há páginas em quadrinhos, um making off do trabalho do autor. Os desenhos de Fido Nesti que ilustram o livro mostram as personagens entrevistadas por Gilmar e dão uma ideia do que ele passou para escrever Loucas de Amor. Com uma certa ironia, os quadrinhos aliviam o conteúdo pesado do livro, permeado de crimes hediondos e pessoas em situação emocional deprimente.

A pesquisa de Gilmar o levou a caracterizar essas mulheres como pessoas carentes, de baixa auto-estima e que sofreram alguma espécie de abuso e abandono. Além de aspectos internos, a exposição dos criminosos pela mídia os tornam atraentes, criam nessas mulheres a fantasia de que eles podem ser curados, ou então de que realmente são inocentes. Acreditam que sua carência será saciada, pois de dentro da cadeia seu parceiro não tem como as abandonar. Deixam de lado trabalho, família e amigos para poder visitar seu companheiro na cadeia. Lá dentro são tratadas “como rainhas”, nas palavras das próprias mulheres. Para algumas a ilusão passa, percebem que dentro de uma cela os criminosos agem de um jeito, fora de outro. Sentem vergonha do que viveram. Outras voltam a repetir o erro e se envolvem com outro presidiário. Umas continuam a amar o bandido mesmo sendo casadas, com filhos e netos. E acontece com todo tipo de mulher: pobre, analfabeta, universitária, rica, pós-graduadas.

O mais repugnante nessas mulheres é a banalização do estupro. Enquanto a sociedade condena o sexo forçado, irremediável até na opinião de outros presidiários, essas mulheres culpam as vítimas pelo crime. “Só estupro tudo bem”, diz uma mulher apaixonada pelo Luz Vermelha. O conceito sobre o que é ou não crime se mostra deturpado. Por fim, Gilmar fala de suas entrevistas com psiquiatras, que através de análises de cartas dessas mulheres para estupradores e assassinos traçam linhas que podem explicar esse interesse. Ainda de modo simples, passamos a entender os vários fatores que causam tal comportamento. Loucas de Amor é um livro que se propõe a incentivar mais estudos sobre o perfil de serial killers. Há muito interesse em cima desse assunto, mas uma abordagem a partir de mulheres que se relacionam com tais pessoas justamente por serem criminosas é inédito aqui. Mais um motivo para ler Loucas de Amor.

Nas “últimas palavras” da obra o autor escreveu: “A hoje no Brasil existem poucos estudos (apesar de valorosos esforços de pessoas citadas nesse livro) sobre psicopatia ou necropatia. Quero deixar a minha ainda incipiente contribuição aos especialistas que estudam, debatem e refletem sobre a violência no Brasil, sobre a violência humana. Entender essas moças, sem nunca deixar de alertar para os riscos dessas atitudes, é entender também como se processam os crimes, como assassinos seriais e estupradores atraem suas vítimas. Não quero dar lições de como se deve tratar a violência, mas acredito firmemente que o estudo, a pesquisa, a reflexão desapaixonada, a negativa em aceitar soluções vingativas, são o melhor caminho para evitar o crime, para pacificar, para regenerar a sociedade como todo. Todos precisamos (RODRIGUES, 2009, p.155).

A ideia de unir texto e HQ surgiu por conta de uma paixão antiga: Rodrigues foi coeditor da revista de HQ Dumdum, dos anos 90. “Os quadrinhos são uma linguagem livre, que permite voos literários”, disse. Além dos relatos de Rodrigues, Fido Nesti, ilustrador do livro, faz uso de fotos, vídeos e cartas como referência.
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