04 junho 2012

Quadrinhos da vida real (06)






JOE SACCO - 1

Um dos principais responsáveis por mostrar que boa reportagem pode ser feita em quadrinhos foi Joe Sacco. Ele tem já uma considerável trajetória na área de quadrinhos, que vem desde a adolescência, quando, depois de imigrar da Austrália para os Estados Unidos - ele, na realidade, nasceu na ilha de Malta, Espanha, em 1962 -, destacou-se como autor pela Fantagraphics, editora que publica principalmente gibis underground, um gênero com o qual ele sempre teve afinidade. No Brasil, suas primeiras HQs saíram pela Conrad Editora, em 1999, no título Comic Book: o novo quadrinho norte-americano, no qual teve publicada a história Natal com Karadzic, seu primeiro projeto na linha de jornalismo em quadrinhos, temática que persegue até hoje. Outra publicação sua, Àrea de segurança - Gorazde, foi eleita a melhor história em quadrinhos de 2000 pela revista Time; e, no Brasil, recebeu o troféu HQ Mix de melhor graphic novel estrangeira de 2001.

Uma de suas principais obras, Área de segurança Gorazde, conseguiu a proeza de simplificar um assunto árido — a guerra civil na ex-Iugoslávia — sem perder a profundidade e deixar de discutir as complexas relações de poder e cultura que levaram ao conflito. Ou seja, mostrou a jornalistas no mundo todo que quadrinhos podem ser um veículo para temas sérios — nada que Crumb, Will Eisner ou Art Spiegelman já não houvessem mostrado, mas o fato de Sacco se apresentar como jornalista talvez tenha lhe angariado alguma atenção. Suas primeiras influências estão ligadas ao new journalism de Hunter S. Thompson e John Reed, bem como ao linguista e teórico contemporâneo Noam Chomsky, entre outros. Próximos daquilo que, muitas vezes, denomina-se jornalismo de denúncia, os trabalhos de Joe Sacco destacam-no como um escritor engajado nas questões político-culturais de seu tempo e um ilustrador que busca transmitir, a partir da linguagem das histórias em quadrinhos, a realidade dos heróis vencidos da história. Palestina, na Faixa de Gaza reforça ainda mais essa posição.

O jornalista ganhou aplausos por sua dura reportagem gráfica sobre a Guerra da Bósnia (1992-95) e o conflito palestino. Ele publicou dois trabalhos sobre a questão dos territórios ocupados. Palestina, uma nação ocupada (vencedor do American Book Award, de 1996), Palestina na Faixa de Gaza. Dois outros sobre conflito na Bósnia: Área de Segurança Gorazde, o massacre de muçulmanos na guerra da Bósnia Oriental (eleita a história em quadrinhos do ano pela revista Time) e Sarajevo. Outro trabalho seu se chama Derrotista. Nele estão os seus primeiros trabalhos, alguns deles precursores da veia jornalística, como a história em que narra as memórias de sua mãe na Segunda Guerra durante o bombardeio à Malta. Sacco tem um olhar afiado para o tipo de personagem que converge nas zonas de guerra – incluindo ele próprio. Ele se desenha como uma presença questionadora em seu trabalho, sendo honesto sobre alguns compromissos que os repórteres fazem (ADETUNJI, 2006, p. 10).

No prefácio da obra Palestina uma nação ocupada, José Arbex escreveu: “Um dos grandes méritos de Sacco – e daí o imenso poder de seus quadrinhos – foi o de ter dado visibilidade aos árabes ´invisíveis´. Quando os seis meses de preparação do ataque de Washington a Bagdá – de agosto de 1990, quando Sadam Hussein invadiu o Cuáit, a janeiro de 1991, quando a guerra começou -, o  mundo foi inundado por fotos de soldados americanos mobilizados para a guerra, e de seus familiares que ficaram nos Estados Unidos. Tínhamos todas as informações sobre os soldados americanos: sabíamos seus nomes, suas idades, com quem namoravam, onde viviam, quem eram os seus pais, os seus filhos. Do ´lado de lá`, nada sabíamos. Ou melhor, recebíamos as famosas imagens de mulheres com véu (´eles´ são machistas), de garotos de quinze anos armados até os dentes ( ´eles´ são fanáticos), de feiras de camelos na Arábia Saudita ( ´eles´ são atrasados). Por meio dessa operação, os árabes se tornaram invisíveis, tanto quanto os soldados americanos se tornaram nossos amigos, figuras familiares e simpáticas”.
Mais adiante Arbex conclui: “Sacco dá uma cara aos árabes sem cara. Mostra o sofrimento das mães palestinas, a ansiedade das crianças, o terror dos homens diante de um Exército formidável, poderoso e fascistoide. Mas ele não faz um ´panfleto palestino´. Ao contrário, há todo um esforço para mergulhar no componente profundamente humano da tragédia palestina. Produz seus heróis e seus covardes, suas esperanças e suas frustrações. Nisso reside a legitimidade e poder deste livro: no mundo em que impera as imagens, Sacco produz as suas próprias imagens de mundo para subverter, questionar uma percepção uniformizada pela grande mídia. E não será este, precisamente, o objetivo maior de uma grande reportagem?”.

o  Joe Sacco denunciou as torturas sofridas por prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghaib em tiras publicadas pelo jornal inglês The Guardian.

Entre os anos de 1992 e 1995, durante a Guerra da Bósnia, a imprensa mundial, sempre centrada na capital Sarajevo, realizou uma maciça cobertura da tragédia. Sarajevo tornou-se parte do grande espetáculo mundial. No entanto, na parte oriental do país, a população muçulmana era vítima de selvagerias impostas pelas forças sérvias, que atacavam com uma crueldade impressionante. Isso ficou oculto e desconhecido aos olhos do mundo. A ONU decidiu agir, criando as "áreas de segurança" nos territórios onde se confinavam os muçulmanos. Esses locais tornaram-se os mais perigosos do país, devido ao cerco dos sérvios da Bósnia, que realizavam ataques constantes. Numa dessas áreas, enquanto a comunidade internacional ignorava o assunto e voltava as costas para o problema, a limpeza étnica atingiu seu auge sangrento. Essa cruel realidade é revelada em Área de segurança - Gorazde, do jornalista e quadrinista Joe Sacco.

Gorazde foi a única cidade (na verdade, um enclave - território encravado noutro) que conseguiu sobreviver à guerra contra os muçulmanos no leste da Bósnia. Joe Sacco, o principal nome do "jornalismo em quadrinhos", esteve lá quatro vezes entre o final de 1995 e o começo de 1996, quando a população local já suportava as agruras da guerra havia três anos e meio. O autor presenciou os pesados bombardeios à cidade e as terríveis consequências do conflito: a fome, a luta dos homens para defender suas famílias, as casas em ruínas e incendiadas (quase sempre sem eletricidade ou água corrente) e, principalmente, a ausência de perspectivas e a desesperança da população em um acordo de paz. Sacco retratou tudo isso de maneira jornalística, com um texto exato e desenhos detalhadíssimos, com um traço no estilo underground, hachuras usadas com mestria e um competente uso das técnicas de contraste de branco e preto.  O resultado é uma obra contundente, que escancara o lado não mostrado da Guerra da Bósnia. Área de segurança - Gorazde é uma história real, calcada sobre a história de pessoas comum em meio a um conflito irracional. Por isso, mostra também os primeiros passos de um povo em direção a uma nova vida.

“Quando as cadeias de televisão vêm ganhando cada vez mais importância e agilidade na cobertura das questões geopolíticas, a caneta de Joe Sacco consegue ir além das lentes das filmadoras das grandes redes. Cada capítulo de `Gorazde` com seus depoimentos em primeira pessoa e incursões no cotidiano dos habitantes, pode nos confortar mais do que horas de uma cobertura impessoal da mídia internacional (…) Na Bósnia de Sacco, traçada milimétrica e cuidadosamente, a dureza da guera parece mais real que nunca”, comentou Diego Assis no Folha de São Paulo.

Palestina: uma nação ocupada, escrito e desenhada pelo jornalista Joe Sacco, é um livro sobre a guerra entre os árabes e judeus. Nas 141 páginas da história, ele conta ao leitor tudo o que acontece em sua vida naquele local. As sessões de tortura e as prisões judaicas, em especial a famosa e gigantesca Ansar, merecem um capítulo a parte. Entre os inúmeros copos de chá que teve que tomar, Joe conversou com pessoas que foram presas sem saber do que estavam sendo acusadas. Muitos nem mesmo tinham cometido crime algum. É mostrado ainda que todo este abuso por parte dos judeus tinha apoio legal, fazendo os árabes sofrerem sem ter a quem recorrer.

Sacco vai a campo o tempo todo, como manda o manual do bom jornalista investigativo. No começo do livro, ele se contenta em colher depoimentos e tirar fotos do martírio diário vivido pelos palestinos e judeus. Já no último capítulo, ele se vê no meio de um levante popular contra as tropas judaicas e seu toque de recolher. Tudo em nome de uma boa matéria, ou, como ele mesmo diz "É bom para o gibi".

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