13 setembro 2011

Limitações simbólicas aos quadrinhos (2)

Com o aprimoramento das técnicas de impressão, os quadrinhos encontram nos livros e, principalmente nos jornais um meio para sua ampla difusão. Nessa época, existiam os conceitos de alta cultura (das elites, crítica e reflexiva) e baixa cultura (das classes populares, ligada a tradições e costumes. Os jornais em que as HQs foram publicadas eram extremamente populares e atingiam uma grande parcela da população. O século XIX serviu para consolidar o modo capitalista de produção. O surgimento das grandes cidades e o fortalecimento da imprensa dava início a uma nova realidade.

Na primeira metade do século XIX, a progressiva industrialização, o surgimento de novas técnicas (como a litografia) e o crescimento da população urbana possibilitaram o aperfeiçoamento e a expansão da imprensa e da indústria literária. Mais uma vez, uma relativa melhoria nas condições de vida foi fator determinante para a expansão da vida cultural. Nos países ocidentais, paralelamente ao crescimento da população, ampliavam-se as políticas de educação e consequentemente o número de leitores em potencial, o que possibilitou aos editores aumentar e diversificar as tiragens, barateando seus produtos, o que atraía novos leitores. Estas condições favoráveis levaram a uma maior concorrência entre os editores, que motivou o surgimento de veículos especializados e o desenvolvimento de gêneros e suplementos literários especializados (como os “romances de aventura” e a “literatura infantil”, além de reedições ilustradas de clássicos como A Divina Comédia e Dom Quixote).


Se as bases formais e estruturais dos quadrinhos (grafismo sintético e narrativa visual) surgiram com as gravuras cômico políticas, foram os gêneros do romance e da literatura infantil que forneceram seu substrato literário. Assim, quando encontramos hoje, nas HQs, heróis que se valem de disfarces para fazer justiça ou animais falantes com hábitos consumistas, podemos estar diante de eco dos ecos das aventuras do Conde de Monte Cristo e das discussões morais das fábulas de La Fontaine.


Com o advento da chamada “sociedade burguesa” no século XIX, difundiu-se a preocupação com a moralização e a disseminação de “bons costumes”, levando a um considerável aumento da atenção dada à infância (que se refletiu nas intenções moralizantes de parte da literatura infantil da época). Consequentemente, a criança também passou a ser vista como um consumidor específico, o que motivou os editores de jornais a aumentar o espaço dedicado ao “público infantil”. A proliferação dos quadrinhos produzidos para as crianças norte-americanas levou a uma especialização, forjando o gênero quadrinho infantil (que se constituiu, sobretudo, a partir das projeções editoriais acerca de um “público consumidor” e não exatamente dos elementos intrínsecos às obras que o compõem). E assim, em grande medida por influência de uma produção em massa, generalizou-se a impressão de que os quadrinhos são apenas “coisas de crianças”.

Surgia então uma nova sociedade, altamente urbana e industrial, com muitos milhões de seres humanos anônimos circulando, trabalhando, produzindo, consumindo. Essa sociedade tão grande, tão complexa, acabou gerando códigos e regras próprios. Dentre essas regras, uma nova para os produtores de cultura chamado mercado: muitos artistas passariam a criar par vender entretenimento ao grande público” (FEIJÓ, 1997, p. 10).


Assim o quadrinho caracterizou-se como um típico produto da então emergente cultura de massa. Por trás da produção e divulgação das HQs, existia “uma forma de produção cultural organizando sobre bases industriais para conseguir atingir uma grande quantidade de leitores” (FEIJÓ, 1997, p.10). Essa ideia da produção artística alcançando milhares de pessoas era uma idéia nova e contrária à posição de como a arte era encarada até então. A elite ficou em polvorosa com essas novidades. Com interesses comerciais e mercadológicos latentes, o início das HQs contribuiu para que essa forma de expressão não ganhasse, a princípio, o status de arte, e fosse vista apenas como um produto típico da cultura de massas, ou especificamente da cultura jornalística.


Os donos de jornais não viam os quadrinhos como expressão artística, e sim, como uma atração de grande aceitação entre os leitores que cada dia se familiarizavam com os personagens e as situações vividas por eles nas histórias. Os quadrinhos eram encarados como um produto. Um bom exemplo dessa situação aconteceu com seu precursor, o artista Richard Outcault. Seu personagem Yellow Kid, que aparecia semanalmente em cores nas páginas do sensacionalista New York World e era uma grande atração do jornal. Posteriormente, com o sucesso já consolidado, o autor recebeu uma oferta do concorrente e mudou-se com seu personagem, que, segundo Moya (1996), continuava a ser produzido no jornal anterior, com outro artista em seu lugar. Isso mostra o quanto o interesse comercial estava acima das questões artísticas, do respeito às criações dos seus autores, já que as HQs surgiram justamente “durante a etapa de expansão do capitalismo (...) permitindo compreender os fatores que condicionaram as formas e conteúdos das histórias em quadrinhos” (ACEVEDO, 1990, p.138).


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