12 setembro 2011

Limitações simbólicas aos quadrinhos (1)

Para o crítico Thierry Groensteen (2000), renomado especialista belga de quadrinhos, existem quatro limitações simbólicas aos quadrinhos: o fato de ser uma arte híbrida, de ambições narrativas limitadas, ligadas à infância e às artes visuais lúdicas, como a caricatura. Essas “limitações” contribuíram para uma crítica à condensação estética dos quadrinhos, que os distanciava do ideal de linguagem pura. Como consequência, os quadrinhos foram durante longo tempo identificados como um tipo menos sério de produção visual, o que torna possível categorizá-los como saberes “desqualificados”.

Os quadrinhos, híbridos verbais e visuais, mesclam características artesanais, referentes à sua produção, com outras próprias das mercadorias. São capazes de deslizar por entre as fissuras do tempo presente, realocando-se em diversos discursos. Afirmam-se como parte de um aqui e agora, mas assumem igualmente um distanciamento crítico que lhes permite lidar com este presente.


A dificuldade parece residir na aceitação de que a leitura de quadrinhos envolva não só aspectos afetivos, mas também reflexivos, independentes do conteúdo da trata.


A história das histórias em quadrinhos é marcada pelo confronto entre opiniões divergentes a respeito de sua legitimidade como produção cultural, sua qualidade artística e seus efeitos sobre os leitores, tomando como parâmetros formas de expressão já conhecidas. Dessas diferenças não surgiram somente cerceamentos, mas igualmente adaptações que apontam novos caminhos para a linguagem. A própria formação de uma subjetividade referente ao leitor foi moldada a partir dos sucessivos movimentos de reinvenção da linguagem. A história das sociedades continua sendo uma história de conflitos entre as classes, mas não é feita somente de conflitos, mas também de concessões, trocas e adaptações e este movimento não ocorre exclusivamente entre as classes, mas também no interior destas.

A Teoria Crítica, para o especialista em mídia e cultura Hans-Dieter Kubler (2000) caracterizou-se pela separação definitiva entre arte e cultura, no momento em que a primeira perde grande parte de seu caráter normativo e crítico. A longa ligação entre arte e mercado, sustentada pelas ideias de autenticidade e aura, é transformada pelo que se passou a chamar Industria Cultural (Adorno, 1977). A velocidade da produção e do consumo dos bens culturais exigiu a revisão de vários preceitos artísticos, como o da experiência única, uma vez que reprodução conforme a demanda passou a ser o padrão, bem coo levou ao surgimento de novas teorias na Comunicação. Atualmente, ressalta Kubler, o termo “comunicação midiática” substitui “comunicação de massa”, no sentido de um tipo de contato executado com a intermediação das mídias.


O crítico alemão Dietrich Grunewald (2000, pp. 67-9), as histórias em quadrinhos ocupam uma posição intermediária entre as linguagens de grande aceitação (incluídas as inserções dos quadrinhos no cinema, na pintura, na tevê) e as formas marginais de cultura. Dessa ambiguidade decorrem outros problemas, como ser capaz de lidar com as perdas que a categorização em um desses grupos irá trazer. O autor ressalta que muita da dificuldade em se criar uma teoria consistente sobre quadrinhos se deve à incapacidade de escolha por um dos lados. Nem alta, nem baixa, as histórias em quadrinhos ocupariam outro lugar, um não-lugar. Somente a partir dos anos 1960, com a influência declarada das HQs na obra de exaltados artistas como Andy Warhol, a crítica passa a voltar seus olhos a produções ligadas à sociedade de consumo.


Para o estudioso Antônio Luiz Cagnin, “talvez por ser a nossa uma cultura fundamentalmente verbal, herdada dos franceses, nossos modelos. O importante foi sempre a palavra, falada e escrita. In principio erat Verbum, dogmatizara a Bíblia. Apesar de todos os incômodos, a imagem ainda se prosta aos pés da palavra, servindo-lhe de escabo, simples ilustração. Com mais razão, se pode dizer que esse é o destino do desenho. Designium, designio, de-signo, aquilo que vai ser, rascunho da arte maior, foi também o estigma dos quadrinhos: “Coisa pra crianças”, se diz ainda com desdém (p.12).


Considerar a HQ um produto voltado exclusivamente para o público infantil, a quem ofereceria conteúdos superficiais e ingênuos é um engano muito comum. O teórico francês Thierry Groensteen (in MAGNUSSEN e CHRISTIANSEN, 200, p.35) considera que uma das ´deficiências simbólicas´ que servem para os críticos dos quadrinhos os condenarem à insignificância artística é o fato de “apesar de serem frequentemente dirigidos aos adultos, os quadrinhos sempre propõem um retorno à infância”. Para o crítico brasileiro Moacy Cirne, “nos quadrinhos é possível sonhar”(pág.23).


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