29 setembro 2011

Fachadas de Salvador a partir da década de 70:a arte dirigida às coletividades(4)

4. A CIDADE SE TRANSFORMA NUMA ENORME GALERIA


A pichação no Brasil sofreu a influência do momento político, das eleições, e as propagandas dos candidatos catalizaram alguns dos futuros pichadores. “Eu gostaria de usar a cidade como se fosse uma enorme galeria. O muro em frente do ponto de ônibus me interessa mais do que colocar uma tela em salas de visita de milionários”, comenta um pichador baiano que não quis revelar o nome (com medo de pagar a multa). E acrescentou: “Esta é uma forma de manifestação independente e espontânea, cuja intenção deliberada é provocar o espectador, descondicionando sua percepção cotidiana”.

Para mim a pichação é uma saída para a falta de divulgação das atividades artísticas”, revela outro pichador. “Embora a gente continue no anonimato, nosso movimento incrementa a produção artística e por isto vale a pena”. As pichações permitem observar uma série de traços da sociedade e sua maneira de encarar a si mesma. Pichação é protesto, crítica. A pichação, tão eloquente em seu anonimato, tão autêntica em seu grito de protesto, vozaos que não têm voz”, constituindo-se no canal único de expressão das camadas mais ignoradas e aflitas da sociedade (seja ela econômica ou mesmo invisível no que diz respeito aos projetos culturais), ou de seus grupos mais dissidentes, que se apresentam aos olhos da burguesia acomodada (e/ou panelinha artística que sempre beberam o nectar dasverbas federais/governamentais) como se gritasse a ela: “Nós também existimos!”.


Deus condena do candombléfoi a primeira manifestação em grafite que teve certa ressonância junto à população. Mas, o autor da pichação nas paredes e viadutos nunca chegou a ser descoberto. Depois, foi a vez de se falar na crise que o Esporte Clube Bahia atravessava, pela falta de renovação dos jogadores. Em agosto de 1979 grupos de poetas iniciaram uma intensa movimentação de manifestação artística, utilizando as paredes públicas, fazendo reviver toda uma fase de exposição de ideias. A poesia de rua é importante por ser a veiculação direta autor/povo, das variadas mensagens, como por exemplo: “O operário é um poema censurado”.


O grupo de poetas de rua, autodenominado BaldeAção foi preso no início de agosto de 1970 pela Polícia Civil por estar pintando as paredes, no Politeama. Era a segunda detenção do grupo (a primeira ocorreu no início de junho de 1979) que estava tentando dar uma nova roupagem para a manifestação. Mas a prisão serviu apenas para determinar o crescimento do potencial do grupo por ter despertado à atenção de populares para o tipo de arte que estava sendo desenvolvido.


O BaldeAção tinha 25 componentes, que se reuniam nas ruas. Foi criado em junho de 1979 e a maioria dos poetas eram estudantes de Comunicação da UFBa. Alguns tinham experiência literária. Diariamente faziam recitais de poesia na Praça da Piedade no cair da tarde (17h). Outros tinham trabalhos publicados em cadernos literários. O grupo, segundo auto definição, é filho da Semana de Arte Moderna, sendo que a diferença estava na pretensão de ser diferente do movimento modernista. Para eles o importante é a comunicação direta com o povo, as ruas. Não pensava em lançar livros, por achar que o livro ocupa um espaço antigo. Mas não descartava a possibilidade de se documentar todo o trabalho que vinha sendo feito nas paredes, ruas e avenidas.


Um dos componentes do grupo, jornalista Marcos Luedy explicou que na época, nas entrevistas dadas aos jornais que o grupo não estava fazendo pichações em casas residenciais, mas apenas em áreas baldias ou lugares públicos sem maiores prejuízos. Porque se pensou na pichação como meio direto de levar ao público as ideias do grupo. Ele reconheceu que a princípio foi a dificuldade de se editar os trabalhos. depois que se chegou à conclusão queos muros são melhores que os livros, porque o livro fica limitado a poucas centenas de leitores”. Marcos Luedy ( recebeu prêmios literários na área de contos em Ilhéus e Itabuna, onde tem sua formação cultural) na pichação dos muros a forma mais prática de criação, embora observe que o expediente não é novo, masque tem um caráter, agora de cada vez maior renovação e ganho de força


Os principais pontos de pichação em Salvador estavam localizados no Politeama, Garcia, na Escola de Comunicação da UFBa, Escola de Música, São Lázaro e nas escolas de Arquitetura e Politécnica, justamente onde a massa estudantilque se identificava com o movimentoera maior. Os grupos se solidarizaram nos manifestos, embora houvesse respostas quando as mensagens desagradavam. O grupo Mancha pelas pichações tinha jeito de ser formado por narcisistas. Suas criações falavam coisas comoO Mancha está em todas”. Sua tirada máxima aconteceu no muro da empresa de publicidade Divisão/Engenho, onde escreveuO Mancha gosta de propaganda”. Jaciara era outro grupo em ação que preferia os poemas ao invés de recados diretos: “Jaciara é uma menina pirracenta”.


Sombra da Noite era um grupo menos conhecido e se preocupava sempre em falar de coisas românticas, numa linha diferente dos outros. Numa das frases o grupo colocava no muro: “Nunca amar sem amor” (parte de um poema de Thiago de Mello). o grupo Poemus pichava: “Pintar a boca do mundo com o batom da palavra”. As pichações apareceram da Cidade Baixa até Itapuã.

Outro grafiteiro que marcou a cidade foi Joelino Ferreira de Araújo Filho que, aos 32 anos (em 1988), engajado politicamente, provocava certas discussões dentro dos partidos radicais e se definia como um ser anárquico, que fazia arte e pichava visando um público específico - “as pessoas inteligentes”. Joelino é o tipo de pessoa que demais e tem a língua solta, sem papes nem sombras, por isso mesmo se inspirou nele mesmo para fazer seu personagem. Painéis imensos de seis metros de altura por 40 de cumprimento na Ladeira da Barra que começou as pichações do personagem Joelino: “Joelino foi atropelado”, e estava ele esquartejado, com a cabeça para um lado, perna para o outro, tudo espalhado. O pensamento era criticar a segurança nas ruas que não é respeitada por ninguém e nem mesmo pela própria segurança do estado que não conseguia evitar que cenas como apareceram nos cartazes aconteçam diariamente nas cidades.


Mais cenas urbanas foram levantadas. Uma delas apareceu no Campo Santo: “Joelino serviços funeráriosNos providenciamos o defunto”, dizia o cartaz com tudo o que tem direito ao clima tenebroso criado pelos papa-defuntos, sempre de plantão nos pronto-socorros na tentativa de conquistar mais um cliente. Ao todo foram uns 300 cartazes com outras 300 ideias diferentes. O Joelino atropelado marcou. Mas na realidade, Joelino foi atropelado como artista. O artista desenvolveu um trabalho alternativo e gratuito no Teatro Castro Alves, em troca da utilização de um espaço deles. Expulso pelo TCA, Joelino acabou indo para a Secretaria de Cultura de Camaçari a convite do então prefeito Luiz Caetano a desenvolver um trabalho de arte na cidade. Em Camaçari teve problemas com o então secretário de Cultura do município, José Carlos Capinam e deixou a localidade com o desabafo: “Eu não quero ser mentor de nada, minha terapia é extravasar essas coisas que sinto, que vejo, através de uma marca que é Joelino”. Por essas e outras ele saiu das galerias e caiu nas ruas e até que haja muro Joelino permaneceu a postos com ideias e uma lata de piche na mão.

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1 Comentários:

At 1:41 PM, Blogger Sörg said...

Oi Gutemberg, venho com pesar lhe informar o falecimento de Joelino e gostaria de saber se você tem fotos, fontes e referências sobre ele para que eu possa terminar meu artigo sobre Joelino na Wikipedia. Desde ja agradeço.

 

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