01 agosto 2016

Cinema explícito (01)



A proposta é desnudar certa obscuridade do olhar. Fazer um panorama reflexivo sobre como o cinema incorporou, refletiu e construiu imagens e discursos sobre o sexo, seja de modo explícito, velado ou censurado. A obra Cinema Explícito do sociólogo Rodrigo Gerace tem ponto de partida no questionamento do status moral que dá corpo aos critérios flexíveis de obscenidade, que, em diferentes épocas, modelam representações como sendo pornográficas, artísticas, eróticas, obscenas, realistas etc. “ É o olhar que toma uma obra obscena, e não a obra em si. Dito de outra maneira, tudo gira ao redor daquilo que se vê – ou se quer ver – e não daquilo que se mostra” como revelou os pesquisadores de cinema Ramon Freixas e Joan Bassa. Assim, as categorizações em torno das imagens sexuais estão aliadas a efeitos morais (cambiáveis por censuras, tabus e rótulos sociais), estéticas (pela estilização e percepção visual de acordo com o status das artes) e ideológico (pelos padrões em torno da imagem do sexo e do corpo).

Da pornografia silenciosa às vanguardas, do underground às pornochanchadas, de Luis Buñuel a Pedro Almodóvar, de Andy Warhol a John Waters, de Pier Paolo Pasolini as Lars von Trier, de Jean Cocteau a Kenneth Ager, de Nagisa Oshima a Catherine Breillat, de Bruce LaBruce às pornografias alternativas, como os cineastas abordam o sexo para além da elipse narrativa que o sublime para o cerne do café da manhã no dia seguinte?

Cinema Explícito: Representações Cinematográficas do Sexo é publicado pela Edições Sesc e
originalmente foi a tese de doutorado de Gerace, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A pesquisa segue o interesse dos seus projetos acadêmicos anteriores: o mestrado em Artes Visuais, pela UFMG, “O Cinema de Lars von Trier: Dogmatismo e Subversão”, e o trabalho de graduação em Ciências Sociais, “Cinema e subversão: o épico em Dogville, de Lars von Trier”, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele também foi o curador da mostra CinePrivê — O Erotismo no Cinema, em São Paulo.
 
Em uma de suas entrevistas, o autor revela:

Embora etimologicamente distintos, erotismo e pornografia estão juntos e versam sobre prazeres e obscenidades. Ocorre que a indústria cinematográfica potencializou esta suposta distinção, principalmente após os anos de 1960, numa tentativa de apresentar e regulamentar para o público aquilo tido como soft ou hardcore. Mas são critérios subjetivos, morais. O esforço em tentar delimitar a configuração visual do sexo em erótica ou pornográfica também é o desejo de limitar a expressão sexual, categorizá-la falsamente em polos.

Essa classificação, se o sexo é isto ou aquilo, revela uma “luta simbólica” pela legitimidade das representações e das práticas sexuais, luta na qual se envolve a aceitação ou a transgressão por meio da distinção social e artística. No senso comum, a pornografia não é apenas o sexo explícito, mas o sexo dos outros, o popular, o massificado; enquanto o erotismo é tido como algo sofisticado, elitista, não ameaçador.

O cinema mainstream normatiza a forma de se fazer sexo, representando-o de modo chapado, numa lógica que sublima cenas de sexo, cortando-as para o café da manhã

Além disso, ao classificar algo como “pornográfico”, é preciso notar que não há nada que seja pornográfico em si mesmo, ou seja, não existe pornografia como algo dado, conforme lembrou Susan Sontag. A noção de pornografia é cultural, tem fundamento na perspectiva histórica da obscenidade. Seu significado esbarra nas categorias de representação e regulamentação construídas pelo poder biopolítico na modernidade. E vale ressaltar que não há somente um tipo de produção pornográfica. Existem diversas pornografias, da mais tradicional às mais ousadas, expandidas, queer, que redimensionam o formato mainstream das convenções cinematográficas sobre o sexo.

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