02 agosto 2016

Cinema explícito (02)




Dividido em sete capítulos, o livro é iniciado por apreciações minuciosas sobre as facetas e interseções entre erotismo, obscenidade e pornografia. Entre os autores observados, Gerace cita os pesquisadores de cinema Ramon Freixas e Joan Bassa: "É o olhar que torna um obra obscena, e não a obra em si mesma. Dito de outra maneira, tudo gira em torno daquilo que se vê - ou se quer ver - e não daquilo que se mostra".


A linhagem apresentada por Gerace é acompanhada de uma análise crítica de filmes que embaralharam temas tabus, da política ao erotismo e suas metáforas, provocando as obscenidades das épocas em dos efeitos estéticos e ideológicos. Do "implícito" ao "explícito", o sexo configurou-se como um assunto muitas vezes distante do debate cinematográfico. Não estando na ordem do dia, historicamente, as lentes eróticas sofreram com as retaliações, censuras e boicotes. Casos que ainda constam na contemporaneidade.
 
Gerace viu mais de mil filmes antes de responder a questões como essa. Correu a Europa atrás de museus, viu obras que raramente circulam no circuito, pesquisou acervos de colecionadores particulares e, principalmente, leu muito Foucault antes de concluir, como ele, que a modernidade burguesa é marcada pela regulamentação da sexualidade. Reprimir e normatizar o sexo sempre foram os principais exercícios do poder. Contra ele, ensaístas como Susan Sontag se insurgiram. Eles partiram em defesa de obras consideradas obscenas como Flaming Creatures (Criaturas Flamejantes, 1963), que, ao estrear, provocou barulho pela multidão de travestis e hermafroditas que circulava pelo média-metragem, saudado por Sontag, num ensaio de 1966, como uma “rara obra de arte moderna sobre alegria e inocência”.

Outra pioneira no estudo da pornografia, Lynn Hunt, é igualmente uma referência de Gerace, que analisa em seu livro tanto os filmes que provocaram escândalo na época de seu lançamento – Último Tango em Paris (1972), de Bertolucci – como os primeiros filmes mudos eróticos, chegando ao século 21 – O Pornógrafo (2001), de Bertrand Bonello, e 29 Palmos (2003) de Bruno Dumont.


“Lynn Hunt foi pioneira, ao refletir sobre o orgasmo feminino como epicentro dramático de Garganta Profunda, o filme de Gerard Damiano”, lembra. Classificado de pornográfico ao ser lançado, em 1973, por causa das cenas de sexo oral de Linda Lovelace, poucos foram os ensaístas que viram no filme um manifesto feminista. André Bazin, o respeitado teórico francês, dizia que uma imagem intensa – seja de sexo ou de morte, o que vem a dar no mesmo – traz uma obscenidade intrínseca. Para ele, o ato
sexual nunca seria interpretado de forma realista. Nagisa Oshima teria de matar para valer o homem de O Império dos Sentidos para atingir essa dimensão explícita.

Quando O Império dos Sentidos foi lançado, em 1976, a fronteira simbólica do pornográfico e do erótico já era quase imperceptível. O diretor japonês Nagisa Oshima diminuiu ainda mais essa distância ao filmar um caso real, acontecido em 1936, o de uma prostituta que castra o amante e o estrangula até a morte. O cineasta, nota Gerace, fetichiza o falo (como o fazia a prostituta real) em longas tomadas do pênis, até sua total impotência. “A recontextualização do obsceno no filme é elencada por meio de imagens do ato sexual explícito, ou seja, por meio da inserção do pornográfico em meio ao contexto amoroso”, observa o autor, para o qual não existe distinção entre imagem erótica e pornográfica.

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