28 abril 2011

30 anos sem Glauber: O homem é mais forte que a morte (04)

Ele era capaz das mais apaixonadas adesões e das mais enfáticas críticas a amigos e inimigos.

Fazia filmes ao mesmo tempo reflexivos, políticos e formalmente inovadores.

Dava declarações sinceras sobre tudo, sem a preocupação de agradar a ninguém, a não ser à sua integridade intelectual.

Era um sujeito anacrônico.

Para ele, era preciso, urgente,desenvolver o conhecimento da cultura brasileira, vasculhar as raízes, revolver o passado, por mais trabalho que desse.


Num 22 de agosto, há 30 anos, ele morria sem ter completado sua obra, mas deixando atrás de si uma marca profunda de sua viagem pelo horizonte social do País.

“Meu filme – dizia o diretor – é um touro miúra que não se acredita na banheira rubra do toureiro. Miúra, na gíria do cinema nacional, é aquele tipo de filme que pega o espectador pelas orelhas e o encara no olho. Obriga a saber que está vendo, ouvindo e sacando um filme: o miúra não dá tréguas e no final parte da plateia está por terra, outra exaltada, outra vomitada”


Em janeiro de 1971, Glauber viaja para Nova York e inicia um exílio de cinco anos, enquanto a repressão política recrudesce no país. Em 1972 concluiu “Câncer”, um 16mm começado em 1968 no Brasil. Em 1974 o inacabado “Brasil 68” e “História do Brasil”, documentário feito na Itália. Entre 1971 e 74 realiza os super 8 “Leiticia”, “Mossa no Marrocos”, “Super Paloma” e “Viagem com Juliet Berto”. Seu derradeiro trabalho na longa-metragem é “A Idade da Terra” (1978), alegoria de múltiplas interpretações que segundo ele, completaria a trilogia iniciada em “Deus e o Diabo”, e prosseguida em “Terra em Transe”, sintetizando os dois primeiros.


“A Idade da Terra” é filmado em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro. Na Bahia, as filmagens despertam polêmicas e sofrem interdições. Segundo o diretor, este épico do Terceiro Mundo mostra um Cristo-Pescador, o Cristo interpretado pelo Jece Valadão; um Cristo-Negro, interpretado por Antônio Pitanga; mostra o Cristo que é o conquistador português, Dom Sebastião, interpretado por Tarcísio Meira; e mostra o Cristo Guerreiro-Ogum de Lampião, interpretado pelo Geraldo Del Rey. Quer dizer, os quatro Cavaleiros do Apocalipse que ressuscitam o Cristo no Terceiro Mundo, recontando o mito através dos quatro Evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João, cuja identidade é revelada no filme quase como se fosse um Terceiro Testamento. E o filme assume um tom profético, realmente bíblico e religioso.

São dele ainda o polêmico curta “Di Cavalcanti” e o ficção “Claro”, feito na Itália em 1975.


TER CORAGEM

Além de cineasta, Glauber Rochas escreveu o romance “Riverão Sussuarana” e dois livros sobre cinema: “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro” e “Revolução do Cinema Novo”. Deixa inacabadas duas obras literárias, uma sobre o cinema estrangeiro chamada “O Século do Cinema”, e um romance inspirado na figura do falecido Presidente João Goulart, “Jango”.


“Arte – disse certa vez – só existe quando não há repressão. Mas aqui não se trata só da repressão das leis, dos códigos, da força: há também a repressão interna, o código interno. Escrever um verso é escrever a primeira coisa que vem à cabeça, a primeira loucura, o primeiro desbunde, a primeira imagem. Eu poderia até dizer que arte não tem relação direta com talento, mas sim com coragem. É preciso ter coragem para admirar uma subjetividade caótica, cósmica. Isso não quer dizer que tudo o que for liberado será belo, há uma variação, uma escala. Todo homem tem possibilidade de fazer arte, de liberar arte”.

AMBIGUIDADE


Artista de esquerda por muitos anos, mas simpatizante recente (na época) do PDS. Nem lógica., nem cartesianismo em Glauber Rocha, somente a ambiguidade e a metáfora: “Contesto a objetividade porque ela é um produto da racionalidade, que nego estruturalmente. Sou metafórico e barroco e assumo isso. A metáfora é a linguagem da poesia, o nível mais profundo da linguagem. E o barroquismo é a incorporação do sexo à vida. O que existe é um reacionarismo linguístico por parte das pessoas. Estão todos condicionados a ouvir o que querem ou o que devem ouvir e eu estou disposto a dizer o que penso, mesmo que erre”. Certo ou errado, em sua volta ao Brasil – ficou quase seis anos no exterior – Glauber Rocha foio incômodo, delirante e polêmico: “Eu vim para confundir”.


A morte da irmã Anecy, em Botafogo, levou-o a antever a sua própria morte: “Eu e minha irmã não nos vendemos à corrupção da TV, mantivemos as nossas posições políticas e ideológicas fora das posições dominantes. Anecy era uma mulher livre e digna, que se recusava a fazer novela. Estão dizendo que estou louco, pelo fato de não poderem compreender a minha dor. Eu tenho um cadáver dentro de casa e o próximo será o meu”. Mais do que dos pulmões, Glauber morreu de de desgosto, envolvido na luta cinematográfica ou, mais do que isso, cultural.

Ainda na capital baiana foi inaugurado no dia 16 de dezembro de 2008 o Espaço Unibanco de Cinema - Glauber Rocha, ex-cine Guarany e ex-cine Glauber Rocha, localizado na Praça Castro Alves. Foi um passo importante na revitalização do centro de Salvador. O novo espaço conta com quatro modernas salas de cinema, com 630 lugares ao todo, uma livraria, um restaurante e um café. A decoração do amplo espaço homenageia o cineasta baiano com painéis de cenas de filmes como “Terra em Transe” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.


Filmografia

Longa-metragens


1961 Barravento

1964 Deus e o Diabo na Terra do Sol

1967 Terra em Transe

1968 O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (o título internacional é Antonio das Mortes)

1970 Cabeças Cortadas

1971 O Leão de Sete Cabeças

1972 Câncer

1974 – História do Brazyl

1975 Claro

1975 – As Armas e o Povo

1978 A Idade da Terra

Documentários e curta-metragens

1959 - O Pátio

1966 – Amazonas, Amazonas

1966 - Maranhão 66 B

1974 - As Armas e o Povo C

1976 - Di Glauber

1977 - Jorgamado no Cinema





Ao Glauber, uma rocha


Ele não fugia do verso exaltado

nem desfazia o ritmo acelerado

dissolvia tintas fortes, cores soltas

para encher a boca de pedras

e a oração na língua pétalas

que deixava na entrelinhas a fresta.


O enigma do ser humano lhe consumia inteiro

multiplos bardos não lhe dissolvia seu eu

reluzindo espada ativa deixava lira à deriva

mas seus sonhos prolongava suas angústias

e nos desejos, escritos, filmava o infinito.


Eram ousados lances com a seta

que por vezes estava longe da meta

mas nada desanima o eficiente guerreiro

que defendeu a sociedade nos seus versos de poeta.


E o sol castigava a terra, barravento

como câncer, terra em transe

cabeças cortadas de um dragão da maldade

ninguém jamais narrou seu país

com a imagem de um leão das sete cabeças

tinha o verso certeiro à margem dos sábios

mostra sua linguagem de versos barrocos

que pertence à linhagem solta o seu verso alado.


Hoje validaram a imagem, aceitaram sua linguagem

Deus e o Diabo na Terra do Sol

sem medo de choque frontal

mas o verso em sentido inverso

insinuante, claro, o fato, forjado no cerne

o verso passeando feito musa, naquela angústia

e o verbo correndo solto feito criança em desavoroço.


Para muitos o que ele fazia não tinha pé nem cabeça

mas o texto imagem vai deitando e rolando

sem tronco nem membros vai levando

sem nexo nem sexo vai pagando os pecados

buscando sempre o xis da questão.

Escondido êxito aberta exaltação

É Glauber, É Glauber, aquele leão!


(Gutemberg Cruz, dezembro de 2010)


Glauber tinha uma lista de projetos. Pretendia filmar Eça de Queiroz, trabalhava num roteiro sobre o império napoleônico, planejava estudar o estilo manuelino e sonhava até em preparar uma “revolução atlântica”, o que significava, pelos códigos da utopia glauberiana, “abrir as raízes transestéticas de um novo mundo”, ou seja: ele, que levava a vida juntando política e estética, propunha agora separar as duas. Queria sobretudo mergulhar em suas fontes lusitanas. Glauber amava o poeta Fernando Pessoa, o autor de “Mensagem” que ele adotara como lema o verso “louco, sim, louco porque quis grandeza” em homenagem a D.Sebastião que Glauber cultuava. Sebastião foi um ser delirante, misógeno, piedoso e ousado.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

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