27 abril 2011

30 anos sem Glauber: O homem é mais forte que a morte (03)

Ele era capaz das mais apaixonadas adesões e das mais enfáticas críticas a amigos e inimigos.

Fazia filmes ao mesmo tempo reflexivos, políticos e formalmente inovadores.

Dava declarações sinceras sobre tudo, sem a preocupação de agradar a ninguém, a não ser à sua integridade intelectual.

Era um sujeito anacrônico.

Para ele, era preciso, urgente,desenvolver o conhecimento da cultura brasileira, vasculhar as raízes, revolver o passado, por mais trabalho que desse.


Num 22 de agosto, há 30 anos, ele morria sem ter completado sua obra, mas deixando atrás de si uma marca profunda de sua viagem pelo horizonte social do País.


Em 1966, Glauber filma o documentário “Maranhão 66”, sobre a posse do governador José Sarney. O filme é construído como um verdadeiro desafio às promessas eleitorais demagógicas: enquanto o político se compromete solenemente a acabar com as misérias da região, elas são simplesmente mostradas, com uma terrível crueza, em imagens documentais.


1967 é o ano de “Terra em Transe” que procura retratar as contradições de uma sociedade que quer se transformar mas ainda está presa politicamente ao passado. A história da fictícia República de Eldorado, país imaginário da América Latina, onde o poeta e intelectual burguês Paulo Martins tenta mudar a situação de miséria e injustiça que assola o país. O filme é proibido em todo o território nacional, mas liberado e no dia 8 de maio de 1967 é lançado no Rio de Janeiro, com sucesso razoável de público.


No Festival Internacional do Filme de Locarno, “Terra em Transe” recebe o Grande Prêmio e o Prêmio da Crítica. Em Havana, é considerado pela crítica cubana o melhor filme do ano. No Rio, recebe do Museu da Imagem e do Som o Prêmio Golfinho de Ouro de Melhor Filme. No Festival de Cinema de Juiz de Fora ganha quatro prêmios: Melhor Filme, Menção Honrosa de Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante para Modesto de Sousa, Prêmio Especial para Luís Carlos Barreto, pela fotografia e produção do filme. No mesmo ano, Glauber participa como co-roteirista de “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman. Escreve os textos emblemáticos: "A Revolução é uma Eztetyka"; "Teoria e prática do cinema latino-americano"; "Revolução Cinematográfica e Tricontinental" (inspirado na Conferência Tricontinental em Havana).


CINEMA MARGINAL

Em agosto de 1968, Glauber realiza em 16 mm, preto-e-branco, “Câncer”. Rodado em quatro dias, o filme foi feito com alto grau de improvisação, onde o diretor experimenta algumas técnicas que iria utilizar posteriormente. É a experiência de Glauber na direção da estética e da forma de produção do Cinema Marginal. O filme aborda temas caros ao universo da contracultura, como drogas, questões raciais e sexualidade.


Em seguida, Glauber filma, com Affonso Beato na fotografia, o documentário “1968”. Sem montagem final, o filme registra, no calor da hora, as manifestações estudantis no Rio de Janeiro. No mesmo ano, ele realiza “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, rodado em Milagres, na Bahia. Glauber ganhou a Palma de Ouro de melhor direção no 22º Festival de Cannes em 1969. O filme foi lançado no Brasil no dia 9 de junho de 1969, tornando-se o maior sucesso de público do diretor. Foi visto por um milhão e meio de espectadores brasileiros.


Nova aventura de Antônio das Mortes (nome pelo qual o filme é conhecido internacionalmente), o matador de cangaceiros contratado por um latifundiário para combater grupo de cangaceiros e beatos cujos líderes dizem ser a reincarnação de Lampião e Zumbi. A partir desta fila ele se torna o símbolo do sucesso do cinema brasileiro no exterior, e é convidado para realizar um filme italiano. Assim, filma na África (Quênia), “O Leão de Sete Cabeças”, uma produção ítalo-francesa, produzida pelo francês Claude Antoine, e protagonizada por Jean-Pierre Léaud, conhecido ator da Nouvelle Vague francesa. E no mesmo ano (1970) roda na Espanha, “Cabeças Cortad

as”, proibido aqui no Brasil durante seis anos, onde procura analisar o colonialismo no Terceiro Mundo. Segundo Glauber, "é um filme contra as ditaduras, é o funeral das ditaduras. Trato de um perso

nagem que seria o encontro apocalíptico de Perón com Franco, nas ruínas da civilização latino-americana. Filmei nas pedras de Cadaqués, onde Buñuel filmou L'Age d'Or. A Espanha é a Bahia da Europa. Cabezas Cortadas desmonta todos os esquemas dramáticos do teatro e do cinema. O cinema do futuro será som, luz, delírio, aquela linha interrompida desde L'Age d'Or."

Intuitivo, acreditando mais na catarse que na racionalidade, Glauber disse que não faz planos quando vai rodar um filme: “Não acredito em cinema planificado, porque não se pode fazer planos para uma obra de arte. Acho que um diretor não pode se limitar a rodar um filme restringindo-se ao que marca o roteiro, esquecendo-o depois que as cenas foram tomadas e deixando que outros o montem e ponham a trilha sonora. Um diretor que trabalha assim é apenas o chefe-executivo da produção, realiza uma função técnica e mais nada”.

Poemas de Glauber Rocha


Desejo

Queria você

profundamenteaberta

Num beijapaixonado

Sem memória

E futuro


Queria

O prazer desintegrado

no infintamor

De nossos corpos

Desconhecidos.


Queria um rio negro

Outro branco

Contando Vytoria

De uma tragycomedia morta.


Queria o marasmo

De tua pele viva

E a poesia da madrugada

(Los Angeles, março 1976)


1922


Meu povo é triste

de pau perado

é um povo mole alegre

do zés perado


Meu povo é doce

malandro sensual

é um povo gostoso

Dançarino musical


Meu povo é mestiço

linguarudo fofoqueiro

é um povo inteligente

ignorante e condoreiro


Meu povo é grande

no litoral e sertão

é um povo ah meu povo

é um povo revolução.

(Havana, Cuba, 1972)

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