22 outubro 2015

Bela e infiel Carmen



Há 140 anos surgia Carmen, uma ópera em quatro atos do compositor francês Georges Bizet, com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, baseado na novela homônima de Prosper Mérimée. Estreou em 1875, no Opéra-Comique de Paris. O caráter transgressor da protagonista provocou severas críticas na estreia da ópera. Vamos saber porque.

As mulheres literárias encantaram gerações. Desde a sanguinária Lady Macbeth, a insatisfeita Emma Bovary, a alegre zíngara Esmeralda, a apaixonada Anna Karenina ou a ambígua Capitu. Todas elas não conseguiram superar o magnetismo enigmático e erótico de Carmen, a bela, sedutora e infiel cigana, do escritor francês Prosper Mérimée.

Das páginas do romance ela saltou para a ópera, o balé flamenco, as artes plásticas, a poesia e mais de meia centena de adaptações cinematográficas. 

A beleza selvagem da cigana andaluza inspirou atrizes, divas eruditas e bailarinas lendárias como Pola Negri, Dolores del Rio, Rita Hayworth, Sarita Montiel, Viviane Romance, Dorothy Dandridge, Maria Callas, Teresa Berganza, Victoria de los Ángeles, Alicia Alonso e Maia Plisetskaya.

Símbolo da mulher indomável e possuidora de espírito rebelde e valente, que cultua a liberdade pessoal em uma sociedade em que o dinheiro e posição social parecem ser as únicas coisas importantes, Carmen representa o mito da mulher fatal por excelência.

E foi imortalizada no cinema pela atriz Rita Hayworth, do húngaro Charles Vidor. 

A cigana Carmen seduz um soldado e faz com que ele, após ter sido expulso do exército, se torne um fugitivo. Amor passional e assassinato logo entram em jogo.

Teve também a Carmen terrorista criada pelo francês Jean Luc Godard. Carmen X (Maruschka Detmers) é membro de um grupo terrorista. 
 
Ela pede a chave da casa de praia de seu tio Jean, um diretor de cinema esquecido, com a desculpa de estar indo fazer um filme com seus amigos quando, na verdade, eles pretendem organizar um assalto a banco. 

Entretanto, Carmen se apaixona pelo segurança do banco ainda durante a fase de planejamento da ação. 

Enquanto Carmen tenta fugir com o segurança, seu tio planeja realizar um filme de retorno e um quarteto de cordas se concentra para executar peças de Beethoven. Inspirado na ópera de Bizet, Carmen.

A mais espanhola de todas as Carmens é a do filme de Carlos Saura. A ação se passa num tablado flamenco no qual o bailarino e coreógrafo Antonio Gades é arrebatado pela bailarina 

Carmen, interpretada por Laura Del Sol. A história desenvolve-se durante os ensaios do espetáculo, tendo como pano de fundo a Espanha dos anos 80, cheia de emoções e conflitos sociais. 

A jovem dançarina Carmen disputa o papel principal - a personagem Carmen. Durante os ensaios, o coreógrafo se apaixona por ela e começa a agir de forma obcecada, como seu personagem. 

Os acontecimentos da peça, com amor, ciúme, ódio e tragédia, vão transformando-se em realidade nas vidas dos artistas.

Há também uma bonita versão dirigida por Francesco Rosi, com Plácido Domingo e Julia Migenes-Johnson nos papéis principais. 

O filme tem um colorido impressionista e cenas espetaculares de touradas. A mezzo-soprano Migenes-Johnson é uma ótima atriz, ela dá um sabor latino ao papel, esbanja sedução e vai além dos limites de uma encenação operística, aproveitando os recursos cinematográficos.

A negra do diretor Mark Dornford May transporta para a periferia da Africa do Sul. A versão do diretor Dornford-May combina músicas da ópera original com arranjos de música tradicional Africana. 

U-Carmen foi traduzida para Xhosa por Andiswa Kedama e Pauline Malefane, que no filme representam Amanda e Carmen respectivamente. Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2005.

Popular

Carmen é bem popular, causou polêmica já na sua estreia na noite de 3 de março de 1875, onde a plateia presente à Opéra-Comique de Paris saiu chocada ao se deparar com uma cigana intempestuosa, capaz até de derrubar a disciplina militar. As criticas diziam que a obra era imoral e superficial.


O grande lema dessa mulher de temperamento difícil de controlar, mas portadora de muitos dos sonhos e fantasias do universo masculino. Carmen trabalha numa fabrica de cigarros e os homens ficam enlouquecidos. Ela faz amor, mas não se enamora, ela enlouquece, mas não se apaixona, brinca com os sentimentos dos homens, deixando eles desvairados.

Ela é uma mulher liberada que faz suas regras, bem ao gosto e ao jeito de sobreviver cigano. Essa amante ora feliz, ora obsessiva é ao mesmo tempo, triste e voraz. E essa intensidade de viver, parece atualizar a imagem de Carmen perante o público que ainda se divide diante da sua firmeza por liberdade. Carmen pode ser a mulher devassa, tirana e envolvente que perturbou e destruiu a vida de um soldado decente e promissor. Ou, também estar no outro extremo desta imagem, como ícone da liberdade feminina que não abriu mão (ao menos...), do desejo de ser dona do seu próprio destino! Tornou-se então, maldita na vida dos homens.

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