25 fevereiro 2013

Etsedron, o avesso da condição nordestina

Na década de 1970 surgia a Arte Ambiental (Land Art) onde os objetos de arte estavam integrado essencialmente a vida cotidiana. No Brasil, nomes como Frans Krajcber e o Grupo Etsedron se pautaram por intervenções nas paisagens. O Projeto Etsedron - nordeste escrito de trás para a frente - agregava artes plásticas, música, dança, fotografia, literatura e cinema. Edson da Luz, seu idealizador, trabalhando em colaboração com vários outros artistas, escritores e intelectuais - entre eles Marcio Meirelles, Matilde Matos, Lia Robato, Clyde Morgan e Almandrade - buscava produzir obras que, integrando-se à natureza e à realidade social do povo brasileiro, estimulassem os vínculos entre arte e vida.

O projeto provocou polêmica no meio artístico, elogiado por uns e criticado por muitos. Apesar disso, um de seus projetos chegou a receber o maior prêmio da Bienal Nacional de São Paulo de 1973. O grupo buscava a legitimação da identidade cultural sertaneja, que acreditava menosprezada pelo circuito oficial de arte, submisso aos modelos europeu e norte-americano. Afastava-se da folclorização, ainda que, para isso, mergulhasse profundamente nas especificidades do ambiente regional.

E antes que conceitos como globalização entrassem em voga, o grupo já lidava com a dicotomia global-local, propondo interações que resultaram em imagens sociais pertinentes ao nosso contexto social, contrapondo-se às soluções estéticas importadas e desconectadas da realidade brasileira, que eram e são predominantes.

Suas obras ou projetos ambientais eram concebidos durante o convívio com as comunidades, através do qual rompia-se a barreira que separa a arte da vida, ao mesmo tempo, desmistificando a “obra de arte” como bem de consumo para uma elite burguesa. O grupo retratava, nos moldes de um Guimarães Rosa, um Brasil sertanejo, pobre e agreste, distante da imagem litorânea, paradisíaca e estereotipada. O resultado de tal empreitada era a criação de figuras orgânicas antropomórficas compostas por cipós, palhas, couro, cabaças, sementes, buchas, raízes e outros elementos naturais oriundos do local escolhido. Tudo era feito coletivamente e apresentado em ambientações acompanhadas por música e dança.

Esses projetos provocaram enorme repercussão à época, participando de Bienais em São Paulo e confrontando museus e autoridades que compunham o circuito oficial de arte. O grupo acabou pagando caro por sua atitude provocativa: depois de dez anos de atividade, acabou dissolvendo-se melancolicamente por falta de apoio.

No dia 14 de fevereiro de 1979 o Correio da Bahia publicou em sua capa do Caderno de Cultura (na época era editor desse caderno): “Denúncia: deterioração do Etsedron no MAMB”, onde o artista baiano Edson da Luz contava as dificuldades e lutas que enfrentou e enfrenta para continuar existindo. Ele denunciava os artistas que faziam arte por diletantismo e que viajavam para a Europa só para trazer estilos e ideias importadas.

o início o grupo ficou conhecido pelo lançamento do Espantalho (1971), denuncia do nosso comportamento alienado e da falta de caráter do brasileiro. O material era todo o lixo do Complexo Industrial de Camaçari. Depois começou a burilar o cipó e não parou mais. Foi exibido em várias cidades, mas a Bahia continuava fechando as portas para esse movimento. Na época uma série de reportagens foi publicada pelo Correio reforçando a força do movimento artístico.

O foco principal era mostrar o Nordeste rural, ao interior, seguir pela contra mão da cultura oficial. Como proposta inicial de ruptura e confronto, partiram para uma crítica à sociedade de consumo e, por extensão, à própria Pop Art, a corrente estética então no auge, que percebiam como difusora de signos da cultura de massa e em particular da cultura norte-americana.

Formado inicialmente por alunos do curso regular e dos cursos livres da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, o Etsedron teve ao longo de sua trajetória inúmeros integrantes e simpatizantes que orbitavam em torno de um núcleo central encabeçado pelo artista plástico Edison da Luz, onde também figuravam nomes como Matilde Matos, Palmiro Cruz, Chico Diabo, Joel Estácio, entre outros.

(...) é preciso parar. Parar e pensar. Mudar e construir. Construir mergulhando – com sinceridade e sem demagogia ou falso ufanismo – na nossa realidade cultural. Nos nossos problemas pessoais, políticos, econômicos. No nosso folclore tão odiado; incompreendido, desconhecido e mal amado. É preciso esquecer o fascínio. O delírio também. É preciso ter a coragem da humildade e ver o que somos. A arte brasileira só será respeitada e admirada lá fora e por nós mesmos quando ela for uma extensão natural do que somos. Caso contrário, ainda vão continuar sorrindo de nossos trabalhos, de nosso número sempre maior de artistas expondo o arremedo (subproduto) da arte do mundo” (KRÜSE, Olney. XIII Bienal Internacional de São Paulo, 1975. p. 56. Catálogo de exposição).

O Etsedron fazendo jus à sua proposta inicial de ir até o “avesso” da condição nordestina, não apenas tangenciou os melindres acadêmicos e artísticos, assim como também colocou em xeque a percepção oficial que o Brasil tinha de si mesmo, provocando celeumas nas Bienais paulistas, principais cenários das artes plásticas no país.

O Etsedron deve ser compreendido enquanto um fenômeno coletivo e geracional. Partilhava de uma atitude rebelde encontrada também em outros grupos de jovens artistas da época que viram na série de correntes que emergiram no pós-guerra – happening, conceitualismo, land art, optical art, performance, entre outras – questões como autoria, unidade, originalidade e autenticidade da obra de arte serem problematizadas assim como todas as regras da sociedade. Operando na mesma frequência que o Etsedron, tivemos na Alemanha o grupo Fluxus, na França, os Situacionistas, que elevaram o tom político a ponto de influir na revolta estudantil de maio de 1968. Na Holanda, o Movimento PROVOS (abreviatura de provocador) e na Itália, a Arte Povera. Hoje, quatro décadas depois, obras como as desenvolvidas pelo Etsedron continuam em foco, lutando cada vez mais para sair da invisibilidade social que a cultura oficial dita regras.

No dia 26 de novembro de 2012 o brilhante jornalista Chico Castro Jr publicou na capa do Caderno 2 do jornal A Tarde uma reportagem “Outros tons de luz” sobre o artista visual Edson da Luz, do lendário movimento Etesedron. Para o jornalista, a Bahia “que nunca lidou bem com os filhos mais rebeldes (…) aversos a onipresente política do tapinha nas costas”. Edson é “praticamente desconhecido do grande público, permanece, aos 72 anos, como um dos segredos mais bem guardados de nossas artes visuiais'.

“A Bahia (…) é o trampolim do atraso”, declarou o artista que mesmo invisível em nossa sociedade, pretende criar ainda este ano o Instituto Etsedron. A ideia é importante para o nosso Estado, mas não espere nada das autoridades pois até hoje o Museu Glauber Rocha, o de Frans Krajcberg e muitos outros estão em outras cidades fora da Bahia. Afinal, a Bahia continua “eternamente imersa em sua auto ilusão de paraíso cordial”.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

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