21 janeiro 2021

Década do Oceano

 

Estamos na Década do Oceano. Começou agora em 2021 e vai até 2030, A proposta é da Organização das Nações Unidas (ONU) para que todos os países voltem atenção ao ecossistema marinho-costeiro para conscientizar a população global sobre a sua importância, assim como mobilizar atores públicos, privados e da sociedade civil organizada em ações que favoreçam a saúde e a sustentabilidade dos mares.

Diplomatas, ambientalistas e cientistas esperam que nos próximos dez anos a humanidade aumente o conhecimento sobre as águas que cobrem 70% do planeta e proteja melhor essa imensidão, que absorve um terço do gás carbônico produzido pela atividade humana, retém o aquecimento global e serve à subsistência direta de bilhões de pessoas.


O relatório mundial sobre a ciência oceânica descobriu que a ciência oceanica é responsável por 0,04 a 4% dos gastos em pesquisa do mundo todo; entretanto os estudos dos oceanos vem se tornado uma tendência já que o oceano gera bem estar para humanidade armazenando carbono, produzindo oxigênio, estabilizando o clima e fornecendo recursos alimentares, minerais, energéticos, recreativos e culturais, a década dos oceanos foi idealizada para podermos usufruir desses serviços de maneira consciente e sem prejudicar o maior ecossistema do planeta terra.

                                             

Os oceanos têm papel importante na história da Terra. Foi dentro dele que a vida começou. Serviram de principal via para expansão dos horizontes da humanidade com o advento das grandes navegações. Os oceanos são o envoltório líquido que encobre o planeta Terra em 71% da sua superfície. E todos os organismos vivos são constituídos na maior proporção em peso de água.

 



Por recobrirem a maior parte da superfície terrestre, absorvem, redistribuem para a atmosfera ou refletem de volta para o espaço a maior parte da radiação solar, energia recebida do Sol pela Terra. Dessa forma, são também os principais responsáveis, com a atmosfera, que é nosso envoltório gasoso, pelo controle do clima.

                                   

Mares e oceanos foram utilizados pelo homem desde o início da nossa civilização primeiro como fonte de alimentos pela pesca artesanal ou coleta de moluscos e algas, depois como fonte de matérias-primas como sal, bromo, magnésio, calcário e, principalmente, como meio de transporte. Hoje o oceano é uma grande fonte de matérias para a indústria der alimentos e farmacêutico.

 




Fonte da vida e da morte, cenário da história, o mar sempre foi objeto de guerras e disputas. A história das grandes armadas, quase sempre às voltas com grandes batalhas, é mais ou menos conhecida, envolvendo Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda. O mar ainda tem se oferecido à contemplação e à inspiração artística, o que resultou na produção de valiosos monumentos históricos. Dois bons exemplos para ilustrar: Camões imortalizou os feitos singulares dos lusíadas. Sangue no mar de Camões, sal de lágrimas no mar de Fernando Pessoa.

 

 

VIDA - Oceanos são grandes extensões de água salgada que ocupam as depressões da superfície terrestre. Eles são importantes para o planeta, neles se originou a vida. Os oceanos são os grandes produtores de oxigênio (as microalgas oceânicas), regulam a temperatura da Terra, interferem na dinâmica atmosférica, caracterizam tipos climáticos. Além disso, a maior parte da população mundial mora junto ao litoral.

 

São cinco oceanos: Antártico, Atlântico, Pacífico, Ártico e Índico. O oceano Atlântico é considerado o mais importante por ser usado para a navegação e comércio de produtos entre a Europa e a América, principalmente a do Norte. O Pacífico é o maior dos oceanos, com 175 milhões de quilômetros quadrados.

 

Grande conhecedor das coisas do mar, Jacques Cousteau preocupou-se com a sua transformação em esgoto universal. Navios, petroleiros e plataformas a partir das quais se perfuram poços de petróleo inundam os mares e oceanos com seus detritos. Baleeiros e caçadores exterminam exterminam aos poucos várias espécies de fauna marinha. As indústrias lançam ao mar resíduos contendo chumbo, mercúrio, cádmio e outros elementos nocivos à fauna e flora marinhas – e, também, aos banhistas. Inventos (pulmão aquático ou aqualung), cientista, oceanógrafo, cineasta (O Mundo em Silêncio, O Mundo sem Sol), Cousteau dedicou mais der 40 anos à pesquisa submarina.

 

ESGOTADOS - Ninguém ignora que os recursos minerais existentes na superfície da Terra estão quase esgotados. Os governos tenderam a ver o mar como a solução para a carência futura, tentando assenhorear-se das riquezas nele contidas: na massa líquida, no assoalho dos oceanos (manganês) e em seu substrato sólido (petróleo, gás, etc).

 

Um número crescente de países estende o limite de seu mar territorial até 200 milhas da costa. Outras nações, interessadas em continuar explorando as riquezas contidas nesta faixa, não reconhecem esses limites. O debate em torno do mar territorial de 200 milhas tem feito com que não se levem em conta os recursos contidos no “mar de ninguém” e as discussões travadas a seu propósito.

 

O esgotamento das reservas terrestres de petróleo, gás e outros minérios, junto com o crescente temor de que as atividades agrícolas não bastam para as futuras necessidades de alimento, tem levado cada governo a tomar medidas para a proteção de seu litoral. A questão é saber quanto podemos subtrair do mar sem prejuízo de estoques existentes.

 

Há milhares de anos a Chapada Diamantina era uma praia e parte da região ficava no fundo do mar. O mais interessante é que os diamantes surgiram da ação da água sobre as rochas. Hoje os solos são arenosos e pouco profundos, e há uma grande quantidade de nascentes de diversos rios, o que ajuda na formação de cachoeiras e quedas d´água.

 

Desde a Antiguidade o peixe constitui o principal recurso natural extraído dos oceanos. Mas os peixes se distribuem de uma forma desigual por eles. Nas áreas em que os nutrientes das plantas são abundantes e é possível a fotossíntese, os mares chegam a produzir, num ano, até 60 quilos de peixes por 100 metros quadrados. Já em outras regiões, os nutrientes de que as plantas necessitam localizam-se abaixo da zona em que existe luz na quantidade requerida para a fotossíntese. Aí, as possibilidades de vida marinha são quase nulas.

 

20 janeiro 2021

Gatos são livres como a imaginação (02)

A trupe de felinos não tem só sete vidas, eles se tornaram imortais.

 

E nos desenhos animados não se pode esquecer do Manda Chuva (da dupla William Hanna e Joseph Barbera), líder de uma turma que mora em um beco. Junto com seus amigos dá golpes para arranjar dinheiro e adora aprontar com o Guarda Belo.A turma estreou em 1961 com 30 episódios. Já Tom e Jerry brigam o tempo todo e o gato sempre leva a pior, mas insiste em perseguir Jerry, rápido e esperto que sempre consegue escapar. Tem o Frajola e sua vontade de eliminar o passarinho Piu Piu. Ambos moram na casa de uma simpática velhinha e o gato sempre se dá mal nas suas tentativas.

 


Ainda dos estúdios de Hanna Barbera surgiram Zé Bolha e o parceiro do rato Juca Bala. Quem lembra da turma da Gatolândia? E de Chuvisco sempre correndo atrás de Plic e Ploc?. E China, o fiel Ajudante de Hong Kong Fu?. Bu, o gato fantasma de O Fantasminha Legal. Ou mesmo do detetive Olho Vivo. E Bacamarte que não dava trégua a Chumbinho. E Jambo e Ruivão?

 


Dos estúdios Disney não dá para esquecer do Gato Risonho de Alice no País das Maravilhas, ou dos irmãos Si e Ão, de A Dama e o Vagabundo. Lembra-se de Fígaro, o gato de Gepeto em Pinóquio, ou mesmo Aristogatas. Não esquecer de Ron ron bagunçando a vida do atrapalhado Peninha...

 

Do Brasil temos um casal de gatos (ele branco e ela preta) que apronta muito na tira diária O Condomínio, do desenhista Laerte Coutinho. E Maurício de Sousa traz Mingau, tão faminto quanto sua dona Magali.

 


O gorducho e preguiçoso Garfield (criação de Jim Davis), todo mundo conhece. Ele adora lasanha, estraçalha o carteiro, acaba com as cortinas e ataca a geladeira do seu dono, Jon. Garfield detesta as segundas-feiras e gosta de mostrar o quanto os cachorros são bobos. Odie, o cão com que mora, é sua vítima preferida.

 


E o que dizer do libidinoso Fritz, the Cat, criação do papa dos quadrinhos underground, Robert Crumb a partir de 1965. Crumb foi um dos artífices do movimento de introdução do sexo, drogas e política nos quadrinhos, uma forma de contestação do american way of life. São muitos exemplos desses animais que estão nos sonhos de todos, viraram mitos. Mas não poderia esquecer de duas obras imprescindíveis em homenagear esses felinos. Os Olhos do Gato, de Moebius e Jodorowski, e Maus, de Art Spiegelman, esse último uma crítica ao nazismo.

19 janeiro 2021

Gatos são livres como a imaginação (01)

 

No Egito os gatos eram idolatrados. Na Idade Média não escapavam das fogueiras ao lado das “bruxas”. Em 1494, por ordem do papa Inocêncio III, foram ferozmente perseguidos e exterminados. Mas nos séculos 18 e 19, escritores protegiam os gatos, achavam que eram animais tão livres quanto a imaginação. Como os escritores daquele período eram protegidos dos nobres, esses passaram a gostar de gatos. E os felinos viraram símbolo de riqueza e inteligência. Entre os amigos dos gatos estão Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe, Lewis Carroll e T.S.Eliot.

 


Selvagens ou domésticos, os gatos são enigmáticos e cheios de estilo. Eles pertencem à família dos Felídeos e, aqui no Brasil, gato ou Felis Catus (nome científico, em latim) que pode significar muita coisa: ligação clandestina de eletricidade, lapso ou engano proposital (muito comum em partidas de dominó) ou sinônimo para gente bonita (não é à toa que, quando uma menina e um menino são bonitos, são chamados de gato ou gata). Os felinos – do tigre ao gato doméstico – têm charme e elegância.

 

O gato divide espaço com o homem há muitos séculos. Imortalizados como personagens de desenhos animados e histórias em quadrinhos, vamos conhecer um pouco mais dessas feras que todos nós amamos. Um dos clássicos dos quadrinhos que durou três décadas (1910 a 1940) foi Krazy Kat, de George Herriman. Aventura do rato Ignatz cuja principal diversão é dar tijoladas na cabeça da felina. As peripécias dos dois fizeram sucesso em, livros, desenhos animados, quadrinhos e num balé.

 


Em 1917 Pat Sullivan cria o desenho animado Gato Félix. Até então os desenhos se resumiam a uma série de corridas e lutas. Mas Félix tinha um caráter distinto e seus próprios maneirismos – costumava andar com as mãos atrás das costas quando tinha de resolver um problema, uma mania do próprio desenhista Otto Messmer – e caráter. Ele pára, pensa, tenta achar a solução de um problema. Os filmes tinham nonsense que encantava, onde os pontos de interrogação que pairavam sobre a cabeça do pensativo Félix se tornavam varas de pescar. Era a linguagem experimental nos desenhos e quadrinhos. Félix usou o balão (fala) como balão para fugir de Marte e voltar para a Terra. Era a poesia e o lirismo de um gato preto em busca da amada. Sullivan, o produtor, teve a esperteza de registrar o personagem e comercializar a sua imagem em até 200 produtos. Félix foi um ícone dos anos 20.

 

18 janeiro 2021

Bowie, o camaleão do rock, em quadrinhos

 

 

Há cinco anos, morria neste mês de janeiro o multiartista britânico David Bowie, considerado o camaleão do rock. No ano passado a Panini lançou a graphic novel Bowie: Stardust, Rayguns e Moorage Daydreams narrando, em quadrinhos a ascensão de David Bowie da obscuridade à fama sobrenatural. Escrita por Mike Allred e Steve Horton. A ilustração é de Laura Allred.

 


“Foi emocionante encontrar tanto material online que se revelou verdadeiros tesouros escondidos”, afirmou o fã e roteirista Mike em entrevista ao SYFY Wire, explicando que muito da base de sua pesquisa veio não apenas dos registros na rede, mas também de vários materiais e artigos por ele coletados ao longo da vida.

 

A obra, cujo título foi inspirado na letra da composição Starman, conta com um prefácio do escritor inglês Neil Gaiman, famoso pela clássica série de quadrinhos Sandman. E se divide em biografia e imaginação, com ilustrações que retratam tanto gravações e shows até espaços imaginários espaciais. Entre esses diálogos inventados, constam momentos com Ziggy Stardust, seu alter-ego marciano.

 


Bowie seduziu gerações de fãs com sua música e personas contraculturais. Ele deu vida aos hits Let's Dance, Heroes, Under Pressure e Space Oddity. E foi além. Através do talento também fincou seu nome como produtor fonográfico e até mesmo ícone da moda com roupas extravagantes e uma imagem que o destacava no meio de outras vozes do mercado musical.

 

É muito grande a relação de troca existente entre música e quadrinhos. Centenas de personagens saíram das páginas do gibi para os discos. E os astros da música também utilizaram os quadrinhos para permanecerem no topo. A obra lançada pela Panine mostra os ícones da música com suas cores lisérgicas, vibrantes, revolucionárias e com profundidade. Roteiro didático e detalhista. São 160 páginas. Uma grande viagem pelo som dos anos 60 aos 80.  Verdadeiro delirium tremens!

 

 

16 janeiro 2021

100 anos de Andre Le Blanc

 

Hoje, 16 de janeiro de 2021, há cem anos nascia Andre Le Blanc (16/01/1921-21/12/1998). Ele foi um desenhista de histórias em quadrinhos (tanto em tiras, quanto em revistas em quadrinhos) haitiano que residiu e trabalhou por muitos anos no Brasil e nos Estados Unidos. foi assistente de Will Eisner nas aventuras do Spirit. Foi professor no Museu de Arte Moderna do Rio. Ilustrou as obras completas de Monteiro Lobato, com exceção do título Doze Trabalhos de Hércules, e consagrou a fisionomia dos personagens.

 


Maior quadrinista das adaptações nacionais da Edição Maravilhosa (foi ele quem inaugurou a fase brasileira da revista, adaptando e desenhando O Guarani, de José de Alencar) e faria escola na Ebal. Nas edições seguintes, belas aguadas que viriam a caracterizar os seus trabalhos posteriores, mas o traço certeiro, primoroso e bem definido do artista se fez presente desde logo. De José de Alencar, André Le Branc quadrinizou ainda Iracema, Ubirajara, O Tronco do Ipê, O Sertanejo e Senhora. Adaptou e ilustrou também Cangaceiros, O Menino de Engenho e Doidinho, de José Lins do Rego; Sinhá Moça, de Maria Dezone Pacheco Fernandes, e A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz.

 


Paralelamente, foi o responsável, nos anos 50, por uma das primeiras tentativas de distribuição de tiras de quadrinhos para os jornais no Brasil. Morena Flor, de sua autoria, foi distribuída pela Apla (depois, Ica Press) não só para o nosso país, como para toda a América Latina, chegando, inclusive, aos EUA. Quando voltou aos Estados Unidos, em 1960, Le Blanc, além de dedicar-se à ilustração publicitária, produziu mais de 800 páginas em quadrinhos com histórias da Bíblia Sagrada. Em 1991, ele esteve no Brasil para receber o prêmio Angelo Agostini, da AQC-ESP, como mestre do quadrinho nacional. E apesar de tudo, Le Blanc continua desconhecido no Brasil, sendo lembrado apenas pelos leitores mais velhos.

15 janeiro 2021

Mafalda: Feminino singular

 

Ela questiona o papel e o espaço da mulher no mundo. Questionadora, crítica e interessada por política. Assim é a pequena Mafalda, criação do cartunista argentino Quino (1932-2020). A menina nunca se conformou que a mãe desperdiçasse a vida cuidando da casa. Em 2018, o selo argentino Ediciones de la Flor publicou Mafalda: feminino singular, reunião de tirinhas nas quais a personagem questiona os espaços ocupados e os papéis desempenhados pela mulher no mundo. A edição brasileira, preparada pela WMF Martins Fontes, chegou às livrarias em dezembro passado. A menina é uma heroína contestadora, revolucionária, inquieta, que se recusa a aceitar o mundo como ele é, procurando sempre formas de questionar e de mudar a sociedade.

 


Mafalda levantou temáticas importantes e difíceis como o capitalismo, o feminismo e a desigualdade social, mas sempre com humor e de modo acessível. Apesar de trazer a tona assuntos complexos, a história em quadrinhos protagonizada pela menina alcançou todo o tipo de público, de adultos a crianças

 


O discurso politizado de Mafalda sobre temas pertinentes à época, não só na Argentina como em todo mundo, fizeram de Quino um dos mais importantes humoristas gráficos do país e uma das dez personalidades argentinas mais conhecidas em todo mundo no século 20. O reconhecimento da relevância social e cultural da tira fez com que ela ganhasse sobrevida mesmo após a falência do jornal que a publicava

 


A fã incondicional de Beatles sempre se preocupou em combater as desigualdades e a sopa no jantar. Em várias de suas histórias, aparece em embates com a mãe, cujo sacrifício ao lar é visto por ela como covardia e até burrice.

 

Mafalda foi apresentada aos brasileiros na publicação infanto-juvenil "Patota", em 1973, quando Quino já havia decidido parar de desenhá-la. Nos dez anos que passou com a personagem, Quino produziu quase 2 mil tirinhas de Mafalda. Seus livros foram traduzidos para mais de 30 idiomas. Ela também ganhou um filme, lançado em 1982.

 


"Até parece que a Mafalda não falaria das mulheres!", escreve escritora Patricia Kolesnicov no prefácio. "Como passaria despercebido que ela não pode ser presidenta (e o Manolito, sim, pode); que sua mãe não tem vida própria – o famoso 'o que você queria ser se estivesse viva?' – porque casa e trabalho são a mesma coisa; que o futuro que ela vê, olhando no fundo de bobes de cabelo, começa com o amor romântico e termina na cozinha? Como ela não perceberia isso, se ela é uma garota dos anos 60 e, à sua volta, estão os Beatles e o Vietnã e, de repente, a 'tendência' é a metralhadora?"

 

Essa antologia com as tirinhas da personagem é de encher os olhos, a mente e a reflexão.

14 janeiro 2021

Censurada e perseguida vendeu 1 milhão de exemplares

 

Cassandra Rios (1932/2002) – Seu nome real, Odette Rios, estudou num colégio de freiras e começou a carreira escrevendo poesias. A edição de seu primeiro livro, Volupia do Pecado (1948) que ela escreveu aos 16 anos, foi paga pela mãe, depois de Cassandra ter visitado, durante dois anos, muitas editoras paulistas. Passou até a adolescência no bairro paulistano Perdizes. Desde cedo lia muito e freqüentava a Biblioteca Nacional. Foi ritmista da primeira Orquestra Feminina do Brasil. Tocava, além do ritmo, piano e violão. Uma de suas composições, o samba-canção Autobiografia diz mais ou menos: “Não vivi, escrevi/gastei minha vida amando e me esqueci de lutar/não copiei nome Rios)/meu caminho é traçado, um rio buscando o mar”.

 

Entre a pintura e a música, bateu mais forte a literatura, o ofício que tomou a maior parte das horas diárias de Cassandra. Escrevia um livro por ano e recebia 10% do preço de venda nas livrarias. Entre os temas abordados o homossexualismo era o que mais aparecia em suas obras. Teve problemas com a censura. Na década de 70 a maioria de seus livros foram retirados das livrarias sob a tarja de pornográficos. Acusada de obscena, com atentados contra a moral. Somente três dos seus livros ficaram e circulação, esgotando edições numa velocidade rara entre escritores brasileiros. Assinou mais tarde uma coluna na revista Capricho, intitulada Coisas de Cassandra. Trabalhou na CBS fazendo supervisão geral de traduções.

 


Em seus 50 livros publicados, Cassandra Rios só não aborda o homossexualismo em dois. São eles: O Bruxo Espanhol e As Mulheres dos Cabelos de Metal, suas primeiras incursões pelos caminhos da ficção científica, sem no entanto, abandonar inteiramente o erotismo. Para muitos, a autora é conservadora e moralista e a questão social e política da sexualidade é deixada de lado em suas obras. A Borboleta Branca, Tessa a Gata, Uma Aventura Dentro da Noite, Volúpia do Pecado, Ariela a Paranóica e Censura são alguns títulos de seus livros.

 

Foi a primeira escritora brasileira a vender mais de um milhão de exemplares. Chegou a vender quase 300 mil exemplares de seus livros por ano, números que só seriam rivalizados por Paulo Coelho. Misturava em suas obras homossexualismo feminino, cultos umbandistas, negócios e política, combinação que não respeitava o “bom gosto” que o regime militar desejava preservar. Com a abertura, um de seus livros, A paranóica, foi adaptado para o cinema, com título de Ariella Ariella (Nicole Puzzi) era uma menina rejeitada que vivia numa mansão e que descobre que seu tio fingia ser seu pai para ficar com sua fortuna. Para se vingar, passa a usar o próprio corpo, desintegrando a família.

 


Teve nada menos que 36 livros proibidos, como Eudemônia. Em sua autobiografia, Mezzamaro, Cassandra revela um ponto crucial, para criadores, a respeito da relação entre vida e obra. Fazia questão de dizer que era ficcionista, e que não deveriam torná-la pela personalidade e comportamento dos seus personagens. Nenhuma de suas obras está nas livrarias, mas são comuns em sebos e em saldões. (Texto inédito da pesquisa que realizei nos anos 1980/90 sobre Erotismo e Pornografia na Literatura, Musica, Cinema, Artes Plasticas, Fotografia e HQ)

 deveriam tornmance transexual, atribuues supostamente escrita antes de 1789, foi "iscada pela

 

 

13 janeiro 2021

O pornógrafo de Recife

 

Gilberto Freyre (1900/1987) – Historiador e sociólogo pernambucano escreveu sem descanso e produziu uma obra imensa. Depois de publicar Casa Grande e Senzala (1933), obra cujo subtítulo é Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal, revolucionou a sociologia no Brasil. Freyre continuou a série sobre a história do país. Escreveu Sobrados e Mucambos (1936) sobre o império, e Ordem e Progresso (1959), sobre os primeiros anos da República.

 

“Casa Grande e Senzala inaugura uma linha de análise da realidade e formação da identidade do país, incluindo a contribuição cultural de índios, portugueses e africanos. Seu grande diferencial é transformar a mestiçagem, até então considerada um entrave ao desenvolvimento nacional, em motivo de otimismo.

 


Se por um lado ele foi considerado pontífice da sociologia brasileira do século XX, também é verdade que não poucas vezes foi censurado pelo seu modo de escrever com excessivo e ostensivo prazer literário. Muitos consideravam esse estilo uma intromissão impressionista demais numa obra científica. A linguagem de Gilberto Freyre na obra Casa Grande & Senzala foi por demais avançada para os idos de 1930. Ao abordar a formação da família patriarcal brasileira, ele a tratou sob o viés da temática sexual. E, naquele momento, apresentar e justificar qualquer assunto envolvendo sexo era chocante, malicioso, erótico, pornográfico. Ele foi chamado de O Pornógrafo de Recife por ousar infringir as regras de uma sociedade moralista e hipócrita. Contrariou alguns pontos de honra. Companhia de Jesus (Congregação Mariana da Mocidade Acadêmica/Igreja Católica) e valorizou o papel do negro no processo civilizatório.

 


Tornou-se um alvo perfeito para ser desmoralizado, execrado e perseguido. Sua temática chocava-se de frente com a moral vigente, principalmente em se tratando de sexo. Os outros atributos: comunista, anti-católico, anarquista, agitador, dissolvente, anti-lusitano, anti-nacional, africanista, advieram em conseqüência do tema primeiro – a sexualidade, tema mais do que tabu nos anos de 1930.

 

Quando Casa Grande & Senzala foi lançada houve quem visse nas francas alusões ao sexo em suas páginas um exercício de pura pornografia, ou impuro erotismo. Para os críticos mais conservadores, o autor não fazia história social, e sim sexual. Para os mais avançados, esse tratamento livre do assunto é um dos charmes de Gilberto Freyre, e o que dá à sua linguagem uma sensualidade inigualada por seus pares sociológicos e antropológicos. “Mais depressa nos libertamos, os brasileiros, dos preconceitos de raça do que dos de sexo. Quebraram-se, ainda no primeiro século de colonização, os tabus mais duros contra os índios: e no século 17, a voz del-Rei já se levantava a favor dos pardos. Os tabus de sexo foram mais persistentes. A ‘inferioridade’ da mulher subsistiu à ‘inferioridade da raça’, fazendo da nossa cultura, menos uma cultura como a norte-americana, com a metade de seus valores esmagados ou reprimidos pelo fato da diversidade décor e de raça, do que, como os orientais, uma cultura com muito dos seus elementos mais ricos abafados e proibidos de expressarem, pelo tabu do sexo. Sexo fraco. Belo sexo. Sexo doméstico. Sexo mantido em situação toda artificial para regalo e conveniência do homem, dominador exclusivo dessa sociedade meio morta”, disse Freyre. (Texto inédito da pesquisa que realizei nos anos 1980/90 sobre Erotismo e Pornografia na Literatura, Musica, Cinema, Artes Plasticas, Fotografia e HQ)

 

12 janeiro 2021

Uma escritora tida como maldita e muito censurada

 

Adelaide Carraro (1925/1992) – Com 48 títulos publicados entre romances e contos, a escritora paulista teve 16 livros censurados e esteve diversas vezes presa por atentado ao pudor. Durante os anos 60 e 70 pela sua suposta militância comunista, sempre negada por ela. De família humilde perdeu os pais na primeira infância. Durante a adolescência viveu em orfanatos. Essa fase de sua vida está relatada no livro Eu Mataria o Presidente. A partir dos 17 anos teve diversos empregos públicos (nos quais se teria envolvido com políticos inescrupulosos) e da experiência como enfermeira (quando conviveu com a insanidade) ela extraía matéria-prima para a maioria de suas obras, muitas das quais utilizadas nos anos 70 como roteiros de filmes eróticos produzidos na chamada boca-do-lixo. A maioria de suas obras foram publicadas por editores obscuros.

 


A partir de 1973, Carraro começa nova fase. Passa a publicar pela Editora Global dedicando nos últimos anos à literatura infanto-juvenil e a campanhas contra o uso de drogas. Eu e o Governador (Editora Loren) publicado em 1963 é um dos seus títulos mais conhecido e polêmico. Narra o suposto caso de amor que ela teria mantido com Jânio Quadros, no período em que ele foi governador de São Paulo. Escritora Maldita, A Amante do Deputado, Adúltera, De Prostituta a Primeira-dama são alguns títulos da autora de livros considerados pornográficos. Chamada de “negociante do sexo”, de “dona do filão pornô”, de “escritora maldita”, etc, Adelaide rejeita a todas essas classificações acreditando em seu trabalho como forma de denúncia dos problemas políticos e sociais.

 


Em Literatura da Cultura de Massa, Waldenyr Caldas analisa a chamada “paraliteratura”, tendo por base a obra da escritora Adelaide Carraro. “Dizendo-se uma escritora de temas políticos e sociais e usando a sexualidade apenas como pretexto para denunciar a corrupção dos políticos Adelaide inverte toda a situação. A sexualidade assume o primeiro plano em sua obra e a corrupção política, os problemas sociais aparecem apenas como uma questão secundária, portanto, de menor importância”, informou Waldenyr Caldas. (Texto inédito da pesquisa que realizei nos anos 1980/90 sobre Erotismo e Pornografia na Literatura, Musica, Cinema, Artes Plasticas, Fotografia e HQ)

11 janeiro 2021

Ela revelou segredos do qual temos medo


Hilda Hilst (1930-2004) - Escritora que nunca se dobrou aos códigos e condutas reservados às mulheres de sua época. Enveredou por textos ditos pornográficos – O Caderno Rosa de Lory Lamb (1990), Contos D´Éscárnio/Textos Grotescos (1990) e Cartas de um Sedutor (1991), desafiando editores, que a consideravam difícil demais. Em 1992 ela trocou o pornô pelo erotismo publicando o livro de poesia Do Desejo. E em 1997 ela publicou Estar Sendo Ter Sido mesclando poesia e prosa, Deus e o amor, machismo, pornografia e redenção pela escrita. A fase erótica da literatura da escritora paulista Hilda Hilst foi uma reação à indiferença dos editores e do público diante de sua obra.

 

É interessante observar a aposta no obsceno que atravessa grande parte da obra hilstiana. Ao jogar luz sobre o que está relegado às sombras, ao revelar o segredo que excede o valor moral –  segredo do qual temos medo – o obsceno será um dispositivo de transgressão das convenções sociais que obliteram uma experiência integrada.


 

Autora de mais de 30 livros, Hilda Hilst foi procurada pela equipe da revista francesa L´Infine, do escritor Philippe Sollers. Perguntada sobre o que considera erótico, brincou: “Não sabemos o que é obsceno. Outro dia entrei no banheiro sem notar que um amigo tomava banho e ri tanto que tive que ser hospitalizada. Pensei: foi por esse detalhe que me emocionei tanto no passado?”. Respeitada na Europa, mas incompreendida no Brasil, a escritora paulista Hilda Hilst confessou ao Jornal do Brasil que a opção pela literatura erótica foi uma reação à indiferença dos editores. Logo que foi publicado suas obras, seus ex-amigos se afastaram, assustados.

 


Não foram poucos os críticos e leitores que manifestaram seu repúdio ao fato de Hilda Hilst ter abandonado a literatura dita “séria” e existencial em função de uma trilogia erótica. O Caderno Rosa de Lory Lamby, Contos d´Escárnio/Textos Grotescos e Cartas de um Sedutor embora pudessem chocar pela ousadia, deram à escritora uma notoriedade que ela há muito merecia. Ao optar pelos universos da sexualidade e do erotismo, ela propicia ao leitor um denso mergulho na arte de utilizar as palavras para evocar, acima de tudo, o prazer da escritura.  (Texto inédito da pesquisa que realizei nos anos 1980/90 sobre Erotismo e Pornografia na Literatura, Musica, Cinema, Artes Plasticas, Fotografia e HQ)

 

08 janeiro 2021

Vida turbulenta de três bandidos do velho oeste

Eles continuam resistentes. Mesmo com toda a saga de super heróis, crise de mercado, nada conseguiu mandar esses bravos e resistentes gibis para o limbo. A colonização do Oeste distante já rendeu muitas aventuras de Zorro, Kid Colt, Jonah Hex, Lucky Luke, Ken Parher, Tex, Billy the Kid e muitos outros. O tema ainda exerce fascínio em milhões de pessoas.

 

Os amantes de quadrinhos western precisam conhecer Gus, do francês Christophe Blain. No Brasil as aventuras do carismático Gus e seus parceiros no crime estão sendo editados pela Sesi-SP. Eles são os bandidos e trapaceiros mais queridos do oeste. Verborrágicos, destemidos e um tanto tarados, fazem da virilidade o combustível de suas desventuras. Em especial Gus. Seu nariz para lá de fálico é uma pista da sua motivação maior: as damas! A saga é uma genial reinvenção do gênero e gira em torno de três engraçados bandidos assaltantes do Velho Oeste que dividem seu tempo entre roubar bancos e se envolverem com lindas mulheres. Aliás, é a vida sexual turbulenta do bando que faz toda a diferença em Gus!

 


Criação do famoso quadrinista francês Christophe Blain, autor de “Isaac, o Pirata“, Gus é uma série composta por quatro volumes (publicado originalmente pela Dargaud) que narram as aventuras de três bandidos numa temática de faroeste, lidando com dinheiro (provido de assaltos), bebidas e principalmente com as mulheres.

 

Gus – 1. Nathalie é um compilado de histórias curtas que giram em torno dos três protagonistas, desvendando um pouco mais sobre cada um deles no decorrer das páginas, ao mesmo tempo em que os laços de parceria são atados. O foco desta história é divagar sobre a forma como os homens se relacionam, ou não, com as mulheres. Nathalie é uma moça bonita. E moças bonitas geralmente já possuem um companheiro. Mas isso não deve ser um empecilho para Gus, parceiro de assaltos de Clem e Gratt, os três protagonistas deste primeiro álbum publicado no Brasil pela SESI-SP Editora. Através destes três personagens e uma série de coadjuvantes, Blain narra as desventuras no amor, as inseguranças, espinhos e problemas da vida amorosa e de quebra entrega bons momentos de amizade e confiança, com muita diversão… Por mais difícil que seja acreditar que isto é possível entre três bandidos safados. E na verdade alguns deles se interessam por todas as mulheres existentes, mesmo. Sem distinção.

 

Cada personagem possui suas próprias características. Clem representa o homem compromissado vivendo uma relação insatisfeita enquanto mantém contato com sua jovem filhinha, Jamie. Gratt é o homem atrapalhado e azarado, porém de boa aparência, enquanto Gus é o típico mulherengo. Os três escondem seus verdadeiros sentimentos, porém compreendem uns aos outros, mantendo sempre o aspecto de parceria e respeito entre grandes amigos. Parceria esta constantemente celebrada com bons assaltos a bancos e trens, e com muita bebida.

 


Blain domina a linguagem dos quadrinhos como poucos. Tanto no roteiro como nos desenhos. Seu desenho cartunesco não deixa de transmitir sensações que extrapolam o humor.  

07 janeiro 2021

Angela Davis em quadrinhos

Uma das maiores ativistas de nosso tempo, a filósofa Angela Davis, símbolo do movimento negro e do feminismo por conta de sua trajetória de luta e de seus livros, é retratada desde sua infância nos anos 1940 até sua prisão em 1970 na HQ francesa  Miss Davis – A Vida e As Lutas de Angela Davis, lançamento da editora Agir. A obra tem 196 páginas e conta com um texto de orelha assinado pela filósofa e escritora Djamila Ribeiro.



O roteiro da HQ é de Sybille Titeux de la Croix e a arte é de Amazing Ameziane. Para a autora, todos os aspectos da vida de Angela Davis a fizeram querer fazer uma história em quadrinhos sobre ela. “O objetivo principal é ajudar quem não conhece Angela Davis a descobrir suas lutas e suas ideias, que ainda estão bem vivas em 2020”, explica. Ambos os autores acumulam anos de pesquisa sobre a cultura norte-americana e o período histórico que marcou a luta pelos direitos civis nos anos, entre as décadas de 50 e 70, bagagem que foi fundamental para o processo de desenvolvimento da HQ.


"Queremos o fim imediato da brutalidade policial do assassinato do povo preto", diz um dos itens do programa do partido Panteras Negras, citado logo no início de Miss Davis. A exigência, feita no final da década de 60, continua atual. A HQ sobre Angela Davis chega em um momento em que o debate sobre o racismo parece ter atingido um novo patamar global. Em junho, protestos em repúdio à violência policial contra a população negra nos EUA — desencadeados pelo assassinato de George Floyd, um homem negro morto por asfixia por um policial branco — se espalharam pelo mundo.



O livro retoma a trajetória de Angela Davis desde sua infância, vivida em parte no estado do Alabama, marcada pela segregação racial e pelos ataques da Ku Klux Klan, até sua saída da prisão em 1972, na Califórnia, após uma enorme mobilização mundial pela sua libertação.


A HQ ainda narra a participação de Davis no partido dos Panteras Negras e sua entrada na lista dos mais procurados do FBI, dando destaque a sua vivência na prisão e ao julgamento que terminou com o reconhecimento da sua inocência após uma intensa campanha pública global por sua liberdade. A partir da história de sua militância, os quadrinhos inserem o leitor no cenário da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970.

06 janeiro 2021

Negro como a noite, vermelho como sangue

Sujo, racista e extremamente perigoso. É o Velho Oeste trazendo sexo, mortes mais violentas e até estupro, alem do humor negro e o sarcasmo: o personagem tem uma visão bem pessimista de mundo. Longe do estereótipo do cowboy perfeito, silencioso e perigoso, ele é falho, cruel, vingativo e toma decisões questionáveis apesar de estar sempre tentando fazer a coisa certa e honrada. Estamos falando de Deadwood Dick de Joe Lansdale que em 2018 foi publicado pelo selo Audace Comics da Sergio Bonelli Editore. E em 2019 publicado pela Panini brasileira.


Nat Love, o personagem principal que também passa a ser conhecido como Deadwood Dick, realmente existiu (1854-1921). Nat ampliou seus feitos ao escrever a autobiografia Life and Adventures of Nat Love, Better Known in the Cattle Country as Deadwood Dick, by Himself.



É o retrato do Velho Oeste de maneira mais visceral. Deadwood Dick de Joe Lansdale é uma adaptação em quadrinhos das aventuras de Nat Love baseada nos livros e contos do famoso autor texano Joe Landsdale. As adaptações para HQs da Audace, que já contam com mais de 5 volumes, tiveram a participação de diversos roteiristas e desenhistas.


O primeiro volume, intitulado Deadwood Dick: Negro como a Noite, Vermelho como Sangue, contou com roteirização de Michele Masiero e arte de Corrado Mastantuono. Nat Love é um pistoleiro negro que fugia de um linchamento e decidiu se alista entre os soldados afro-americanos do Nono Regimento de Cavalaria do Exército americano. Ele aprende a domar cavalos, a suportar a vida no quartel, e também a caçar os índios rebeldes, até que, nos territórios selvagens das pradarias, acaba cara a cara com os apaches. O texto é cheio de alegorias e ao mesmo tempo direto. Dos dias de domar um cavalo até o confronto com os índios. A arte de Mastantuono é bela. ⠀

 


A trama é narrada em primeira pessoa pelo protagonista, o ex soldado búfalo Nat Love, e em uma sucessão de casos indo desde o salvamento de uma prostituta atacada por nativos numa estrada no fim do mundo até o livramento de outro negro que está sendo caçado por um bando. O que se evidencia é a extrema violência gráfica da trama.

 

No volume 2 o cowboy afro-americano socorre um desconhecido largado para morrer no deserto. Ao chegar a Hide and Horns, uma vila povoada pela pior escória do extremo oeste, Dick quer dar a seu amigo Cramp um enterro cristão, mas é difícil para os racistas permitirem que um negro infecte o solo de seu cemitério. Pistoleiros furiosos, prostitutas chinesas e um cadáver cada vez mais incômodo. Extraído de um conto de Joe R. Lansdale, esta é a premissa para Entre o Texas e o Inferno.

 

O terceiro volume que encerra as publicações no Brasil conta a história da Segunda Batalha das Muralhas de Adobe, que aconteceu em 27 de junho de 1874. Eram 28 caçadores de búfalos que defendiam o assentamento de Adobe Walls (onde hoje é o Condado de Hutchinson, Texas) do ataque de centenas de guerreiros Comanche, Cheyenne, Kiowa e Arapahoes.

 

Vale a pena ler as aventuras desse pistoleiro!.

 

05 janeiro 2021

Autoritarismo brasileiro, uma breve história de cinco séculos (02)

MANDONISMO

 

A historiadora Lilia Moritz Schwarcz ao investigar os subterrâneos da nossa história, ajuda a entender porque fomos e continuamos a ser uma nação muito mais excludente que inclusiva.

 

Nosso primeiro historiador, o franciscano Frei Vicente do Salvador escreveu em seu livro História do Brasil (1630): “Nenhum homem nesta terra é república, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. E a nossa República ainda permanece inconclusa; cada um pensando, em primeiro lugar, nos seus interesses privados e só depois, bem depois, naqueles públicos e que dizem respeito à nossa res (`assunto`) público.”.

 


O mandonismo também tem suas raízes no século XVI, no próprio formato administrativo do sistema colonial. Sem condições de controlar o território colonial, a metrópole portuguesa optou por uma forma de governação baseada na delegação de poderes a um número restrito de colonos que se transformaram em senhores de enormes latifúndios. Nesse contexto, a autoridade desses poucos era quase irrestrita em razão da (quase) ausência da esfera pública. É neste momento que se constrói uma nova ‘aristocracia meritória’ — por meio da qual títulos eram providos pela coroa portuguesa como uma recompensa pelos serviços prestados. Desenvolve-se, assim, a sociedade patriarcal brasileira, tendo como centro a família (na verdade, o ‘senhor’) como base, inclusive simbólica, de toda a organização social. Paulatinamente, isto consolidou a influência do senhor em todas as esferas sociais, de comércio a política. O desenvolvimento do “voto de cabresto” e do “curral eleitoral” foram reflexo direto deste modelo, consolidadas no âmbito do coronelismo, e que se perpetuaram ao longo dos séculos seguintes, mesmo que em formatos alternativos. Estes mecanismos explicam em grande medida a perpetuação de famílias políticas ‘tradicionais’ que perduram no Congresso há gerações, quase que de forma hereditária.

 

Herdamos essa linguagem do mandonismo do passado, da época do domínio exclusivo de grande profundidade rural, mas que vem encontrando renovada sobrevida nesta nossa era dos afetos digitais, igualmente autoritários. Basta observar o político populista digital que preza ódio e a intolerância.

 

PATRIMONIALISMO

 

Tá difícil construir modelos compartilhados de zelo pelo bem comum. Nos cinco séculos de histórias criamos várias formas de compadrio, moeda de troca, recurso a pistolões, hábito de furar fila, leves vantagem ou utilizar intermediários. Tudo isso se enraizou nessa terra o uso abusivo do Estado para fins privado. Persiste no Brasil um sério déficit republicano enquanto práticas patrimoniais e clientelistas continuam a imperar no interior de nosso sistema político e no coração de nossas instituições públicas. Ainda permanece a relação viciada que se estabelece entre a sociedade e o Estado – ou seja o Estado é bem pessoal, “patrimônio” de quem detem o poder. A prática atravessa diferentes classes.

 

A corte portuguesa desembarcou com toda a máquina administrativa da metrópole. O número de funcionários aumentava sendo que muitos cargos foram sendo criados para atender amigos próximos do rei. Muitos deles eram parasitas do governo. A máquina inchava com novas despesas. A única saída era criar impostos para que o Brasil inteiro pagasse a elevada conta. Crescia o patrimonialismo do Estado, ligado aos novos imigrados lusitanos.

 


Estas dinâmicas continuaram, mesmo que com algumas alterações nos períodos seguintes, após a independência e mesmo após a instauração da república, não obstante a criação de instituições mais autônomas. Estas dinâmicas são fomentadas pelo mandonismo e se associam diretamente com o quarto grande problema, a corrupção.

 

O legado do poder privado sobrevive dentro da máquina governamental. A “bancada de parentes” continua crescendo no Congresso Nacional. Na Câmera, em 2014, foram eleitos 113 deputados com sobrenomes oligárquicos, sendo parentes de politicos estabelecidos. Nas eleições de 2018, o numero de parlamentares com vínculos  familiares aumentou para 172. “A contaminação de espaços públicos e privado é uma herança pesada de nossa história, mas também um registro do presente” (pag.87).

 

A corrupção que hoje assusta a política nacional faz parte, em maior ou menor escala, do cotidiano do país desde os tempos do Brasil colônia. Já a desigualdade se reflete em várias esferas que se reforçam mutuamente (de renda, de oportunidades, racial, de gênero, regional, geracional, etc.). Um dos problemas relacionados a este cenário refere-se ao papel da educação e do analfabetismo. Como demonstra Schwarcz, revisitando a história, a “educação nunca foi um direito de todos neste país de proporções continentais, passado escravocrata e estruturada concentração de renda” (p. 133).

 


Para a historiadora, o brasileiro é, antes de tudo, um autoritário. Depois de séculos escondendo-se por trás da ideia de povo aberto, diverso, tolerante, pacífico e acolhedor — o conceito de "homem cordial", cunhado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em 1936, em Raízes do Brasil—, ele tirou a máscara da cordialidade e revelou-se abertamente intolerante.

 

É importante relembrar o passado para questionar o presente. Esta análise nos permite, de um lado, questionar alguns mitos do imaginário brasileiro e, de outro refletir de forma crítica sobre algumas fórmulas populistas e simplistas que têm ganhado espaço no discurso público, em especial relacionadas a segurança, paz e desenvolvimento. A obra de Lilia Scharcz é uma viagem urgente e esclarecedora pelos subterrâneos da história brasileira.

 

Há uma grande falta de memória histórica brasileira. Os problemas sociais vividos não são novos. A recente mudança de governo no Brasil, seguindo o maior escândalo de corrupção da história do Brasil, a retomada do debate sobre o estatuto do desarmamento e sua possível revogação, as inúmeras medidas para flexibilizar a regulação do porte e utilização de armas, apresentadas, inclusive, como forma de aumentar a segurança, a pandemia, são alguns dos fenômenos que podem ser compreendidos a partir da amnésia histórica coletiva sobre o país. 

04 janeiro 2021

Autoritarismo brasileiro, uma breve história de cinco séculos (01)

Lúcida, informada e acessível, o livro publicado pela antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, Sobre o autoritarismo brasileiro é uma breve história de cinco séculos (Companhia das Letras, 2019) e discute uma série de temas que, em conjunto, são tomados como raízes dos grandes problemas sociais que nos afetam hoje em dia e que de novo não têm nada. Pelo contrário, ao revisitar estes problemas a partir de uma perspectiva histórica, ela nos mostra que a sua solução não é simples, pois envolve dimensões estruturais e simbólicas enraizadas em nossa sociedade ao longo de cinco séculos. 

A estrutura do livro reflete a organização de oito elementos que constituem as raízes do autoritarismo brasileiro, respectivamente: escravidão e racismo, mandonismo, patrimonialismo, corrupção, desigualdade social, violência, raça e gênero e, por fim, intolerância. . Pensa o nosso passado colonial, o mito da democracia racial, desigualdade de gênero, patrimonialismo, até desembocar no pós-eleições de 2018 e a vitória de um líder da extrema-direita.

 

Somos uma monarquia cercada de repúblicas por todos os lados. A nossa historia oficial foi construída, manipulada e usada para edulcorar uma realidade que teima em se mostrar muito diversa. Quatro pressupostos consagrados


que viraram mito. O país harmonioso e sem conflitos; o de que o brasileiro seria avesso a qualquer forma de hierarquia; o de que não existiriam ódios raciais, de religião e de gênero; e o do caráter especial de nossa natureza (Deus e brasileiro!).

 

Ganhou força a ladainha das três raças formadoras da nação; todos juntos, mas (também) diferentes e separados. Mistura não era (e nunca foi) sinônimo de igualdade. Essa era uma maneira de “inventar” na história não só particular (uma monarquia tropical e mestiçada) como também muito otimista. “Desde o período colonial, passando pelo Império e chegando à República, temos praticado uma cidadania incompleta e falha, marcada por políticos de mandonismo, muito patrimonialismo, várias formas de racismo, sexismo, discriminação e violência” (pag.24).

 

O mito da democracia racial, de forte impacto no país, consolida práticas e ideias autoritárias no Brasil. O patriarcalismo, o mandonismo, a violência, a desigualdade, o patrimonialismo, a intolerância social, são elementos presentes em nossa história pregressa e que encontra grande ressonância na atualidade.

 

RACISMO

 

Um dos pontos centrais do livro é que a escravidão e a discriminação racial são heranças incontornáveis do Brasil colonial, e que é necessário falar em racismo hoje em dia com todas as letras. Na época da imediata pós-emancipação um sábio dito popular circulou pelas ruas do Rio de Janeiro: “A liberdade é negra, mas a igualdade é branca” referindo-se à liberdade reconquistada pelos negros (abolição da escravatura) mas a persistência dos severos padrões de desigualdade no país.

 


A presença de negros em espaços de prestígio social já era basicamente vedada levando-se à exclusão de boa parte da população das principais instituições brasileiras, produzindo um apagamento dos poucos intelectuais negros que haviam logrado se distinguir na época colonial especialmente durante o Império.

 

A exclusão social voltou a crescer no Brasil: negros e negras morrem mais cedo e têm menor acesso aos direitos de todos os cidadãos brasileiros. Até os dias de hoje os números da desigualdade tem cara e cor no Brasil. Somos a terceira maior população carcerária do mundo e continuamos recordista em homicídios. As batidas policiais, por exemplo, escolhem sempre mais negros do que branco e os humilham a partir da apresentação publica do poder e da hierarquia.

 

A escravidão, segundo a pesquisadora, nos legou uma sociedade autoritária, a qual tratamos de reproduzir em termos modernos. “Uma sociedade acostumada com hierarquias de mando, que usa de uma determinada história mítica do passado para justificar o presente, e que lida muito mal com a idéia da igualdade na divisão de deveres mas dos direitos também”. Desde os primórdios brasileiros criamos uma “cultura do estupro” ainda hoje enraizada no país.

 

21 novembro 2020

Poemas de Quarentena

A pandemia está mudando a nossa vida. Tudo está sendo afetado. Uma grade mudança está ocorrendo. Se é bom ou ruim só o tempo dirá. Mas esse isolamento social forçado abriu uma porta para descobertas. Mais tempo de solidão, de leitura, de reflexão. Mais “possibilidade de significar e (re) significar o cotidiano e os desafios presentes no dia a dia. Falar de si, das vivências diárias, das faltas, medos, desejos e alegrias pode nos permitir, em particular, tem me permitido transbordar e ao mesmo tempo cuidar da vida. É o grito escondido, a face não revelada, o olhar lacrimeja, os passos impedidos de desbravar o mundo. Permanecer em casa para cuidar da vida.  Permanecer em casa para cuidar dos nossos. Permanecer em casa para cuidar de quantas vidas forem possíveis”.

 

E foi o que fez a doutoranda em Educação e Contemporaneidade, Fernanda Priscila Alves da Silva, mestra em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia. Ela encontrou na poesia a palavra para desvincular-se de seus significados habituais e alcançar diferentes acepções, em um jogo inusitado entre significante e significado, apresentando elementos que subvertem as funções da linguagem e a ela conferem aspectos metafísicos que transcendem o universo das coisas palpáveis (ou explicáveis).

 


Lançou o livro Poemas de Quarentena pela editora curitibana CRV. São 44 poemas que mostram a cabeça rodopiando com “a dor do mundo lá fora”, e espia, “o mundo visto em si, sem frestas e sem `bichinhos´, as crianças “querendo botar a cara na rua”, “mas, ainda, hoje, de novo vocês sorriram e brincaram, coloriram um pouco, esse nosso mundo opaco e cinzento”, os pesadelos, o crescimento (“Quando  eu crescer, se é que ainda há tempo/Quero ser criança de novo/como estas nascidas de mim/E como esta que habita meu ser”), o brilho da lua, o despertar da vida, a chuva “encharca nossa vida de esperança”.

 

E nesse cotidiano tem o acordar o corpo, pavores, quarentena, todos os dias, “respirar no meio do caos”, ser negra “é silêncio e resistência”, observar a noite, solidão, noticias, janelas, luto, “a poesia que me resgata”, vida normal, um dia de cada vez, samba, canto, palavras (“As palavras têm dias que não vem/Esquecem-se de nos visitar/Passam ao largo”), olhar (“Olhar para dentro/É resgatar a força que nos habita”), pausas (“O coração também precisa de tempo”), cotidiano, quarentena,, dor, medos, máscaras (“são sutilezas a nos recordar a humanidade perdida em nós), madrugada, por vezes, saudade (“do mundo se restabelecendo”), licença (“Pedi licença pra tentar/E de novo esperançar”), poesia de criança, silêncio, escrita (“Escrevo porque desejo viver....”), esperança.

 


E com esperança sua poesia pode nos salvar de nós mesmos e dos abismos que a realidade nos coloca. A poeta que se apaixonou pela escrita ainda na adolescência e desde então não parou mais de escrever, se divide entre o trabalho como educadora tem atuado na formação e acompanhamento de grupos populares e na luta pelos direitos das mulheres, especialmente como ativista e militante das trabalhadoras sexuais. Em meio à pandemia de coronavírus, pela qual o mundo tem passado, Fernanda colocou nos versos o sentimento de medo e angústia que todos têm vivido. Ela acredita na arte como um instrumento para alcançar o afeto e a mobilização das pessoas em prol da vida. Vale a pena conferir Poemas de Quarentena! Sua poesia pensa e reflete o mundo. Feito um fenômeno da natureza, seu poema desliza feito um rio silencioso dentro da noite.