01 março 2016

Uma cidade feminina



A Bahia encanta pela sua topografia, arquitetura, clima ou paisagem. Frutos da arquitetura e do
urbanismo barroco, Salvador foi se desenvolvendo em todos os sentidos e direções, o gosto e o hábito das coisas do mar. Como disse o historiador Wanderley Pinho (prefeito de Salvador de 1947 a 1951), “formação da alma marítima do cidadão da Bahia e seu Recôncavo”. No livro “Glauber Rocha, esse Vulcão” (Nova Fronteira, 1977), João Carlos Teixeira Gomes escreveu: “O baiano é um povo barroco por excelência, até na excessiva opulência hedonística do seu carnaval. Em certo sentido, nada pode existir de mais barroco do que um trio elétrico com a sua parafernália visual eletrônica, composta de cores berrantes, parâmetros de reprodução musical levados ao infinito da tecnologia do som, e, ainda, palco dos remelexos de mulatas (e louras) de formas redondas, que espalharam no país a glorificação dos traseiros em rotação”.

Mesmo tendo a grafia masculina, Salvador (que tem como símbolo popular o Elevador Lacerda que parece um falo) aparece no imaginário popular completamente feminina. Essa feminilidade soteropolitana foi inspirada na reprodução da tradição moderna ocidental. A França, por exemplo, foi o primeiro país a transformar a figura de uma mulher em símbolo do país (que também tem na torre Eiffel um símbolo nacional, falo de 300 metros de altura). Na Bahia, a idéia começou a ganhar espaço a partir do século XIX, quando as pressões sociais da época, exigiram que se criasse uma cabocla para desfilar ao lado do caboclo, no Dois de Julho, data da Independência da Bahia. A informação é do antropólogo Roberto Albergaria que acrescenta que foi ainda no final desse século que a branquitude da mulher estrangeira começou a perder o valor diante da exuberância da mulata.

E finalmente no século XX, a baiana sensual, inspirada em Carmem Miranda vinda do Rio de
Janeiro, chega forte à Bahia. E ninguém melhor do que a morena, tropical, criada por Jorge Amado e difundida em todo mundo para fortalecer a cara da Bahia/mulher, Gabriela, Cravo e Canela. É bom lembrar que nos seus primórdios, Salvador foi abençoada por seis mulheres. A começar por Catarina Paraguaçu, mulher de Diogo Álvares (o Caramuru) e considerada a mãe do Brasil. O casal construiu uma capela em sua sesmaria louvando Nossa Senhora da Graça. Em seguida, com a chegada de Thomé de Souza mais quatro mulheres protegeram a cidade. Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Ajuda, nomes dados às duas primeiras igrejas da cidade. Depois, Santa Luzia e Santa Catarina nominando as portas da fortaleza de São Salvador.

“Roma negra”, já disseram dela. “Mãe das cidades do Brasil”, portuguesa e africana, cheia de história, lendária, material, e valiosa. Nela se objetiva, como na lenda de Iemanjá, a deusa negra dos mares, o complexo de Édipo. Os baianos a amam como mãe e amante, numa ternura entre filial e sensual. A cidade se divide em duas: a cidade baixa e a alta, entre o mar e o morro. Suas curvas e ladeiras, contornos arredondados, vales e morros lembram o corpo de uma mulher. Sua topografia acidentada remete as mentes mais imaginativas aos seios femininos, quadris, cintura. Assim é Salvador aos olhos dos turistas. A sensualidade de suas belezas naturais, o mistério de suas construções seculares, a magia de seu suingue, presente na dança, na música e no molejo do andar e falar dos soteropolitanos tornam a terra especial, despertando as mais diversas fantasias e lembranças.

Muitos lembram que os grandes vultos da cidade foram mulheres. Maria Quitéria, Anfrígia Santiago, Irmã Dulce, Mãe Senhora, Mãe Menininha, Henriqueta Catarino, Joan a Angélica, dentre outros. Essa feminilidade de Salvador é marcada pelo requebro da baiana, com sua elegância de andar, ao subir e descer ladeiras de pedras.

Com suas formas curvilíneas repleta de contornos, enseadas, ladeiras, curvas sensuais, Salvador ganhou a roupagem da terra feminina, de mulheres bonitas e atraentes, regida pelas divindades femininas mais fortes do candomblé, Oxum e Iemanjá. “Nessa cidade todo mundo é de Oxum, homem, menino, menina, mulher...”, diria o cantor Gerônimo. E o cantor e compositor Gilberto Gil escreveu que “toda menina baiana tem um santo que Deus dá. Toda menina baiana tem encanto que Deus dá. Toda menina baiana tem defeito também que Deus dá”. A regência de orixás como Oxum e Iemanjá é uma característica que fortalece bastante Salvador como cidade feminina. Elas são lembradas com muita fé. A festa de Iemanjá é um dos maiores ritos do mundo. A forte presença das mulheres negras em Salvador, as famosas mulheres do partido-alto que conseguiram muito progresso, também intensificou a ideia de Salvador terra das mulheres. Elas foram e são símbolos de força, mulheres do povo. A maior autoridade religiosa na Bahia foi mãe Menininha do Gantois. Toda essa história da cidade feminina tem muito das origens e cultura da terra.
           

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