22 março 2016

Narcisismo baiano impede desenvolvimento cultural (2)



Quando Salvador foi fundada, em 1549, a ideia principal do projeto era torná-la não apenas uma cidade fortaleza, mas o mais importante símbolo do império português nas Américas. Por conta da sua história sócio-política, a Bahia se transformou num território multifacetado. Do século 16 ao século 18, Salvador e o Recôncavo baiano tiveram uma hegemonia sobre todas as outras regiões. Na capital e no seu entorno, estava o cultivo na cana de açúcar, a rede de engenhos para produzir o açúcar e as vias de transporte e, consequentemente, comunicação com o resto do mundo.

A partir do século 19 a Chapada Diamantina ganha notoriedade com a sua exploração de minério. Depois chega o sul cacaueiro e, por fim ganha proeminência nesta geografia estadual o extremo sul, tendo o turismo como principal atividade econômica e o oeste. A chegada das rodovias, que passaram a ser o ponto de ligação entre as diversas regiões do Estado, ao mesmo tempo que aproximou algumas regiões de Salvador, caso do norte, afastou outras – o oeste e o extremo sul.
 
O oeste está mais próximo de Brasília e Goiania. O extremo sul a proximidade é maior com o Espírito Santo e com Minas Gerais. Isso fez com que o desenho econômico, cultural e social da Bahia tenha se modificado. A combinação entre a extensão do seu território e uma ênfase na capital as outras regiões baianas se aproximaram culturalmente de estados com os quais faz fronteiras.

O baiano é um povo miscigenado, de cultura rica e religiosidade viva, sincrética. Seja no batuque dos terreiros, nos cantos da puxada de rede dos pescadores, no jogo de capoeira dos negros, nas comidas de rua sagradas, todos festejam em comunhão as divindades da natureza e os santos dos altares. Há uma imensa costa atlântica, com luminosidade única e um mar tão magnífico quanto azul.

Há três artistas baianos de projeção internacional com obras fundamentais para a compreensão de todos os significados desta terra e do seu povo: Dorival Caymmi em seu jeitão malemolente, é um símbolo consagrado do jeito baiano de ser; Jorge Amado, o mais lido e traduzido escritor baiano, foi o 1º na literatura brasileira a contar histórias do povo usando sua linguagem; Carybé, homem de mil artes, pintor, desenhista, escultor, muralista, escritor e jornalista.

A cidade que exala cultura nos quatro cantos também se destaca pela gente que faz essa cultura, por pessoas chamadas “folclóricas”, populares, marcantes, que interferem no dia a dia urbano e causam, no mínimo, estranheza ou curiosidade. Não é difícil lembrar de pessoas como Cuíca de Santo Amaro (poeta cordelista conhecido como boca de fogo da Bahia), Cosme de Farias (grande rábula, defensor das causas públicas e do povo, inimigo do analfabetismo), Guarany (um dos maiores escultores decarrancas do São Francisco), Bule Bule (repentista, cantador e violeiro), Carlinhos Brown (criador da Timbalada, Zárabe e uma série de outros projetos socioculturais), Clarindo Silva (responsável pelo espaço cultural Cantina da Lua e zelador do Centro Histórico do Pelourinho), Jayme Figura (cuja proposta é trabalhar em prol da humanidade através da arte), Mulher de Roxo (personagem lendária da Rua Chile). Tem ainda o guarda Pelé, Floripe, o Mágico da Boca do Rio, o Acrobata da Barroquinha e muitos outros.


Ou os eméritos educadores como Isaías Alves e Anísio Teixeira que enobrecem a cultura baiana no século. Ruy Barbosa, Octávio Mangabeira e Pedro Calmon, os três dos maiores oradores brasileiros. Temos ainda o jurista Orlando Gomes, o economista Rômulo Almeida, o médico José Silveira no combate incansável à tuberculose, Wanderley Pinho primoroso escritor e historiador, Ismael de Barros o exímio escultor, os pintores acadêmicos Presciliano Silva mestre dos tons coloniais, Alberto Valença e Manoel Mendonça Filho deixaram trabalhos que retratam Salvador.   Artistas modernistas como Carlos Bastos, Jenner Augusto, Lígia Sampaio, Nilton Silva, Jaime Hora, Juarez Paraíso, José Guimarães, Calasans Neto, Emílio Magalhães, Oscar Caetano, Hebe Carvalho, Hélio Bastos, Yedamaria e Rescala também se renderam aos encantos da cidade e a retrataram. O sagrado e o profano na criação visual de Rubem Valentim ou nas esculturas de Emanuel Araújo.

A Bahia cuida pouco da sua memória. Que o diga o Museu Glauber Rocha que nunca foi aprovado, com a Condessa Luane de Noalles, Carlos Bastos, Genaro de Carvalho, Sonia dos Humildes, Milton Santos, e tantos outros. A Bahia não responde suas tradições como Pernambuco, por exemplo. A Bahia tem um certo desleixo natural, que só se interessa mesmo pelo Carnaval, pela indústria de axé music.  É preciso ter turismo de melhor qualidade (coisa que não temos) como hotelaria de primeira classe, uma orla preservada e iluminada.

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